Death Note: Ω
1 Prólogo: Luto (Mio)
Notas iniciais
16h47 — 21 de junho de 2026
Otani Honbyo, Higashiyama — Kyoto
Mio
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O céu de Kyoto ainda estava cinzento da chuva recente. Do lado interior do cemitério, o solo continuava úmido e guardava água nas frestas das pedras. As lanternas estavam escurecidas pela chuva, e as árvores soltavam gotas atrasadas sobre os túmulos. Um leve aroma de incenso vinha de algum lugar acima, misturado ao ar frio que descia da encosta.
O nome Kujō aparecia entre alguns troncos, lanternas de pedra e flores brancas recém-colocadas. A fita do arranjo pendia torta.
— Ela teria odiado isso — disse Mio.
Atrás dela, Sion empurrou a cadeira vagarosamente sobre as pedras.
— A fita?
— O nó…
Ele olhou por cima do ombro, na direção da lápide clara que ficava alguns metros acima.
— Você o refez três vezes — disse Sion.
— E continuou ruim...
Sion usava um sobretudo preto, comprido, fechado até o alto do peito. Por baixo, uma gola alta cinza-escura. A calça escura caía reta sobre sapatos manchados pela água do caminho. O cabelo molhado pingava de vez em quando sobre a gola.
Mio, por outro lado, vestia um casaco longo de lã preta. As luvas eram finas, de couro escuro, e a manta sobre as pernas tinha o mesmo tom do restante da roupa. O cabelo estava preso atrás da cabeça.
As rodas passaram por uma junta mais funda entre as pedras. Sion reduziu o passo antes que a irmã dissesse qualquer coisa.
Mio virou o rosto, fitando-o pelo canto do olho.
— Mais pra esquerda — alertou ela.
Sion corrigiu o curso da cadeira.
— Eu tinha visto — disse ele.
— É, depois que eu falei.
Sion aceitou em silêncio.
O caminho descia. À frente, o telhado do portão aparecia entre a madeira e o verde lavado das folhas.
Sion empurrou a cadeira com bastante firmeza, usando ambas as mãos.
— Para de tratar a descida como se ela fosse me matar — disse Mio.
— O chão tá escorregadio.
— Eu sei, Si... — ela fez uma pausa. — Tô mais perto dele do que você.
Ele soltou o ar pelo nariz. Não chegou a ser um riso.
Ambos passaram por um funcionário do templo recolhendo um guarda-chuva esquecido. O homem inclinou a cabeça em cumprimento e desviou para o lado.
Sion o saudou da mesma forma. Mio manteve os olhos no caminho.
Perto do portão, Sion diminuiu outra vez.
— Que foi? — perguntou ela.
Sion se manteve em silêncio.
Mio encostou a coluna na cadeira e ergueu a cabeça para fitá-lo.
Ele olhou para trás, em direção à encosta. A lápide já havia sumido atrás das árvores.
— Você acha que eles ficariam satisfeitos?
Mio inclinou a cabeça.
— Com o quê? — perguntou.
— Conosco.
Ela ajeitou a manta sobre os joelhos.
— A vovó reclamaria da fita. O vovô perguntaria das contas. Depois, fingiriam que não estavam felizes em nos ver.
Sion ficou quieto por alguns passos.
— Você fala como se eles ainda estivessem esperando — disse Sion.
— Você também pergunta como quem espera.
O portão de madeira surgiu inteiro à frente. Do outro lado, Higashiyama voltava a fazer barulho: turistas com guarda-chuvas transparentes fechados, pneus cortando poças rasas, uma bicicleta rangendo ao frear, vozes misturadas ao motor distante de um ônibus.
Mio ergueu dois dedos.
— Pela direita, Si — disse ela.
— Eu sei.
Mais abaixo, além do portão, um sedã preto aguardava com o pisca-alerta ligado. O motorista estava fora do carro, ao telefone, mas endireitou a postura assim que os viu. Do lado de fora, a calçada era mais irregular que o caminho do cemitério. Pequenas poças se acumulavam perto do meio-fio.
