Death Note: Ω

1 Prólogo: Luto (Mio)


Notas iniciais
Conteúdo recomendado para maiores de 16 anos. Esta obra contém mortes, assassinato sobrenatural, temas políticos sensíveis, culto a figura pública, radicalização, manipulação ideológica, luto, culpa, discussões religiosas/morais e linguagem adulta. Também há referências a crimes graves e instabilidade social. A obra não endossa as ações dos personagens nem apresenta execução, culto ou violência política como modelo a ser seguido.

16h47 — 21 de junho de 2026

Otani Honbyo, Higashiyama — Kyoto

Mio

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O céu de Kyoto ainda estava cinzento da chuva recente. Do lado interior do cemitério, o solo continuava úmido e guardava água nas frestas das pedras. As lanternas estavam escurecidas pela chuva, e as árvores soltavam gotas atrasadas sobre os túmulos. Um leve aroma de incenso vinha de algum lugar acima, misturado ao ar frio que descia da encosta.

O nome Kujō aparecia entre alguns troncos, lanternas de pedra e flores brancas recém-colocadas. A fita do arranjo pendia torta.

— Ela teria odiado isso — disse Mio.

Atrás dela, Sion empurrou a cadeira vagarosamente sobre as pedras.

— A fita?

— O nó…

Ele olhou por cima do ombro, na direção da lápide clara que ficava alguns metros acima.

— Você o refez três vezes — disse Sion.

— E continuou ruim...

Sion usava um sobretudo preto, comprido, fechado até o alto do peito. Por baixo, uma gola alta cinza-escura. A calça escura caía reta sobre sapatos manchados pela água do caminho. O cabelo molhado pingava de vez em quando sobre a gola.

Mio, por outro lado, vestia um casaco longo de lã preta. As luvas eram finas, de couro escuro, e a manta sobre as pernas tinha o mesmo tom do restante da roupa. O cabelo estava preso atrás da cabeça.

As rodas passaram por uma junta mais funda entre as pedras. Sion reduziu o passo antes que a irmã dissesse qualquer coisa.

Mio virou o rosto, fitando-o pelo canto do olho.

— Mais pra esquerda — alertou ela.

Sion corrigiu o curso da cadeira.

— Eu tinha visto — disse ele.

— É, depois que eu falei.

Sion aceitou em silêncio.

O caminho descia. À frente, o telhado do portão aparecia entre a madeira e o verde lavado das folhas.

Sion empurrou a cadeira com bastante firmeza, usando ambas as mãos.

— Para de tratar a descida como se ela fosse me matar — disse Mio.

— O chão tá escorregadio.

— Eu sei, Si... — ela fez uma pausa. — Tô mais perto dele do que você.

Ele soltou o ar pelo nariz. Não chegou a ser um riso.

Ambos passaram por um funcionário do templo recolhendo um guarda-chuva esquecido. O homem inclinou a cabeça em cumprimento e desviou para o lado.

Sion o saudou da mesma forma. Mio manteve os olhos no caminho.

Perto do portão, Sion diminuiu outra vez.

— Que foi? — perguntou ela.

Sion se manteve em silêncio.

Mio encostou a coluna na cadeira e ergueu a cabeça para fitá-lo.

Ele olhou para trás, em direção à encosta. A lápide já havia sumido atrás das árvores.

— Você acha que eles ficariam satisfeitos?

Mio inclinou a cabeça.

— Com o quê? — perguntou.

— Conosco.

Ela ajeitou a manta sobre os joelhos.

— A vovó reclamaria da fita. O vovô perguntaria das contas. Depois, fingiriam que não estavam felizes em nos ver.

Sion ficou quieto por alguns passos.

— Você fala como se eles ainda estivessem esperando — disse Sion.

— Você também pergunta como quem espera.

O portão de madeira surgiu inteiro à frente. Do outro lado, Higashiyama voltava a fazer barulho: turistas com guarda-chuvas transparentes fechados, pneus cortando poças rasas, uma bicicleta rangendo ao frear, vozes misturadas ao motor distante de um ônibus.

Mio ergueu dois dedos.

— Pela direita, Si — disse ela.

— Eu sei.

