Faixa 01: Invite
https://youtu.be/iOPi1-UzmWg

A pequena garota podia sentir o vento batendo em seu rosto; o cheiro da água salgada ao seu redor; pequenas gotas frias indo de encontro com suas pernas parcialmente desnudas. Deemo estava ao seu lado; com o mesmo visual de sempre, mas usando um chapéu branco de marinheiro. Aquela era uma aventura pelo oceano! O violento e perigoso... O magnífico oceano. A jovem mantinha os braços abertos enquanto se deslumbrava com a vista ao redor do barco; uma imensidão de água cristalina que esguichava e dançava por todos os lados sem afundar a pequena embarcação. Tudo ao seu redor mudava com as notas daquela música. Tal animação mal poderia ser descrita. A pequena garota havia se esquecido completamente de seu último impasse, e toda aquela tristeza deu lugar a uma superação momentânea poderosa. Navegar com Deemo enquanto em distintos momentos girava bruscamente a roda do leme, fazia com que a menina se sentisse novamente ‘’em casa’’. O que quer que a palavra ‘’casa’’ pudesse significar, seu coração estava imerso em profundo divertimento.

A pequena garota içou as velas para o chamado daquilo que verdadeiramente era.

Mais corajosa que o de costume, a jovem girou a roda do leme com uma força imensa para o seu tamanho, fazendo com que o barco efetuasse uma curva radical. A onda enorme mais adiante se aproximou rapidamente, e a pequena embarcação ficara inclinada enquanto deslizava pela água como um cubo de gelo numa rampa de skate. A garota gargalhava inocentemente ao mesmo tempo em que Deemo se mantinha abaixado e agarrado num pilar de madeira, parecendo amedrontado demais para curtir o momento de maneira tão intensa. Outro daqueles repentinos impulsos surgiu da água cristalina, carregando o barco para cima como quando um pai joga seu bebê para o alto pela primeira vez. O nível do mar aumentara rapidamente, mas tudo isso parecia estar fluindo de acordo com as emoções da pequena garota. Seu coração batia rápido... Estava quente como brasa, mas descontraído demais para se dizer em total euforia. Quase um equilíbrio perfeito... Algo entre a serena satisfação e o mais exaltado entusiasmo.

Quando o tempo da fantasia marítima se esgotou junto à música, toda a água cristalina foi abaixando até os pés da pequena garota enfim tocarem a proteção mística do lago que se encontrava ao redor da grande árvore. Suas belas vestes de marinheira foram substituídas pelas roupas habituais, e o chapéu pareceu ter estourado como uma bolha de sabão. Assim que Deemo terminou o último verso da composição, as folhas do que antes já fora apenas um pequeno broto brilharam num verde intenso ao mesmo tempo em que as frutas, agora de cor alaranjada, se tornavam progressivamente mais claras. A pequena garota correu ao redor da árvore enquanto girava graciosamente numa dança de felicidade; rindo sem se controlar. Ao levantar seus bracinhos, se grudou ao tronco completamente desproporcional para sentir aquela sensação novamente... Sempre que a árvore crescia, ela tratava de fazer isto. Apenas um toque bastava... Era como se ela absorvesse seus sentimentos; todos eles. A sensação de estar realmente viva se misturava com a esperança de que tudo daria certo; não importava o que estivesse em sua mente. Agora, um grande abraço era necessário para experimentar isso por completo.

Deemo se levantou da frente do piano e acariciou a cabeça da pequena garota, fazendo com que sua felicidade se intensificasse mais ainda. Não havia palavras a dizer... Talvez estivesse se acostumando com a falta de fala de seu novo amigo, ela pensou. Não precisava dizer mais nada para transparecer seu interior para Deemo. Com um entusiasmo repentino, a jovem se lembrou que ainda não havia explorado todo aquele castelo. Se fosse ficar ali por mais tempo, deveria ao menos conhecê-lo como se fosse sua própria casa... A pequena garota agarrou um dos dedos de Deemo então, guiando-o para o outro corredor escuro que levava para a ala leste (Ou que ao menos poderia ser considerada como tal) do castelo.

