Decididamente, não!

11 Falso epílogo - A volta dos que não foram.


Notas iniciais
Isso é tudo, pessoal.

Logo entendi o por quê de Bard estar tão preocupado com relação a bebida.

Bofur praticamente me arrastou até a entrada de um salão muito barulhento e perturbado. Em outro contexto eu sinceramente não daria a mínima, pois baderna e Nelly são quase sinônimos — uma das vantagens de ser maior de idade e frequentar periodicamente Hogsmead — mas quando atravessei a porta de madeira fui assaltada por um acesso de riso incontrolável.

Parecia o Baile de Inverno do quinto ano. Só que com a metade do espaço. E dez vezes mais gente. E muito álcool.

Isso sim é uma festa de despedida!

Encontrei o restante da companhia através de Bombur, que devorava ferozmente tudo o que se intitulasse "comida". Bálin e Dwálin brindavam em taças de prata, alegres o suficiente para dizerem algumas besteiras. Bilbo era assediado por seu porte diminuto e estranho a toda aquela gente, sendo o primeiro a me ver chegar.

Ah, só um acréscimo: Bofur sumiu na multidão. Vai ficar sem meu tchau, fazer o que.

– Nelly! — o hobbit se desvencilhou dos curiosos e veio até mim, me puxando num canto. — Aproveite para comer. Não sei quando teremos a chance de outro banquete assim.

– Er... — confesso, meu coração está apertado.- Estou de saída, Bilbo Bolseiro.

– Está? — ele não parecia realmente triste. — Encontrou um jeito de deixar de ser Perdida?

– Parece que sim. — sorri, o ato sendo retribuído num átimo. — Nesse caso, meu cordial adeus. — Fiz uma reverência um tanto idiota, sei lá, parecia adequado.

– Adeus, Nelly. — eu não esperava por isso, mas Bilbo me abraçou. Diferente do abraço de Sigrid, foi como se meus braços pudessem escondê-lo ali para sempre.

Pobre Bilbo, o que restaria para ele senão virar whiskas de dragão?

– Adeus? — a voz grave de Thorin nos interrompeu.

– Sim, estou indo embora, finalmente. — salientei a última palavra pra deixá-lo amordaçado, mas não consegui causar nem parte disso. Ah, e mandem um obrigada de nada a Gandalf.

– Embora? — Ori não se conformava. Gente, por favor, me ajuda, assim não dá!

– É, voltando pra onde vim, tomara.

Bifur aproximou-se, batendo a mão fechada no peito. Entendi aquilo como "eu sei o que você quer dizer". Obrigada, Bifur!² Estendi meu sorriso.

– Apesar dos pesares, foi bom estar entre vocês.

– Pesares? — oi, Fíli. Melhor dizendo, tchau, Fíli.

– Oh, sim, posso esclarecer ordinalmente: Be-horn, aranhas gigantes, elfos-nada-domésticos, barris, orcs, wargs(?), sardinhas. É, foi isso.

O jovem anão deu um gracejo, considerando aquela aventura a mais incrível de sua vida.

Ou ele tem problema, ou ele tá bêbado. Não tem outra explicação pra tamanha idiotice.

– Obrigado pela ajuda. — Kíli estava muito pálido, sem largar da caneca de cerveja. Minha mente estalou.

– Já ia me esquecendo. Isso é pra você. — entreguei-lhe a pomada cicatrizante já na metade do frasco. — Use com sabedoria. Melhor não guardar nas calças, vai que alguém precise lhe revistar...

Pronto, agora ele não está mais pálido!

– Posso ter um momento? — pediu Thorin com olhar suplicante. Querido, com essa carinha você pode até pedir para que eu assalte Gringotes e te mande o ouro via coruja.

– Tudo bem. Então, boa sorte a todos nessa missão. Espero mesmo que seja bem sucedida. — declarei me afastado junto com o futuro rei da montanha.

Os anões retribuíram meus desejos de sucesso com o mesmo pesar da separação, entretanto, senti um leve alívio da parte deles pelo fato de eu estar partindo. Por um lado, era confuso pensar nas coisas que havia vivido ali, em apenas alguns dias, por outro, devo supor que o que aprendi junto dessas criaturinhas foi razoável para que minha pessoa Nelly mudasse um pouco. O mais intrigante era receber o mesmo sentimento em troca. Estavam tristes por ter que deixá-los, mas tranquilos porque não seria eu a enfrentar dragão algum.

Depois dos afetos de minha tia, essa foi a maior demonstração de consideração que eu tenha recebido.

– Qual dos obesos é o Mestre da Cidade? — perguntei a Thorin, que me guiava para fora do aglomerado de almas.

O anão esboçou um sorriso sarcástico.

– O que está vestindo a túnica esmeralda. — virei o corpo para encontrar com o olhar do homem mais asqueroso da face da Terra, me encarando como se eu fosse uma coxa de frango assada. Franzi o cenho. — Ele acha que estamos juntos. — esclareceu.

