Lá estava ela; escalando a árvore com a ajuda de Deemo como se tudo se tratasse apenas de uma simples brincadeira. Observá-los escondida havia se tornado praticamente um costume. Não poderiam vê-la mesmo se tivessem olhos nas paredes. Haviam acabado de dançar alegremente uma valsa mágica sobre aquelas águas cristalinas do lago que dava vida à enorme árvore de esperança... Assistir fora uma tortura. A dama mascarada sentia ódio. Já tentara impedi-la através do diálogo... O que restaria se a apequena garota conseguisse chegar até o ponto mais alto do castelo? Por quê Deemo a ajudava? Mesmo estando ciente de tudo o que acontecia... Das regras daquele lugar.

— Como fazer isto afinal...? — Questionou a entidade a si mesma.

Seu corpo desaparecera repentinamente; assim como anteriormente havia ocorrido no sótão com o quadro misterioso. Desbotava de acordo com sua vontade para reaparecer em outro canto do castelo... Ressurgira na segunda sala que possuía um piano. O lugar estava bem diferente depois do que eles fizeram... As vinhas lotadas de espinhos não haviam resistido ao poder da música. Tinham sido extinguidas facilmente. Aquela medida preventiva não tivera a menor chance... Seus poderes... Estariam eles mais fracos?

— Uhm...?

Seu manto estava molhado. O nível da água ali em baixo havia aumentado o suficiente para invadir o piso em dois dedos de altura. ‘’Maldição’’ pensou ela. Teria de trocá-lo... A mascarada caminhou até o lado esquerdo do salão e balançou o braço para o lado violentamente, fazendo com que uma das pequenas cachoeiras de água fria fosse partida ao meio, criando assim uma fresta para poder passar sem se encharcar mais ainda. Uma lástima... Além da música que persistia por horas e horas, eles ainda causavam pequenos e irritantes problemas no castelo...

— ...

Ter que retornar para aquela sala era um tipo de tortura. A lareira perto da entrada trazia memórias quentes, porém dolorosas de se encarar. Sobre ela, raízes brancas da árvore que havia surgido lá em cima. Tinham atravessado a parede... Nem mesmo seu melhor refúgio era protegido das consequências da chegada da pequena garota. A dama mascarada caminhou até uma parede lotada de anotações diversas. Ao lado do livro que se auto escrevera, se encontrava uma enorme quantidade de memórias completamente aleatórias... Tantas memórias... Olhar para aquilo estando em tal estado era como ser atropelada por um caminhão.

A dama mascarada caiu num ataque de ódio descontrolável.

Suas mãos cobertas arrancaram cada uma das folhas. As rasgava como se seu ódio fosse daquelas memórias... Mas não era verdade. Quando estavam altas demais para serem alcançadas, presenciavam o uso de uma magia misteriosa que fazia a entidade flutuar pelos ares numa névoa branca. Após exterminar todas as notas presentes na parede ao picotá-las de maneira feroz e assustadora, a dama mascarada cambaleou para perto de uma tela pintada e se encostou a ela. A respiração ofegante cessou subitamente ao olhar para aquele rosto escurecido por tinta preta. Lembrar-se dele num momento como aquele era como ver uma assombração... Perdendo o controle novamente, a entidade de branco arrancou a tela do suporte e jogou-a na lareira enquanto berrava algo incompreensível. Não havia se queimado imediatamente... Mas não era algo que um movimento de mãos não pudesse resolver. As chamas então envolveram completamente o desenho e escaparam da lareira por um momento, parecendo tomar uma forma assustadora de dezenas cobras...

— Hah... Ah... Perder o controle não irá resolver nada. — Disse a si mesma depois de respirar um pouco.

Ela caminhou até um enorme baú e o abriu, retirando do mesmo um manto exatamente igual ao seu. Assim como na primeira vez que o fez, ela fitou o nome escrito no avesso da região que cobria a nuca. Havia um nome gravado. O pior possível... Seu coração novamente mergulhou em ódio; subitamente, mas sabe-se lá qual era a expressão por debaixo daquela máscara antes de o tecido partir ao meio por uma força descomunal.

