Death Note: Ω

4 Capítulo III: Desfecho (Sion)


07h53 — 22 de junho de 2026

Quarto de Sion, Residência Kujō, Okazaki — Kyoto

Sion

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Havia amanhecido uma tempestade pior do que a leve chuva do dia anterior. O céu rugia periodicamente. Naquele momento específico, um raio riscou os céus e clareou o quarto de Sion através da janela.

Ele estava sentado em uma cadeira de escrivaninha, com grandes fones de ouvido nas orelhas. Em seu colo, uma guitarra preta e metálica, com o cabo plugado em um amplificador onde também estava conectado o fone.

A guitarra estava afinada em Mi padrão. Sion repetia o mesmo riff, preso entre duas notas graves, mantendo os olhos fixos em um ponto no chão.

Do lado de fora, no corredor, Mio o chamou. Ele não ouviu.

Na terceira repetição, deixou a palhetada escapar. Estalou a língua, frustrado. Correu a mão pela parte mais espaçada da sexta corda, a mais grave, até as casas mais altas. Repetiu uma palhetada frenética. Finalizou segurando a nota, deixando-a soar.

Mio o chamou uma segunda vez. Sem resposta.

Ele correu a mão de volta para as primeiras casas. Dali, passou a tocar o riff da introdução de “Would?”, da banda Alice in Chains. Batia o pé enquanto isso.

Mio bateu à porta.

Ele sentiu a vibração da madeira perfurando o quarto. Tirou um lado dos fones, segurando as cordas para que parassem de soar.

— Chamou?

— Duas vezes! — exclamou ela.

— Pode entrar.

Mio abriu a porta, mas permaneceu do lado de fora. Eles se olharam.

— Eu estava tocando… — explicou ele.

— Eu percebi.

Pausa.

— Vem comigo — pediu ela.

Mio reposicionou rapidamente a cadeira para seguir o caminho.

Ele tirou o fone e o colocou sobre a escrivaninha. Ergueu a guitarra e a acomodou no suporte. Prendeu a palheta entre as tarraxas e as cordas. Estranhou a pressa dela, mas a seguiu.

Ela o levou até o escritório. Ele entrou em passos cautelosos e fechou a porta.

O laptop estava aberto. Ao lado dele, o Liber Mortis. Na tela, uma notícia suíça sobre a morte de Lukas Reinhardt.

Lukas Reinhardt, ex-diretor da Fundação Aster, é encontrado morto em cela na Suíça.

Autoridades penitenciárias informam que Reinhardt foi encontrado inconsciente durante inspeção de rotina; causa preliminar aponta para parada cardíaca.

— Quem é esse? — indagou ele.

Ela o fitou, entre um sorriso e a seriedade. Um trovão longínquo reverberou no céu.

— O nome que escrevi ontem.

Ele olhou para ela. Depois para a tela.

— Naquela coisa?

— No Livro da Morte.

Ele franziu o cenho.

Silêncio.

— Isso não prova nada.

— Tem certeza?

Sion se inclinou sobre o laptop e atualizou a página. A notícia recarregou. Continuava ali.

Mio não disse nada.

Ele pegou o próprio celular e pesquisou: Lukas Reinhardt. A mesma notícia apareceu.

Sion leu novamente, agora com menos pressa.

— Você escreveu o nome dele?

— Sim.

— Antes da notícia?

— Ontem, às 17h47.

Antes que ele calculasse o fuso horário no celular, ela o interrompeu:

— O comunicado estima a morte por volta das 10h48, em Genebra.

Outro silêncio se ambientou ali.

— Pode ser coincidência.

— Pega o livro — disse ela. — Lê a parte de dentro da capa.

Ele olhou para ela mais uma vez. Depois pegou o livro e o abriu.

Sion leu as quatro primeiras regras. Folheou para a segunda página, mas não lhe deu atenção. Continuou passando pelas regras até chegar à primeira página em branco.

Ele viu o nome. Congelou.

Mio abaixou o rosto, alinhando o queixo com a clavícula, e o observou com expectativa.

— Funcionou… — disse ele, ainda incrédulo.

— É assim que Kira matava. E foi isso que leiloaram aos Estados Unidos em 2019. O poder de Kira.

Ele não tirou os olhos do caderno.

Outro silêncio se instalou.

— Dá licença — pediu ela.

Ele saiu da frente do laptop, e ela ajeitou a cadeira.

Mio acessou o mesmo site de vídeos em que havia pesquisado sobre a TV Sakura, mas, desta vez, digitou: “Breaking news prison death”.

Nenhum canal demonstrava ter vídeos novos sobre mortes em prisões, especialmente a de Lukas Reinhardt. O algoritmo, porém, recomendou o seguinte: “LIVE: Families protest outside D.C. Jail as Malcolm Rusk returns after hearing”

— Ali! — exclamou ele.

