Deemo - Nunca Parta Sem Dizer Adeus

7 O Terceiro Dia de Suspense


‘’Ainda... De... Dar... Manten... Frat... Ra... Mila... Tenha... Ça... ’’ Uma voz masculina disse; extremamente abafada. Tão difícil de se escutar, que era necessário tocar a cabeça na superfície que a protegia...

‘’Já... Tercei... Voc... Alg... Coisa! Dev... Ha... Coi... Avor...!’’ A voz feminina respondia desesperadamente. Parecia muito aflita... Mas era impossível entender o que ela dizia.

— Que coisa...! O que eles estão falando?! — A pequena garota perguntou-se em voz baixa enquanto mantinha a orelha grudada no vidro da janela. — Se tudo ficasse quieto um pouco...

Lá estava ela... Tentando escutar o que acontecia do lado de fora. Até parecia quimérico... Todos os possíveis barulhos que conseguiam subtrair o som da conversa estavam presentes ao mesmo tempo. Buzinas, folhas de árvores balançando, objetos metálicos entrando em colisão... Aquela respiração e os batimentos... Só metade disso já seria o bastante para transformar os diálogos abafados em meros gemidos esquisitos e fragmentos de conversas incompreensíveis; imagine juntar todos eles? Sua curiosidade era persistente. Saber o que havia lá fora até parecia um tipo de dever, afinal, estava bem diante de uma janela que dividia o castelo do outro lado. O lugar de onde viera era tão bagunçado assim...? Não havia como se lembrar. Será que poderia conhecer as pessoas que estavam conversando? Ah... Improvável demais. Com sua imaginação fértil, a jovem pensou serem apenas fantasmas voando lá fora, afinal somente névoa e escuridão eram visíveis.

— Não há nada lá fora que valha a pena. — Afirmou aquela pessoa desagradável. A dama mascarada... Quando havia chegado ali? A pequena garota se assustou no momento em que ouviu sua voz, notando que o branco de suas vestes aparentava estar desbotado. Aquilo sim se parecia com um fantasma... Era possível ver a cor da janela por trás do tecido que escondia o corpo da misteriosa entidade. — E sair deste castelo é tão impossível quanto escutar o que as vozes dizem. — A dama mascarada se virou para a menina. — Suas tentativas de se arrastar de volta para o buraco de onde veio são inúteis. Você não conseguirá sair daqui. No final... Não partirá.

— Sei que posso chegar lá em cima. — Confrontou a pequena garota. Tinha um olhar determinado por fora... Mas por dentro, seu coração estava cheio de medo e frustração. Uma taça rachada e pronta para estourar.

— Você pode. — Inesperadamente a dama respondeu. — Mas não significa que partirá... — Completou num tom de voz mais sério que antes. Mais duro do que indiferente.

— Não vou ficar presa aqui pra sempre! — Contestava a jovem, saltando de cima do apoio da janela. — Você nunca quis sair daqui...? Nunca quis conhecer o mundo que existe lá fora?

Notou-se um leve espasmo no corpo da entidade. Havia algo em sua mente... Sabe-se lá o quê. — Não. — No entanto ela respondeu; friamente, mas após hesitar. — Como eu disse... Não há nada lá que valha a pena. — E ressaltou: — Nada.

A forma como ela fez aquela última afirmação... Era como se estivesse realmente certa do que dizia. Não havia nada que valesse a pena, mas como a pequena garota confirmaria isso sem antes retornar? Se retornasse e se visse sem chão... Poderia regressar ao castelo de alguma forma? Não tivera tempo suficiente para ao menos concluir suas questões. A dama mascarada começou a desbotar mais e mais... Até desaparecer completamente. Algo realmente curioso: Os poderes que ela possuía naquele lugar eram no mínimo magníficos. Sendo capaz de desaparecer e reaparecer em qualquer canto do castelo, ela tinha acesso a todas as salas e torres; todas as passagens secretas e sótãos. A pequena garota sentiu um pouco de inveja... Mas se o preço para ter poder o suficiente para subir até a saída fosse ser como ela, preferiria não precisar usar uma máscara e continuar com suas pernas frágeis e mente sagaz.

Deemo estava ali desde antes de a jovem acordar e voltar a tentar escutar os sons que eram emitidos por trás das janelas. Se aproximou para confortá-la; acariciando-a no topo da cabeça como sempre fazia. Sua garganta pareceu apertar tão de repente... Ao mesmo tempo, o coração entrara numa sensação de esmagamento repentina. Por que isso sempre acontecia...? Por que precisava sentir vontade de chorar sempre que discutia com a dama mascarada? A pequena garota não conseguia simplesmente se conformar com toda aquela situação... Mas também não era capaz de descartar o que aquela pessoa desagradável dizia, e a dor sentida era uma prova disso. Sem fraquejar, a jovem engoliu o choro e sorriu para Deemo.

