December, 21
2 Chão
Quase se sentiu ofendido, ou melhor, sem o quase. Que tipo de garota não o reconheceria depois de tirar todos aqueles apetrechos de sua face? Melhor, que tipo de garota não gritaria ou surtaria de amores ou desmaiaria ao ver JOHN O’CALLAGHAN? Ou melhor ainda, que tipo de garota ficaria possessa em vê-lo?
Temos que admitir, não que seja uma pessoa ruim, mas John adora olhar para o seu umbigo, não aceita um não, muito menos ser ignorado da maneira que foi. Pelo que se lembre, sempre foi assim, mesmo antes da fama. É algo dele, um defeito que sempre o acompanhou. Pode ter sido ressaltado durante os últimos anos devido, bem, a fama.
“Mas que... Como assim? COMO? COMO?”.
Esse era o pensamento ao qual ele tomou a concentrar-se. Caminhava discretamente, com um dos lados do bigode torto, mas parecia não perceber. Centrou-se apenas naquele ser que devia ter por volta de uns 1.60 de altura, com uma toca de coelho, uma sacola cheia de compras e batia os pés furiosamente pela cobertura fofa da neve. Quem a via, jurava poder ouvir o som de suas botas martelando o chão com toda a força, mas era apenas impressão.
Logo, a garota rabugenta e esquisita, — segundo a rápida classificação de John- estava virando a esquina, então optou por segui-la com mais cautela.
Na verdade, não fazia idéia do motivo de está-la seguindo. Movido pelo orgulho talvez. Também não sabia onde aquela “perseguição” acabaria.
Assim, continuou seguindo-a por mais três ruas, quase tendo sua presença notada algumas vezes, então se escondia atrás de algum poste, ou debaixo de alguma grande sombra.
Enfim, parecia ter chegado a algum lugar. Notou a tal garota vasculhando o bolso direito de sua calça, fazendo certo esforço. Então um molho de chaves caiu sobre o chão, numa parte em que era possível ver o concreto. A garota colocou a sacola de compras em cima do pequeno muro de tijolos, — devia ser da altura de sua cintura – então se agachou e juntou as chaves, abrindo o pequeno portão com rapidez. Então dirigiu-se ligeiramente até a grande porta branca, atrapalhando-se com a sacola que rasgou por ser de papel, permitindo que suas compras voassem por todo lugar.
— AH – gesticulou raiva ao abafar um grito e fechar os olhos com força – Só pode ser meu dia!
— Também não é meu dia. – John apareceu ao seu lado, com as mãos no bolso e gargalhando em tom de deboche da situação.
— Mas, que... – bufou, assustando-se e gesticulando da mesma maneira – merda! Você me seguiu?
— Não! – negou – Claro que não, affê.
— Sai daqui! Agora! – gritou autoritária, enquanto atrapalhava-se ao levantar.
— Calma moça!
— Vai embora! Vou chamar a polícia! – então começou a gritar com mais firmeza e apontando para a rua.
— Mo...
— Socorro! Socorro! – começou a gritar desesperada, quando percebeu que ele estendia a mão em sua direção.
— Calma moça! Não grita, pára de escândalo, pelo amor de Deus! – disse, afastando-se, porém ainda tentando aproximação.
— Fique longe de mim! Estou falando sério! – correu e pegou uma vassoura que estava encostada na parede.
— Moça, sem violên... – então foi interrompido ao quase ser golpeado na cabeça.
— Seu maníaco! – tentou outro golpe.
— Pára! – John gritava.
— Vai embora! – então forçou outro golpe, desta vez acertando seu rosto em cheio.
John caiu no chão. Começou a gemer de dor, cobrindo parte do seu rosto com as duas mãos, próximo à boca e ao nariz.
Então a garota caiu em si e percebeu o que acabara de fazer. Jogou-se no chão e entrou em desespero:
— Meu Deus! Você tá bem? – disse tentando o ajudar a levantar.
Então ele tirou ambas as mãos de seu rosto e ela conseguiu ver o sangue escorrer e tomar conta de toda sua mandíbula.
— Meu Deus! Ai, o que eu fiz? – levantou-se e começou a andar em círculos, sentindo o desespero tomar conta de si.
Então voltou a ficar ao chão, vendo aquela pessoa que classificara como um maníaco, contorcendo-se em dor. Então, desesperada, procurou o molho de chaves perdido em meio à confusão enterrado próximo ao tapete coberto por neve, fisgou-o e abriu a porta o mais depressa que pôde.
Logo em cima do balcão que ligava a cozinha e a sala de estar da sua casa, havia deixado pedaços de gases e um resto de soro, pegou-os e correu para fora, umedecendo as tiras de gases no soro e estancando o sangramento que saía parte pelo nariz e outra parte por um ferimento no lábio superior.
Enquanto fazia pressão, só imaginava o que tinha feito e tentava colocar a culpa na adrenalina, mas não tinha tanta certeza se fora isso mesmo que a impulsionou a machucá-lo, mesmo que sem querer.
Quando se deu conta, não agüentava mais olhar o sangue jorrando, então respirava fundo, com a cabeça inclinada ao céu, de olhos fechados. Quando tomou coragem de olhar novamente para o rapaz, o mesmo não se movimentava mais, tinha os olhos fechados.
