Death Memories: Operação Marshall
8 A Beira da Insanidade
Notas iniciais
“Numa entrevista, Nigel Short comparou os tipos de lesões que atingem as diferentes modalidades esportivas. No xadrez o equivalente da contusão é o stress, e, em casos mais graves, os distúrbios mentais. Assim, os profissionais indicados são o psicólogo e o médico psiquiatra. Entretanto, poucos jogadores são capazes de admitir a necessidade de recorrer a esse tipo de profissionais. Existe preconceito. Sensato, Short descarta a ideia de que o xadrez produza loucos. É o contrário: o xadrez tem alguma coisa que parece exercer uma grande atração sobre os malucos.”
P.O.V Mello
Depois do que pareceu uma eternidade finalmente estávamos em Aoyama. Aquele tour por Tóquio me tirou toda a paciência que tinha. Ainda mais por conta da garota que fiquei o passeio todo, não importando a cara feia que Matt fizesse para mim. O nome dela era Chloé Parveau de uma cidade próxima á Paris na França.
Quando enfim chegamos ao lugar me juntei com o resto do pessoal incluindo os professores e fomos para o primeiro restaurante que encontramos. Pedimos comidas típicas já que para desespero do Matt não encontramos hambúrgueres tão facilmente. Sentamos em um lugar reservado e afastado, então Alfred começou:
– O que descobriram? – Matt que estava de braços cruzados revirou os olhos.
– A garota com quem estava falado vai jogar contra um aluno da Herstmore. Se chama Chloé Parveau e é da França, mas não me disse a cidade. Segundo ela é próximo à Paris. Sobre a escola só me contou que é bem pequena e pouco conhecida é a primeira vez que chegam a um campeonato internacional e por estarem sendo patrocinadas. Além disso, só há garota no time dela. – bebi um pouco do suco que havia chegado. – Ela parece ser bem idiota e deve perder logo de cara. A insegurança dela quando perguntada sobre o jogo pode ser sentida num raio de três quilômetros... – encarei o copo ao colocá-lo na mesa. – Então... Como ela chegou até aqui?
– Ela pode estar mentindo. – a voz do Near me tirou do meu raciocínio. – Ela pode estar fingindo tudo isso para ser vista como uma jogadora mais fraca.
– Provavelmente. – Karen estalou os dedos. – De qualquer forma teremos que esperar eles jogarem. E vocês? – ela encarou Matt e Near. – O que descobriram?
Matt bufou.
– Acho que a única coisa relevante desse passeio é que Jhonny está numa grade abstinência por conta de seus vídeo games. Seu estresse está tão alto que ele não se concentra em nada e causou apenas uma impressão de brigão com todos que falamos. – Near falou calmamente e eu o encarei profundamente. – talvez seja melhor ele ir num fliperama. – O silêncio tomou conta da mesa.
– Eu concordo. – falei e quase que a frase não saia. – Se ele não melhorar logo vai deixar passar muita coisa e com certeza perderá o jogo de amanhã.
– Certo. – Karen se pronunciou. – Depois do almoço ainda teremos tempo e você pode ir a um fliperama.
– É serio? – Matt quase pulou do banco.
– Sim, mas vamos ser discretos. – ela continuou ele não gostou nada do verbo conjugado no plural.
– Eu posso ir também? – me virei para Paul.
– Não, eu preciso voltar para o hotel e fazer uns relatórios.
– E eu com isso? – Esbravejei. – tenho que ficar grudado em você o tempo todo é?
– É! – ele respondeu prontamente.
– Karen pode cuidar de nós dois. Não somos bebês para dar tanto trabalho. – ergui um pouco o corpo para encará-lo e ele fez o mesmo. Aquele cara me irritava, ele sempre batia de frente, sempre queria do jeito dele, sempre certinho... Argh! Nem tenho palavras para descrever como eu adoraria quebrar todos os pratos do lugar na cabeça dele.
– Chega vocês dois. – Karen disse por fim. – Eu os levo, não tem problema. – o homem a encarou e nesse momento tive certeza de que ela era a chefe da missão, perfeito.
– Charles, tem algum lugar que você queira ir? – Alfred perguntou, ele parecia ser de todos o mais simpático e também o mais sonso. Estranho, Near o mais frágil e mais forte candidato a sucessor do L ter como policial designado um idiota daqueles. O que será que L estava tramando?