— Eu vou ser forte e tudo vai ficar bem!

A pequena se virou para o quadro enorme que havia no sótão; ficando de costas para Deemo, fechou os olhos, e respirou fundo para deixar esvair um pouco de sua leve solidão. Ao fitar aquela imagem de novo; a do corredor escuro e cinzento, a menina notou algo de diferente... O ângulo em que o teto estava parecia ter sido alterado. Imaginando que seria apenas sua imaginação, ela caminhou um pouco para o lado e inclinou o corpo, confirmando que aquele quadro definitivamente não era uma pintura comum. Ou... Talvez não fosse uma pintura, pensou a jovem. Quando seu indicador tocou na superfície da obra, um efeito semelhante ao mergulho de uma gota d’água foi gerado. Seu dedo havia atravessado sem resistência... A mãozinha regressou num breve susto, mas logo voltou a tocar a tela falsa, só que desta vez com a palma. Aquilo era uma passagem. Um pouco mais séria e determinada, a pequena garota apoiou a perna direita na moldura e entrou no quadro sem hesitar. Deemo apenas observava do lado de fora; com a boneca de gato em seus braços, pouco antes de entrar com certo receio.

Aquilo era como estar explorando uma ruína antiga! A pequena garota caminhava ao lado de Deemo olhando tudo ao redor com bastante curiosidade. Havia finalmente tido um grande avanço em sua exploração, e isso a deixara bastante animada sobre encontrar distrações mais variadas naquele lugar, ou quem sabe até alguma forma de fazer a árvore crescer mais depressa! O corredor se estendeu por uns bons metros até chegar numa escadaria em espiral extremamente curta; a tal dava apenas uma volta, e se encontrava numa torre de formato irregular, porém incrivelmente longa para a pouca quantidade de espaço acessível. Algumas coisas no castelo não faziam sentido; isso era um fato... Sendo assim, procurar um naquela escadaria já se tornava imediatamente uma tarefa fútil no exato momento em que os degraus rangiam. Além da grande quantidade de teias de aranha, vinhas com espinhos pareciam se enrolar lá em baixo... Seria perigoso cair dali, e por isso a menina tratou de ficar o mais longe possível das bordas.

— Hum...?

Sua visão periférica havia notado um brilho esquisito no alto. Além dos dois suportes na parede ao lado da entrada da profunda torre, havia um espaço que seria perfeito para se colocar um relógio de cuco se não houvesse sido tão bem dominado por aranhas esforçadas. Neste canto, um pequeno objeto dourado repousava... Um mero detalhe; de longe se parecia com uma jóia, mas ao olhar um pouco mais de perto, notava-se que se tratava de uma medalha; como aquelas que vencedores de torneios ganham. Feita de ouro, porém um pouco suja, ela parecia resistir ao tempo tanto quanto a estrutura daquele lugar. Infelizmente nem mesmo Deemo conseguiria alcançar... A pequena garota ficou um pouco frustrada, mas talvez devesse mesmo deixar aquele objeto em seu devido lugar. Se pertencesse a outro alguém, esta pessoa definitivamente não gostaria que uma estranha roubasse para si...

Além da escadaria então; após atravessar um curto corredor, era possível ver uma parede feita de água. Aquilo era um tipo de cachoeira... Mas por que algo assim estaria ali? Os ecos ainda deixavam claro que os dois ainda estavam no interior do castelo. Com receio de se molhar, a pequena garota recuou um pouco mantendo a mão direita no peito. Deemo encarou o estranho brilho por trás da água de maneira peculiar, não hesitando em levar a mão esquerda até a fina queda d’água, criando uma passagem livre para a menina. A jovem então saltou para dentro e logo em seguida o ser esguio atravessou também; sem muito medo de se molhar, mas tratando de proteger o gato de pelúcia.

Faixa 01: Basement
https://youtu.be/4eSdNTEFVzY

A pequena garota; ao dar seus singelos passos para trás, chegou a dar de costas com as pernas de Deemo. Aquele lugar enorme a intimidava... Além de ser um pouco sombrio, o teto era coberto por grandes e grossas vinhas munidas de espinhos mortais. Aquele salão claramente se encontrava sob a área principal do castelo; onde ficava a árvore e o piano. Um tipo de porão... Mas definitivamente não se parecia com um. Com duas cachoeiras nas paredes, o lugar possuía um visual único e um tanto charmoso. A parede diante do piano; que apesar de também estar coberto por vinhas era muito parecido com o de lá de cima, possuía uma intensa luz vermelha no que parecia ser o estigma do ornamento de flor ali presente.