Meu. Deus. Do. Céu.
— MEU DEUS DO CÉU! – sussurrava em desespero – Eu o matei, ai meu Deus!
Levantou-se, desnorteada, sem reação, não sabia o que faria. Então olhou mais uma vez para John. Chegou à conclusão de que se tratava apenas de um desmaio.
Um desmaio. Ainda estava sob efeito desesperador. Não negava. Havia muito tempo que não se sentia assim. Logo hoje, meu Deus.
Respirou fundo e buscou fôlego para que decidisse o que poderia ser feito.
Deixá-lo na esquina, isso. Não, não. Apesar de ter medo, não podia deixá-lo desmaiado naquele frio.
Ligar pro Hospital, exatamente. Não, não prestaria, não queria dar explicações do ocorrido.
Arrastá-lo para dentro de casa, deitá-lo no sofá, fazer um curativo, depois fazer uma oração para que ele não acordasse e fizesse algo de ruim a ela. Isso.
NÃO. MESMO. NÃO. NÃO. NÃO. NÃO. NÃO. NÃO. NÃO. NÃO!
— Sim! – desistiu, por fim. Era o melhor a fazer.
Com esforço, começou a puxá-lo pelos ombros, sentindo o incômodo atrito de seus dedos sem luvas com o casaco sintético dele. Esforçou-se ainda mais e conseguiu deitá-lo no tapete da sala enquanto trancava a porta. Parou por segundos e retomou o fôlego para colocá-lo no sofá. Enfim, conseguiu.
— Ai meu Deus. Diga-me o que fiz para merecer tamanha tragédia! – lamentava-se dramaticamente.
Só pode ser coisa de Satanás, só pode!
Era tudo que pensava. Voltou a estancar o sangue e fez um curativo no ferimento. Tudo que podia fazer. E claro, deitá-lo no seu sofá.
Um estranho. Um desconhecido. Que a perseguiu. A quem golpeou. No seu sofá.
Cinco minutos depois, ela ainda o observava. Nesse momento ele começou a mover a cabeça, como se acordasse de um sonho ruim.
Bem, acho que ser golpeado no meio da fuça com uma vassoura deve ser o suficiente, não é?
Logo, ela posicionava-se de um modo formal, porém receosa. O que ele faria ao acordar?
— Onde? – tentava desgrudar os olhos, num tom confuso, desnorteado – Mas o quê?
Ela continuou calada, até ele conseguir levantar-se e sentar mais confortavelmente no sofá.
— Que dor! – gemeu, tocando levemente a cabeça. Fraco. Muito fraco.
— Tome. – disse, entregando uma almofada e amaciando-a para que pudesse apoiar sua cabeça.
— Você? O que fez comigo? – disse, com medo, observando o lugar por completo, ainda com a visão turva.
— Desculpe, eu lhe machuquei. Mas não foi de propósito.
— Sua louca! – disse, tentando levantar, porém sem sucesso.
Ela não quis responder. Afastou-se de leve, dessa vez com o sentimento de culpa intensificado.
— Você fez isso comigo? – perguntou, sentindo as dores no nariz e seu lábio arder.
Ela permanecia em silêncio. Então ele a encarou.
— Quem é você? – perguntou.
— Não importa. – cuspiu as palavras, secamente.
— Você me bate, me seqüestra e não quer dizer seu nome? – indignou-se.
— Não te seqüestrei, te machuquei, mas não com essa intenção. – retrucou, elevando o tom de voz – Enquanto a você? Esbarra em mim, com óculos escuros, bigode falso e me segue até aqui! Sou uma louca, deixei um louco entrar na minha casa!
— Não! Não sou um louco! – gritou.
— Pare de gritar, por favor. – diminuiu o tom de voz – Os vizinhos podem ouvir.
— Que se dane!
Alguém batia à porta. Então puderam ouvir “abra a porta”.
— Olha, é minha avó, você não pode ficar aqui! – murmurou.
— Para onde vou então?
— As escadas!
— Vou deitar nas escadas?
— Claro que não, suba as escadas e entre na terceira porta à direita. Esconda-se dentro do armário. Rápido. – disse, o puxando pela manga do casaco.
Ele levantou ainda tonto então sumiu escada acima. A garota respirou fundo, juntou rapidamente a sujeira que tinha feito limpando o sangue e jogou pela janela da cozinha. Passou as mãos sobre a blusa e abriu a porta.
— Oi vovó. – disse, sorrindo, forçando a calma.
— Oi, Rachel. – a avó entrava e tirava o casaco, logo se sentando em sua poltrona e ligando a televisão.
— Quer um chá vovó?
— Sim. Prepare.
Com a caneca em mãos, apenas pegou o bule de água quente de cima do fogão e misturou com o pó de mate. Colocou sobre um pires, mexeu com a colher, retirando-a, dando duas leves batidas na borda da caneca.
— Tome vovó. – disse, entregando a mesma.
— Você demorou a abrir a porta, onde estava? – questionou, dando um gole no chá.
— Arrumando meu quarto, desculpe.
— Ótimo.
— Ahã. – apenas concordou.
— Vá dormir Rachel, amanhã você tem aula.
— Sim vovó.
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