Decididamente, não!
10 Festa.
Notas iniciais
Destaque para o comentário "Isso não tá me cheirando bem" do capítulo anterior.
A propósito, o cheiro era de peixe.
– Entrem nos barris. — ordenou Bard urgentemente. Ninguém deu moral para o pobre homem. Inclusive eu. . — Se não entrarem, não haverão de passar pela vigília da Cidade do Lago. A tudo o mestre condiciona. Andem logo! — Bard pediu o dinheiro prometido, com alguma recusa, Bálin entregou-o a ele inspirando o máximo de confiança.
Thorin ergueu-me sem dificuldade, apesar de eu ser notoriamente mais alta que ele — porém infinitamente mais leve. Um gentlemen, vai, eu mereço. Terei o maior cuidado do mundo para não me apaixonar por seus belos olhos azuis, os cabelos negros compridos e desgrenhados, a expressão séria, o toque quente...
Onde estávamos? Ah, sim, peixe!
De repente um cardume de sardinhas foi jogada sobre nós. Nos ajeitamos novamente dentro dos barris,e agachei-me para ficar completamente oculta diante de tanta meleca. Não era a única insatisfeita: os ruídos de indignação eram vários.
Eca.
Segui meu próprio conselho de ficar imóvel e quieta, ouvindo unicamente o barulho do remo tocando a água do lago. Aos poucos o barco perdeu velocidade e, por fim, aportou. Bard dialogava com outro homem, sua voz continha pouca aflição muito bem mascarada e, diante das necessidades do povo da cidadela, logo estávamos de partida. Ou não.
Temi pelo que se seguia, enquanto outro homem, um tanto arrogante, discutia com nosso barqueiro a problemática dos peixes. Segundo ele, a única autorização escrita era validada apenas para barris vazios, e não cheios de sardinhas — literalmente — como estavam.
E daí alguém mexeu em mim.
Comecei a tombar para o lado, vendo os peixes mortos sendo atirados de volta ao lago, meu coração querendo sair pela boca num grito desesperado. Em segundos me descobririam. O homem arredio olhou para meu rosto desfigurado de medo e, antes que pudesse argumentar alguma coisa, lancei impetuosamente um Confundus no meio da testa, que o deixou atordoado. Foi tempo suficiente para que Bard o convencesse, diante da revolta pela situação que encontrava seus iguais, da fome e do descaso, que seria indolente de sua parte livrar-se de peixes saudáveis para consumo.
E que isso em nada agradaria o Mestre da Cidade.
Bastou para que ele se deixasse levar pelas palavras do barqueiro, ou apenas estava muito confuso para entender a situação. De um modo ou outro, nem ligo. Estávamos a salvo, finalmente.
Ou não tão finalmente assim.
– Desculpem. — queixou-se Bard, empurrando os barris com os pés para nos libertar. — A você, principalmente, não devia ter deixado passar uma presença feminina.
– Nelly é parte do nosso grupo. — protestou Thorin seriamente. — É uma de nós.
– Não estou debatendo o fato de estar na companhia de treze anões e, er, meio, digamos. — o homem lançou um olhar divertido a Bilbo, que se encolheu de desgosto. — Estou apenas avaliando o fato de ser uma jovem mulher humana.
– Estou de passagem. — inferi. — Não pretendo demorar muito antes de arranjar um modo de voltar de onde vim.
– Os anões devem ser cautelosos. Aguardem aqui, e eu lhes chamarei na hora precisa. — Bard tomou meu braço, conduzindo-me para uma escada de madeira. — Tenho um filho e duas filhas, é provável que a mais velha seja da sua idade. Pode oferecer roupas e companhia.
– Uma gentileza muito bem-vinda, obrigada. — respondi afetuosamente.
Já instalada na casa, de modéstia superior a de Be-horn, recebi de Sigrid e Tilda o máximo de atenção possível. As duas meninas apreciaram a estadia de uma terceira sem questionar, sabendo apenas o fato de eu estar perdida. Já tá ficando meio chato, né? Bem, num momento solitário, sequei minhas roupas com a varinha e livrei-me do cheiro de peixe. Pelo menos isso foi uma satisfação.
