Notas iniciais
Certas habilidades parecem ineficazes.

Já adianto que não dá pra ficar pior.

Segui os dois elfos mais imponentes até a entrada do que parecia ser uma fortaleza erguida dentro de uma cadeia de pedras, ocultada pela própria natureza. Eu tremia dos pés à cabeça, pouco confiante em relação à capa de invisibilidade barata e a sensação de que seria pega a qualquer instante. De todo jeito eu precisava de firmeza e concentração pra achar Bilbo e libertar os anões.

Simples, não? Decididamente, não.

O lugar era enorme. E, como toda propriedade grande e desconhecida, confusa. Centenas de escadas encaracoladas se estendiam pelos níveis superior e inferior, para onde foram levados os meus companheiros de viagem. Em grupos, a comitiva foi separada e presa dentro de cavernas, engaiolada numa estrutura intransponível. Tão logo os elfos se afastaram os anões começaram a se debater contra as grades, desesperados. Quieta e escondida num canto, vi Kíli ser trazido para a prisão acompanhado da mulher ruiva.

– Você não vai me revistar? — perguntou ele, sagaz. — Posso ter alguma coisa dentro das calças.

Ah não, isso é sério?

– Ou nada. — rebateu ela sorrindo de sua feição desolada ao trancá-lo da mesma maneira.

Apertei as mãos na boca pra reprimir as gargalhadas, tentando conjurar um alohomora para destravar a fechadura. Não sei o motivo, mas já sabia internamente que não iria dar certo. Sei lá, seria muito fácil, as coisas aqui gostam de ser categoricamente complicadas.

Esperei por uma oportunidade, e ela não demorou a surgir. Do outro lado, dois pavimentos acima, o elfo loiro e lindo tirava Thorin do confinamento, cercado por mais alguns guerreiros. Como eu gostaria de poder aparatar! Corri pelos degraus para segui-los, surpresa por não ter caído nem feito algum barulho significante, e fomos todos levados a um salão no meio exato de todo aquele reino. Agora eu podia notar sua beleza ímpar: as transcrições douradas em umbrais, toda elevação cônica cheia de afrescos no topo, aberturas especiais para passagem de luz que brilhavam diretamente em painéis de vidro colorido, bem medieval.

Uau, me passa o telefone do arquiteto responsável?

Sentado confortavelmente num trono mega esquisito estava o rei. Como eu sei? Bem, quem usa uma coroa — ainda que feita de azevinhos e pareça mais uma galhada — é provável que seja rei. Ou não? Essa coisa de realeza não é comigo, mesmo nascida em Londres, a rainha Elizabeth pra mim só representa a hora de parar as tarefas e tomar chá. Ah!, claro, e seu aniversário é feriado nacional.

Observei a conversa dos dois, e adivinha? Thorin também era rei. Tá bom, não oficialmente, pois seu reino tinha sido tomado pela fúria de um dragão e seu povo destituído da terra natal. Vagaram solitários em busca de oportunidades de trabalho no mundo dos homens; antes poderosos agora jaziam sem absolutamente nada. A missão era recuperar a Montanha Solitária, Erebor, seu lar e domínio, e para isso teria que enfrentar o bicho adormecido há sessenta anos em meio de pilhas e pilhas de ouro.

Anota aí, Nelly: Thorin Escudo-de-Andiroba tem mais de sessenta anos.

Ah, e detalhe, primeiro tinha de roubar uma pedra perdida que lhe daria o direito de governar. Os olhos azuis espetaculares de Thorin brilharam à menção da tal Arkenstone. Que beleza, heim?

– Há gemas na montanha que eu também desejo. Gemas da pura luz das estrelas. — divagou o outro. — Eu te ofereço minha ajuda. — acrescentou.

O líder da companhia sustentou o olhar intrigante e injetado do elfo.

– Estou ouvindo. — respondeu gravemente.

– Deixarei que partam a seu destino, se devolver o que é meu.

Thorin virou-se, caminhando em círculos.

– Um favor por um favor.

– Você tem a minha palavra. — assegurou o loiro. — De um rei para o outro.

Essa jogada foi pesada, colega.

– Eu não acreditaria na palavra de Thranduil, grande rei, nem que este fosse meu último dia! — ralhou. — Você não tem honra!