– Bom... Agora que você mencionou... – ele enrolou uma mexa da peruca loira, estava aprontando uma. – Parece que tem uma loja de brinquedos por aqui, podemos só dar uma olhada? – a cara de criancinha abandonada dele enganou Alfred direitinho.
– Muito bem nos encontramos todos pro jantar no restaurante do hotel. – Paul sugeriu e nossas refeições chegaram.
– Combinado. – Matt começou a comer o que quer que fosse velozmente, a palavra fliperama havia dado energia à ele. Depois de meia hora saímos do lugar. Cada um seguindo para uma direção. Enquanto andávamos me virei a tempo de ver Near e Alfred sumirem na multidão.
P.O.V. Matt
Eu não tinha palavras para descrever meu humor depois de dois dias sem jogos e cigarros. Assim que chegamos no fliperama Mello e eu corremos para qualquer máquina. Acabamos em uma de Bomberman.
– Você parece um cachorrinho olhando para os frangos assados na porta de um açougue. – o outro comentou rindo.
– Cale a boca, você estava louco para se livrar do Paul. – Rebati. Karen ficou mais atrás observando tudo de um banco. Ela tinha uma calma e paciência... Com certeza devia ser mãe.
– Que seja, vamos unir o útil ao agradável.
– Achei que nunca chegaríamos nessa parte. – comentei passando rapidamente a primeira fase. – Conseguir fugir da Karen pode ter seus problemas, mas é possível. Depois disso arrumar chocolates é fácil, quero ver como vou fazer com os cigarros. – estalei a língua e coloquei mais força nos controles avançando mais um level.
– Eu tenho um plano. – Mello falou e eu quis pular e agradecer a ele, como sempre estava pensando rápido e a frente. Naquele momento era a melhor pessoa do mundo. – Mas você mesmo não disse que não é viciado? – Ele sussurrou, tava demorando... – Pensei que pudesse aguentar um mês inteirinho sem fumar se quisesse.
– Eu consigo aguentar, mas não estando em uma competição e vivendo vinte e quatro horas com você e o Near. – empurrei ele com o ombro fazendo ele ser explodido no jogo.
– Filho da puta...
– Você que é filho da puta me deixando sozinho com o albino. – resmunguei enquanto o Gamer Over aparecia na tela dele.
– Eu estou trabalhando, se esqueceu que isso não é férias?
– Que seja, não faça isso de novo. Na próxima vou surtar. – Mello riu.
– Adoraria ver você dar piti e surrar a cara do Charles. – rle parou de jogar e se virou com certeza Karen nos observava atentamente. – rnfim, divirta-se gamer viciado.
– Espera aí – falei. – E o plano? O que é pra fazer? – ele deu dois tapinhas no meu ombro e saiu andando. Droga. Além de tudo me fez perder uma vida. Maldito seja.
P.O.V. Mello
– Jogar com ele não tem graça. – me sentei ao lado de Karen. – Ele é muito bom. – Ela sorriu carinhosamente.
– Vocês são bons amigos, não é? – ela perguntou se virando para mim. Eu fitei seus olhos escuros. – Desculpe, não devia me meter. – era minha chance.
– Somos. – respondi tentado fazer minha voz e expressão mais infantil. Que complicado. – Vou tomar alguma coisa ali. – apontei. – Vai conseguir me ver?
– Sim. Tudo bem. – me levantei. – Ah! Arthur. – ela segurou meu pulso. – É melhor eu ir para traduzir pra você.
– Não se preocupe, eu consigo me virar. – sorri falsamente querendo de verdade puxar o braço e perguntar quem lhe deu o direito de me parar assim. Odiava isso. Mas ela me soltou e eu fui até lá.
Na lanchonete apesar de não ser fluente em japonês li os kanjis do menu e pedi qualquer bebida que não custasse muito caro. Me sentei no banco e logo chegou um Oronamin, uma bebida energética. O sabor eu nem reparei estava encarando todos e qualquer um ao redor. Matt por sua vez fingia estar muito concentrado no jogo, mas pelas falhas eu via que ele devia estar me observado pelo reflexo.
