Deemo - Nunca Parta Sem Dizer Adeus
1 Prólogo - O Solitário Deemo
Faixa 01: Untitled2
https://youtu.be/3S1gT5Lvq4g
Sem rosto, voz, ou mesmo uma identidade digna de um humano, ele vivia atrás das paredes de um belo, porém sombrio, castelo de metal. No lugar da imagem de um homem, havia uma cabeça completamente circular, e dois olhos pálidos sempre bem abertos. Sua pele negra tinha uma textura engraçada; como o nariz de um cão, mas sem qualquer resquício de umidade, e desprovida do que conhecemos como frio ou calor. Não havia boca, então não poderia falar mesmo que fosse seu maior desejo; e para isso serviam suas mãos. Apesar de não vestir exatamente roupas, ele possuía uma gravata em forma de borboleta, esta que combinava perfeitamente com o estilo de vestimenta que um homem usaria em frente àquele instrumento: Um piano branco extremamente incomum, o qual a ‘’criatura’’ tocava com grande frequência. Sua única forma de expressar o que era incapaz de dizer com palavras... Uma maneira de mostrar seu coração a todos. Mas a quem?
O silêncio é irremediavelmente sombrio quando se está sozinho. De fato, aquele lugar era sombrio... Refletia a infelicidade de outro alguém. Mas o silêncio... O silêncio conseguia ser até mesmo lutuoso.
O piano se encontrava sobre uma superfície branca um tanto familiar. De longe se parecia com marfim, mas ao se aproximar, podia-se ver que na verdade era feita de terra. Uma terra clara como um belo amontoado de flocos de neve, mas tão dura e fixa quanto uma rocha nada delicada. Ao redor da superfície, o azul vívido predominava: Uma água cristalina completamente imóvel que não passava de três dedos. As vitórias régias flutuando sem saírem de seus lugares davam ainda mais vida ao cenário que era iluminado por pequenos e mágicos cristais brancos. Eles atraíam vaga-lumes grandes e muito lentos; insetinhos voadores que pareciam estar com muita preguiça de continuarem no ar, mas que mesmo assim rodeavam os cristais com muita determinação. Os portões de ferro estavam virados de frente para o assento do piano. Trancados... Não com cadeados ou madeiras pregadas; apenas presos um ao outro. Sem maçanetas ou fechaduras, não pareciam sequer poder ser abertos, e eram tão grandes que mesmo o homem mais forte do mundo seria incapaz de empurrá-los até o final; tão pouco uma criatura com braços demasiadamente frágeis e finos. Sobre a superfície dos quatro pilares do salão principal, vinhas se agarravam e subiam até as tochas que iluminavam adequadamente o local. Estavam acesas, mas as chamas não pareciam ser de fogo... Eram claras e amareladas: Como a magia branca descrita nos livros de fantasia. O salão se estendia verticalmente mais e mais... Até alcançar metros o suficiente para nenhuma escada comum conseguir alcançar. As marcas na parede em frente ao piano branco chegavam até uma grande pedra de cor azul claro... Era tão linda e perfeita, que qualquer madame bem afortunada daria todas as suas riquezas para tê-la. E por fim, o teto... Liso e escuro; como bronze puro, e enfeitado com uma esfera oval no centro. Bem ali: Na parte de baixo daquela esfera, havia uma janela. Misteriosa... Quieta e quase tão solitária quanto a criatura que em baixo se encontrava. Com sua luz branca, ela iluminava o piano que ficava no centro do salão. Olhar para a mesma era como encarar o fundo de uma estrela. Só havia branco... E nada mais.
Apesar de aquele castelo ser tão silencioso e sombrio, nem sempre foi assim. Houve um tempo em que o lado de fora emitia uma luz forte de verão pelas janelas. As torres não eram empoeiradas e com os cantos preenchidos de teias de aranha, e todas as salas eram enfeitadas com árvores verdes lotadas de frutos. No entanto, estes tempos já se foram, e tudo o que restava para a criatura naquele castelo tão grande, era o piano e sua música. Suas centenas de livros lotados de partituras dos mais diversos gêneros musicais... E uma estranha figura mascarada que nunca falava ou mesmo tocava; apenas se mantinha isolada numa biblioteca escura... Sempre buscando algo em sua mente, mas nunca encontrando o que quer que fosse.
Sentada em frente ao piano, a criatura olhava profundamente para as teclas enquanto repousava as pontas dos dedos sobre as mesmas. Não sabia o que tocar. Há quanto tempo estava ali...? Há quanto tempo não via um rosto...? Não expressava o que havia dentro de si? Não se sentia de fato... Vivo? Era como se tudo ao seu redor crescesse lentamente; como vinhas que ignoram as limitações impostas por humanos que não as desejam, e continuam dominando tudo o que há pela frente. As vinhas cresciam... Mas a criatura não. Infelizmente, seu anseio era algo além do que aquele castelo silencioso poderia oferecer. A criatura não tinha os olhos de um homem, e nem mesmo o rosto de um, mas seus intensos sentimentos de solidão e esperança não precisavam de um olhar ou de expressões para contagiarem aquele lugar. Apenas de música.
Faixa 02: Dream
https://youtu.be/_gsvE4Dy28o
Conforme a música fluía por seus dedos negros e ficava mais intensa; tomando conta de todo o castelo, era como se a criatura alcançasse aquela janela no alto do salão principal. Sobre uma acolchoada cadeira de madeira clara, ela tentava ver o céu... As nuvens... O sol. Conseguia escutar com clareza centenas de diálogos diferentes vindos de pessoas interagindo entre si; cada um transmitindo um sentimento, transbordando vida através de palavras e risos. No entanto, conforme subia, uma montanha de cadeiras empilhadas sobre uma árvore se formava... Até não poder mais avançar, e a criatura se ver novamente diante daquele piano. Nem mesmo a tentativa mais inspirada de chegar até lá teria alguma chance de sucesso. Mesmo que ele tentasse dezenas e dezenas de vezes... Não poderia sair dali. Sua liberdade não passaria de um sonho.
Até que tudo mudou... Quando a criatura viu a janela se abrir lá no alto.
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