Death Hero Academy
2 II
Notas iniciais
Death, The Kid era inconfundível. Atirava com ambas suas pistolas como se fizesse uma faxina. Aliás, “limpeza” seria a melhor definição para aquilo, muito além de um combate justo: dezenas de kishins alados, com asas frágeis de insetos, avançavam, sem nunca lhe encostar, no entanto, uma antena. Os feixes luminosos que o filho de Shinigami disparava explodiam as criaturas em pleno ar.
O garoto, no entanto, nauseava.
— Eu não sei se vou aguentar — choramingava, enquanto Lizz e Patty, suas fiéis armas, tentavam motivá-lo:
— Já está acabando, Kid! Você consegue!
— Mas quanto mais eu atiro… os cadáveres deles… eles caem no chão, num padrão desordenado… Completamente assimétrico! Eu vou vomi…
— Nem pense nisso! Que nojento!
Foi a deixa para que um dos kishins conseguissem agarrar o jovem, que berrou, o mais agudo que pôde.
— Carne, carne, carne…
— Sai de mim! Demônio! — Seu braço esquerdo quase que se mexeu por conta própria, atirando inúmeros feixes contra a face da criatura, que parecia ser a última.
Estavam na parte sólida de um pântano. As carcaças dos kishins flutuavam na água escura, espessa. Kid estava pálido de enjoo — mas suas armas estavam famintas, tendo em vista as inúmeras almas corrompidas, em tom de vermelho, que também flutuavam.
Aderindo às suas formas humanas, elas foram recolhendo as almas que estivessem em seu alcance. Liz comia com cuidado, enquanto Patty devorava numa só mordida.
— Por que — disse ela, não contendo a ‘comida’ em sua boca — você escolheu um lugar tão feio para virmos?
— As carcaças mais abjetas escondem os corações mais simétri… digo, mais belos, Patty.
— Isso nem faz sentido…
— Mas, vamos. Temos mais o que caminhar.
— O quê?! Como assim?!
— Parem de ser egoístas, não viemos só por conta das almas. Existe algo mais especial no coração deste pântano. Fora que vocês nem vão encostar no lodo. Vamos, voltem às suas formas.
— Ele poderia parar de ser tão enigmático — Liz confidenciou à sua colega, antes de ambas tornarem-se armas novamente.
Com os pés submersos, iniciou-se a caminhada. Com os braços, se desfazia dos cipós, e as pistolas podiam produzir uma frágil luz, sem atirar, muito embora isso cansasse as garotas. O cheiro era realmente incômodo, mas enquanto Kid não se atentasse às imperfeições nas árvores retorcidas, na água, e os cadáveres de Kishin que tinha que ignorar, estava tudo sob controle.
— Kid…
Era difícil não se concentrar nessas coisas. O garoto prodígio só conseguia focar no seu caminho, em linha reta — sentia que, em qualquer deslize, vomitaria.
— Kid!
— O que foi?! Eu preciso me…
Foi quando se deu conta. Zumbidos. Muitos. Haviam mais deles… e pareciam longe de acabar. Os grandes insetos os cercavam e estavam em prontidão para atacar: carne, carne, carne...
— Meninas… eu vou fechar os olhos e…
— Nem pense nisso! Não deixe nas mãos de Deus!
— Mas Liz, tecnicamente, ele é deus…
— Não, não é!
— E aí — prosseguiu ele — eu vou girar… e girar… e vocês atiram…
— É um bom plano! — Comemorou Patty.
— É um plano de merda! — Reclamou Liz.
— Caso não dê certo… foi um prazer conhecer vocês…
E então, as criaturas avançaram, rasgando os galhos e folhas no caminho. E logo, subiu um cheiro de queimado. Kid de fato fechou os olhos, e nada sentiu sair de suas pistolas. Mas o cheiro continuou, e depois, os sons: o grito dos kishins, o som de suas almas se desfazendo do corpo, e o crepitar das árvores. Um incêndio?!
— Um herói! Um herói! — As armas clamavam. O filho de Shinigami-sama abriu os olhos, e dessa vez sim, botou para fora tudo o que pôde.
•••
Um verdadeiro guerreiro das sombras faz com que até seus pensamentos sejam silenciosos. Um verdadeiro guerreiro das sombras tem a destreza de um gato, e a fúria de um tigre, contidas na mesma jarra espessa que nunca se quebra. Um verdadeiro guerreiro das sombras está sempre pronto para matar. Um verdadeiro…
— Black Star… Você está perdendo o inimigo de vista.
— Tsc. Eu já estava terminando!
— Não temos tempo! Vamos logo com isso, estou ficando ansiosa… esse lugar me dá calafrios…
Estavam, artesão e arma, atrás de uma lápide, mas logo se esgueiravam para trás de uma outra. Perseguiam um inimigo excêntrico: um garoto mais furioso que um touro, que carregava em ambos os braços o que pareciam ser armas explosivas.