Enquanto isso; na copa da enorme árvore que agora dominava parcialmente o castelo, Deemo e a pequena garota encontraram uma escada de madeira vertical que parecia ser bem antiga. Como aquilo havia chegado ali? Não que tivesse muita noção de altura ou distância, mas a jovem tinha certeza que a janela por onde caiu deveria estar exatamente ali. Será que tinha sido substituída pela escada? Tudo era bem misterioso, mas a resposta só seria concebida ao buscar por ela. Determinada, a menina subiu na frente e deixou o gato de pelúcia com Deemo, entrando numa escuridão parcial durante poucos segundos. A escadinha acabou dando numa saída bastante inesperada... Como se tivesse escapado da toca de um coelho, a pequena garota se viu atravessando o tronco de uma árvore para ficar diante de outra sala escura. Claramente não havia alcançado seu objetivo... Aquele não era o mundo externo. As paredes já não eram mais feitas de metal, mas sim de placas de madeira velha. Por alguma razão ali era um pouco mais frio... Consideravelmente sombrio. Um par de tochas mágicas iluminava o local através dos dois lados do buraco na árvore. A sala possuía duas passagens: Uma na esquerda; que levava para uma escadaria de madeira capaz de chegar no próximo andar, e uma na direita; com um par de portas pesadas que se encontravam quase fechadas. Aquilo era muito interessante, mas... Por que havia chegado ali e não na saída? Era como se a janela tivesse simplesmente trocado de lugar para que outra pedra se colocasse no caminho... Frustrante.

Deemo passou pelo buraco na árvore um pouco depois da pequena garota. Não parecia conhecer aquele lugar... Não teria como. Só que de alguma forma, estava calmo... Talvez até já esperasse por esse cenário. A jovem caminhou até os portões velhos e notou que se fossem puxados um pouquinho poderiam ser abertos. Do lado de fora era possível ver a noite...! Finalmente! Algo além das paredes do castelo e de sombras através de janelas douradas! Seu coração se encheu de animação; ela amava as estrelas e já podia vê-las através do vão entre as duas portas. No entanto, ao tentar abrir, não tinha força o bastante... Seus pezinhos escorregavam pelo chão enquanto a menina tentava puxar a porta direita.

— Ah... Não consigo... — Afirmou em voz baixa.

Deemo se aproximou lentamente e colocou a mão esquerda sobre a cabeça da garota. Sempre agia desta forma... Muito amável. Bastou um pouco de força para que o ser esguio abrisse os portões de madeira, permitindo que os olhos cor de caramelo da jovem pudessem enfim ver todas as estrelas no céu. A pequena garota correu na direção das grades negras que protegiam os curiosos de uma queda mortal e abriu um sorriso. A árvore crescia pelas paredes de madeira, e era possível que havia alcançado mais de trinta metros! Aquele lugar era simplesmente maravilhoso... O piso reluzente tinha uma cor esverdeada que refletia os brilhos do céu. Mais adiante; perfeitamente preso às baixas grades, se encontrava um telescópio dourado. Por algum motivo ele parecia familiar... Trazia uma sensação nostálgica, mas ela não se lembrava de momentos rente a algo assim. Como quando se olha para um brinquedo antigo de sua infância... Será que ela tinha um telescópio em sua casa? Nem isso sabia dizer.

— Uma... Cerejeira...? — Questionou-se a pequena garota.

Além daquele exíguo ‘’observatório’’, havia um tipo de floresta... Como estavam bem acima do nível do solo, seria realmente uma queda assustadora. Além disso, não parecia haver nenhuma maneira segura de se descer até lá. Não que a menina quisesse... Praticamente todas as árvores estavam mortas; era um cenário sombrio e até um pouco perturbador. Uma cachoeira perto do horizonte parecia derramar a água que formava aqueles finos cursos semelhantes aos capilares do corpo humano, cruzando a área toda sem deixar muitos espaços abertos. Não havia nada além da pequena floresta que se estendia por no máximo... Quinhentos metros...? Difícil ter certeza. Além dessa distância, apenas névoa. Cinza e mais cinza sob o céu negro. A única árvore viva tinha folhas cor de rosa e um tronco escuro. De alguma forma a jovem sabia seu nome... Era uma cerejeira. Como acabara ali...? Sendo a única sobrevivente do que parecia ser a obra de uma praga ou um miasma de morte... Outra das perguntas irrespondíveis.

Deemo se colocou ao lado da pequena garota e tocou no telescópio com as pontas dos dedos. Já parecia conhecer a ferramenta de observação estelar. Seus olhos claros fitaram os da menina por alguns segundos. Apesar da falta de expressões em seu rosto, era como se comunicar com ela sem precisar de palavras... Exato. Não precisavam mais de palavras... Um interpretava a vontade do outro.