O fim da música criou um silêncio sombrio na sala do piano.

Uma entidade misteriosa observara toda a cena pelo canto de uma parede. Após o fim de toda aquela agitação irritante, pôde enfim caminhar até a árvore e vê-la mais de perto. Por quanto tempo aquela invasora estava ali...? Apenas alguns dias haviam se passado, e ela estava causando tamanha algazarra com seu barulhento ‘’plano de retorno’’. A dama mascarada notou que seu longo manto estava parcialmente molhado por conta das violentas ondas que persistiram em atingir seus domínios. Quanta ousadia... Tudo o que sua mente precisava era de um pouco de silêncio, e nem mesmo isso eles conseguiam manter por muito tempo. A mascarada abriu a mão direita enquanto uma dentre diversas folhas em queda pousava delicadamente sobre sua palma coberta por uma luva negra. Após fitá-la por alguns instantes, a esmagara com tamanha repulsa ao ponto de fazê-la em pedaços rapidamente, deixando que os fragmentos verdes caíssem em seguida. Se as coisas continuassem assim... A pequena garota destruiria tudo. Tudo o que aquela máscara pôde alcançar. Depois de tanto esforço... Tanta dor... Deveria apenas deixá-la acabar com tudo? Daquela forma...?

Não.

Enquanto isso, a pequena garota caminhava ao lado de Deemo por um corredor que do lado de fora formava uma ponte para outra torre que começava bem mais em baixo. Os dois chegaram num tipo de sótão; uma sala até que bem bonita, exceto por um candelabro macabro e algumas bagunças leves. Tal sótão parecia não ter sido visitado já há muito tempo, mas as luzes estranhamente permaneciam sempre acesas. Ao passar pela entrada, a pequena garota se deparou com uma enorme máscara branca na direita; pendurada na parede. Quase saltou de susto, e seus cabelos arrepiaram por um momento. Aquilo quebrou completamente o clima de antes... Mas era apenas um acessório mal posicionado. Tinha um meio sorriso e uma rachadura em um dos lados do rosto, formando a clássica ‘’cicatriz do cara durão’’. Talvez fosse ser mais assustadora se parecesse um pouco mais com a da dama da biblioteca...

Deemo apenas observava de longe enquanto a pequena garota explorava calmamente o lugar; com muito cuidado para não ser surpreendida por qualquer tipo de ameaça (Por mais que até então não tivesse encontrado nenhuma que fosse realmente perigosa). O candelabro sobre a mesa redonda de madeira era bem esquisito... Se parecia com uma mão cujos dedos se mantinham dobrados e ao mesmo tempo apontados para cima. Olhando mais de perto, as chamas pareciam dançar sobre as velas... Até que se parecia um pouco com as mãos de Deemo; de longe poderiam parecer assustadoras, mas quando vistas de perto, era possível notar os leves movimentos ao tocar no que quer que fosse; especialmente nas teclas do piano. Não que o candelabro se movesse, é claro... Apenas as chamas davam esta sensação.