Thorin o fissurou enquanto continuava a bradar sobre descaso dos elfos no dia em que o desastre aconteceu, negando ajuda e ignorando o sofrimento dos anões. Sua voz soava rasgada entre tantos sentimentos e, depois de atirar alguns termos incompreensíveis (para mim, óbvio), o elfo aproximou o rosto impecável se transmutando numa cicatriz profunda causada pelas chamas de uma besta do norte. Na boa, eu não sabia de quem eu sentia mais pena, apesar de todo o abandono, era nítido que aquela marca não tinha sido gratuita. Eu conseguia ver o lado de Thranduil, poupando sua própria gente de se machucar visto a impossibilidade de vencerem, e não o julguei.

Mas, e os anões?

Hora de agir, Nelly.

Depois do show de ódio, os guardas encaminharam Thorin de volta à cela. Fiquei atenta ao molho de chaves pendurado no cinto de um dos mais jovens elfos, ansioso por razões desconhecidas, até eu descobrir que ia rolar uma festa mais tarde. Eles se reuniram num espécie de armazém particular que continha muita, mas muita bebida.

Finalmente um pouco de sorte.

Ok, precisava ser ágil para preparar uma quantidade adequada de poção do sono. Arranjei um lugar seguro para despir a capa e conferir os ingredientes necessários, satisfeita por ter carregado sem querer o livro de feitiços caseiros. Simples e poderosos. Infelizmente o conteúdo rendeu apenas um copo, o que devia ser suficiente pra botar aquela trupe pra dormir por uma ou duas horas. Despejei o líquido dentro do primeiro barril da sequência, completamente cheio, e conferi o caráter homogêneo da mistura antes de sumir dali.

Passado algum tempo entendi o que Be-horn queria dizer quando comentou o fato dos elfos da floresta serem menos inteligentes que seus parentes. Eles beberam tudo sem sequer notar qualquer estranheza. Aliás, o sabor adocicado da poção juntamente com o vinho deve ter atiçado o paladar deles, uma vez que distribuíram a bebida rápido demais.

Não contei um minuto até que estivessem todos dormentes.

O carinha das chaves foi tranquilo de encontrar. Com exceção das chaves. De repente não estavam mais ali. Impossível, já que eu havia calculado perfeitamente o momento exato de tomá-las e, num átimo, desapareceram. Opa, essa não foi a primeira vez que eu olho uma coisa lá e do nada ela some.

– Bilbo! — chamei alegremente ao avistar o hobbit descendo até a adega seguido pelos anões.

– Nelly? Como chegou aqui?

– Er... — desculpas esfarrapadas modo: online. — Na verdade eu não sei, estou perdida.

– Isso não seria novidade. — concluiu o pequeno, dando de ombros. — Silêncio! — pediu aos anões. — Ouçam, vocês têm que confiar em mim. Entrem nesses barris.

Todo mundo olhou pra ele com total descrença e pouca credibilidade. Tipo, o que?

– Por favor, por favor, eu prometo que vai dar certo, só entrem nos barris, agora! — Bilbo fitou Thorin aguardando uma posição.

Não havia outra escolha, eu acho.

– Façam o que ele diz. — falou por fim.

Nos empoleiramos até que todos estivessem dentro dos barris, como foi pedido. Protegi minha bolsa o máximo que pude, ao abrir o compartimento de descarga fomos jogados rio afora numa vasta correnteza. Bilbo veio por último e sem barril, tadinho. Não esquecerei esse ato de sacrifício.

Os elfos-nada-domésticos notaram o silêncio em suas prisões, correndo para nos alcançar do lado de fora já anunciando o fechamento do portão que nos daria a tão esperada liberdade. Daí o corpo inerte do que segurava a alavanca caiu sobre nós.

– Orcs! — revelou Thorin.

Preste a xingá-los, notei que parte deles batalhava contra criaturas horrendas e desfiguradas, as habilidades incríveis dos homens-fada quase ineficazes para combatê-los. Evidente que as aranhas não possuíam tais práticas de guerra.

Ou que seus reflexos foram diminuídos por conta da poção mágica do sono.

Me-le-ca.

Notas finais
Voltamos! Okay, sinto que devo me desculpar por essa semana angustiante sem atualizações, mas devido a meu histórico de saúde não pude mover mais que meus olhos e, acredite, isso já era um sacrifício imenso. Naty ficará responsável pelo próximo, segundo seus apontamentos muito (nem um pouco) importantes, falta romance nisso aqui. (Eca) Qualquer coisa estou a disposição para uma enquete em manifestação do humor. Um beijinho de longe, Ana.