December, 21
3 Fantasmas
Foi breve.
Apenas uma hora depois de ter ido para seu quarto, — fingindo dormir – saiu do mesmo e sua avó já devia estar no décimo quarto sono ou mais. Sentada na poltrona, roncando levemente. A televisão devia estar com o volume no dez.
De uns tempos para cá, ela dormia com uma facilidade assustadora. Rachel pegou-se pensando no porquê de ter demorado uma hora trancada no quarto se em dez minutos estaria absolutamente livre para transitar pela casa.
Logo abandonou aquele pensamento que a distraíra e fitou a escada, respirou fundo e seguiu em frente, pisando logo o segundo degrau, ouvindo a madeira ranger.
Fechou os olhos e deu outro passo, parando dois degraus depois, e assim o fez até chegar ao topo da escadaria. Seu caminhar era calmo, porém desconfiado. Aproximava-se ainda mais do cômodo onde pedira para que aquele desconhecido esperasse.
— Olá. – disse John ao perceber que a garota entrava no quarto.
Ela não o respondeu de imediato, apenas o olhou, trancando a porta de forma que não fizesse nenhum tipo de ruído.
— Oi. – respondeu, passando as duas mãos na barra de sua camisa, timidamente.
— Estou bem, obrigado por perguntar. – ironizou ao mesmo tempo em que se apoiava numa prateleira repleta de livros para levantar-se.
— Ah, claro. – forçou simpatia.
— Quarto legal.
Observava canto a canto, cada detalhe. O quarto era razoavelmente espaçoso. As paredes eram brancas, porém um tanto quanto azuladas; havia diversas prateleiras, com livros aparentemente pesados, aos quais não identificou de primeira, a não ser pela Bíblia. A cama ficava ao lado de uma poltrona verde musgo, era de casal, lençóis brancos e uns oito travesseiros, grandes e pequenos, em tons pastéis. O chão era de madeira, madeira de carvalho, com certeza.
— Obrigada. – respondeu Rachel, cruzando os braços e olhando-o com indiferença, interrompendo a observação de John.
— Alguém dorme aqui? – perguntou, passando a ponta dos dedos sobre a prateleira atrás dele.
— Não.
Então percebera o motivo de tanta poeira, já imaginava a resposta, mas agora tinha certeza.
— Vamos sair daqui. – Rachel parecia incomodada.
E John percebeu.
— Tudo bem, vamos.
. . .
— Por que estamos indo ao porão?
— Não é um porão.
Passavam por um corredor escuro, ao fim havia uma porta branca. Então pararam em frente a ela e Rachel tirou uma chave com detalhes verde de um lugar que John não observou no momento. Abriu a porta e John só podia observar o breu. Um breu completo.
Rachel tateou a parede até achar o interruptor e uma forte luz amarelada iluminar o cômodo.
Era um porão. Claro.
— Cuidado ao descer as escadas, você pode cair e morrer de vez. – Rachel descia degrau por degrau.
— Ah, ok. – deu um passo a frente, com cautela.
Chegaram ao fim da escada e então ele pôde observar a atmosfera do lugar.
Era bem grande, bem maior que o quarto em que tinha ido se esconder. As paredes eram brancas, o chão era da mesma madeira do quarto. Possuía um aroma de similar ao campo, rosas e pinheiro, bem agradável. Ao contrário de muitos porões mofados, úmidos e repugnantes.
Então percebeu não se tratar apenas de um porão, e sim um quarto. Conclusão óbvia ao ver uma cama de solteiro encostada na parede. O lençol, as fronhas dos três travesseiros, as cobertas eram de brancos impecáveis. A única cor que contrastava era uma espécie de boneca de porcelana.
John aproximava-se da cama, Rachel apenas o acompanhava, logo atrás. Não sabia explicar o motivo, mas não sentia mais medo daquele ser. Também não sabia o porquê dela estar o deixando tão a vontade em sua casa, não sabia absolutamente nada sobre ele.
À medida que se aproximavam da cama, John fitava a boneca com curiosidade. Decidiu pegá-la e quando esticou sua mão para buscá-la foi repreendido:
— Não. – disse Rachel – Não a toque, por favor.
— Desculpe. – apenas disse, percebendo um olhar vago dela para a boneca.
— Tudo bem.
Voltou a observar a boneca. Tinha cabelos levemente cacheados pretos, bochechas rosadas, olhos castanhos de vidro e vestia um vestido liso azul bebê surrado, tinha luvas. Luvas brancas, mas encardidas.