Além das belas estátuas com os rostos de duas pessoas diferentes; um homem de barba grande e uma mulher cujo cabelo era curto e trançado, a jovem notou o grande quadro que possuía uma pintura sinistra e um pouco ilógica. Um corredor... Um corredor escuro lotado de rachaduras nas paredes e com placas de pedra preenchendo o chão. Olhar para ele trazia certo desconforto, e por isso a pequena garota preferiu se virar para as janelas. Tentar observar o que havia fora delas já trazia uma sensação bem melhor... A curiosidade fez com que a pequena subisse no apoio e enfiasse o rosto no vidro por poucos minutos, mas não havia absolutamente nada que pudesse ser de fato visualizado. Havia apenas escuridão por trás do tom dourado da proteção... Névoa. Mas os sons de além do que a restringia eram realmente curiosos. Como uma respiração fraca... Seguida de leves e quase imperceptíveis batimentos cardíacos: Parecidos com os de um bebê; se é que em algum momento de sua vida a jovem já ouvira algo assim. Um pouco mais perceptíveis em certos momentos, era possível notar também sons de carros. Algumas buzinas... Havia uma cidade lá fora? Não parecia poder ser possível; como um castelo estaria ao lado de uma rua movimentada? Além dos sons de veículos, também se escutava bem baixo um barulho irritante de algum aparelho que apitava de maneira repetitiva e lenta... Um ‘’bip-bip’’ realmente robótico. Um pouco mais raras; conversas abafadas e incompreensíveis, e objetos metálicos leves mantendo contato entre si com pequenas batidas esporádicas... Havia gente lá?! Mas como tão perto...? A garota poderia ficar ali até adormecer; tentando entender o que era aquilo, ou se apenas se tratava de sua imaginação fértil e talvez enganosa... Mas preferiu continuar sua incansável busca por qualquer coisa que fosse relevante. Quanto mais pudesse descobrir, melhor seria!

Um som estridente pôde ser ouvido. — Ahi...! — A pequena garota proferiu em voz baixa.

Havia pisado em algo e nem sequer o notara ali! O susto foi grande ao ponto de quase escorregar... Se assustava com quase qualquer coisa, de fato, mas felizmente eram apenas cacos de vidro. Como exatamente eles foi parar naquele lugar...? Não havia sinais de objetos quebrados além dos pedaços no chão, e as janelas estavam intactas. Olhando mais de perto, a pequena garota notou serem partes de um espelho. Realmente curioso: Se não estivesse em pedaços, seria o primeiro espelho que conseguiria encontrar naquele castelo. Será que alguém além de Deemo e da dama mascarada estivera ali antes...? Questionamentos fúteis: Ela não responderia se soubesse, e Deemo não podia sequer falar.

— Melhor tirar isso daqui... Pode ser perigoso pra alguém...

Talvez só para ela mesma, pensou... Mas ainda assim, era melhor retirar. Coincidentemente; desde que chegara ali, a menina estivera o tempo todo usando luvas. Não se feriu ao retirar os cacos minúsculos apenas com as mãos, e então os jogou dentro de um vaso de calêndulas graças à falta de um cesto de lixo. Se lembraria de não tocar na terra daquelas flores a menos que pudesse remover os cacos antecipadamente. A jovem martelava isso em sua cabeça para não se esquecer enquanto outra parte de seu cérebro interpretava aquele cheiro engraçado que vinha da parede. Desinfetante...? Só isso vinha em sua memória olfativa ao senti-lo. De qualquer modo, já havia se esquecido do que estava tentando impregnar em sua própria mente quando se viu; ao pé da letra, farejando a superfície branca. A garota viu Deemo se aproximando ao seu lado, e então se afastou rapidamente da parede. Havia até mesmo ficado corada de vergonha no momento em que riu coçando a nuca. ‘’Que cena mais boba!’’ pensou consigo mesma.

Sincronicamente a dupla olhou na direção da mesa ao notar algo que não haviam visto antes... Além de pó e um pouco de sujeira (Algo que a pequena garota estava planejando extinguir em breve, visto que não gostava de desorganização), notaram um livro encostado no apoio único que a mesa possuía. Ambos se fitaram por um momento com suas expressões mais neutras possíveis, e então se aproximaram devagar para analisar do que se tratava. Como era menor, a jovem se abaixou e ficou sob a mesa observando a capa do que parecia ser uma apostila de ciências. ‘’Things That Science Do’’ era seu título. O que isso significava ela não fazia a menor ideia; nunca aprendeu o que aquelas palavras diziam quando traduzidas, mas a capa era bastante sugestiva. Havia ciência nela... Desenhos de diferentes tipos de DNA, células, esqueletos de humanos e animais, e outros conceitos comuns da área.

