Decididamente, não!
6 Elfos nada domésticos.
Notas iniciais
Eu estava totalmente desorientada.
Meus pés não conseguiam mais seguir a frente e, indisposta, cai sentada no chão. Sorte que não fui a única a aparentar extrema exaustão, e nem sabíamos quanto tempo estávamos a caminhar buscando a maldita trilha élfica que sumiu do nada.
Falando em sumir do nada, e Hogwarts?
Os anões formaram uma roda, acomodando-se como podiam entre as raízes das imensas árvores que beiravam o céu. Aliás, céu mesmo que é bom... sem comentários. Não dava pra saber se era dia, se era noite, já que a copa da vegetação cobria por completo qualquer âmbito de visão. Tenso.
Sem comida e com água escassa, optei por racionalizar a utilização da garrafinha em apenas dez doses até que atravessássemos a metade do percurso e, com desespero, vi a danada praticamente vazia e parte dos objetos da minha bolsa um tanto úmidos. Ótimo, eu precisava mesmo disso. Retirei a capa de invisibilidade com cuidado, apesar de saber que ela não estava em condições de uso em parâmetros mágicos, o relógio quebrado e dois dos livros de magia. Tudo bem, eu estava de fato muito confusa, mas podia jurar que não tinha organizado os itens daquele jeito.
Dei uma olhada nada básica no meu material bibliográfico. Num sobressalto, notei que pelo menos umas vinte folhas foram maldosamente arrancadas e massacradas para fora do livro, deixando uma elevação significativa. Cerrei os punhos com força, indignada, poxa, além de ter que pagar pelo atraso na devolução, serei multada por denegrir o patrimônio escolar. Como isso foi acontecer?
Fiquei tão estarrecida que fui abruptamente desperta do transe. Folheei tentando entender como todas aquelas páginas simplesmente decidiram se desacoplar do espiral, como se tivessem vida própria, colocando-as em ordem crescente. Não era um livro dos mais antigos, possivelmente existiriam outras cópias na sessão reservada, tratando especificamente de como manufaturar objetos mágicos.
Opa, espera aí.
Essa matéria, na realidade, era uma optativa para o quinto ano especial para alunas: como dar vida a objetos inanimados e uma maneira útil de recriá-los, ou seja, caríssima futura dona de casa, nós podemos fazer com que o aparador de grama funcione enquanto a senhora lê o profeta diário. Não me interessei nem um pouco, mas confesso que a ideia era inteligente. Só mal aplicada.
A verdade foi que minha tia precisava de auxílio com as tarefas diárias e eu, bruxa independente, tinha a ferramenta necessária para que ela se visse livre de toda a responsabilidade com limpeza. Não passei da quinta página, que por acaso explicava como coordenar as escovas de dentes no polimento de panelas de ferro. Mas os trechos arrancados estavam bem mais para o final da obra.
Construção de Vira-Tempo simples: não chegue atrasado no dentista nunca mais! (...)
Nem preciso dizer o restante.
Tirando a baboseira introdutória havia uma série de ingredientes necessários para realizar a operação, bem singelos e de fácil obtenção, aos quais estava incluso, para minha surpresa, um relógio de bolso quebrado. Peguei-o em meus dedos inchados de cansaço, balançando o cordão debilmente, e toda a superfície parecia brilhar num líquido dourado cintilante viscoso e bonito.
Não, aquilo absolutamente não estava ali.
Gandalf! É claro, o dito cujo mago poderia sim ter fuçado no meu material e conduzido essa proposta louca. Eu sinceramente nunca tinha usado um Vira-tempo na minha vida, imagina montar um sem qualquer técnica. Fora de princípios, sem dúvida, mas a única opção restante.
– Alguém viu o Bilbo? — balbuciou Ori.
– Ah não... — gemeu Mestre. — Nosso hobbit sumiu!
Thorin amarrou ainda mais a cara, como se fosse possível, discutindo com Bálin naquela língua ruidosa. De repente toda a companhia se apresentava de pé.
– Seguiremos para onde? — questionei. — Pelo que sei estamos perdidos.
– A única perdida aqui é você, Nelly. — respondeu grosseiro, virando-se de costas e guiando rumo ao nada.
Não sou a única perdida, Thorin escudo-de-cerejeira. Agora também temos o Bilbo.
