Debaixo Do Mesmo Teto
8 I ain't lost, just wandering round my hometown, memories are fresh
Notas iniciais
Sabe quando você sente o chão se desfazer abaixo de você, pronto pra te engolir num buraco negro frio e profundo? Era exatamente assim que Peter se sentia. Parece bobo, mas sua impressão de que Andrew apareceu na vida dele e de Savannah apenas para afastá-los crescia dia após dia e, ouvindo a voz dele vindo do telefone da namorada, a sensação tomou conta de seus pulmões, fazendo-o prender a respiração até que ele sentiu uma vertigem forte e quase caiu. Segurando-se na cama, ele voltou a respirar lentamente e sentou.
— Alô? Tem alguém aí? – Andrew falava do outro lado da linha. Com uma voz mais distante, continuou – Savannah, tem alguém te ligando, mas não responde...
— Sou eu, Andrew. Peter. Cadê a Savannah? – ele finalmente conseguiu responder.
— Fala, brother, maninha tá subindo! Espera que ela já fala com você! – ele parecia se divertir com a situação. Peter não conseguia ver graça naquilo.
Savannah demorou o que pareceu uma eternidade para seu namorado, que aos poucos retomava a respiração. Mil coisas passavam por sua cabeça, tentando entender o que Andrew estava fazendo com o celular dela, de onde vinha a intimidade deles – aquele “maninha” não descia pela garganta dele. Mas a pior parte era aquela sensação cada vez mais forte de estar perdendo a garota que amava para outro cara.
— Oi, amor, desculpa. O babaca do Andrew pegou meu celular assim que ele começou a tocar e saiu correndo, feito criança. Argh, que ódio! – Savannah falava rápido, meio sem ar. Parecia estar mesmo correndo. Parte de Peter estava aliviada, a outra parecia sufocá-lo mais ainda.
— Tudo bem – ele se esforçava para manter a calma – Eu só queria te contar uma novidade.
— Ah, é? Conta logo, você sabe o tanto que eu me estresso com surpresas.
Ele não conseguiu segurar o risinho. Savannah era o pior tipo de pessoa para se surpreender, ela sempre reagia mal a qualquer surpresa. A lembrança do último aniversário que ele tentou organizar para ela o fez rir mais...
Tudo estava pronto. A decoração em seu lugar, as bebidas no freezer, os salgados quentinhos, a vela no bolo, pronta pra ser acesa assim que ela chegasse, os amigos escondidos...
— Gente, gente, silêncio, ela tá vindo – Natalie voltava da porta, querendo rir. Ela se encolheu do meu lado e acendeu a vela. Graças a ela, parecia que tudo daria certo. Não poderia querer amiga melhor.
— Obrigada, Nat, sem você, eu não conseguiria fazer isso sozinho. – sorri, no escuro, para ela.
— É, eu sei, sou demais – ela riu, baixo – Não tem que agradecer, Pet, vocês são meus melhores amigos, é claro que eu ajudaria! Mas agora fica quieto que ela tá chegando.
Alguns poucos minutos se passaram até que Savannah abriu a porta e acendeu a luz, conversando animadamente com a tia Susan, que vinha atrás dela. Tínhamos combinado tudo: ela levaria Sav para a livraria, seu lugar preferido no mundo, e depois para lanchar. Nesse tempo, chegariam todos os amigos, arrumaríamos tudo e nos esconderíamos, aparecendo quando ela abrisse a porta e acendesse a luz. Típica festa surpresa. Susan não foi muito a favor no começo, mas acabou cedendo. Ela parecia ter medo de alguma coisa dar errado. Mas todos nós estávamos muito empenhados em fazer funcionar e ser o melhor aniversário da vida de Savannah.
E, quando ela o fez, todos nos levantamos, eu e Natalie na frente dos outros amigos, mais próximos da porta e começamos a cantar.
— PARABÉNS PRA VOCÊ, NESSA DATA QUERIDA, MUITAS FELICIDADES, MUITOS ANOS DE VIDA...
Todos riam e pareciam se divertir cantando, mas eu vi os olhos da minha menina se enchendo de lágrimas e nenhum sorriso. Me aproximei com o bolo para ela assoprar a vela, mas ela, como sempre, me surpreendeu: empurrou a torta de chocolate na minha camiseta e saiu correndo, entrando no quarto e trancando a porta. Eu e Nat nos entreolhamos. Ninguém parecia entender a reação dela.
