Decode

2 Capitulo 1 - Inocência


Notas iniciais
Iria publicar apenas em 2014, mas um amigo me aconselhou a não esperar... de qualquer forma espero que goste da leitura e não se esqueça dos comentarios.

Eu estava sentindo um frio imenso na barriga, não conhecia ninguém na cidade inteira, muito menos na faculdade, não sabia onde era minha sala e muito menos como seriam esses dias. Depois de perguntar na portaria fui mandando ao sétimo andar na sala 702 do primeiro modulo.

Graças a Atena cheguei cedo, haviam cerca de seis homens na sala — sim, poucas mulheres fariam aquele curso — e então pude me dirigir para uma das ultimas carteiras no fundo, não nos cantos mas no meio da sala. Varias pessoas foram chegando e se acomodando em lugares distintos enquanto isso.

Duas garotas entraram conversando bastante e se sentaram do meu lado, elas pareciam já se conhecer. Ao meu lado direito se sentou um garoto magro mexendo no celular que cumprimentou as garotas, mais a minha esquerda, ao lado das duas garotas se sentou um garoto que usava óculos e tinha cara de Nerd e ao lado dele um garoto moreno com físico mais forte e cabeça raspada.

Não demorou muito para o professor de Linux entrar na sala. Ele era um cara baixinho e careca que carregava uma pasta enorme nas mãos. Ele jogou a mesma sobre a mesa e começou a coçar o nariz desvairadamente.

– Olá senhores, meu nome e Alan e serei seu professor do Sistema Operacional Livre – o professor parou de falar para coçar novamente seu nariz – nesse primeiro modulo estudaremos profundamente Linux e suas variações desde os primórdios de sua criação.

Do meu lado a menina loira começou a cochichar com sua amiga – é May, estou vendo que refaremos toda a matéria de novo. – Não consegui ouvir qual foi à resposta da amiga, mas fiquei bem curioso, isso queria dizer que alguns dos alunos ali não eram tão "novatos" quanto eu.

Estava me sentindo completamente perdido e as explicações dadas nessa primeira aula foram muito vagas. O professor explicou o surgimento dos primeiros computadores, contou que os principais projetos saíram de faculdades, contou sobre o desenvolvimento da rede e os projetos falhos em relação à inteligência artificial e exaltou até que um dos grandes mestres nessa área extinta era o pai do reitor da faculdade.

Agora era hora do intervalo, eu fiquei sentado vendo todos saírem da sala, eu não conhecia ninguém, não senti vontade de explorar o lugar. No final apenas ficaram o garoto forte e o Nerd na sala, os dois mexendo em seus celulares, não houve conversa nenhuma entre nós até que alguns minutos depois um homem já mais velho entrou na sala.

– Oi pessoal, essa aqui é a sala de sistema de informação não é? – disse o homem puxando assunto, obviamente outro sozinho querendo fazer amigos.

O Nerd ajeitou seus óculos e olhou para mim e para o outro garoto, depois disse baixo – não essa aqui é a sala de ADS.

Eu e o outro garoto confirmamos. Apesar de os cursos de sistema de informação e analise e desenvolvimento de sistemas serem bem parecidos não são o mesmo curso, um se foca mais em rede e suas variáveis, o outro trata do desenvolvimento de programas em grande parte home Office e analise obviamente.

– Não, essa aqui é a sala de Sistema de informação sim, eu confirmei com o pessoal da reitoria – afirmou o cara. Sabia que ele só queria puxar assunto.

– A gente teve aula aqui agora, essa é nossa turma – disse o garoto fortinho sentado do lado do Nerd.

– Acho que vocês estão na sala errada, vocês confirmaram em que salas vocês teriam aula hoje? – disse o homem com ar de superioridade, e só pra esclarecer, eu nunca mais o vi.

Nós nos entreolhamos e não foi preciso dizer que nenhum de nos pensou nesse fato. Logo nos levantamos e saímos correndo da sala, então aproveitei pra puxar assunto — Caramba eu viajei completamente, esqueci que faculdade tem dessas coisas.

– Não foi só você, vamos para a sala dos professores, lá eles devem saber informar pra onde devemos ir – disse o Nerd.

– Só tem um problema – exclamou o outro enquanto chegávamos às escadas – eu não tenho a mínima ideia de onde é.

– Fica no segundo andar – disse o Nerd, antes que eu pudesse dizer que eu também não sabia – eu tive que ir lá algumas vezes, sou bolsista e tem muita burocracia viu, alias, meu nome é Will.

– O meu é Luiz — disse o outro.

– Eu sou Jonas, que ótimo primeiro dia de aula, já pagando mico – exclamei rindo, bem sem graça na verdade, que piada ridícula.

