Death Note: Ω
13 Capítulo VIII: Filtro (Mio)
13h03 — 1º de agosto de 2026
Sala de Jantar, Residência Kujō, Okazaki — Kyoto
Mio
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Mio procurava nomes para o próximo ato.
Em cada fórum, muitos acusavam vizinhos, ex-chefes, ex-maridos, presidentes, ministros, policiais, juízes, bilionários e até celebridades. Para alguns, faltava rosto; para outros, nome completo; para muitos, faltava fonte.
Ela fechou algumas abas.
No laptop, mais denúncias passavam pela tela como um rodízio de pizza. Algumas vinham com documentos anexados, outras com vídeos, outras com reportagens antigas.
Mio lia rápido.
Abriu tradutores, arquivos públicos, notícias locais, registros judiciais, páginas de órgãos oficiais, obituários de vítimas, fotos de coletivas e entrevistas.
Nodus estava parado ao lado da mesa, levemente inclinado sobre a tela do laptop escolhido.
— Você parece ter medo de errar — disse ele.
— Falso testemunho é um aspecto humano comum. Tenho certeza de que sabe disso.
— Sei.
— Pois é...
Nodus silenciou.
Mio abriu uma pasta temporária. Nela, organizou os candidatos por cidade: Nova Iorque, São Paulo, Londres, Tóquio e Seul.
Ela transferiu os arquivos para cinco dos seis laptops que havia ali, um para cada cidade.
Para Nova Iorque, deixou três: um ex-diretor de fundo imobiliário acusado de provocar despejos ilegais e mortes por negligência em prédios deteriorados; um antigo chefe de polícia envolvido em desaparecimentos encobertos por relatórios falsos; e uma promotora aposentada que havia destruído provas para proteger aliados públicos.
Mio não soube filtrar além desses três. Indecisa, foi até o próximo laptop.
Para São Paulo, deixou quatro: um deputado ligado a milícias privadas e ao garimpo ilegal; um empresário de transporte acusado de comprar fiscalizações após acidentes fatais; um juiz aposentado envolvido em venda de sentenças; e uma secretária estadual que havia desviado verba hospitalar durante uma crise e sobrevivido a todas as CPIs.
Mio fuzilou o deputado com os olhos, mas manteve todos os arquivos. Mudou de cadeira mais uma vez.
Para Londres, selecionou três: um membro da Câmara dos Lordes com ligações antigas a tráfico de influência e mortes abafadas em contratos de segurança privada; um magnata da imprensa que havia destruído reputações de denunciantes até dois deles se matarem; e um ex-ministro que assinara deportações ilegais mesmo depois dos alertas de risco.
Mio segurou a tecla que, somada a outra, fecharia o arquivo do magnata. Mas mudou de ideia e o manteve junto com os outros. Foi para o quarto laptop.
Para Tóquio, deixou três: um ex-diretor de uma empresa farmacêutica que havia escondido efeitos colaterais fatais; um político municipal envolvido em contratos de reconstrução fraudados após desastres naturais; e um administrador de instituição juvenil acusado de abusos sistemáticos e protegido por décadas de silêncio.
Ela ficou imóvel por um bom tempo diante do último. Por fim, foi ao quinto laptop.
Para Seul, deixou quatro: um industrial ligado a acidentes de fábricas encobertos; um parlamentar envolvido em redes de influência judicial; um diretor de internato religioso acusado de mortes tratadas como doenças; e uma herdeira corporativa que havia ordenado a destruição de provas em um caso de envenenamento industrial.
Ela se esticou para trás e ficou na ponta dos pés, empinando a cadeira. Levou as mãos e os braços à frente do corpo, também os esticando. Alguns de seus ossos estralaram.
Mio apoiou os cotovelos ao redor do laptop em que se encontrava, depois deitou os braços um sobre o outro. Olhou para as seis máquinas.
Ao lado de um dos laptops, o Liber Mortis repousava fechado. A caneta vermelha estava sobre ele.
Nodus olhou para o livro.
— Vai chamá-lo? — perguntou.
Ela não respondeu de imediato. Em vez disso, suspirou. Levantou o queixo antes de gritar:
— Si!
Um breve silêncio.
— Sim?! — a resposta veio do corredor.
— Vem cá.
Pouco depois, passos se aproximaram. Sion parou na esquina do corredor. Ao ver a mesa, fitou Mio.
— Já achou?