Percebendo a curiosidade do rapaz, apenas disse:
— Minha mãe me deu, quando tinha apenas quatro anos.
John nada falou. Continuou a observar a boneca, sentindo a respiração da menina pesada.
— Um ano depois ela morreu. – engoliu em seco, logo depois sorriu com angústia – No mesmo dia em que Louise completava um ano.
— Quem é Louise? – perguntou, virando-se para ela.
— A boneca. – deu meia volta e olhou o teto, parecia tentar conter lágrimas.
Sem saber o que falar, resolveu observar o resto do quarto.
Era incrivelmente limpo, perto da cama tinha um grande tapete marrom. Do lado da cama uma escrivaninha, com livros, papéis, canetas, lápis e um pequeno abajur ligado.
— Sinto muito.
— 21 de Dezembro, 1997. – citou, sentando-se num pequeno sofá em frente à escada. Não tão distante de onde estavam.
John pensava se seria o certo sentar-se ao seu lado quando notou a menina fungando, colocando uma de suas mãos sobre o rosto, com o cotovelo apoiado no encosto do sofá. Porém aproximou-se, com certo receio, sem o que falar. Por fim, sentou-se ao seu lado, com uma distância de trinta centímetros ou menos.
Então caiu em sim. Hoje eram vinte e um de Dezembro de 2010. Treze anos sem uma figura materna.
— Sinto muito. – realmente não tinha idéia do que dizer.
— Tudo bem. – limpou a primeira lágrima que descia pela sua bochecha esquerda.
O que está acontecendo? E por que está acontecendo?
John não entendia o motivo de estar ali, nem o motivo dela estar lhe contando toda aquela informação em tão poucas palavras.
— Me permita saber seu nome? – achou justo perguntar, afinal, já sabia coisas mais importantes a respeito de sua vida.
— Meu nome é Rachel. – desembuchou, com voz fraca.
Suas bochechas eram levemente coradas, olhos castanhos claros profundos, grandes cabelos negros brilhantes e encaracolados em suas pontas. Era branca, porém sem exageros. As maças do rosto eram ressaltadas, seu lábio superior tinha traços bem desenhados e o inferior bem carnudo, formando quase que um coração bem vermelho. E tinha covinhas, covinhas doces e graciosas. Cílios gigantes. Rachel era realmente muito bonita, pensou.
— Meu nome é John.
— John, — respirou e deu um sorriso olhando-o – não me veja chorar.
Ele riu. Que sorriso lindo ela tinha. Doce, amável, encantador. Dentes perfeitamente alinhados e brancos.
— Você tem um sorriso encantador.
— Por favor, — gargalhou suavemente – conheço seu tipo, e não funciona comigo.
— Ah é? – riu – Que tipo?
— Galanteador. – disse fingindo seriedade – Convencido.
Então John gargalhou e levantou do sofá, dando alguns passos à frente. Não podia negar que era uma boa análise, mas tentou negar gesticulando um não com a cabeça.
Ela riu novamente. Então John virou-se e percebeu alguma coisa grande, coberta por um lençol branco e empoeirado. Foi aproximando-se e ouvindo atrás de si a desaprovação:
— Não tire o lençol, por favor.
Tarde demais. John descobrira um piano. Um grande piano, preto. Tossiu ao ver a poeira levantar.
Rachel correu até ele, sem reação. Mas por dentro sentia raiva.
Muita raiva.
— Você toca?
— Tocava.
— Não toca mais?
— Não.
— Por quê?
— Tenho meus motivos.
— Quanto tempo sem tocar?
— Cinco anos.
— Cinco anos?
— Exatos.
— Vinte e um de Dezembro?
— Ahã.
. . .
— Num instante, estávamos lá tocando, uma sinfonia famosa. Sua preferida. No outro, vi seu corpo caído no chão, contorcendo-se. E saía sangue de sua boca e nariz.
Rachel começara a chorar, mas calmamente. Ela e John estavam sentados, ela no chão e ele no banco em frente ao piano.
John dedilhou um si bemol, sem saber o que dizer, como sempre desde que chegara ali há algumas horas.
Rachel levantou-se depressa e o impediu de continuar bruscamente.
— Desde então eu não toco, não canto, não ouço nenhum tipo de música, nem um acorde. – suspirou – Então não toque novamente, por favor.
Concordou com a cabeça. Agora, sabendo o motivo pelo o qual ela não o reconhecera.
— Sinto muito pelo seu pai, Rachel.
Fale com o autor