A pequena garota se sentiu assustada com a aparência do local e aquela luz vermelha.

— N-Não gosto daqui, Deemo... Nós podemos voltar...? — Questionou um pouco tímida. Ainda olhava para o alto... Temia que aquelas vinhas caíssem sobre suas cabeças. Se lembrava de certa vez ter ouvido uma história sobre uma criança que teve a cabeça esmagada por uma fruta que caiu duma árvore; consequência de sua grande curiosidade. Uma daquelas histórias que os pais costumam contar para seus filhos pararem de ser tão sapecas... Mas ela não se lembrava quando ocorreu, ou quem a havia contado.

Deemo se aproximou do piano e colocou quatro de seus dedos em específicas teclas. O toque; um pouco mais violento que o normal, foi o suficiente para fazer aquele lugar sofrer algum tipo de terremoto leve. O castelo todo pareceu vibrar com o acorde... A pequena garota colocou as mãos nos ouvidos e fechou os olhos. Seu medo e incômodo não vinha do som do piano, mas sim dos barulhos que as paredes faziam quando balançavam. Ao fim do abalo generalizado, era notável que uma parcela das vinhas havia se desfeito como mera evaporação. As partes despedaçavam e voavam pelos ares antes de sumirem ao diminuírem de tamanho progressivamente bem rápido. Aqueles efeitos visuais mágicos até que eram bem bonitos, afinal.

A pequena garota notou uma partitura encostada no atril e teve uma ideia.

— Talvez... Talvez tocar faça as vinhas sumirem... — A menina disse enquanto olhava para o alto após chegar mais perto de Deemo. Ao abaixar o rosto acabou se deparando com aquela ‘’coisa’’; a boneca de gato, cujos olhos tinham cores trocadas. Isso a fez recuar brevemente, mas logo voltou a falar: — Acha que consegue, Deemo?

O ser esguio olhou para a partitura durante alguns segundos e a folheou apenas duas vezes antes de voltar para o início e assentir. Deemo se abaixou e segurou o pelúcia com ambas as mãos, fazendo menção de entregá-la à pequena garota, mas imediatamente a jovem regrediu. Só de olhar para ela já sentia aquela sensação novamente... A sensação de perda. Isso trazia grande aversão diante do ato de ter de carregá-la nos braços.

— Não quero tocar nela... — A menina desviou o olhar. — Não quero ter que tocar nela de novo... — Repetiu num tom mais triste e choroso.

Deemo levou a ponta de um dos dedos para o queixo da pequena garota e fez com que ela olhasse para seus olhos brancos. Sua expressão sempre fechava ao fitar aquele brinquedo de pelúcia... Mas desta vez isso deveria mudar. Deemo apontou para cima com o indicador direito, chamando a atenção da menina. Repentinamente moveu o gato branco de forma que ficasse virado para seu rosto, e então começou a brincar com ele como se fosse algum tipo de ventríloco. A boneca andava ao redor da pequena garota e de Deemo sendo controlada por ele mesmo, dando alguns tapinhas no topo de sua cabeça arredondada para depois esfregar-se nele como gatos reais fazem. Não havia como não rir... Sua mente infantil imaginava como aquela cena seria se o gato de pelúcia fosse gigante e abraçasse Deemo de verdade. Foi no meio destes risos que ela veio se aproximando lentamente com os braços de pano abertos. A jovem finalmente cedeu. Agarrou-a com toda a vontade do mundo e sentiu uma sensação completamente diferente da que ocorrera na primeira vez que tentara tocar na boneca. Uma paz interior... Por que havia mudado? Talvez a quantidade de sentimentos que o brinquedo de pelúcia podia causar fosse realmente muito maior do que o imaginado... Havia algo nele que fazia a pequena garota sentir uma enorme gratidão. Algo que cobria completamente a solidão e sensação de perda; como uma bela cor de tinta sobre uma terrível pichação.

— Obrigada, Deemo...! — Agradeceu a menina enquanto o mesmo se levantava. Nem mesmo havia notado que a boneca de gato ainda estava em seus braços...

Após concluir seu ato de firmar um laço entre a pequena garota e o brinquedo de pelúcia, Deemo se sentou em frente ao piano e fez seu ritual de sempre. Acariciava as teclas brancas antes de finalmente começar...