Faixa 02: Electron
https://youtu.be/GkQUUrodALA

A pequena garota abriu o livro em uma página aleatória que abordava superficialmente átomos. ‘’Ligação covalente’’, falando de forma mais específica. A menina não fazia ideia do que se tratava, mas as imagens eram ilustradas com cores que faziam seus olhos brilharem. Um momento de distração foi o suficiente para que seu corpo caísse numa imensidão negra de maneira repentina. O livro parecia ter saltado de sua mão, e a garota conseguia ver Deemo lá no alto; cada vez mais distante, parecendo não ter entendido exatamente o que acabara de ocorrer. Aquilo era dentro da torre...? Não havia qualquer porta no sótão que tenham encontrado. Seria o livro a única forma de descer? Irrespondível. A garota não fazia ideia do que estava acontecendo até finalmente cair deitada sobre uma esfera azulada e quicar para cima apenas para voltar a encostar nela novamente por um breve momento. Já havia ido pra cima e pra baixo meia dúzia de vezes quando enfim decidiu usar sua pouca agilidade para ficar verticalmente posicionada no meio do sétimo percurso de queda, tomando uma forma ereta para poder usar a superfície redonda como um tipo de cama elástica. Perfeito! Agora ela podia ver onde estava sem movimentos caóticos para atrapalhar: Havia caído na imagem que estava observando no livro! Sobre um dentre quatro elétrons que haviam se misturado temporariamente: Dois átomos em processo de ligação covalente.

Aquilo era como magia! Como estar dentro de um vídeo que o professor mostrou na escola. Conforme pulava de um elétron para o outro, as leis da física eram ignoradas para que ela pudesse ir girando com eles e depois voltando para perto do outro átomo gigante sem cair num abismo infinito. Tudo parava para depois voltar: Até parecia uma brincadeira! Até a pequena garota notar que havia algo brilhante no núcleo de seu próprio átomo: A janela pela qual havia caído. Seu sorriso fora extinto imediatamente... O que aquilo significava? Só poderia ser alucinação... A janela se encontrava no topo da sala do piano; sob aquela base que mais se parecia com um ovo. Como poderia estar ali? Dentro... Da torre...? Aquilo de fato era a torre? As perguntas não saíam da cabeça da jovem, mas sua maior preocupação certamente não deveria ser esta. A janela estava ali! Tão perto...! Se pudesse acertar no pulo, talvez conseguisse alcançá-la.

A pequena garota sentiu uma forte determinação.

Depois de muito preparo; quando a menina estava pronta para saltar de maneira que pousasse no núcleo do átomo, seus ouvidos captaram que algo havia caído em outro elétron. Ao se virar durante outra queda, seus olhos fitaram o pouco que era possível ver do corpo escurecido de Deemo, que assim como ela quicava sobre as esferas que mais se pareciam com bolas de plástico naquele momento, entretanto, girando de várias formas antes de se estabilizar também. Sua mente rapidamente desprendeu-se do núcleo, fazendo com que o corpo esvaziasse aquelas gargalhadas que estiveram guardadas desde que caíra ali. Deemo era mais divertido do que arriscar o salto.

A pequena garota sentiu afeto e estima no momento em que o ser esguio se aproximou.

Átomos menores surgiram ao redor da dupla enquanto ambos pulavam de mãos dadas sobre os elétrons assim que os dois pares estavam juntos. A menina nem mesmo notou que seu próprio vestido havia mudado de aparência. Pequenas esferas amarelas, vermelhas, e azuis se aproximavam gradativamente até se colarem em sua cabeça e no corpo de Deemo, que parecia curioso sobre por que aquilo estava acontecendo. As bolinhas até aparentavam ser feitas de tinta; se desfaziam com movimentos bruscos, mas logo se reestruturavam.

