Decididamente, não!

4 Branca de Nelly e os treze anões e meio.


Notas iniciais
Tudo na base da falta de cumplicidade.

Tentei listar mentalmente tudo o que consegui absorver dessa loucura até então: Gandalf era um mago, ou pelo menos dizia ser um; o hobbit se chamava Bilbo pés peludos Bolseiro; eu fazia parte de um grupo de gente desconhecida e tinha um homem furioso me olhando mortalmente.

Acho que já é suficiente, né? Obrigada.

– Desculpe, mas foi necessário. — ok, sejamos sinceros, ou eu o estuporava ou virava whiskas. — Sinto ter causado algum dano, juro que não é permanente.

Beorn coçou a elevação da testa, dando de ombros.

– Por que estão aqui?

– O fato é que tivemos tempos ruins, fugindo de goblins e orcs... — respondeu Gandalf com sinceridade.

– Oras, e por que deveriam se meter com goblins e orcs? Coisa estúpida de se fazer.

Concordo em gênero, número e grau. Mas espera aí, o que são goblins e orcs?

– Você está a b s o l u t a m e n t e correto. — disse o mago, maneando displicentemente. Antes de terminar o diálogo dois anões brotaram da porta: um fortão enobrecido e outro de barbas brancas como a neve.

Olha lá, Nelly, o Mestre¹!

– Dwálin e Bálin. — apresentou o musculoso com vigor admirável. A expressão do troca-peles foi tão assustadora que eu provavelmente teria saído correndo de medo de novo.

– Devo confessar que alguns membros do nosso grupo são, de fato, anões. — Gandalf tentou explicar, só piorando a situação.

– Você chama dois de alguns?

O dito cujo mago passou a contar nos dedos em quantos eles eram e, de repente, mais dois surgiram.

– Ah, aqui estão outros a mais da nossa tropa feliz! — sorriu envergonhado. Dei uma olhadinha para Bilbo, que tremia afobado.

– Você chama sete de tropa? – ele estava enfurecido. — O que vocês são, um circo transeunte?

Dei uma gargalhada a toa e em péssima hora, aliás. De par em par estavam praticamente todos ali, tendo um único trio barulhento e engraçado: Bifur, Bofur e Bombur. O terceiro era gordinho e ruivo, e não consegui reprimir mais uma gargalhada ao pensar "Você deve ser um Weasley", sendo ignorada dessa vez. O último par se compunha de dois jovens rapazes, Fíli e Kíli, de beleza nada dispensáveis.

Mas nada dispensável mesmo era o porte do último anão. Sério, só o caminhar dele me deixou tonta. E os olhos azuis, uau, que olhos azuis! Safiras puras e brilhantes, e invejei-o ali mesmo. Sou fascinada por olhos claros, mesmo que os meus sejam mel, creio que junto de cabelos escuros e pele branca são a combinação mais perfeita que se pode fazer fisicamente.

Sim, tenho uma queda por Harry Potter, e esse segredo vai morrer com a gente, entendido?

Enfim, de volta para a realidade, Beorn não parecia satisfeito com as circunstâncias, mas acalmou os ânimos e nos serviu um café da manhã caprichado. Tomei outro copo de leite morno, afinal, nunca se sabe quando teria de enfrentar outro monstro e estar bem alimentada era essencial. Entre histórias de escravidão e ser o único a restar de sua raça, perseguições de um orc pálido e odiar anões, alguém chamou minha atenção.

– Quem é a menininha? — perguntou um dos anões, de cabelos negros e chapéu engraçado.

Nota¹: os chapéus desse lugar são literalmente engraçados.

Nota²: Menininha? Qual é a tua, nanico?

– Me chamo Nelly. — tentei ser educada. — Não sei como isso foi acontecer, mas acho que me perdi do resto do mundo.

– Mesmo? — retrucou o líder da galera, de nome Thorin. — E onde estava para se perder?

Que desconfiado você, heim, me poupe.

– Participando de um clube de duelos. — falei a verdade, ou parte dela. — Caí num buraco perto da mata nas proximidades e, quando acordei, já estava perdida.