Sion parou a cadeira no limite do portão. As rodas dianteiras tocavam a calçada; as traseiras ainda estavam sobre a pedra do templo.
Mio percebeu a pausa.
— E agora, o quê? — questionou ela.
Ele olhou para trás uma última vez.
— Nada — disse Sion.
Mio manteve os olhos na rua. Depois, disse:
— E então?
Sion ficou imóvel por mais um segundo. Então empurrou a cadeira para fora.
O acolhedor aroma de incenso ficou para trás, dando espaço ao cheiro de asfalto molhado, motor quente e comida distante. O vento soprou, rasgando o espaço entre eles e a rua. Frio demais para junho, rápido demais para parecer natural.
Mio ergueu os olhos. A calçada à frente estava praticamente vazia. No meio dela, alguns metros adiante, havia algo que parecia ser um livro preto. Seco, em contraste com o restante do ambiente.
Mio deixou Sion se aproximar até erguer a mão.
— Para — ordenou ela.
A cadeira parou.
Sion ficou imóvel atrás dela. Depois de um segundo, ele também viu.
— Isso já tava aí?
Mio observou o chão ao redor. As poças refletiam fios elétricos, o céu cinza e um traço vermelho do semáforo mais abaixo. O livro não refletia nada.
— Não — disse ela.
— Tem certeza?
— Tenho.
Sion soltou o apoio da cadeira.
— Fique aqui.
Mio arqueou as sobrancelhas e olhou para as próprias pernas.
— Mas que ordem inútil…
Sion aproximou-se devagar do objeto de capa negra. Parou diante do que julgava ser um livro e olhou para os lados antes de se agachar. Havia turistas mais abaixo, um ciclista esperando para atravessar e o motorista deles ainda perto do carro. Ninguém parecia olhar para o artefato.
Sion estendeu a mão, mas parou antes de tocar. Mio assistiu a cena.
Sion pegou o livro pela lateral. Era grosso. A manga do sobretudo pingou sobre a calçada. Do livro, nem uma gota de água caiu.
Ele ficou alguns segundos em silêncio, lendo a capa.
— Liber Mortis.
— Latim? — perguntou Mio.
— Livro da Morte.
Sion olhou para o objeto como se fosse algo desdenhável, infantil.
— Que bobagem…
— Traz aqui.
Sion virou o rosto para ela.
— Você quer isso? — perguntou, com uma expressão de desaprovação.
— Quero ver.
Ele voltou segurando o livro longe do corpo. Quando chegou diante da cadeira, estendeu-o.
— Toma. Eu não quero.
Mio recebeu o livro no colo. A capa estava fria. Ela baixou os olhos para o couro preto. As letras pareciam gastas. O branco delas não brilhava.
— Você nem abriu — disse ela.
— Nem preciso.
Mio olhou para a mão dele.
— Então por que tá tremendo?
Sion fechou os dedos.
Não respondeu.
Ela passou o polegar pela borda da capa. Olhou a contracapa e, na parte central inferior, viu uma palavra: Nodvs.
— Nodus.
Ela olhou para Sion, esperando que ele soubesse o significado.
Ele fez uma expressão de desdém com os lábios.
Ela voltou a encarar a contracapa.
Isso não caiu…
Mio olhou para o céu, para as nuvens acima.
Foi largado aqui.
Ela abriu o livro.
No interior da capa, havia uma lista de regras escritas em japonês. Depois de algumas páginas negras endurecidas, folhas em branco, puras, sem linhas definidas.
Mio leu a primeira regra, internamente, para si própria.
O humano cujo nome for escrito neste livro morrerá.
Silêncio.
Mio soltou um suspiro baixo e fechou a capa devagar.
Sion a observava.
Ela puxou o livro para junto das pernas e o cobriu com a manta.
— Vamo. Tá na hora de ir pra casa — disse Mio.
Sion a fitou por mais um instante, até ela erguer os olhos para ele. Foi somente ali que ele voltou para trás da cadeira e a guiou até o carro.
Durante o percurso, Mio manteve o olhar no chão à frente. Havia uma calma estranha nela.
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