Faixa 02: Suspenseful Third Day
https://youtu.be/LgUYY7Mqgbw

Cada nota e cada acorde faziam com que as paredes de metal vibrassem de maneira sincrônica e bem mais delicada do que antes. Uma música é diferente de um amontoado de notas sendo tocadas de uma só vez... Sem contexto... Sem sentimento. Os abalos ficaram intensos de um momento para o outro conforme a velocidade aumentara. As partes das vinhas; pedacinhos verdes parecidos com brasas que não brilhavam, caíam sobre suas cabeças lentamente e depois se desfaziam num pó magnífico que deslizava pelos ares graciosamente. Já estava acontecendo! Não demorou para que as vibrações do som do piano fizessem com que todas as vinhas se dissolvessem espontaneamente, criando um abalo maior do que antes. A água das pequenas cachoeiras nas paredes começou a cair em maior quantidade, inevitavelmente transbordando a piscina que formava um círculo ao redor da área do instrumento. A pequena garota sentiu que seus sapatos estavam molhados, mas o nível subira apenas o suficiente para atingir a altura de dois dedos. Após uns segundos, a água enfim parou de subir... E um cenário incrível se formou lá no alto: O teto havia deixado de ser escuro para dar lugar a um azul vivo gerado pelo lago místico que ficava em cima. Era possível ver que a árvore havia crescido, e aquela luz vermelha na parede simplesmente desaparecera subitamente numa piscada intensa. Pura magia!

— A árvore cresceu, Deemo! Ela cresceu! — A pequena garota pulou no mesmo lugar e depois correu na direção da passagem por onde haviam vindo, usando a boneca de gato para se proteger da queda d’água. Felizmente havia sido tão rápida que nem mesmo o brinquedo de pelúcia havia se molhado de maneira tão significativa.

A jovem correu tão velozmente que não havia notado a queda da medalha de ouro por conta dos tremores. Ao chegar à sala do piano; já diante do instrumento, a menina arregalou os olhos para uma transformação que definitivamente não esperava. A árvore não havia simplesmente ‘’crescido’’... Seu tronco se fundira com o próprio castelo, e o que havia no salão eram apenas seus galhos envolvendo a parede de metal gravada. A copa era gigantesca...! Cobria todo o teto, e finalmente seria possível chegar até lá! Acontecera... Enfim acontecera! A pequena garota poderia alcançar a janela... A sensação de realização era incrível: Aquele passo que havia dado graças a Deemo tinha a levado tão longe... Agora faltava pouco. Muito pouco...

A pequena garota sentiu uma enorme felicidade ao saber que logo poderia voltar para casa.

Antes que ela o notasse ali, Deemo se aproximou da pequena garota e olhou para ela para depois fitar a árvore. Também parecia satisfeito com o ocorrido... Os dois se encararam por alguns instantes, e depois o ser esguio estendeu a mão para a menina, parecendo chamá-la para dançar. A pequena garota sorriu intensamente antes de aceitar o convite.

Faixa 03: Farewell Waltz
https://youtu.be/ggrYPh_u4LA

Quando sua mão tocou na de Deemo, a pequena garota viu uma pequena quantidade de água do lago se levantando ao seu redor. No início formava um círculo que girava em torno de seu eixo, e posteriormente tomara várias formas para enfim juntar-se à suas vestes e solidificar-se num belo vestido azul celeste. Sua beleza era inigualável: As bolhas e flores que formavam um caminho vertical em boa parte do corpo do vestido davam vida ao seu novo visual. A jovem sentiu o próprio cabelo se movimentar sozinho enquanto era preso por pequenas cordas também feitas de água solidificada. O enfeite de flores formando o coque era perfeito; combinava com o novo laço de longas pontas que agora estava em seu pescoço, balançando para os lados conforme a dança tinha seu prólogo!

O vestido era longo demais. Cobria os pequenos sapatos da garota... Mas isso não a atrapalhava na hora dos ágeis movimentos de valsa. Seu corpo flutuava alguns centímetros acima do piso invisível do lago. Assim como ela, Deemo se deixava levar em passos delicados, porém charmosos. Seus pés deslizavam pelo azul formando belas marcas na água sem que qualquer parte de seu corpo fosse molhada. Já a menina; sendo guiada pela maior experiência de seu acompanhante, girava conforme ele levantava seu braço, mantendo um olhar neutro enquanto sua mente mergulhava numa sensação de boa companhia. Num breve momento, a garota fora jogada para cima por Deemo e abriu seus braços ao mesmo tempo em que mantinha os olhos fechados para sentir o momento em sua totalidade. Sua queda lenta parecia ignorar parcialmente as leis da física, transformando a cena numa imagem perfeita para um belo quadro de sala.

Naquele momento, porém, a pequena garota pensou... Se aquela fosse a última vez que eles fossem dançar, seria então a valsa do adeus...?

A pequena garota sabia que deveria ir... Que algo importante havia sido deixado lá fora.

Mas seu real desejo era permanecer ali. Com Deemo. Sua vontade mais profunda... Era a de não partir. De não ter que dizer adeus.