Me sentia compadecida do pequeno de pés peludos, afinal, ele era tão excluído quanto eu, porque eu nitidamente não pertencia àquele lugar. Agradeci o velho mentalmente pela possibilidade de retorno, não que eu não estivesse amando o passeio, já prevendo que ele conhecia meu segredo e suspirando por tê-lo considerado. A galera daqui tem um modo peculiar de admitir informações.
Eu, da minha parte, empurrava goela abaixo.
Fui atrás do hobbit. Nem sei por quê fiz isso, mas fiz. E não o encontrei. Nem os anões. E o que encontrei era assustador.
Teias gigantescas e quilométricas se estendiam numa parede gosmenta e letal diante de mim. Eca. Era o tipo de coisa que Hagrid iria adorar. Não toca, não toca, não toca, ahhh, toquei... De fio em fio, todos conectados, uma única onda se propagou até o além. Daí vieram os passos, sutis e pinçados, como eu imaginava que seriam.
Atirei a capa de invisibilidade nas costas no mesmo instante, rezando para que as criaturas não fossem espertas o suficiente para sentir meu cheiro. Com a varinha em mãos aguardei pela chegada dos bichos, às centenas, empacotando anão por anão num casulo de meleca.
Eca, eca, eca.
Felizmente, ou não, algo chamou a atenção dos aracnídeos. Ao contrário das acromântulas, de quatro pares de olhos atentos e a habilidade comunicativa apurada, as bestas eram literalmente bestas. Corri para onde elas tinham jogado os corpos embrulhados dos meus colegas, e então ele voltou: Bilbo. Quando fui olhar novamente já havia desaparecido, os anões remexendo de um lado para o outro tentando desvencilhar a teia. Thorin e Dwalin foram os primeiros, ajudando os outros em seguida.
Eles lutavam cada vez mais em vão: a cada uma aranha morta brotava cinco.
– Kíli! — ouvi Fíli gritando ao mesmo tempo que o irmão batalhava para degolar mais uma.
– Aranha Exumai! — conjurei, fazendo com que ela voasse para longe dele. O anão olhou para os lados, procurando a fonte daquele milagre e eu sorri, satisfeita.
Aê Nelly, vamos contribuir para o controle biológico da espécie.
Soltei o máximo do feitiço que consegui, retardando-as de modo que os bravos guerreiros de um metro e meio pudessem terminar o serviço.
Não percebi as flechadas na hora exata que foram noticiadas, Thorin aborrecido por achar que estava tudo sob controle. Homens belíssimos se acercaram, suas roupas flutuando a cada passo certeiro que davam nossa direção, as espadas e arcos dançando no ar. Eram tão bonitos que difícil acreditar que vivessem, assim como fadas. O movimento era bem ensaiado, e os personagens incrivelmente habilidosos. Num átimo, me esquivei da lança de Dwálin para o animal que pairava atrás de mim, tão absorta que estava a observar a graciosidade daquele povo. Enrolei-me mais na capa, afastando vagarosamente da presença de todos.
Contei as doze cabeças cabeludas e uma careca, aliviada por estarem todos ali. Bilbo era uma preocupação que tentaria resolver assim que fosse decidido o destino dos anões: me juntaria a eles e insistiria até a alma derreter para buscá-lo. Até que todos, digo todos, foram presos.
– Como a conseguiu? — perguntou rudemente o líder dos homens-fada, um rapaz loiro com os cabelos impecavelmente lisos e olhos frios.
Thorin retribuiu o olhar majestosamente, como sempre fazia, e fitou a espada que jazia nas mãos do outro.
– Ela me foi dada.
– Você é um mentiroso. — cuspiu a fadinha raivosamente, ordenando para o restante que os levassem até as prisões de Mirkwood.
Mirkwood, okay, tá anotado.
– Estão ficando mais audaciosas. — pronunciou a única mulher do grupo.
– Não são perigosas para nós, elfos da floresta.
Engasguei. Como assim elfos da floresta? Vocês não deveriam ser meigos e cantar canções bonitinhas de dormir?
No mínimo os elfos domésticos de Hogwarts não conheciam seus parentes de Mirkwood, senão seria necessário mais que uma simples meia para libertá-los.
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