Na sala havia uma mesa posta, sustentando uma pequena panela de sopa rala. Meus olhos brilharam de adoração. Sigrid, a mais moça, notou minha inquietação e serviu numa tigela uma porção generosa para mim. Podia jurar que ali continha o suficiente para nós duas.
– Minhas queridas, podem me ajudar num momento? — pediu Bard, descendo até o sótão com as filhas. Assim que voltaram vi toda a companhia em seu encalço.
– Da onde vocês surgiram? — perguntei curiosa. A cara de nenhum deles era muito boa.
– Saíram direto do nosso toalete. – disse Tilda alegremente, julgada por seu estado de infantilidade.
– Não são grande coisa, mas os manterão aquecidos. — Bard entregou aos anões algumas cobertas surradas seguidas por um prato de sopa bem aceito.
A refeição, a roupa seca e a lareira me deixaram mole feito polenta. Sentei no beiral da janela, notando uma ou duas pessoas cruzarem as vias, contando os barcos, olhando o nada. Bifur se aproximou, tiquetaqueando, ansioso por continuar seu afazer. Entreguei o relógio a ele sem culpa, cansada demais para continuar.
A última coisa que senti foram as mãos calorosas de Thorin estendendo seu próprio cobertor nas minhas pernas.
–
Eu não dormi. Sério, eu hibernei. Abri os olhos tão convicta de que tudo o que passei foi apenas um sonho estranho que mal me dei conta do lugar que estava. Na mesma janela, o sol a pinho no céu, escondido por nuvens características de um inverno futuro e, entre meus dedos quentinhos, o futuro vira-tempo perfeitamente construído.
Obrigada, Bifur!
Apressei-me em realizar a mágica necessária. Não tinha muito tempo, e o silêncio da casa não duraria para sempre. Dissimulada, conjurei os feitiços silenciosamente, concentrada para não errar uma sílaba sequer. E estava feito.
Não ousaria sair do nada sem me despedir de todos, em especial o líder da comitiva. Thorin tinha despertado em mim um afeto superior ao respeito e por ele eu adiaria meu sumiço imediato. Ajeitadas as coisas, ergui a mochila nos ombros e me pus na porta da residência.
– Onde pensa que vai? — questionou um rapaz. — Meu pai ordenou que ninguém, em absoluto, saísse dessa casa.
Fitei o menino com ousadia.
– Então, cadê os outros?
Acho que por essa ele não esperava.
Fiquei sob cuidados das meninas até que Bard regressou, já era noite. Lá fora o inverno começava a dar o ar das graças, finos flocos de neve caindo em cascata nos cabelos do homem. Andava de um lado para o outro, preocupado e possesso, a face distorcida em temor. Acerquei-me, cautelosa.
– O que há?
Não respondeu, continuando o caminhar grotesco.
– Onde está Thorin? — insisti.
Grande erro. Bard explodiu em revolta.
– Ele não tem o direito! Não pode intervir na Montanha, será nossa ruína! Não deve despertar a fúria do dragão!
– Acredite em mim, acho que essa é a última coisa que ele deseja.
Bard sustentou meu olhar atribuindo-me total insensatez. Ótimo, agora, onde está Thorin?
Uma pedrada na janela onde antes eu dormia replicou minha pergunta. No nível inferior, Bofur bradava meu nome junto a um convite, o qual seria uma festa destinada aos benfeitores de Erebor provida por ninguém menos que o Mestre da Cidade. Tomei minha mochila em mãos uma segunda vez e me dirigi a saída.
– Vai mesmo a essa festa? — indagou Bard, incrédulo.
– Não. — falei convicta. — Vou apenas aproveitar a oportunidade para me despedir de todos. É hora de partir, de fato, mestre Bard. Obrigada pela amabilidade que encontrei aqui. A vocês, meninas — virei-me para ambas. — toda a felicidade do mundo.
Sigrid tomou-me num abraço caloroso, e naquele momento percebi que um dia a mais nos teria feito melhores amigas.
– Adeus. — atravessei a porta, levando uma rajada de vento gelado no nariz.
– Srta. Perdida! — gritou Bard. — Fique sóbria. — pediu, um tanto menos agressivo.
Tentarei.
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