A pequena garota sentiu algo em seu peito... Como se estivesse onde queria estar. De alguma forma, estar com Deemo realmente era confortável... Talvez mais confortável do que retornar para o lugar de onde havia vindo. Mesmo que algo a estivesse aguardando; mesmo que alguém estivesse esperando-a voltar... Viver ali era confortável, e isso não poderia ser negado. Não haveria tristeza se não pensasse no lado de fora, certo? Deemo sempre faria companhia, e embora não pudesse falar, se importava muito com seu bem-estar. Não precisaria comer... Não precisaria fazer tarefas de casa... Não precisaria estar acordada a menos que quisesse. No entanto; apesar de parecer isso, ela não estava dividida. Não se sentia na necessidade de fazer alguma escolha... Simplesmente estava ali e nada mais.

Os dois foram pousando juntos quando já estavam cansados de tanto pular. A pequena garota sentiu seus pezinhos delicadamente tocando no chão, notando que havia retornado para o mesmo lugar em que estava antes. Havia entrado no livro e sido trazida de volta? Ou... Não. Não havia explicação que pudesse dar a si mesma, mas estava tudo bem. Deemo estava ali; bem na sua frente. Havia se divertido também, e ela podia sentir isso. Coisas assim já bastavam... É como dizem, afinal; o amor é tudo.

A menina se abaixou e pegou a apostila de novo, mas dessa vez apenas a fechou. Evitara olhar demais para os elétrons... Temia ter que pular por mais longos minutos, pois já estava cansada. — Melhor assim... Chega de ciência por hoje! — Ela disse, rindo em seguida.

Deemo apenas assentiu com a cabeça e pegou o livro para colocá-lo sobre a mesa. Mas... Ela mesma não poderia ter feito isso?

— Deemo! Você é muito desleixado! — A jovem agarrou a apostila novamente e pressionou-a contra o peito para que não a perdesse. Olhava com uma fúria extremamente forçada para o rosto arredondado de Deemo, que não entendia o motivo de tamanha indignação. — A gente precisa levar ele pra biblioteca! Não deixar jogado por aí...

Deemo afagou um pouco a própria cabeça. Parecia querer se desculpar... Estendeu as mãos para pegar o ‘’ ’Things That Science Do’’. A pequena garota hesitou, mas logo entregou o livro.

— Promete não jogá-lo em qualquer canto...? — Ele fazia isso de vez em quando com os livros. Já era de costume... A pilha de obras literárias num canto da biblioteca da dama mascarada viera do desleixo de Deemo. Mesmo assim, ele assentiu em confirmação. Iria guardá-lo. — Bom mesmo!

Ainda tentando se fazer de durona, a menina esperou um tempo para ter certeza se Deemo se livraria ou não da apostila, mas não aguentou muito. Logo bocejou e decidiu que encontraria algum canto para se sentar e dormir antes que acabasse desmaiando no chão de tanto sono; sempre temia que isso ocorresse. Estava com tanto sono que poderia apagar ali mesmo. Ao passar a mão esquerda pela lateral da mesa por mera distração, a garota notou uma parte danificada através do tato de seu dado. Aproximando-se enquanto Deemo folheava o livro de ciências num canto, e notou que havia algo escrito. Teria sido gravado com algum objeto pontiagudo...? Talvez uma faca... Ou quem sabe um daqueles cacos de vidro de antes... Não importava; eram mais números estranhos como os que encontrou num livro da biblioteca. Desta vez, ‘’25.040854’’. Não fazia sentido algum! Como aquilo estava ali?! Por quê?! Novamente atormentada por esses pequenos mistérios, a garotinha olhou irritada para um canto da sala e finalmente visualizou algo que não tinha dado atenção logo que entrou ali. O candelabro na frente era tão assustador que não podia ser ignorado, e a cadeira estava num lugar mais escuro.

A pequena garota viu uma boneca de gato com botões no lugar dos olhos; sentada em uma cadeira.