Logo chegamos à sala dos professores. Depois de enfrentarmos uma fila com oito pessoas podemos pedir informações, e advinha, realmente estávamos na sala errada, à próxima aula seria no laboratório doze no segundo andar mesmo.

– Como isso funciona então? Cada professor tem sua sala na faculdade? – perguntou Luiz enquanto caminhávamos para o laboratório.

– Parece que sim, não são todas as faculdades que funcionam dessa forma – respondeu Will – mesmo assim estranhei, as aulas que tivemos ontem foram todas naquela sala lá em cima.

Entramos na sala e fomos para o fundo, era o único lugar em que haviam cadeiras vazias. Sentados no fundo também estavam as duas garotas e o garoto que as cumprimentou mais cedo.

Nesse laboratório cada aluno recebia um notebook, era aula agora de sistema operacional proprietário/Windows. O professor Thiers começou a explicar como funcionava e como o Windows havia surgido, a aula foi tranquila até que foi interrompida pelo coordenador do curso, Marcos Uchoa.

– Boa noite a todos vocês – ele nos cumprimentou com um sorriso — eu já me apresentei no primeiro dia de aula, e pra quem ainda não me conhece meu nome é Marcos e eu sou o coordenador do curso de vocês, tudo que precisarem resolver será comigo.

– Bom, eu venho aqui pra dar um noticia – continuou ele — ela é boa e ruim ao mesmo tempo. Como vocês puderam perceber a sala de vocês esta muito cheia, na verdade, ela esta com mais alunos do que o sistema da faculdade aceita, então para resolver esse problema eu terei que mudar quinze alunos deste modulo, eles serão remanejados para o segundo modulo.

– Como assim remanejados para o segundo? – perguntou o garoto que estava sentado do lado das duas garotas – é isso mesmo que eu entendi? Vocês vão tirar quinze alunos do primeiro modulo e jogar no segundo? Como vocês podem fazer isso? – quis sabe ele começando a discórdia, a primeira de muitas se quer mesmo saber.

– Olha, eu sei que parece injustiça, mas não podemos manter uma turma deste tamanho. A única solução plausível é fazer esse remanejamento, mas quem for mudado não precisara se sentir prejudicado, as matérias de cada modulo não tem ligação direta umas com as outras – disse o coordenador.

– Como assim não tem? Como eu posso pegar a matéria do segundo sem ter feito a do primeiro? – disse outra garota que estava sentada na frente.

– As matérias do primeiro modulo são matemática computacional, sistema operacional proprietário e Livre, inglês computacional e arquitetura de softwares. As do segundo são praticas de programação estruturada e programação estruturada, banco de dados, redes e gestão de empresarial, elas não são correlacionadas – disse marcos em um tom firme.

– Isso não pode funcionar desta forma, eu não estou aqui de graça – disse a garota da primeira fileira se exaltando – minha mensalidade paga seu salário.

Marcos não mudou sua feição nem seu tom de voz e a respondeu – Não, quem paga meu salário é a faculdade, se você amanha ou depois resolver se retirar da faculdade meu salário continuara sendo o mesmo, e se essa é a sua ideia, pode ficar a vontade senhorita, ficarei feliz por ter sua vaga aberta.

– Nossa – disse baixinho. Pelo menos na minha concepção porque logo em seguida Luiz e o Will me olharam rindo muito.

– Eu estou com a lista aqui com os nomes dos alunos, se seu nome estiver na lista, por favor, se retire da sala e encaminhe-se para a sala dos professores — Um clima tenso pairou, ninguém queria ter seu nome na lista.

– André Luiz, Augusto de lima, Bruno Silvestre, Breno Juliani, Camilo Diniz, Daniel Moreira, Glauro quintão, Jordan Gomez — eu me senti aliviado. Dei um suspirou e me ajeitei na cadeira, eu não queria ir para o segundo modulo, imagina só que dureza?!

– Ludmila Madeira – continuou ele. Então uma das duas meninas se levantou com cara de assustada.

– Luiz Gustavo – disse o homem para meu completo desprazer, minha cara foi no chão. Luiz não expressou nada, apenas se levantou da cadeira e se dirigiu a porta, firme, e sem olhar para trás.

– Marcelo de Souza, Nuno Felix, Thiago Túlio, Willian Ribeiro – disse ele. Que droga o Will também? Era bem o que eu precisava. O que eu faria agora?

– E por fim Woshington Dias – terminou ele. Os alunos foram se retirando um a um da sala. Quando Ludmila saiu da sala a garota que estava com ela e o garoto foram juntos, eles pareciam bem exaltados e dispostos a brigar.

Fiquei sem lugar, eu só havia conversado com Will e com Luiz, como poderia os deixar ir assim? Serrei os punhos e pensei comigo mesmo — Eu sei que vou me arrepender disso – já me levantando da mesa estendida e indo atrás dos dois.

