Death Memories: Operação Marshall
7 Mellody Keehl
Notas iniciais
“Um jogador de Xadrez é primordialmente um ator.”
(M. Tal)
P.O.V Matt
No dia seguinte Mello e eu estávamos na varanda, o fuso horário tinha acabado com todos nós, mas Near parecia ter sido mais afetado. Acho que em grande parte isso se devia ao fato de que nós dois conseguíamos ficar três dias acordados direto.
Enquanto o não mais albino continuava dormindo Mello me explicava sobre Go. Ele dizia que era seu tipo de jogo porque consistia em ganhar território e manter suas pedras. Bem diferente do xadrez. Eu não estava tão interessado e logo começamos a analisar quem seriam nossos oponentes no primeiro jogo.
— Escola Hanze. – Mello leu nos folhetos. Eu estava com a cópia em inglês, mas ele olhava na oficial.
— Você sabe japonês afinal. – falei.
— Um pouco. Não o suficiente pra manter uma conversa. Enfim, você vai enfrentar quem no primeiro tabuleiro?
— Liessel Hans. – li o nome. – Olha só, são alemães.
— Aqui diz que essa garota é a melhor de Berlim.
— Então definitivamente não devia ser eu no primeiro tabuleiro já que se subentende que esses são os jogadores mais fortes.
— Na verdade é uma boa estratégia. Entregar o primeiro tabuleiro e assim garantir nossa vitória nos outros dois. E caso o outro time pense no mesmo acaba então dando na mesma. – olhei pra ele com cara de tédio. – Que foi, você mesmo disse que não é bom de xadrez.
— Já te venci uma vez.
— É, quando estava com 40° de febre, você é o orgulho da Inglaterra. – cruzei os braços.
— Funcionou pra te fazer beber os remédios. – falei. – E quem é seu oponente?
— Um tal de Adolf Weizen. Não vai ser tão complicado. – mas Mello parecia distante, mais pensativo que o normal.
— O que foi? – sussurrei.
— Os patrocinadores também apoiam o instituto de Go e Shogi do Japão e estão fazendo esse torneio de forma muito parecida com os de Go de colegial.
— Então por que você esta preocupado? – ele coçou o queixo. Near se mexeu dentro do quarto.
— Não é nada.
Me aproximei ficando com os cotovelos na mesa e falando em alemão.
— Você não dormiu direito. Tem certeza de que está bem?
— Sim... Vou ficar bem. Só tenho que me acostumar de novo. Foi por isso que joguei com aquele cara. – ele respondeu tão baixo quanto eu.
— Acho melhor a gente tentar dormir um pouco amanhã temos uma espécie de tour por Tóquio. – revirei os olhos, a última coisa que queria era fica andando por uma cidade onde eu nem se quer sabia o achar o banheiro. Mello também não parecia animado, mas guardou os panfletos e logo todos estávamos nas camas. Eu me perguntava se eu era o único que demorou a dormir.
P.O.V. Mello
Os pesadelos que não me atormentavam há tanto tempo estavam voltando cada vez piores. Eu tinha problemas com o passado, ele me perseguia e então eu o usava como impulso para frente, mas aqueles sonhos me faziam relembrar momentos tão obscuros que eu desejava voltar ao estado deplorável que me encontrava naquele hospital quando L me achou.
Apesar de ser apenas algumas horas de sono eram suficientes para me levarem através dos anos, para uma época terrível que eu revivia nitidamente agora. Pois lembrar é sempre diferente de reviver nos sonhos.
Eu tinha oito anos, morávamos na Alemanha. Minha mãe era linda apesar de doente, ela sempre contava as melhores histórias e foi por conta delas que minha irmã resolveu que queria viajar pelo mundo. Mas naquela manhã quando fui vê-la no sofá, ela não abriu os olhos.
Não éramos miseráveis, mas depois da morte da nossa mãe, o homem que deveria ser nosso pai e cuidar de nós simplesmente sumia com todo o dinheiro. Móveis e objetos da casa com tempo foram desaparecendo e minha raiva só aumentando. Eu não era nada inteligente, mas era esperto. Conseguia roubar gabaritos de provas, colar e sempre dei um jeito para ir bem na escola. Não é que eu não gostasse de estudar, mas eu tinha que tomar conta da Mel, tinha que garantir sua segurança. Com sete anos eu não tinha muita noção do perigo que ela correria exatamente estando sozinha com aquele homem, mas eu sabia que devia mantê-lo afastado.