Mais abaixo, além do portão, um sedã preto aguardava com o pisca-alerta ligado. O motorista estava fora do carro, ao telefone, mas endireitou a postura assim que os viu. Do lado de fora, a calçada era mais irregular que o caminho do cemitério. Pequenas poças se acumulavam perto do meio-fio.

Sion parou a cadeira no limite do portão. As rodas dianteiras tocavam a calçada; as traseiras ainda estavam sobre a pedra do templo.

Mio percebeu a pausa.

— E agora, o quê? — questionou ela.

Ele olhou para trás uma última vez.

— Nada — disse Sion.

Mio manteve os olhos na rua. Depois, disse:

— E então?

Sion ficou imóvel por mais um segundo. Então empurrou a cadeira para fora.

O acolhedor aroma de incenso ficou para trás, dando espaço ao cheiro de asfalto molhado, motor quente e comida distante. O vento soprou, rasgando o espaço entre eles e a rua. Frio demais para junho, rápido demais para parecer natural.

Mio ergueu os olhos. A calçada à frente estava praticamente vazia. No meio dela, alguns metros adiante, havia algo que parecia ser um livro preto. Seco, em contraste com o restante do ambiente.

Mio deixou Sion se aproximar até erguer a mão.

— Para — ordenou ela.

A cadeira parou.

Sion ficou imóvel atrás dela. Depois de um segundo, ele também viu.

— Isso já tava aí?

Mio observou o chão ao redor. As poças refletiam fios elétricos, o céu cinza e um traço vermelho do semáforo mais abaixo. O livro não refletia nada.

— Não — disse ela.

— Tem certeza?

— Tenho.

Sion soltou o apoio da cadeira.

— Fique aqui.

Mio arqueou as sobrancelhas e olhou para as próprias pernas.

— Mas que ordem inútil…

Sion aproximou-se devagar do objeto de capa negra. Parou diante do que julgava ser um livro e olhou para os lados antes de se agachar. Havia turistas mais abaixo, um ciclista esperando para atravessar e o motorista deles ainda perto do carro. Ninguém parecia olhar para o artefato.

Sion estendeu a mão, mas parou antes de tocar. Mio assistiu a cena.

Sion pegou o livro pela lateral. Era grosso. A manga do sobretudo pingou sobre a calçada. Do livro, nem uma gota de água caiu.

Ele ficou alguns segundos em silêncio, lendo a capa.

— Liber Mortis.

— Latim? — perguntou Mio.

— Livro da Morte.

Sion olhou para o objeto como se fosse algo desdenhável, infantil.

— Que bobagem…

— Traz aqui.

Sion virou o rosto para ela.

— Você quer isso? — perguntou, com uma expressão de desaprovação.

— Quero ver.

Ele voltou segurando o livro longe do corpo. Quando chegou diante da cadeira, estendeu-o.

— Toma. Eu não quero.

Mio recebeu o livro no colo. A capa estava fria. Ela baixou os olhos para o couro preto. As letras pareciam gastas. O branco delas não brilhava.

— Você nem abriu — disse ela.

— Nem preciso.

Mio olhou para a mão dele.

— Então por que tá tremendo?

Sion fechou os dedos.

Não respondeu.

Ela passou o polegar pela borda da capa. Olhou a contracapa e, na parte central inferior, viu uma palavra: Nodvs.

— Nodus.

Ela olhou para Sion, esperando que ele soubesse o significado.

Ele fez uma expressão de desdém com os lábios.

Ela voltou a encarar a contracapa.

Isso não caiu…

Mio olhou para o céu, para as nuvens acima.

Foi largado aqui.

Ela abriu o livro.

No interior da capa, havia uma lista de regras escritas em japonês. Depois de algumas páginas negras endurecidas, folhas em branco, puras, sem linhas definidas.

Mio leu a primeira regra, internamente, para si própria.

O humano cujo nome for escrito neste livro morrerá.

Silêncio.

Mio soltou um suspiro baixo e fechou a capa devagar.

Sion a observava.

Ela puxou o livro para junto das pernas e o cobriu com a manta.

— Vamo. Tá na hora de ir pra casa — disse Mio.

Sion a fitou por mais um instante, até ela erguer os olhos para ele. Foi somente ali que ele voltou para trás da cadeira e a guiou até o carro.

Durante o percurso, Mio manteve o olhar no chão à frente. Havia uma calma estranha nela.