Se não fosse pela coincidência de ficar irritada com aqueles números, ela não teria visto a boneca. Chegando mais perto, a menina tomou um susto que fizera seu coração apertar. O gato havia piscado...? A impressão era que um dos botões tinha se ‘’fechado’’ para a boneca piscar para ela. Ao mesmo tempo em que era curioso, conseguia ser macabro... Aquela coisa estava amaldiçoada? Ou será que era apenas um brinquedo vivo...? Fato: Só saberia se tocasse nele. E foi o que a garota fez... Apesar de estar um pouco suja e empoeirada, fora tocada na testa pelos pequenos dedos da jovem, que imediatamente sentira um arrepio no corpo inteiro. Uma sensação de terror esmagadora tomou conta de seu ser naquele instante. A menina cambaleou para trás e colocou a mão direita no peito; ofegante. Por um momento pareceu ter visto a sombra de algo ou alguém... Talvez nem mesmo fosse humano; ela estava assustada demais para discernir sobre o que poderia ser. Só notara que havia lágrimas escorrendo por seu rosto quando Deemo havia tocado em seu ombro para conferir se havia algo de errado. Não podia esboçar diretamente as reações... Mas o espasmo em seu corpo dizia tudo.

A pequena garota mergulhou numa profunda sensação de perda.

Tudo o que ela pôde fazer foi chorar mais e mais intensamente no momento em que abraçou Deemo. O calor era imaginário... Mas fazia com que se sentisse melhor espontaneamente. Infelizmente não o bastante para se livrar daquelas lágrimas que sempre retornavam... Não importava a situação; seu humor; o quão animadoras as músicas de Deemo fossem... Elas insistiam. Eram como carrapatos que persistem em não largar de um pobre filhote. Neste momento ela notou que estava agindo de maneira errada desde a última vez que despertou... Havia se acostumado com Deemo ao ponto de esquecer que precisava retornar. Seria isso que daria uma explicação para esses momentos de tristeza e horror... Um sentido para tudo isso. A garota havia se enganado sobre o que achava que verdadeiramente era; sobre o que achava que verdadeiramente queria.

Após acariciar a jovem um pouco, Deemo deixou o livro de ciências de lado; exatamente como prometera não fazer, e pegou-a no colo para que ambos pudessem se sentar na cadeira depois que a boneca de gato fosse retirada dali. O tempo todo ela esteve de olhos fechados... Temia abri-los e se deparar com aquele terror de novo, mas quando sentiu que tudo estava mais calmo e seguro, a pequena garota viu um cenário completamente diferente.

Faixa 03: The Beautiful Moonlight
https://youtu.be/oqf993VPXWM

A cadeira de madeira havia sido substituída por uma poltrona vermelha extremamente confortável. A vitrola ao lado dos dois tocava uma música calma e agradável, enquanto Deemo abria um livro de gravuras em sua mão direita. O cenário ao fundo; uma sala de tapete peludinho com uma lareira mais adiante, fora ignorado facilmente pelos desenhos e pinturas que estavam naquelas folhas. Eram eles ali... Deemo e a pequena garota. Em tantas situações diferentes... Algumas que nem mesmo chegaram a viver. Os dois lendo um grande livro no chão, balançando as pernas em profunda distração; Deemo ensinando-a a tocar piano; ambos com roupas descoladas, ouvindo música num radio enquanto dançavam; preparando um delicioso bolo; comemorando o halloween... A pequena garota não se lembrava de nenhuma dessas coisas, mas eram como boas memórias. Uma fantasia gostosa de imaginar... Isso não parecia tão ruim... No final das contas; mesmo não podendo fazer muitas coisas com Deemo no pouco tempo que passasse ali, momentos como aquele que estava acontecendo naquele exato momento eram os que faziam cada segundo valer à pena.

Quando o verso final do piano na música se iniciou, seus olhos cor de caramelo se fecharam lentamente... A pequena garota enfim adormeceu. Com um sorriso no rosto.