Assim não sobrava tanto tempo para estudar nem dinheiro para comprar os livros. Me tornar um ladrão foi minha única opção, mas eu era muito bom nisso. Tanto que acabei aprendendo inglês e francês meio que sem querer e quando uma importante escola ofereceu intercâmbio para outras partes da Europa e até mesmo América do Norte eu passei longas horas me dedicando a isso, perturbando alguns professores para que me colocassem no processo seletivo. Passei entre os 10 primeiro e por ser tão jovem, eles estavam muito interessados em me bancar ainda mais aliando isso a minhas notas perfeitas.
Depois da aula tive uma reunião com o diretor e o pessoal do intercâmbio. Teria que fazer meu responsável assinar um documento. Nada preocupante, eu conhecia um garoto do ensino médio que podia falsificar qualquer coisa.
O problema começou mesmo quando cheguei em casa naquele dia. Havia alguns carros e vans estacionados. Com um péssimo pressentimento corri para a entrada quando a porta se abriu. Um homem de barba escura empurrava minha irmã para fora. Notei que ela chorava, nunca a vi tão assustada. Ela se soltou e correu até mim. O imprestável do meu pai apareceu na porta.
— Mas o que diabos pensa que está fazendo!?– gritei.
— Esse é o outro? – mais um homem, dessa vez sem barba pergunto e meu pai assentiu. Ele saiu me encarando enquanto eu ficava entre ele e minha irmã. Eu usava o cabelo curto meio bagunçado, tampando um pouco as orelhas. Ele pegou minha franja.
— Ele é bem fofo. – eu bati na mão dele abismado. – E o bichinho é selvagem também. Isso vai valer mesmo o preço. – eu desejei não ter conseguido entender aquelas palavras em inglês.
— Você.... – olhei pro meu pai que apenas se mantinha sério. – Você não fez isso. – os homens nos cercaram. Eu não sabia mais qual lado era pior o de dentro ou o de fora. – Não com a Mellody. Não. – eles nos agarraram.
— Mihael!
— Mel! – foi minha vez de gritar até porque ela raramente me chamava pelo nome. – Seu desgraçado, filho da puta. Eu vou te matar. – eu me contorcia, mas eram muitas as mãos que me prendiam e me jogavam dentro da van. – Me larguem seus desgraçados. – meu desespero só crescia. – Eu vou até o inferno te procurar maldito. – os gritos e choro dela aumentaram e entravam fundo na minha mente. – Mellody! Mellody. Mellod... – um soco no rosto me fez desmaiar.
— Haa! – acordei com um grito abafado e a respiração pesada. Me controlei e olhei ao redor. Matt e Near ainda estavam dormindo. Me virei e resolvi esperar na cama até o horário combinado, mas estava assustado demais. Cobri a cabeça escondendo o rosto e as lágrimas não sei exatamente de quem.
P.O.V. Matt
Batidas na porta nos despertaram, Mello foi o primeiro a chegar lá. Eu podia apostar meu Gamer que ele já estava acordado a um bom tempo. Fui para junto dele a tempo de ouvir nosso professoras dizerem que o tour ia começar.
— Mas que merda, eu queria dormir. – Mello reclamou fechando a porta.
— Por que temos que ir nesse passeio idiota?
— Eles disseram que é um presente do Colégio. Aff! – ele soprou onde devia ser sua franja. – Com tanto dinheiro pra gastar assim deviam fazer algo de útil.
Near se remexeu na cama acordando.
— O que está acontecendo? – ele esfregou os olhos.
— Nosso tour por Tóquio. – respondi.
Rapidamente nos arrumamos e descemos para o hall de entrada onde Paul, Karen e Alfred nos aguardavam. Tomamos café no hotel onde Mello contradizendo sua palavra entrou no chocolate quente, detalhe era verão. Cerrei os olhos para ele.
— Aonde vamos? – Near perguntou.
— Nos entregaram esse guia. – Paul colocou um panfleto na mesa redonda. Ótimo, mais pauzinhos japoneses, raios de língua. – Iremos num ônibus junto com os outros até certos pontos históricos, depois poderemos andar por lojas em Ayoama e alguns shoppings.
— O que acontece se não formos? – Mello parecia irritado.
— Qual o problema em ir? – Paul que já estava mostrando ter um temperamento tão problemático quando o de Mello juntou as sobrancelhas.
— É inútil.
— É uma boa chance. – ele sussurrou. – Pare de ser chato.
