Decididamente, não!
5 Ensopado.
Notas iniciais
Os pôneis não foram uma boa ideia.
Olha, posso até admitir que já tenha experimentado algo no mínimo parecido, quando Hagrid resolveu nos fazer montar no seu estimado hipogrifo Bicuço. Assim que cumprimentei o animal e fui subir em suas costas, ele gemeu com meu peso e me atirou para longe. Nunca o culpei pela minha inabilidade, pobrezinho. O mesmo pode ser dito dos testes com vassouras.
O anão loiro e gato, curiosamente sobrinho do líder, ajudou-me a enganchar os pés na cela, sustentando meu corpo molengo. Fíli deu uma risadinha leve vendo-me pender para o outro lado e, se não fosse seu irmão Kíli esperando o desastre eu provavelmente ia, sim, dar de cara com o chão. Já era parte da rotina, reparei, dar de cara com o chão.
E não, literalmente os pôneis foram uma péssima ideia.
Fomos num ritmo de marcha até a encosta da floresta, como tinha dito Gandalf. Aliás, ele vinha montado num belo cavalo branco e, logo que descemos, ordenou para que os deixássemos retornar até Beorn. Justo, afinal, um pônei não deve custar barato, especialmente no meio do nada. Muito gentil da parte dele, a propósito, eu não me arriscaria.
Dei uma olhada geral na mata, como se não tivesse basicamente decorado o movimento de suas folhas assim que cheguei. É porque não havia nenhum. É. Sem vento, sem brisa, sem nada. Pelo menos isso garantia a floresta proibida nem tão proibida assim a qual me engoliu e me fez surgir nesse mundo esquisito de gente com chapéus estranhos. Mais estranho ainda seria se eu dissesse que, em apenas dois dias, eu já tinha me acostumado a muita coisa desse lugar. O céu, por exemplo: Londres invejaria aquele belo céu azul turquesa, com algumas nuvens emoldurando os raios de sol.
Por que eu fui comentar...
Não deu nem quinze minutos antes que um chuvisco nos atingisse. Não reclamei, a água a lavar meu rosto com um toque tão bem vindo e — não me julguem — melhorando o cheiro dos anões. O mago foi o primeiro a entrar, buscando um caminho oculto por entre as árvores, indicado por uma estatueta feminina (convenhamos, aquelas curvas só podiam ser de uma mulher) que levava em seus joelhos a marca de um grande olho vermelho.
Segurei a respiração por alguns segundos, tentando não questionar o que era aquilo. Parecia sério, muito sério. O jeito como Gandalf se comportou depois disso foi ainda mais suspeito: andou de um lado pro outro, segurando o cajado, a expressão fechada e desolada. Num sussurro áspero eu pude ouvir algo como "nosso inimigo voltou", e tremi com essa declaração.
Será que Você-sabe-Quem estivera ali?
Até então não tinha visto o velho demonstrar qualquer habilidade mágica. Tá, sei que a magia se esconde de modo inimaginável, mas além do cajado e do chapéu ele não parecia nada extraordinário. Talvez o cajado fosse para ele como a varinha era para mim mas, se há outros do tipo, provavelmente ele seria capaz de realizar apenas alguns feitiços, diferente dos outros, garantindo um tanto de originalidade.
Nossa, estou criativa hoje.
– O meu cavalo não! — bradou ele, segurando as rédeas.
– Vai partir? — Thorin irrompeu a seu lado, bastante furioso.
– Não iria se não fosse preciso, há algo que deve ser resolvido o quanto antes.
– E eu? — me acheguei perto de Thorin com os braços na cintura, aparentando estar mais insatisfeita com ele. — Prometeu me ajudar, lembra, mago?
– Estes anões estão indo para uma montanha não tão distante daqui, mas antes disso terão de parar na Cidade do Lago. — explicou-me. — Devo encontrá-los lá. Não percam a trilha, pois jamais a encontrarão novamente. E não toquem a água.- alertou sombrio.
Estremeci, covarde como sou, mas assenti. Como no duelo, eu só podia correr pra me salvar, e tendo alguns anões de vantagem podia ser mais seguro.