Faixa 01: Reflection (Mirror Night)
https://youtu.be/lBiRs4wzIhI

Os dois aproximaram seus rostos do telescópio para espiar o que havia além dos limites do olho humano; maravilhados com os detalhes que apenas aquele objeto podia dar. Não se tratava somente de aumentar a imagem das estrelas... Não era um telescópio comum. Como se estivesse encantado com algum tipo de magia, ele permitia observar além do que era possível ser visto a olhos nus. A aurora boreal; as nuvens brancas; as estrelas mais brilhantes e de cores variadas; e até mesmo acúmulos de poeira estelar e galáxias distantes. Mas o maior segredo que sua lente revelava era a lua... Uma cena de sua fase crescente que reluzia como uma jóia.

A pequena garota sentiu uma profunda paz interior.

Deemo repentinamente foi se afastando do objeto dourado. A dupla havia notado que de alguma forma o piso verde refletia com perfeição tudo o que só podia ser visto através do telescópio. A lua se encontrava exatamente no centro da flor que ali estava gravada, dando a impressão que as estrelas faziam a cor de suas pétalas desenhadas. Foi então que ambos se deram conta que Deemo espelhava exatamente o mesmo efeito; era como se o céu estivesse em seu próprio corpo. O ser esguio tocava em si mesmo enquanto observava cada detalhe do cosmos refletir em seu peito. A pequena garota se aproximou boquiaberta... Jamais vira algo tão belo quanto aquela junção de luzes e cores. Ao tocá-lo também, seus cabelos começaram a flutuar, ignorando a gravidade. Um tipo de nuvem branca passou então a envolver parte do corpo de Deemo, substituindo rapidamente suas pernas. Foi quando os dois começaram a subir...

A sensação era a de estar deitada num mar de milhares de almofadas fofinhas... Ao mesmo tempo que seu corpo flutuava de bruços, a pequena garota segurava as mãos de Deemo e fitava o gato de pelúcia em certos momentos. A boneca estranha era sua nova amiga... Assim como Deemo, parecia querer fazer companhia a todo momento depois de ter sido descoberta. Os dois subiam e subiam... Era possível ver a árvore tomando conta do topo do castelo; o telhado acabara não sendo visível... Mas mesmo sem um suporte ela estava lá; flutuando pelos ares... A janela! Horizontalmente colocada e brilhando num azul intenso, a única saída para fora daquele lugar estava além da altura da árvore. Não precisava fazer sentido... Apenas estava lá; suspensa por absolutamente nada. Já estavam voando. Seria possível alcançar a janelinha? Uma questão temporária. A pequena garota se esqueceu completamente dela ao olhar novamente para o rosto escuro de Deemo. Os dois atravessaram as nuvens e chegaram a um ponto onde o céu era tão belo quanto qualquer pintura fantasiosa poderia ilustrar.

A pequena garota queria estar ali para sempre.

Deemo a abraçou com ternura, e a jovem fechou os olhos; após alguns segundos, sentiu as pontas dos pés tocando no chão. Havia acabado... Infelizmente havia acabado. A garota apenas se perguntava... Por que estava chorando? Mais uma vez... Ao reabrir os olhos, sentiu seu rosto inexpressivo molhado de algo salgado e quente. Seu coração simplesmente começara a bater mais rápido... Uma ansiedade indescritível tomou conta de seu ser. Não queria que acabasse... Que tivesse de partir... Mas haveria a escolha de ficar...? O que quer que fosse a razão de estar sentindo aquilo, não era algo que se lembrasse... Assim como o próprio nome, ou de onde viera. Ainda assim, a dor era tão profunda...

— Deemo... — A menina se afastou dele um pouco enquanto o pianista de preto se abaixava lentamente. Seus dentes rangiam... O peito parecia estar prestes a explodir. — Por que eu choro por coisas que não me lembro...?

Não saber exatamente por que estava sofrendo era a pior parte. Deemo a abraçou e afagou sua cabeça. Não havia olhar que pudesse lançar... Palavras que pudesse dizer... Seu toque era frio, apesar de gentil, e por mais que quisesse, não havia maneira alguma de fazê-la recuperar suas memórias sem que um grande preço precisasse ser pago... Um que apenas ela poderia pagar; mais ninguém.

Observando-os, a dama mascarada se escondeu novamente atrás da porta e deu de costas com a superfície de madeira. Tocando o peito com a mão direita e mantendo o punho fechado em angústia, ela se lembrava de algo de seu passado. No entanto, decidiu novamente deixar suas memórias de lado e desbotou progressivamente após alguns instantes, saindo daquele lugar com a mesma determinação de antes. Sabia que não poderia simpatizar com a ‘’invasora’’... Se fraquejasse... Tudo desabaria. Algo em seu coração dizia que o fim estava próximo... Mas como pará-lo? Ao menos... Atrasá-lo um pouco mais... Como fazer isto afinal?

Sempre a mesma pergunta...

Como fazer isto?

O tempo não para.