Debaixo Do Pôr Do Sol
21 Capítulo 21
Notas iniciais
Como ficarão as coisas agora?
Como será esta viagem?
Novos rumos na nossa história.
Vou para casa, levando minhas malas. Meu pai que está na sala me olha surpreso.
– Desistiu de morar com a Pollyanna filha?
– Na verdade não pai. Onde está a mamãe?
– No quarto. Quer falar conosco? O que está acontecendo? – Ele fecha o jornal que lia e foca em mim.
– Pai, por favor. Chame a mamãe. – Sento no sofá me sentindo cansada. Meu pai levanta e traz minha mãe do quarto.
– O que foi minha filha? – Minha mãe pergunta preocupada.
Eu respiro e conto tudo o que vem acontecendo, a ligação de Janaína e a proposta de Miguel.
– Meu amor, não é certo você viajar com seu chefe. – Meu pai reage, o instinto protetor aparecendo.
– Pai, o Miguel é um amigo que está me ajudando. Sou adulta. Não irá acontecer nada que eu não queira. Eu preciso de vocês do meu lado. Está tudo tão difícil. – Minha voz sai esmagada pela vontade de chorar. Meus pais levantam e vêm até mim, abraçando-me.
– Valentina, minha querida. Faça o que achar melhor. Nós estaremos aqui para apoiá-la.
– Bem filha. Você é realmente adulta e sabe o que faz. Mas não excite em nos chamar se precisar. Para onde vocês vão?
– Bem, o Miguel tem uma casa de praia no litoral norte, em Ubatuba. Pensamos em ir para lá e passar o tempo visitando praias próximas. Talvez esticar até o Rio de Janeiro.
– Tudo bem. Só nos mantenha informados ok.
Dou um beijo neles e vou para o quarto arrumar as malas. Assim que seguro a maçaneta, antes mesmo de abrir a porta, meu corpo reage. Merda. Minha vontade é sair correndo, mas preciso resolver isso de uma vez. Entro e encontro Marcos sentado no chão, coçando a cabeça, pernas espalhadas, o chapéu jogado de lado e uma expressão torturada.
Fecho a porta e sento na cama.
– Você quer me matar não é? Eu tenho certeza que sim Valentina.
Ele não me olha. Sua voz é dolorida.
– O que você quer dizer Marcos? – Tento segurar as emoções para poder mentir para ele. Meu coração parece ter dado um nó.
– Acha que não ouvi você falando com seus pais? Por um acaso esse cara é aquele latino filho da puta?
– Marcos... Pare com isso.
– Você deve estar de brincadeira. O que você quer que eu faça? Sente e chore enquanto minha mulher fode com outro! – A voz dele agora está gritada. Ele ainda não olha para mim. Penso em gritar para ele que não é nada disso, mas preciso manter o meu papel.
– Peão, sejamos honestos. Não tem jeito de nossa relação dar certo. Pelo menos não agora. O Miguel me convidou para viajar e eu aceitei. Precisamos nos afastar para não fazermos mais cagada e aquela louca acabar fazendo uma idiotice! – Levanto e começo a andar de um lado para o outro.
– Ela está mais calma Valentina. – Ele ergue o olhar. Seus olhos estão mostrando uma dor intensa e quase não consigo me manter sobre os joelhos. – Não faça isso conosco.
– Mais calma? – Eu grito. – Uma mulher calma não te segue Marcos! Uma mulher calma não me liga às 4h da manhã jurando que se me vir de novo com você vai mandar seu filho morto de presente numa caixa de papelão! Ela é louca! – Os olhos se alargam e seu rosto está assustado. – Eu não posso conviver com o remorso se ela fizer isso Marcos. Nem você. Então, por favor. Vá embora. – Minha voz está cansada.
– Meu Deus, o que ela está pensando? O que eu vou fazer com ela? – Ele disse mais pra si mesmo.
– Você vai amá-la peão. Cuidá-la. Até poder ter esse filho contigo e ela atrás das grades. Por que essa louca precisa ser presa. — Digo soltando um pequeno riso.
– Perdoe-me Valentina. Talvez fosse melhor que nem tivéssemos nos conhecido. Pelo menos não doeria tanto. – A voz dele é sufocada. Ando até ele e seguro seu rosto nas mãos. Dou um beijo doce. Dou alguns passos para trás. Tiro a corrente e os olhos dele ficam marejados. Coloco a corrente na palma de sua mão.
– Não faça isso menina. Você é mais valente que isso.
– Um dia, quem sabe, você não me peça em casamento de novo? – Tento sorrir. Não sei bem se consegui. Ele coloca a corrente no próprio pescoço, junto com a outra. Dá-me outro beijo e sai. Eu não choro. Só sinto um vazio enorme, como se não houvesse qualquer emoção dentro de mim.
Minha mãe entra no quarto e me dá um beijo na bochecha. Começa a me ajudar a arrumar as malas. Cerca de 3 horas depois Miguel está em casa, conhecendo meus pais e levando minhas coisas para o carro. Olho para a colina e vejo a imagem que tanto amo espreitando. Aceno levemente com a cabeça e recebo um aceno de volta, um toque no chapéu. Meu peito aperta e fico sem ar. Minhas pernas bambeiam e acho que vou cair, quando grandes braços morenos me apoiam e me levam para o carro. Partimos.
– Não precisa esconder o choro menina. Eu sei o quanto está doendo em você.
Olho para Miguel, agora sem conter as lágrimas. Ele afaga minha perna. Começamos nossa viagem assim. Oh, merda.
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