Notas iniciais
Mais estranho não podia ficar.

Gandalf não perguntou mais nada além do meu nome, levando-me para dentro da choupana onde eu pudesse me acomodar. Nem considerei recusar, afinal, depois da correria o ideal para minha condição delicada seria descansar e depois pensar no que fazer. Guardei a varinha bem guardadinha num compartimento secreto do casaco, até que me sentisse segura o suficiente para usá-la de novo.

Tirando o pouco senso de organização e o tamanho dos móveis — realmente grandes para uma pessoa comum com eu — tudo aparentava ser normal. Era uma casa confortável, com tapetes e cortinas padrão rústico, cheiro delicioso de mel real. Eu comeria um pote sozinha, se me fosse oferecido. O velho pareceu adivinhar, tirando um pãozinho da mesa e me oferecendo, um sorriso sutil em seus lábios enquanto eu me atirei para cima do alimento. Tá, isso foi bizarro, controle-se, Nelly.

Eu estava ferrada. Não, eu estava absolutamente ferrada, no sentido de que não dava pra piorar. Mentira, eu podia ter sido engolida pelo urso, mas agora que não fui notava que toda essa loucura não era um sonho. Viva, continuava a viver. Droga. Pelo menos o pãozinho satisfez um pouco da minha carência de carboidratos. Por fim, chegamos ao que supostamente era um galpão e, num sobressalto adicionado de um gritinho contido, alarmei-me ao ver um punhado de homenzinhos a dormirem solenemente.

Pondo um basta no bullying, leia: anões.

Isso! Anões, pequenos seres humanos não tão humanos assim. Temperamento conturbado e olhos desconfiados. Ok, eu já tinha experimentado a inimizade dos duendes de Gringotes, talvez soubesse como lidar com um anão.

Mas espera aí, não é um anão. São treze, quer dizer, quatorze, opa...treze, tipo, o que?

– Acho melhor não fazer barulho. — alertou o esquisitão de chapéu.

Ergui minha expressão desesperada, enquanto Gandalf nitidamente se divertia apontando um lugar vago para mim do outro lado, ou seja, eu teria de passar entre os dorminhocos fazendo malabarismos mirabolantes pra não relar em ninguém. Bufei, indignada, já pensou o que minha tia diria disso?

''Como assim você dormiu com quatorze homens?"

Quinze, contando com o velho.

– Acho inapropriado.

– Humm...?

Beleza, e você achou que ele fosse te entender, Nelly, a retardada.

– Quer dizer, er, não pega bem uma moça dormir entre um time de varões.

– Humm... — mastigou o cachimbo mais um pouco. — De acordo. A beldade prefere escolher o próprio quarto entre os milhares que dispomos aqui?

Ah lá, começou a me zoar, óbvio, porque a situação é realmente hilária.

– Acho que posso me acomodar sozinha perto da cozinha, se não se importa. — declarei decidida. Gandalf olhou-me um tanto analista, dando de ombros.

O cantinho não era dos melhores, mas dava pro gasto. Ajeitei o casaco de Hogwarts sobre o chão, prevenindo-me de qualquer sujeira que pudesse encontrar ali. A mochila serviria como travesseiro, e também a capa de invisibilidade inútil um cobertor improvisado. Tirei os sapatos, cansada demais para averiguar a condição catastrófica de meus pés e, fechando os olhos com força uma segunda vez naquela noite, sucumbi à exaustão num sono pesado e turbulento.

xXx

O sol mal tinha surgido no céu quando senti Gandalf me cutucar com seu cajado. Virei para o outro lado, ensaiando um xingamento e dando de cara com o chão frio e sujo: todo o trabalho com o casaco fora em vão. Já acordada, sentei no meu montinho de tecidos a coçar os olhos, vendo o estranho se aproximar de mim sorridente, segurando um copo de leite nas mãos.

– Bom dia, Nelly, a Perdida. — cumprimentou animadamente, entregando-me o copo.

– Tem certeza que já é dia? — resmunguei, dando o primeiro gole. A bebida era quente e tinha um sabor interessante.