Tipo, o que? Juntos, assim, como um casal?

Que bizarro. E não digo pela altura.

– Nossa, você é tolerante.

– Sou? — Thorin tomou minha mão, apertando o passo.

– Achei que o mínimo pensamento a respeito disso faria com que você erguesse o machado e arrancasse a cabeça dele fora em dez segundos. Quinze, computando o tamanho do pescoço.

Ele sorriu, dessa vez de uma forma tão sexy que parei de respirar. Será que professor Flitwick tem um primo bonito assim?

Decididamente, não.

– Cá estamos. — inspirei profundamente o ar puro da noite, recuperando o fôlego que Thorin me fez perder. — Queria falar comigo?

– Por quê tem de ir?

Uau, essa foi bem direta.

– Não pertenço a este lugar. Esqueceu? Sou uma perdida. — que resposta sensata, heim, convenhamos.

– Voltará algum dia?

– Quem sabe? — olhei o céu por um instante. Quase sem nuvens, uma lua incrível se erguendo sobre a montanha. Quem sabe? Afinal, eu posso me lembrar exatamente onde fica o buraco que me fez cair aqui, literalmente. Posso até obrigar Dalle a me estuporar de novo.

Aposto que o infeliz iria adorar isso.

– Portanto, este é o fim?

– Não. É o recomeço. — Apertei o vira-tempo dentro do casaco. — A oportunidade de rever tudo que fizemos e nos dar outra chance.

Brados exaltados se destacaram na parte de dentro do salão, contidos pela voz do Mestre da Cidade clamando pela atenção do futuro rei de Erebor. Era nítido que Thorin não queria se insinuar, fechando os olhos de safira dolorosamente antes de tomar minha mão num beijo quente, contrastando com o ar invernal.

– Me espere aqui. — soando como uma súplica, só pude observá-lo tornar-se à festa e sumir, assim como Bofur.

E meus dedos, antes congelados, agora ardiam em brasa.

Não perdi mais tempo, mesmo que me sentisse tentada, honestamente, a esperar seu retorno. Aproveitando a recuperação dos movimentos da mão, posicionei o vira-tempo de forma aceitável para me conduzir de volta ao primeiro ensaio de duelos do ano — produtos caseiros não são lá muito confiáveis, mas dou todo crédito a Bifur, qualquer que seja. De acordo com o Rei das Fadas de Mirkwood, o dia de Durin significava o início do ano no calendário dos anões. Engraçado, não, que eu estivesse retornando, exatamente, ao meu primeiro dia letivo. O primeiro dia da minha vida de verdade, e agora carregava comigo, além da minha adorável mochila, um par de memórias que eu guardaria por incontáveis dias de Durin até que eu não fosse mais capaz de repassá-las em minha cabeça.

E, sobretudo, em meu coração. Porém, ás vezes é necessário retroceder.

– Bertolucci? — alguém me chamou, puxando meu corpo para fora da superfície úmida que eu estava deitada, pondo-me de pé. — Está tudo bem?

Ah, oi, Dalle. Depois eu mato você.

– Acho que bati a cabeça. — tudo bem, vou ganhar o oscar por melhor atriz dramática. — Quanto tempo fiquei aqui?

– Uns dois minutos. — ele riu. Que ironia, não? — Melhor ir à enfermaria.

– Está tudo bem. — menti, caminhando de volta ao castelo. O que eu mais queria era registrar tudo o que eu tinha daquele mundo esquisito enquanto estava fresco na minha mente, comendo bolinhos e tomando suco de abóbora.

– Podemos duelar, então?

Claro, idiota, afinal, eu estou de volta. E isso é tudo.

3...2...1...

Parabéns, Niele!

Notas finais
//Sério, não tinha imagem que fosse mais adequada que essa. FELIZ ANIVERSÁRIO, Nelly, er, Niele! Muitas felicidades e muitos dias de Durin na sua vida. Sábado tá confirmada nossa festa hobbit style na sua casa, né? Que bom, porque já chamei a galera toda. A propósito, vai rolar versão estendida de Desolação de Smaug. Tragam suas cobertinhas! Enfim, muito obrigada por terem dedicado seu tempo e paciência nessa história sem pé nem cabeça, cheia de canons irredutíveis mas, principalmente, de muita boa vontade. Esse foi nosso presente especial para uma amiga que é, sem dúvidas, tão valiosa quanto todo o tesouro de Erebor. Sem contar a Arkenstone, claro. Tá achando que é fácil assim? Paramos por aqui. "Quem sabe" o que vem agora? Talvez em breve outro presente inesperado. Dessa forma não deixarei meu adeus, apenas um ATÉ BREVE. Nota¹: ficamos muito felizes pelos comentários e pela linda recomendação que recebemos. Um beijo carinhoso em cada um de vocês, Ana&Naty.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!