Se eu tivesse que simplificar as nossas habilidades em uma palavra elas poderiam nos definir assim. Near: manipulação; Matt: cálculos. E eu agilidade. Enquanto bebia o energético girei no banco, acenei para Karen e então olhei rápido para Matt que algumas jogadas depois foi pra máquina do lado, começou a competir com algumas crianças e claro Karen o fitava sempre que a luz vermelho e o barulho anunciavam sua vitória. Assim em determinado momento ele se afastou tanto e a chamou para perto, devia estar tentando fazê-la jogar. E isso era a coisa que eu mais adorava no Matt, ele por calcular bem quando eu começava qualquer plano ele sempre conseguia improvisar maravilhosamente a nosso favor. E assim ela nem olhava mais para mim.
Me levantei e saí discretamente, fui até o outro lado da rua, para uma construção de paredes avermelhadas. Lá dentro vários adultos fumavam e jogavam cartas, dados, sinuca dentre outros e o mais importante: eles apostavam. Aquela parte do lugar era praticamente uma Las Vegas, pela primeira vez agradeci por Matt ser um gamer.
Claro que crianças não poderiam entrar lá tão facilmente então assim que passei da porta todos me olharam. Encarei eles de volta com a minha expressão mais séria. Tinha tirado a jaqueta com o emblema da escola e amarrado na cintura, além disso virado a blusa branca do avesso. Logo ficou evidente que eu era turista pra eles.
– Yukio! – um homem velho gritou de trás do balcão ao meu lado na entrada. Por uma escada lateral apareceu um rapaz mais velho do que eu, mas não tanto quanto os coroas de lá. Yukio tinha os cabelos escuros e olhos castanhos.
– O que? – o rapaz tinha uma expressão que ia da irritação ao tédio. O homem apenas apontou pra mim e ele se colocou na minha frente. – Turista é? – ele falou em inglês.
– Sim.
– Esta perdido então. – ele suspirou desanimado como se estivesse fazendo aquilo pela milionésima vez no dia. – olha você segue a rua duas quadras e...
– Não estou perdido. – falei. – Eu quero jogar. – essa parte disse em japonês, aposto que meio errado, mas tentei ser o mais serio possível. Todos fizeram silêncio por um momento e então desataram a rir.
– Moleque o fliperama é do outro lado. – consegui entender alguém gritar no meio das gargalhadas. Me limitei a rir de canto.
– Estão com medo de perder pra um turista? – falei em inglês e o rapaz começou a traduzir de forma robótica e pouco interessada. Todos fecharam a cara. – Que tal assim, uma partida de qualquer jogo que algum de vocês escolherem. Se eu perder pago cinco mil dólares, se eu ganhar quero pegar durante quinze dias todo o cigarro que precisar. O que acham?
Depois de Yukio traduzir eles pensaram e discutiram entre si. Não entendi tudo, mas estavam falando algo sobre dar cigarros a um menor. Revirei os olhos. Outro falou ainda sobre ser impossível um pirralho ganhar. Revirei os olhos de novo.
– Você é o dono não é? – me aproximei do velho. – Eu jogarei pela casa, você pode ficar com o dinheiro das apostas em troca de apenas alguns cigarros. – assim que Yukio terminou de falar ele coçou a barba rala. Apesar de velho sua expressão era tranquila e sem aquele típico rancor. Fixando-o atentamente eu tinha a sensação de que o conhecia, mas... Impossível, minha memória era ótima eu me lembraria.
– E se perder? – ele perguntou em um inglês cheio de sotaque. Cerrei os olhos.
Eu não temia perder, mas apostas sempre foram meu grande problema. Elas me pressionavam por me fazer lembrar do passado, quando ganhar não era uma opção e sim uma necessidade. Apostas mais do que altas nos clubes clandestinos e salões ilegais. Entretanto aquele era um lugar publico e mesmo que eles tivessem negócios ligados a isso eu não precisava temer, eu tinha que me controlar.
– Se eu perder te pagarei os cinco mil dólares.
– É pouco. – Yukio falou sem entonação, mas pela sobrancelha erguida do velho ele se divertia. Voltou a falar e o rapaz a traduzir. – Se perder, pagará os cinco mil e lavará todo o lugar bem como seus copos, talhes e banheiros. – Yukio me olhou pela primeira vez com uma expressão. Finalmente, estava quase achando que o maldito era uma copia japonesa do Near. – Garoto, eu sairia enquanto pode.