— É esse cara que anda violando túmulos?! Nojento. É por isso que irei acabar com ele.
— Sim… mas faça isso silencio…
— BLACK STAR ESTÁ AQUI PARA ACABAR COM VOCÊ, CRIATURA VIL!
Antes que o artesão pudesse saltar, a lâmina em punho, o garoto se virou velozmente e uma explosão pôde ser percebida ‘saindo’ de seu pulso. A explosão foi arrogante, e reduziu a vários cacos de cerâmica os vasos de flores que repousavam nas lápides.
— Seu merda. Eu já estava te ouvindo faz tempo.
— Então por que sua guarda está aberta?! — Foi quando o garoto de cabelos azuis surgiu detrás da fumaça velozmente, pelas laterais, acertando o flanco do garoto explosivo com uma cotovelada, e logo em seguida um corte com Tsubaki, que foi desviado, mas arrancou-lhe alguns fios de cabelo.
— Não anuncie sua chegada, Black Star! — A voz de dentro da lâmina suplicava, mas Black Star era uma pedra. Apenas se concentrou em atacar novamente o inimigo, que disparou uma nova explosão. Ele saltou por cima dela, mas se surpreendeu quando aterrissomais umu: a lhe acertou a barriga. Gemeu de dor. Tsubaki caiu e o metal gritou quando tocou o chão.
O lugar era todo noite, pó e fumaça; o garoto de cabelos loiros, que tinha uma estranha roupa de super-herói, agarrou pelo colarinho o adversário, que tinha o orgulho completamente ferido.
— Vo… você é durão — disse ele, tossindo — não sabia que suas explosões… vinham com tanta facilidade.
— Cala essa sua boca, seu bolo fecal. Eu só não vou te espancar, porque…
— Fique longe dele! — Tsubaki estava em sua forma humana. Uma ninja de cabelos longos, presos mais altos que sua cabeça, e estava de mãos nuas. Que ameaça representaria para o inimigo, desse jeito?
— Eu sou Katsuki Bakugo — revelou, por fim — e serei o Herói n°1. Eu só não espancarei esse merda desse seu amigo, pois preciso saber onde está o Deku.
•••
— Liz… Patty… ele é horrível…
No estômago de Kid só restava a bílis, mas suas armas não estavam se atentando a isso: estavam empolgadas demais com a aparição daquele que lhes parecia um herói.
— Ahn… que lugar é esse?
— Ah, nós também queríamos saber…
— Ele fala… essa criatura asquerosa fala…
— Kid! — Patty, que parecia infantil mesmo simulando autoridade, repreendeu seu artesão — não fale assim do herói que nos salvou.
— Mas ele é completamente assimétrico — conforme falava, o garoto prodígio apontava o indicador trêmulo para o recém-chegado — seu cabelo é branco de um lado… vermelho de outro… e tem uma… uma mancha! Ah… o horror, o horror!
— Você também não é simétrico — ele respondeu, frio.
…
Silêncio sepulcral. Até que Liz tentou cortá-lo:
— Esse é um ponto delica… — mas Death, The Kid começou a berrar, as lágrimas escorrendo pelos seus olhos aturdidos. Demorou um tempo até que ele se recuperasse, e os quatro enfim pudessem conversar.
— De onde você veio, moço vermelho-branco?!
— Ahn… não sei explicar… não sei como apareci aqui. Só sei que — como se lembrasse de algo horrível, os seus olhos se arregalaram — All Might pode estar em perigo. Vocês devem me ajudar…
— All quem?
Silêncio, novamente.
— Vocês não sabem quem é All Might?
— Nunca ouvi falar .
O filho do Deus da Morte havia, parcialmente, se recomposto. Apontou para algum lugar no interior do pântano, mostrando seu anel em formato de caveira.
— Se quiser, podemos te levar para Shibusen. Lá pode encontrar alguém que possa te ajudar. Mas no momento estamos numa importante missão.
— Que nós não sabemos qual é ainda — Patty cochicou para Liz.
Todoroki Shoto tinha o semblante fechado — nenhuma emoção se podia abstrair dele. No entanto, era perceptível que refletia, sem saber muito bem que rumo seguir, até chegar a conclusão que não tinha muitas opções.
— Se não se incomodar, fazemos uma troca de favores. Eu te ajudo em sua missão, e você me ajuda a encontrar All Might… e meus amigos.
— Sim, sim! Amigos assimétricos, amigos assimétricos! — Patty vibrava, e Kid quase que sentia lâminas perfurarem seu fígado.
— Certo. Fique atrás de mim — sem que Kid precisasse dizer alguma coisa, Liz e Patty voltaram às suas formas de pistolas, o que impressionou um pouco Shoto, que deve ter pensado que aquelas eram duas mutantes de peculiaridades semelhantes — a propósito, qual o seu nome?
Shoto respondeu, mas não pôde ser ouvido — entre ele e Kid, uma imensa rajada negra, fina como uma lâmina, cortava as águas do pântano.
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