Notas iniciais
Tem pomada pra todo mundo!

Ai meu Merlin, vamos todos morrer.

Apesar de meu raciocínio estar um tanto conturbado, não demorei pra entender que o alvo do ataque éramos nós. Sim, nós, porque eu também fazia parte desse grupo de gente diminuta presa em barris de vinho, lutando contra a correnteza impedida pelas grades do portão. As opções pouco favoráveis não intimidaram Kíli, pegando impulso no ombro do irmão e, sem qualquer armamento, subiu na escada de pedras sobre a barreira, mirando a alavanca.

Meu olhar desperto já pulsava de alegria, quando uma flecha certeira atravessou a perna do nosso suposto salvador da vez. Ele gemeu de dor e caiu no chão um pouco antes de alcançar a barra, e não tinha como se defender. Não, não, e não! Em um segundo já estava com a minha varinha em punho — e encharcada, disposta a estuporar qualquer ameaça que pairasse sobre o jovem anão. Um dos orcs veio e, antes que eu lançasse o feitiço, outra flecha cruzou o ar bem no meio da testa dele.

É isso aí, galera! A união faz a força.

A elfa loira chegou chegando com toda a armada de Mirkwood a suas costas, o homem-fada mor atirando freneticamente contra as criaturas das trevas. De tão feios, se eu tivesse que escolher, preferia ser um Dementador. Até um trasgo seria mais razoável.

– Kíli! — gritou Fíli. Sem delongas o rapaz se ergueu como pôde, pendendo para o lado esquerdo, puxando a alavanca com força e nos libertando. A correnteza não nos impeliu mais, por fim, ele pulou de volta ao barril deixando a flecha para o lado de fora.

Arg, deve ter doído tipo, muito.

Podia ser divertido se não fosse trágico. Descemos toda a colina numa aventura alucinante em barris: imagine uma montanha-russa sem qualquer margem de segurança, freios ou coisa do gênero. A mercê da inércia, eu diria. Ah, e é claro, com orcs nos perseguindo na encosta térrea, seguidos por elfos batedores. Sério, o que eu fiz pra irmandade dos bruxos pra merecer essas coisas?

Bate no barril do colega, afunda, bebe um pouco de água pelo nariz, afunda de novo, ops, desculpa Dwálin!, afunda e... Cadê o Bilbo? O pobre hobbit tentava se equilibrar junto ao barril de Ori, mas a correnteza unida ao terreno íngreme não o deixava parado por muito tempo. Num instante mergulhava, no outro surgia desesperado por ar. Eu sei, é complicado, porém precisamos respirar. Fosse a adrenalina ou a quantidade de água em meus pulmões eu não suportaria por mais alguns minutos aquela situação.

– Cabeça de bolha! — conjurei, sentindo meu rosto envolver-se numa película confortável e cheia de oxigênio. Obrigada, professora Minerva, por ter me ensinado tão bem a incrível arte da transfiguração.

Pensei logo em fazer o mesmo com Bilbo, não o avistando. E também, acredito que ele ficaria mais assustado que agradecido, dadas as circunstâncias. Me enfiei para dentro o máximo que consegui, franzina como era, agarrei a mochila em sua base menos permeável para tentar protegê-la da umidade que consumiria todo meu material. Os livros de magia, oh, que tristeza. Não quero nem pensar em quantos galeões estou devendo a Biblioteca.

– Cortem o galho! — berrou Thorin para os olhos, passando o único machado de anão para anão até que a tora que sustentava uma leva de orcs desabou no riacho.

Numa arriscada ousadia, levantei-me desfazendo a bolha. Havia elfos e anões por toda parte, brigando incessantemente e, por sorte, os homens-fada desempenhavam seu papel com maestria, aniquilando o inimigo mesmo que ele se acercasse mais e mais. É claro que a comitiva teve sua participação, mesmo que reduzida pelas condições de viagem. Lá estava Bilbo Bolseiro, segurado por Bálin pelo colete vermelho vinho.

– Tchau, senhor Malfoy! — acenei com um sorriso para o homem-fada líder com os cabelos loiros impecavelmente lisos lhe caindo os ombros, os olhos azuis semicerrados de ódio. Acho que não preciso explicar o motivo do apelido, né?

Chegou um ponto que era impossível continuar andando. Os elfos pararam na clareira observando nossa partida, injuriados. Poxa, e isso é ruim? (ironia) Não, que isso! (/ironia) Os orcs continuaram através do desfiladeiro para seu objetivo final: nos matar. Em breve nos encontrariam e eu espero sinceramente não estar nauseada mesmo depois de rolar rio abaixo.

Eu definitivamente não devia ter pensado nisso.