Mio voltou o olhar para o irmão.

— Abre esse.

Breve pausa.

— Você quer testar? — perguntou ela.

Ele não respondeu. Apenas manteve os olhos fixos na tela.

Mio abriu o vídeo.

A transmissão mostrava uma rua larga diante de um centro de detenção em Washington. O sol de fim de tarde batia no concreto. Havia grades metálicas, jornalistas, cartazes e familiares reunidos perto da entrada. Uma mulher de aparentes cinquenta anos conversava com a repórter. Um dos cartazes pedia justiça por um familiar; outro exigia prisão perpétua do acusado.

Na tarja inferior, o nome se repetia: “Malcolm Everett Rusk returns to detention center as protests continue.”

Mio abriu outra aba e pesquisou o nome.

— Americano. Cinquenta e quatro anos. Fundador da Rusk Renewal Network.

— Clica ali. — Ele apontou. — Na primeira.

Ela clicou na reportagem. Sion aproximou o corpo da tela e leu para si.

Clínicas de reabilitação para adolescentes. Isolamento. Privação de sono. Medicação forçada. Castigos físicos. Mortes tratadas como acidentes. Desaparecimentos registrados como fugas.

Mio pesquisou: “Rusk Renewal Network”.

Ao entrar no site oficial da rede de clínicas, clicou na aba sobre a fundação. Surgiu uma foto de Malcolm Everett Rusk, de braços cruzados, acompanhada de um artigo.

— Rosto e nome completo — disse ela.

Ela alternou as abas e voltou ao vídeo ao vivo.

— Localização…

Sion pegou a caneta vermelha ao lado do laptop. Mio olhou para ele.

— Sem causa.

— Por quê?

— Se você escrever uma causa impossível, a morte será por parada cardíaca. Além disso, é mais limpo.

Sion encarou a tela por mais um instante.

— Só que... tem mais uma coisa — disse Mio.

Ele a olhou.

— O humano que usar este livro não poderá mais ir ao paraíso ou ao inferno.

Ele pensou. Repensou.

— Você escreveu... — disse, com pesar.

Ela assentiu.

Ele olhou para a página. Leu o nome de Lukas Reinhardt. Fechou a cara. Escreveu: Malcolm Everett Rusk.

Mio olhou para o relógio do laptop. Sion voltou os olhos para a transmissão.

Quarenta segundos se passaram.

A van estacionou diante do portão, que lentamente se abriu. Um conglomerado de manifestantes reuniu-se ao lado do veículo, gritando.

A van entrou e desapareceu para dentro do centro de detenção.

— Nada — disse ele, relaxando os braços.

— Espera.

A jornalista agora entrevistava um senhor na casa dos sessenta anos.

Ao fundo, um guarda atravessou rapidamente o pátio interno. Depois outro, segurando o cinto da farda.

A jornalista percebeu um aceno do operador de câmera e olhou para trás.

Então disse:

— There seems to be some kind of commotion inside, near the east wing.

Mio se endireitou na cadeira, apreensiva. Levou a ponta do polegar à boca para roer a unha, mas se policiou e parou.

Sion permanecia imóvel, vidrado na tela.

A câmera tentou se aproximar através do zoom, mas a imagem não ficou nítida o suficiente para distinguir o ocorrido, e o operador desfez a ampliação. A repórter aguardou. O senhor ao lado dela também.

A notícia na tarja inferior mudou: “Medical emergency reported inside Central Detention Facility following Rusk transfer.”

Alguns minutos depois, uma ambulância surgiu no portão, dirigindo devagar, com a sirene desligada. O portão se abriu. Ela entrou.

— We have no confirmation that this is related to Malcolm Rusk whatsoever — disse a jornalista.

Mas é...

Mais alguns minutos se passaram.

A tarja inferior mudou outra vez: “Malcolm Rusk pronounced dead after medical emergency in custody.”

A jornalista levou a mão ao ponto.

— Uh, this just in, straight from D.C. Jail, in southeast D.C.: Malcolm Rusk has just been pronounced dead. Apparently, while being escorted back into custody, he suffered a heart attack. This happened about ten minutes ago, but we've only just now received confirmation. I repeat: Malcolm Rusk has just been pronounced dead after suffering a heart attack.

Sion congelou, com os olhos quase arregalados. Mio o observou, esperando alguma reação além daquela.

Então alguém bateu à porta do escritório. Três vezes.

Sion virou rapidamente o rosto para a porta. Mio permaneceu imóvel. Seus olhos apenas se arregalaram um pouco.

— Tem mais alguém na casa? — perguntou ele.

Mio não respondeu, congelada.

A quarta e a quinta batidas vieram mais baixas.