– Combinado. – falei entrando para o meio do lugar. – Estou com presa então escolha logo o oponente e o jogo, vamos acabar com isso de uma vez.
– Seu oponente serei eu. – ele falou e eu entendi. Antes que Yukio pudesse traduzir eu rebati.
– Qual jogo? – O homem sorriu e voltou a falar em inglês.
– Como é o primeiro a nos desafiar assim e está com presa escolha seu jogo.
Olhei ao redor, vi um tabuleiro de GO e fiquei tentado, mas as partidas são demoradas. Havia mesas de baralho e dados, mas esses eram os jogos que eu mais detestavas. Olhando para trás raramente eu jogava isso nos Fights, pois depender de sorte, pelo menos para mim é suicídio.
– Você não tem xadrez? – perguntei.
Ele então puxou um tabuleiro grande de baixo do balcão. Dentro de um saco plástico transparente havia as peças em madeira envernizada.
– Você tem certeza? – ele perguntou.
– Sim.
– Neste caso... – Yukio se colocou a frente. – Como melhor jogador daqui eu serei seu oponente.
Assenti para ele e corri para a primeira mesa. Yukio me acompanhou e o velho levou as coisas. Ele ergueu a mão num punho fechado para mim, fizemos jo ken pou, perdi de propósito para ser as peças pretas. Montamos tudo e então ele deu a largada avançado o peão na frente do Rei, E4.
Copiei o movimento movendo o meu para E5. Ele atacou minha peça ao colocar o cavalo em F3. Até aí tudo corria normal. Eu protegi minha peça colocando o peão em F6 e foi quando me dei conta. Não estávamos levando nem três segundos para pensar. Por um momento olhei para ele que estava com o olhar fixo no tabuleiro.
Parecido com o Near, ataques estratégicos, sacrifícios bem pensados... Mas Near tem uma outra técnica, avaliação da pessoa e mesmo que através das peças o albino consegue fazer pressão psicologia no adversário mesmo sem sequer ter trocado alguma palavra com ele.
– Xeque. – ele anunciou. Eu já esperava por isso, estávamos indo para a reta final, não haviam se passado mais do que 2 minutos.
– Xeque. – foi a minha vez. Ele moveu rápido, uma torre preta caiu, assim como um bispo branco. E então quando estava prestes a mover seu ultimo peão ele parou e finalmente me olhou.
– Marshall. – ele falou e então se voltou para minha rainha. Recuou a mão antes de tocar o peão e moveu a rainha dele. Cerrei os olhos e dei outro xeque para tentar encurralar o rei dele. Mas o cara era bom, estava sendo trabalhoso.
Quando finalmente restou apenas dois peões para mim, a rainha, um bispo, um cavalo e o rei eu sorri. Yukio me observou. Todo o lugar estava em silencio nos assistindo.
– É a sua vez. – ele disse.
– Eu já ganhei. – falei, o rapaz inclinou a cabeça.
– Você tem problemas? – ele pareceu se irritar. – Olhe o tabuleiro, te darei mate em no máximo seis movimentos das brancas, você perdeu seu trunfo quando eu descobri seu ataque marshall.
– Muito bem... – movi o rei. Como esperado ele cercou com a rainha. Defendi com o cavalo. Ele fez a torre atravessar para o outro lado do tabuleiro. Cheguei com o peão no lado dele e promovi para bispo. Ele capturou com a torre.
– Xeque. – ele riu de canto. – Já foram três movimentos.
Coloquei minha rainha ao lado do Rei dele. Ele olhou para mim e então sua expressão foi para puro espanto. Ele se voltou para o rei e o derrubou com um peteleco. Ele teria que capturar a rainha e então ficaria no canto, eu encurralaria com o bispo e quando ele tentasse se mover o peão impediria. Ele poderia mexer com as outras peças, mas seria questão de tempo, pois ainda tinha a torre para proteger meu bispo que o colocaria em xeque mate.
– Não... Não fez sentido. Tudo o que você jogou pra trás então...
– Não era ataque marshall, era uma distração, uma simples piada minha. – me levantei. – Agora, me deem os cigarros.
Por um momento me senti muito bem, se fosse fácil assim no campeonato eu tiraria de letra. Um sorriso brotou nos meus lábios sem eu perceber, meu olhos encaravam Yukio com tamanha superação que este parecia tremer. Eu... eu... eu estava enlouquecendo de novo!
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