— Eu concordo com o Arthur. – Near disse e eu engasguei com o que tinha na boca. Aqueles dois concordando era algo inédito. – Não somos sociáveis e pacientes, não conseguiremos sondar ninguém.
— Então observem direito. – Paul falou querendo gritar.
— Vamos pelo menos poder comprar alguma coisa? – perguntei tentado tirar a tensão do ar. – Afinal, temos que manter as aparências.
Paul suspirou. Acho que se os olhos fossem azuis, falasse com sotaque alemão quanto estava com raiva e tivesse o cabelo alguns tons mais claro seria o futuro Mello.
Saímos do hotel para o ônibus. Os professores iriam em um diferente então nos deram várias orientações para proteção. Não ouvi quase nada do que falaram. Ao entrarmos o ônibus estava um silêncio assustador. Mello teve iniciativa e foi na frente. Algumas poltronas depois ele se sentou ao lado de uma garota. Near segurou a manga da minha jaqueta e me puxou pro acento atrás deles.
Um garoto japonês mais velho de olhos castanhos se levantou e começou a falar.
— Ohayou gozaimasu! Yokuso minna san. Watashi no namae wa Yagami Raito desu. Watashi wa anata ni Aoyama ni doko shimasu....
Eu que estava do lado da janela encostei minha cabeça no vidro. Depois dele a garota que nos recepcionou Tsugumi Ayme falou em inglês. Basicamente iríamos passar por algumas construções velhas e ouvir a história do país. Depois almoçaríamos em Aoyama e ficaríamos parte da tarde lá.
Eu estava com um tédio absurdo então dormir era minha melhor opção. Os Acolhedores começaram a conversar e tentar fazer a gente se enturmar. Que vontade de atirar neles. Não bastando a abstinência ainda ia ter aguentar aquela falsidade.
Mello por ter se embebedado de chocolate quente estava conversando com a garota com quem sentou. Acho que era francesa. Minha irritação com o barulho só aumentava, minha cabeça doía. Queria muito socar a cara de todos que ousavam abrir a boca começando pelo ex-loiro que gargalhava a minha frente.
— Você está bem? – Near perguntou.
— Estou ótimo. – falei entre os dentes.
— Johnny... – ele sussurrou. – Você tem que começar a mentir melhor.
Lancei um olhar felino para ele que já tinha tirado os sapatos e estava com um pé no banco.
— Vocês são os ingleses? – o garoto que havia parado Mello pareceu no banco atrás de nos.
— E você é? – minha paciência tava pior que a do Roger quando pegava a gente brigando.
— Gabor Lengyel, Hungria.
— Sou Charles Watson e esse é Johnny Smith. Inglaterra. – Near falou até bem simpático.
— Então, vocês vieram com o garoto que jogou contra o Obata-sensei. Por que ele está em um torneio de xadrez e não de Go?
— Porque ele joga xadrez muito bem. – simplesmente falei me irritando com a voz do garoto.
— Não jogamos muito isso na Europa. – Near parecia bem mais paciente que eu, mas também era possível notar que ele não estava gostando daquele garoto ali. – Você disse sensei... Obata-sensei...
— Ah! Sim. Ele tem uma academia de Go aqui em Tóquio.
— Você parece muito interessado nesse jogo. – rebati. – Tem certeza de que não é você que esta no torneio errado? – Near me fuzilou com o olhar. Gabor apenas riu.
— Você é interessante Johnny. Sempre fala tudo o que vem na cabeça ou pensa em como deixá-las mais engraçadas primeiro?
— Não sei, você é inconveniente por natureza ou se esforça pra isso? – me virei ajoelhando no banco pronto para socar a cara redonda daquele imbecil, mas ele simplesmente sorria.
— Eu realmente vou adorar jogar com você, Johnny-san. – e dizendo isso voltou a se sentar, Near me puxou pra frente e me encarou sério. Então sussurrou.
— Viemos aqui para obter informações, mas eles é que estão nos sondando pro torneio. Pare de cair nas armadilhas deles. Vão decifrar todo o seu jogo assim. – fiquei encarando ele com as sobrancelhas cerradas. O ônibus parou e enfim descemos no primeiro ponto turístico.
Como eu queria poder socar o Gabor, chutar o Near, gritar com o Mello e principalmente xingar todos os nomes em toda as línguas que eu conhecia o maldito do L que me colocou nessa porra de situação. Ah! Como eu queria um cigarro agora.
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