– Fique de olhos bem abertos. — Thorin murmurou para mim.
O que você queria, que eu selasse os olhos e curtisse a viagem? Sem mais delongas, de volta a floresta. Oh, se eu a tinha achado enorme antes não tenho palavras pra descrever agora. Seguindo as orientações, fomos adentrando cada vez mais, e com o tempo tudo foi ficando realmente confuso.
Não fui a única a me sentir assim: pesada, tonta (mais) e desalinhada, entretanto, fui a única a ter consciência disso. Thorin e Bálin (ou Mestre, como eu já havia mentalizado) assumiram a frente do grupo, enquanto todos cambaleavam para não cederem de vez. Bilbo também notou, mas não aparentou estar divergindo. Piscava algumas vezes tentando se concentrar.
– Olhe só, o que houve com a trilha! — alarmou Bofur, o moreno que tinha me chamado de menininha no café da manhã. Falando nisso, saudades do café da manhã.
– A ponte se desfez, — acrescentou outro. — e a trilha segue depois da lagoa.
– Gandalf disse para não tocarmos na água. — relembrei, e Thorin concordou. — Esses cipós parecem firmes.
– Sim, mas é arriscado. — Bilbo já sabia que ia sobrar pra ele, aposto.
– O mais leve vai primeiro. — ordenou, fixando os olhos azuis no pequeno.
– Acho justo. — eu respondi, colocando-me entre ele e o hobbit. — Bilbo pode ser menor que eu alguns centímetros, mas está na cara que eu sou bem mais fina que ele, certo?
Todos aderiram ruidosamente. Thorin não estava muito feliz.
– Pois bem.
– Tem certeza de que não prefere que eu vá? — tenho não, pés-peludos-Bolseiro, mas vou te poupar dessa vez.
– Não, eu me viro, relaxa.
Segurei firme no primeiro feixe de cipó, me pendurando nele que nem o Tarzan, com menos elegância que faria um selvagem. Tudo bem, só pensar que é uma atividade física do acampamento de férias trouxa, Nelly! Melhor não...não queremos piorar a situação. Com muito esforço finalmente cheguei ao outro lado.
– É melhor virem devagar, senão...
Mal consegui terminar a frase e todos, sim, absolutamente todos os anões estavam trepados nos cipós. Cara, na boa. Os anões da Branca de Neve não davam tanto trabalho assim.
Virei de costas sem querer olhar qualquer movimento errôneo dos corpos gordinhos — e lotados de mantimentos e roupas. Pouco a pouco ouvia os pés pesados próximos a mim, e contei silenciosamente esperando todos atravessarem.
E, inesperadamente, o tão monstruoso tibum. Bombur e suas barbas ruivas jaziam na água, num sono tão sublime que ele roncava profundamente. O problema é que nada que fizessem para acordá-lo funcionava, ou seja, alguns tiveram de carregá-lo.
Alguns, leia: seis. Seis cabeças, eu digo, porque só o fortão do Dwálin valia por dois, então compute oito. Uau, que fidelidade para com um amigo. Nem a poção do sono mais poderosa e mais perfeita do Snape se equiparava a aquilo.
Tomados pelo cansaço, nos perdemos. Não vou culpar Thorin apenas, porque o grupo em si não aguentava mais. Sentamos, sem saber onde estávamos, e aproveitei para comer alguma coisa. Os pães de mel forraram meu estômago e, quando soube que Bombur era responsável pela comida decidi, com certo pesar, oferecer o último bolinho de abóbora para Bilbo, que o repartiu com Kíli, Fíli e Ori.
Se eu pudesse chorar, eu o faria. Sério, aquela cena doeu.
Recomeçamos a caminhada atormentada dissolvendo toda luminosidade, o leste se perdendo. Ar escasso. E Bombur roncando. Por um lado sua tranquilidade era confortante, e então pensei em fingir que estava desmaiada para que alguém me carregasse. Desisti, certamente me deixariam para trás sem pensar duas vezes.
Dwálin bufou, ajeitando a carga saturada de água no ombro esquerdo. Sorte sua, Bombur Weasley, mas não menos desagradável.
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