Chegando à sala dos professores a primeira coisa que vi foram os dois amigos de Ludmila discutindo com Marcos, e logo mais atrás estavam Luiz e Will sentados.

– Vocês não vão brigar também não? Como vocês podem aceitar isso? – disse mais alto do que devia, fazendo com que todos da sala me olhassem.

A garota morena amiga de Ludmila logo gritou também – Ta certo, não podem nos separar assim, isso não é certo, é o segundo modulo.

Luiz se levantou e foi para o lado da garota – Olha aqui eu não vou ser despachado assim, eu não vou pra segundo modulo.

O resto das pessoas que haviam sido chamadas não se manifestava, pareciam já ter aceitado aquela situação. Marcos se exaltou e chamou o grupo que estava causando desordem para sua sala que ficava em outra parte da faculdade, no caso nos. Nos seis fomos levados de mal grado até lá, o mais rápido que o coordenador conseguiu.

– Olha aqui, eu já os disse, eu não posso simplesmente deixa-los lá, o sistema da faculdade não aceita mais do que 50 alunos em uma turma. Não há outra turma de primeiro modulo, ou vocês vão pra o segundo ou só poderão voltar a estudar no próximo semestre quando outra turma se formar. É isso que vocês preferem?

Todos se entre olharam, não pensamos que chegaria a esse ponto, nessas horas todo mundo pede arrego né? Todos ficaram quietos por alguns segundos.

– Eu vou ficar sozinha no segundo modulo – disse Ludmila se sentando numa cadeira.

– Não vai, olha seus amigos ai, eles vão contigo – disse Marcos.

A garota morena resmungou e depois falou — nós não fomos remanejados, só a Lud.

– Pera ai, vocês estão fazendo esse inferno e nem foram remanejados? Quem foi remanejado aqui? – perguntou Marcos revoltado.

Apenas Lud, Luiz e Will levantaram as mãos, Marcos serrou os olhos e perguntou o nome dos outros, eu fui o primeiro a responder, depois a garota morena se apresentou, seu nome era Mayara, e em seguida o garoto, ele se chamava Luan.

– Olha aqui, é o seguinte, não da pra manter todos no primeiro modulo, o melhor que temos a fazer então é mandar todo mundo pro segundo. Vocês vão me dar mais três vagas no primeiro e todos sairão felizes – disse Marcos já abrindo o programa da faculdade no seu computador.

– Vocês fariam isso galera? – disse Lud olhando nervosa para todos. Luan e Mayara logo se dispuseram a se mudar, Will e Luiz não disseram nada, mas olharam para mim.

Mais uma vez gelei, e respondi – Eu to com vocês, borá então pro segundo – mas o que ele realmente queria ter dito foi – “Me ferrei”.

Depois de pegar os dados de todos e de mexer alguns “pauzinhos” nos fomos mandados para o segundo modulo A diferente de todos os outros alunos, que foram para o B. Marcos imprimiu os horários e as salas para cada um de nós e nos acalmou frisando novamente que as matérias do primeiro não interferiam no segundo, e no próximo semestre faríamos o primeiro e depois voltaríamos direto pro terceiro.

Nosso grupo então saiu da faculdade junto, do que adiantaria assistir aula do primeiro semestre se nos só veríamos isso meses depois? Na porta da faculdade então nós nos apresentamos direito.

– Então vamos todos pra casa? – perguntou Luiz.

– Olha, eu não tenho nada pra fazer, ainda faltam tecnicamente uma hora e meia até a aula acabar, o que acham de sair e tomar alguma coisa – disse Mayara.

– Eu topo – disse Luan junto de Lud.

– Olha, eu não sei – disse Will meio nervoso.

– Para Will, já estamos ferrados mesmo, borá – disse eu tentando anima-lo.

Nos paramos em um barzinho não muito longe da faculdade, aqueles de beira de rua que eles colocam as mesas na calçada, um lugar bem bacana. Tomamos quatro cervejas e eu estava com notebook em cima da mesa mostrando o projeto que estava preparando em casa, um programa que convertia linguagens de programação.

Na programação existem vários tipos de linguagens, como C#, C++, COBOL e as mais conhecidas como PHP e Java pelas pessoas normais, e sim, não é normal quem faz computação.

Luan foi o mais interessado em saber o funcionamento do software, ele nunca tinha visto nada do tipo, e sabia que aquilo poderia ser um avanço muito lucrativo. Mas a diversão e o interesse de todos pelo meu projeto foi interrompido por algo inesperado.

As luzes do barzinho começaram a piscar, junto com as dos postes e as de todos os prédios ao redor, ouvimos um som estranho e de repente um apagão começou.

– Caramba, isso esta acontecendo direto, eu vi uma reportagem sobre isso na TV hoje antes de vir pra faculdade – disse Will se levantando da cadeira.