— Tenho alguns candidatos...
Ele se aproximou mais, olhando para as telas.
— Quantos?
— Dezessete ao todo.
Mio apontou para o primeiro laptop.
— Nova Iorque.
Depois para o segundo e o terceiro.
— São Paulo e Londres.
Depois para o quarto.
— Tóquio.
Por fim, para o que estava à sua frente.
— Seul.
Sion passou os olhos por cada tela.
— Regras — disse ela. — Não abre nada novo. Não pesquisa nada. Não digita. Só lê o que tá aberto. Se precisar de mais alguma coisa, me fala. Eu ajudo.
Ele refletiu um pouco.
— Você não confia em mim?
Ela respondeu:
— Confio. Só não muito nos seus impulsos.
Ele aceitou em silêncio.
— Nome completo, rosto, acusação principal, fonte pública e confirmação.
Sion ficou ao lado dela, focando no laptop de Seul. Analisou os candidatos.
— Essa — apontou para a herdeira corporativa.
Mio franziu o cenho.
— Por quê?
— Ela podia não ter feito nada... mas destruiu provas. Com isso, pessoas doentes continuaram doentes, só para proteger o nome da família.
Mio fez uma expressão de quem contestaria a escolha, mas deixou passar. Ele memorizou bem o rosto e o nome.
Sion andou até a tela mais próxima: Tóquio. Naquela escolha, demorou. Passou a mão pela boca, pensativo.
— Esse — disse, por fim. — Ele mexeu com crianças.
Sion olhou o nome e o rosto novamente, memorizando-os. Procurou o Liber Mortis pela mesa, depois o pegou. Escreveu o nome do homem de Tóquio e o da mulher de Seul.
Depois andou até a próxima tela, a de Londres. Em silêncio, escolheu o ex-ministro e escreveu seu nome.
Nodus observava as ações do rapaz, feitas com prontidão, sem sequer questionar ou depender da opinião de Mio. Ela também o encarava, insatisfeita.
Sion andou até o laptop de São Paulo. Leu todos com calma.
— Esse — disse, fitando o deputado.
Mio, de onde estava sentada, chutou:
— O deputado?
— É. É o mais barulhento.
— Também é o mais arriscado. Denúncias demais, fontes demais. Pode ser guerra política.
— Mas ele está na lista.
— Como candidato — ela o encarou.
— Então é candidato.
Sion escreveu o nome.
Após isso, foi até o laptop de Nova Iorque. Leu o primeiro arquivo. Depois o segundo. No terceiro, demorou.
Mio observava o rosto dele.
— Aqui — disse ele.
— Qual?
— O que usou a lei para esconder cadáveres.
— Qual é o seu critério? — indagou ela.
Sion engoliu a irritação.
— Há registros, testemunhas, documentos e absolvição por vício processual. Precisa de algo além disso?
Ela ergueu as palmas abertas, em um gesto de "Ok".
Sion escreveu o nome e, ao final, deixou a própria caligrafia fazer um risco raivoso na página. Largou o livro e a caneta, depois pôs os punhos cerrados sobre a mesa.
Pensou.
Ao fim do raciocínio, piscou os olhos.
— Mio — disse.
Ela não respondeu em voz; apenas continuou encarando-o.
— Se todos passaram pelo seu filtro, por que alguns vivem?
Nodus olhou para Mio.
Mio abriu a boca para falar, mas foi interrompida por Sion:
— E os outros?
Mio entendeu.
— Não.
— Mas você mesma escolheu. Eles estão na lista.
— Como candidatos.
— Isso é culpa o bastante.
— Sion, chega.
Nodus inclinou a cabeça.
— Isso é, no mínimo, curioso — disse o Shinigami.
Mio não reagiu, isolando sua atenção no irmão.
— O quê? — perguntou Sion.
Nodus mediu sua participação.
— Algo que notei.
— Fala...
— Por favor, esqueça. Peço perdão pelo comentário. Melhor não alimentar intrigas. Não é meu papel — concluiu Nodus.
Sion o olhou por um tempo, depois sustentou o olhar no livro. Ao fim da exaltação de antes, cedeu.
— Tá.
Mio manteve os olhos fixos nele. Nodus manteve a solenidade no olhar, como um mero espectador do desfecho.
— Cinco nomes — disse Sion.
Mio continuou olhando para ele.
— Por enquanto... — concluiu ele.
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