Notas iniciais
Oi menininhas.

Olha a confusão! O que será que a Valentina vai fazer?

Na faculdade vejo Juliano ao longe e seus olhos azuis me olham tristes. Aceno com a cabeça e recebo um pequeno sorriso de volta. Sou covarde demais para tentar agora uma reaproximação.

Quando chego na fazenda, nem paro em minha casa. Vou direto para a casa do peão. Antes mesmo de descer do carro ele aparece aflito na porta, sem camisa e ofegante.

- O que você tá fazendo aqui Valentina? – Ele pergunta.

- É, eu... – Travo por um momento tentando reorganizar toda a imagem na cabeça. – Tem alguém contigo peão? – Pergunto baixo e com as mãos na cintura.

- Olha, depois nós conversamos. Você precisa ir. – Atrás dele, uma garota da minha idade aparece na porta com a feição muito nervosa. Ela caminha lentamente em minha direção.

- Então você é a piranha que está dormindo com meu marido. – Ela fala baixo e olhando para Marcos.

Devagar eu o encaro e vejo seu rosto assustado. Dou um passo para trás.

- Valentina, não é como você está pensando. Depois conversamos, por favor. – Ele fala, agora com a cabeça baixa.

Eu não falo nada. Dou meia volta, entro no carro e vou para casa. Entro em meu quarto pela varanda para não falar com meus pais e tranco a porta. Tomo um banho mantendo a cabeça totalmente vazia e deito. Não choro. Não grito. Só estou digerindo a informação. Não quero julgá-lo antes de ouvir tudo da boca dele, mas nesse momento está sendo difícil controlar.

No meio da noite acordo com o barulho de alguém forçando a porta da varanda. Escuto um soco no vidro.

O dia seguinte começa mal. Uma noite mal dormida, cabelos horrorosos e imensas olheiras. Meu mau humor matinal está dez vezes pior. Coloco uma calça jeans, tênis e uma camiseta e vou trabalhar sem tomar café. Não quero falar com ninguém. No meio do dia, meu chefe me liga chamando para almoçar, mas recuso.

Novamente, por volta das 16h, recebo uma entrega da secretária dele. Uma caixa de chocolates e um bilhete:

“Vi você de longe e percebi que não está bem.

Espero que seja tão amante de chocolate quanto eu, e que isso alegre seu dia.

Miguel”

Sorri para o bilhete. Uma pequena bajulação caiu bem hoje. Pego minhas coisas e resolvo ir direto para casa. Coloco a caixa de chocolate no banco do passageiro e vou devorando no caminho, ao som de System of a Down.

“Wake up (Wake up)

Grab a brush and put a little make up

Hide the scars to fade away the shake up

(Hide the scars to fade away the)

Why'd you leave the keys upon the table?

Here you go create another fable”

Eu estava louca, gritando no carro essa música e a boca cheia de chocolate quando parei na frente de casa. Desci ainda cantando e jogando os cabelos como uma histérica. É, eu estou realmente tentando não pensar na merda toda do meu namorado. Entro no quarto e meus pais invadem o cômodo na mesma hora.

- Valentina? – Pergunta meu pai com cuidado.

Viro devagar e os encaro.

- FORA DAQUI OS DOIS. – Eu falo devagar e apontando a porta.

Minha mãe tenta falar, mas meu pai a arrasta. Assim que fecham a porta eu sinto um braço imenso me agarrar pela cintura e colocar a outra mão na minha boca.

- Não grite. – Ele sussurra em meu ouvido. Faço que sim com a cabeça e ele me solta.

- Não quero falar contigo hoje. – Eu digo, sentindo meu coração apertado.

- Mas vai ter que falar.

- Eu prometi a mim mesma que não tiraria conclusões precipitadas e te escutaria. E eu vou. Mas agora não.

- Valentina... Eu não aguento ficar assim com você. Nós vamos conversar agora.

- GGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!!!!! – Jogo-me no colchão e coloco o antebraço sobre os olhos. Sinto a cama mexer com ele sentando aos meus pés.

- Comece a falar peão. Mas não me responsabilizo pelos meus atos. Eu avisei. — Digo sem olhá-lo.

- Bem. – Ele começa. – Aquela que viu em casa é Janaína, minha ex-mulher. Estou me separando e isso leva tempo.

Ele fica quieto como se o que disse bastasse. Ainda com o braço tampando meu rosto, pergunto:

- Quer que eu te faça perguntas para ajudar a explicar tudo?

- O que mais você quer saber? – Seu tom parece frustrado.

- Beleza. Primeiro, o que ela estava fazendo na sua casa?

- Ela precisava falar comigo.

- Sobre?

- Droga, Valentina. Eu não queria te contar assim!

- Vamos pular essa parte então. Por que ela me chamou de piranha, como se vocês ainda fossem normalmente casados e você a estivesse traindo?

- Porque eu havia dito que iríamos voltar...

- Ótimo. Vamos volta à outra questão: o que ela foi falar com você?

Ouvi um grande suspiro e senti ele levantar da cama.

- Ela está grávida. – Ele soltou rápido, como se tivesse medo de não conseguir me dizer. Meus olhos encheram de lágrimas que começaram a escorrer.

Ouvi ele aproximar a passos rápido.

- Menina valente, não, não chore...

Eu estendi uma mão, fazendo sinal para ele parar.

- Continuando. – Minha voz está rouca e grossa pelo choro. – Você vai voltar com ela por causa do bebê?

- Não! Isso foi antes de te conhecer.

- Não gosto do título de destruidora de lares Marcos. – Ergui o braço e levei as mãos ao rosto para enxugar as lágrimas que não paravam de cair. – Saia do meu quarto, por favor. – Minha voz saiu como um sussurro.

Ele veio até a cama e pairou em cima de mim, olhando em meus olhos.

- Seus olhos ficam de um castanho-claro lindo e brilhante quando chora. Quase mel. – Ele disse com o rosto pertinho. – Eu não vou embora. Eu não vou voltar com ela menina. Se você me aceitar mesmo sendo um futuro papai, eu quero ficar com você.

- Eu não sei Marcos. Uma criança é muita responsabilidade.

- Minha responsabilidade. Não posso abandoná-lo. Mas não vou ficar sem você também.

Respirei profundamente e fechei os olhos. É muito difícil raciocinar com ele em cima de mim. Virei de lado me encolhendo como uma bola. Ele deitou atrás de mim e me abraçou. Mil coisas passaram pela minha cabeça. Mil problemas, discussões, obstáculos que virão com essa criança. Nenhum deles foi o suficiente para diminuir minha necessidade do homem que está abraçado a mim.

Virei de frente para ele.

- Eu vou ficar contigo. Mas não sei o quanto posso aguentar.

- Eu aguentarei tudo por você, minha menina valente. – Ele passava a mão calejada pela minha coluna, embaixo da camiseta. – Sei que estamos juntos há pouco tempo, mas você preenche minha vida. Fica comigo? Por favor.

Peguei seu rosto com as mãos e o beijei apaixonadamente. Aninhei-me em seu peito. Sinto-me tão esgotada. Como se tivesse sido atropelada por um trem. Adormeço e meus sonhos são invadidos por olhos cor ônix, ex-mulheres platinadas e choro de criança.