– Sinto ter que despertá-la tão cedo, mas é necessário. — ele me censurou como um avô rabugento e logo me ergui, vestindo os sapatos. — Precisamos nos anunciar para nosso anfitrião.

– Opa, que? Você não é dono da casa?

Uau, isso sim era uma novidade.

– Infelizmente não. Beorn é seu nome, o troca-peles que a atacou na noite de ontem.

– E troca-peles seria um homem que pode se transformar num animal? — arrisquei, recebendo um sorriso em resposta.

Tenho certa familiaridade com animagos, aliás, transfiguração sempre foi minha matéria favorita. Acontece que a fera estava mais pra lobisomem, totalmente descontrolado e furioso. Oras, se Remus Lupin podia lecionar depois de uma passagem dessas, por que eu deveria ter medo desse tal Beorn?

Provavelmente porque Remus Lupin jamais tentou me matar.

– Jura que é seguro?

– É necessário. – salientou. — Não se preocupe, aposto que ele não se incomodará com sua presença.

– E todos aqueles anões? — questionei, procurando-os pelos cantos. — Não vão se apresentar?

– Depois de nós, e de Bilbo, é claro.

– Bilbo?

– Sim, nosso pequeno hobbit.

Soltei um ahh displicente, entendendo nada. O que é um hobbit? Será que ele morde? Bem, sem tempo de perguntar. Fomos para fora, um ao lado do outro; tratei de abotoar a camisa até que o colarinho me sufocasse. Levei a varinha junto, só por precaução.

O homem-urso, moreno e muito forte, cortava lenha sem ligar para nossa recente chegada. Gandalf se esforçou em abordá-lo algumas vezes, não menos receoso que eu, coçando a garganta para disfarçar.

– Dia!

Mais uma lenha cortada e eu já via minha cabeça e a dele rolando campina abaixo.

– Dia! — disse outra vez, persistente.

O grandalhão abandonou o machado, mas não se desviou do afazer.

– Quem é você? — indagou rudemente num tom de voz que me provocou calafrios.

– Sou Gandalf, o Cinzento. — respondeu alegremente, curvando-se.

E do nada o cara se vira, assim, apanhando o machado em mãos, prestes a cortar nossos pescoços fora.

– Nunca ouvi falar. — Eu também não, meu chapa, estamos juntos nessa.

­– Sou um mago. — acrescentou Gandalf, para minha total confusão. — Você deve conhecer Radagast, o Castanho, um colega meu que mora por essas bandas.

– O que você quer?

– Oh, — o mago pareceu mais relaxado. — gostaria simplesmente de agradecer por sua hospitalidade. Deve ter percebido que nos refugiamos no seu galpão noite passada e...

Nos? – repetiu, focando os olhos castanhos em mim.

– Ah, sim, claro, permita-me introduzi-lo a Nelly, a mais nova integrante do nosso grupo.

Nosso grupo?

Gandalf respirou profundamente antes de fazer sinal para outra criatura surgir entre nós. Era pequeno, menor que os anões eu previa, de traços delicados e pés peludos.

Pés peludos! Que cômico.

– O que é esse rapaz? — agressivo, levantou a droga do machado em nossa direção. Gandalf interpôs num átimo.

– Este é o senhor Bilbo Bolseiro, do Condado.

– Ele não é um anão, é?

Ih, ele não, mas o restante eu já não posso garantir.

­- Oh, não, não... — que constrangimento. — É um hobbit, de boa família e reputação inquestionável. — deu tapinhas nas costas do outro, que olhava pra mim num misto de indiscrição e perplexidade.

– Um mago, um hobbit e uma humana... — pensou por um segundo antes de se fixar novamente em mim. — Eu reconheço o seu rosto, você me atacou antes de sumir para dentro.

E, já prevendo um desastre, no topo da testa dele nascia um chifre de quem tinha sofrido uma contusão séria, abafado pela pele avermelhada, mas ali, nítido pra todo mundo ver.

Ai.

Notas finais
Tradução literal do inglês, horn: chifre. Calma, gentche, que já vem outro! :*