Mas algo muito mais estranho estava para acontecer, correntes de eletricidade começaram a vir dos fios de alta tensão para a rua e se concentrar em um único ponto. Nosso grupo e varias outras pessoas na rua começaram a correr, os carros que passavam tentavam dar ré e fugir dali. As únicas luzes ali eram os e raios que se juntavam, os faróis dos carros agora já mais distantes e o meu notebook.

Uma forma então começou a se criar em meio aos raios, primeiro algo luminoso e enorme, mas aos poucos a corrente elétrica se dissipava e a criatura se tornava mais física. Todas as luzes em volta se extinguiram por um instante, meu coração estava batendo a mil, e May falava sem parar atrás de nós, nos chamando para irmos embora.

A criatura então soltou um berro ensurdecedor em meio à escuridão, Ludmila e Mayara gritaram juntas. Eu tomei o Notebook as mãos e tentei ver a criatura, o enorme vulto vinha em nossa direção.

Eu virei à tela do meu notebook em direção a enorme criatura, e iluminada por uma fraca luz finalmente pude ver como ela era. Dei um enorme grito grande percebi do que se tratava.

– “Metalgreymon” – eu simplesmente não podia acreditar no que via. Um enorme dinossauro ciborg azul na minha frente, quase preenchendo toda a avenida.

A criatura deu um passo na nossa direção, fazendo o chão tremer e o coração de todos gelar — mas se ele esta azul é um Digimon vírus, não pode ser possível – disse quase sem voz – não pode ser verdade, isso não deveria existir, como pode?

Ludmila colocou a mão no meu ombro tentando me puxar – anda logo Jonas, vamos – disse ela, era possível sentir a angustia em sua voz.

Um enorme raio de luz luminoso então veio do alto, acertando em cheio Metalgreymon o fazendo cair.

A criatura caiu do chão esmagando varias mesas e derrubando um poste de luz. Outra criatura então apareceu no alto, era um enorme monstro amarelo, ele parecia uma nave, um caça tipo aqueles da força aérea talvez, não era possível identificar naquela escuridão.

Logo a criatura desferiu outro raio, Metalgreymon não tinha chance de se levantar — vem Jonas, temos que sair daqui – disse Will que havia surgido do meu lado do nada. Foi quando percebi que todos já haviam se afastado, inclusive Lud.

– Eu não vou — disse com o Notebook na mão – é um Metalgreymon, não posso deixa-lo, ele esta sendo atacado – respondi desesperando-me. Corri em direção ao enorme Digimon, meus olhos só podiam estar me traindo, eu estava quase surtando.

– Metalgreymon – gritei colocando a mão no rosto do enorme Digimon vírus que abriu os olhos e olhou diretamente para Will, eu olhei para trás confuso, o garoto estava estático, paralisado, aquilo era medo?

Antes que qualquer um dos dois pudesse ter qualquer reação outro raio atingiu Metalgreymon fazendo com que parte dos seus dados desaparecesse. O enorme Digimon urrou ainda encarando o garoto e logo em seguida começou a se transformar em dados.

Eu comecei a berrar — “Metalgreymon”... “Metalgreymon” – aquela poderia ser a única oportunidade de ver algo assim na minha vida, as escamas azuis do Digimon eram frias e duras, sua respiração estava pesada, e por todo seu corpo dados se desprendiam.

Luiz correu até mim e Will e nos puxou a força, fazendo meu notebook cair, quando o mesmo se encontrou com o chão sua tela começou a brilhar e os dados de Metalgreymon desapareceram.

Eu cai no chão junto com Luiz. Os postes então começaram a acender novamente e alguns segundos depois Mayara e os outros já estavam em cima de nos, a criatura no céu desapareceu em seguida, minha cabeça girava.

Eu fiquei berrando por algum tempo o nome do Digimon, andei em volta do asfalto quebrado procurando qualquer coisa que fosse. Minha única chance e eu a havia perdido. O pessoal tentou me acalmar por mais de uma hora até que finalmente aceitei o fato de que aquele Greymon não era meu Digimon, e que “puta merda” Digimons existem.

À volta pra casa naquela noite foi muito mais rápida do que de costume. Antes que a policia chegasse ao lugar nos saímos, e a minha cabeça estava a mil por hora. Quando entrei no apartamento não consegui prestar atenção em nada do que minha tia me perguntava, sobre como havia sido pra chegar à faculdade, como havia sido o primeiro dia.

Mas eu sabia que aquilo seria o começo de algo maior e que eu não poderia simplesmente deixar ela “no vácuo” então me forcei a me acalmar e a respondi da melhor forma possível. Ela não poderia imaginar o que eu havia acabado de passar comigo, e nem devia.