– Finalmente! — alegrou-se Nori ao pisar na terra, pulando do barril. Tentei fazer o mesmo e, adivinha? Claro, dei de cara no chão.

– Nunca estive tão enjoada na vida. — reclamei com a mão na boca. — Nos dê dois minutos, Thorin. Por favor.

– Não temos dois minutos, Nelly. A escuridão não tarda, e tão cedo seremos encalçados por orcs! — rebateu ele com sua voz de baixo profundo. Certeza de que com a Mulher Gorda fariam um belo dueto operístico.

Só que não.

Kíli se livrou das botas molhadas, suspirando profundamente ao tocar a ferida. Na boa, o negócio tava muito feio. Além do buraco causado pela flecha havia uma beirada já necrosada indiciando infecção. Tadinho, tadinho, tadinho... (tadinho!)³

– Não é nada. — recompôs-se a medida que Óin tentava tratá-lo. — Eu estou bem. — assegurou.

– Posso ajudar! — propus num átimo, tirando da mochila (uns cinquenta quilos mais pesada) a pomada cicatrizante. — Permite?

Fíli chegou mais perto do irmão, tocando-lhe o ombro. Um sinal oculto nada oculto de que tudo estava péssimo.

– O que é isso?

– Pomada cicatrizante, Fíli. — respondi já aplicando uma dose generosa no ferimento. — Não sei o quanto será útil, para todo caso deve amenizar a dor. — finalizei o curativo arrancando um pedaço do meu próprio casaco e selando-o na perna do anão.

O loiro inclinou a cabeça em sinal de agradecimento, enquanto Kíli tentava disfarçar que precisava, sim, de cuidados. É machismo demais pro meu gosto.

– Cadê o Thorin? — Bilbo parecia mais desnorteado que eu.

– Foi se curar sozinho. — respondeu Dwálin grosseiramente. O hobbit nem ligou e voltou a se secar. Ou quase.

Pode parecer besteira, mas senti que precisava fazer o que estava fazendo. Bem longe da companhia, Thorin Escudo-de-Carvalho torcia suas roupas num ritual solitário. Não parecia abalado ou, como eu, enjoado por causa da descida, muito menos inepto para prosseguir. Firme e forte, como sempre. Aliás, põe forte nisso.

O peitoral ultra-definido do anão era invejável. Para mim, jovem donzela criada entre quatro paredes (e alguns salões bem vigiados) aquela cena era basicamente erótica: o movimento rude dos braços a pressionar a roupa era de pura masculinidade. Ok, eu sei que olhar não dói, mas o meu olhar nele podia perfurá-lo mais do que a flecha orc na perna de Kíli. Chega, Nelly, tá ficando estranho.

Ah! A propósito, pobre Bofur! Perdeu o chapéu...

– No que está pensando? — indagou o rei meio despido.

Será que dá tempo de correr?

– Nessas escoriações. Parece que você enfrentou, sei lá, um dragão norueguês.

Boa Nelly! Você podia ter usado qualquer palavra, mas usou dragão. Nota dez pra sua estupidez.

– Foram causadas pelas garras afiadas de um warg. – (?)

– Hmmm.

Thorin se aproximou lentamente de mim, as cicatrizes mais nítidas. Morra de inveja, Potter.

– As marcas te incomodam? — continuou ele roucamente. Isso é sexy, pode parar ou vou enlouquecer.

– A mim? Oh, não, mas devem de ser bem desconfortáveis pra você.

Ele parou, olhando para cima no fundo dos meus olhos. Já comentei quão lindos são seus olhos azuis?

Concentração: mode off.

– Hmmm.

– Olha, — disse meio confusa. — se quiser pode passar isso aqui. — estendi a pomada, trêmula.

– Me faria esse favor?

Oi? Quer dizer:

– Tá.

Afinal, tem pomada pra todo mundo.

Notas finais
A história está quase chegando no fim. Mas tenho uma notícia boa: Os prometidos 10 capítulos sofreram mutação e agora são 11. Pois sim! 10 capítulos regulares e um epílogo porque EU NÃO SOU OBRIGADA. Tá, eu sou. De qualquer forma o próximo está sob responsabilidade da autora da conta, Ana Bonagamba. Meus serviços por hora não são mais necessários. Obrigada, de nada. (Eu sei que estão felizes pela cena com o Thorin, safadinhos! ~) Há ainda um restinho que terá de ficar para o capítulo seguinte, mas calma que vai dar certo! Infelizmente o padrão recomendado pra esse tipo de desafio é até 1300 palavras. Sorry pelo disappointment. Um beijo frutado (podem chegar mais perto, não estou com dengue) N.M.