— Eu tentei avisar vocês, meninos, mas vocês insistiram tanto. – Susan suspirou – Surpresas lembram o pai de Savannah, ele adorava fazê-las para a menininha dele. Apesar de ser muito pequena na época, ela ainda se lembra. E é isso que acontece quando alguém tenta fazer algo do tipo.
Os olhos dela estavam marejados e eu pude sentir a culpa pesar em suas costas.
— Tudo bem, tia, eu dou um jeito nisso. Você consegue outro bolo pra gente?
— Sim, vou à doceria aqui ao lado e vejo o que consigo – Susan pegou a chave do carro e se dirigiu à porta.
Joguei o que restou do bolo na mesa da cozinha e tirei a blusa, deixando no tanquinho da área de serviço. Natalie ficou na sala com resto do pessoal, tentando conter a situação chata. Todos pareciam decepcionados. Fui para o quarto e bati na porta, pedindo para Savannah abrir a porta. Silêncio. Depois de algum tempo, ouço a tranca se desfazer e a porta abrir.
Savannah estava deitada na cama, chorando muito. Deitei ao seu lado, abraçando-a.
— Desculpa, meu amor, eu não sabia que você não gostava de surpresas.
— Eu nunca te contei… – ela disse, entre lágrimas.
— Eu entendo, é algo muito pessoal, sei o quanto essas lembranças ainda te afetam – eu acariciava seus cabelos, tentando tranquiliza-la – Eu e a Nat só não imaginamos que algo assim poderia te entristecer tanto. A intenção era que fosse o seu melhor aniversário.
— Ah, meu amor, eu quem peço desculpas. Está tudo lindo na sala, você e a Nat mandaram muito bem. Eu só não consigo encarar muito bem surpresas – o choro parecia ir amenizando. Nossos olhares se encontraram e eu sorri.
— Eu sei, somos demais – fui respondido com um tapa no peito, mas continuei sorrindo – Calma, calma, é só brincadeira. Agora que passou o “susto”, você não quer dar um oi pro pessoal e curtir a sua festa, como se ela não fosse surpresa?
Ela suspirou e concordou.
— O que foi? Tá rindo do quê? – Savannah perguntou
— Lembrei da sua “festa-surpresa-que-deixou-de-ser-surpresa” no ano passado. Aquilo foi desastroso. – Peter riu mais e Sav o acompanhou.
— Tá vendo? Eu odeio surpresas. Então desembucha logo.
— Então senta, essa das boas. Adivinha quem passou pra Engenharia Aeroespacial em Stanford? – A linha ficou muda. Nenhum som vinha de Savannah, até mesmo sua respiração parecia estar suspensa.
— Alô, Sav? Você tá aí? – Peter achou que a ligação pudesse ter caído e já estava pronto pra desligar quando ouviu um grito do outro lado da linha.
— AIMEUDEUSDOCÉUSOCORROOOOOOOOO – Ele não podia ver, mas Savannah pulava na cama – MEU NAMORADO É UM GÊNIO! AI MEU DEUS, QUE ORGULHOOOOOO!
— Eu sei, amor, é incrível quase não acreditei quando vi a carta no correio hoje. Meu sonho está começando!
— Ah, meu amor, a felicidade é tanta que eu não sei explicar... – ela parou de respirar por alguns segundos – Espera, se a sua já chegou, a minha também deve estar na caixa de correio!
Ela saiu correndo, descendo às escadas e quase caindo no final e encarando um Mike e uma Susan, completamente confusos. Abriu a porta e foi direto a caixa. Conta de luz, água, carta da tia Helen, Universidade de Harvard, Stanford, Yale, MIT.
— AI. MEU. DEUS. – Savannah não respirava – Chegaram! Não, espera... As cartas não são minhas... São de Andrew.
Peter falava do outro lado da linha, mas Savannah não o ouvia. Sua mente girava e milhares de perguntas rondavam sua cabeça. Mas duas se repetiam enquanto ela entrava novamente na casa: “É sério que ele se candidatou para as mesmas universidades que eu? Eu corro o risco de passar os próximos quatro anos tendo que encontrá-lo sempre?”
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