– Você fez mesmo aquele hematoma no troca-peles?

Beorn rugiu em resposta, me servindo pães com mel. Aceitei dois, guardando-os em seguida na mochila.

– Juro que não foi por maldade, eu estava assustada. — me redimi.

– E como foi isso? — o estranho malhadão, Dwálin, não estava convencido. — Você é muito franzina para enfrentar um urso gigante.

É. Muito justo.

– Isso não é relevante no momento. — interpôs o grandão, batendo um frasco com força na mesa. — O dia de Durin está próximo, vocês não devem perder tempo, e também não podem atravessar a campina a pé. Jamais chegariam à floresta sombria com vida.

Opa, Nelly, anota aí: dia de Durin, floresta sombria.

Ah, não, nada bom.

– Acho que vim dessa floresta. — comentei alto de mais, e todos se viraram para mim.

Acha? ­– Ih, Gandalf, até você tá suspeitando de mim, agora?

– Bem, não tenho certeza, só me lembro de ter caminhado um bocado antes de chegar às campinas e ser abordada por, humm, você. – sorri para Beorn simpaticamente. — Acontece que aquela floresta parecia realmente mal, quero dizer, amaldiçoada. Eu não me atreveria a voltar pra lá.

– A não ser se fosse uma questão indispensável. — retorquiu. Senti o olhar de Thorin acompanhar meu raciocínio, e ele também não assimilava a segurança das palavras do outro.

– Bom, a jornada é de vocês, então... — sabe, eu não ligava. Não ligava mesmo, mas decidi dar uma avisada em retribuição aos favores da noite anterior.

Nossa, querida Nelly. — o gatão arregalou os olhos azuis mais do que eu mesma e meu queixo caiu quinze metros abaixo do solo. O velho tinha pirado, só pode.

Mais uma semelhança incontestável com Dumbledore.

– Nossa? Nem a pau. Eu cheguei aqui do nada, e do nada voltarei de onde vim. — bati o pé.

– Pense com clareza, Nelly, eu sou um mago, poderia ajudá-la se me der oportunidade e tempo.

Olhei bem pra cara dele, a roupa cinza puída e a barba crespa, segurando o cajado não menos sujo e sorrindo. Ah lá, droga, ele tá sorrindo. Provavelmente essa é uma jogada psicológica.

Absolutamente não. — a voz grossa de Thorin nos interrompeu. — Ela não pode fazer parte da comitiva.

– Não podemos deixá-la aqui à própria sorte. — contrapôs.

– E não podemos incluí-la nessa missão. É secreta.

Ui, tô doida para conhecer seus segredos, Thorin escudo de sei-lá-o-que.

– Vamos achar um jeito. Tomaremos a trilha dos elfos, que ainda é segura.

– Segura? — acho que Beorn tem sérios problemas auditivos. — Os elfos da floresta são menos sábios que seus parentes e, como já disse, vocês não chegariam com vida na encosta, estando a pé.

Elfos? Elfos domésticos tem parentes menos sábios?

– Não sem a sua ajuda. — Gandalf dera sua última palavra, erguendo-se da mesa e indo ter com Beorn. Se entendi certo ele estava disposto a ajudar por odiar mais esse treco orc que anões ignorantes.

Thorin não questionou a decisão do outro, embora estivesse fervilhando de raiva. Concluiu alguma coisa para Bálin, numa língua estranha e ruidosa, volvendo-se para mim agressivamente:

– Escute aqui, garota, vou fazer isso porque confio no julgamento de Gandalf ainda que ele não dê motivos razoáveis para tal, mas é bom estar ciente que não falo por sua segurança nem pelo que possa vir a acontecer a partir de agora. — balancei a cabeça em acordo, ouvindo apenas um blá blá blá desconexo. — Seja bem-vinda à nossa comitiva, senhorita Nelly, a Perdida.

Acho que agora sei como Branca de Neve deve ter se sentido quando conheceu Zangado.

Notas finais
¹Mestre, do conto Branca de Neve, era o anão mais inteligente e disposto do grupo, o qual dava conselhos racionais mantendo a gentileza. Esperamos que estejam se divertindo; beijos de boa noite!