Notas iniciais
Obrigada às leitoras que deixaram review no capítulo anterior. Tinha esquecido como era a felicidade de ver pessoas lendo e gostando do meu trabalho ><'
Como prometido, capítulo dedicado à SellyBee, que me fez pirar muito com seu review. Obrigada, flor. Me deixou muito feliz e me incentivou a escrever um capítulo maior dessa vez :3
♥

10 de maio de 1997

Deitei na cama e então deixei que todas as lágrimas se derramassem e escorressem livremente por meu rosto inchado e gélido. Me enrolei no cobertor e procurei uma posição confortável, abraçando o travesseiro como se minha vida dependesse disso.

Senti Maxwell se enroscar em meu peito e deitar ao meu lado, com o focinho virado para meu rosto. Sorri tristemente para ele e lhe fiz cafuné, mas o cachorro não se mexeu.

Tudo estava tão nublado em minha mente, que parecia um sonho. E o que eu mais queria era que alguém me sacudisse, até eu acordar desse pesadelo.

Por um segundo quis ter de volta minha vida antiga. Uma garota normal, rica, virgem e pura, com uma mãe que cismava em ficar irritada com qualquer coisinha, com um pai ausente por conta do trabalho, com irmãos protetores, que estava ficando com um garoto bonito e charmoso e que só tinha preocupação com a prova de trigonometria.

Me sentia tão idiota. Eu costumava reclamar tanto da minha vida.



Eu era feliz e não sabia.



Max deu um pulo quando joguei o envelope no chão, fazendo o conteúdo que havia nele se espalhar pelo chão, indo até a porta.



Estava tentando não ser muito dramática, mas minhas lágrimas escorriam de tal forma que era quase impossível pensar com a razão.



– Não... – Murmurei, sentando na cama e enxugando o rosto com a manga do agasalho. – Eu devo ter entendido er... errado. – Minha voz falhou, mas eu continuava tentando acalmar a mim mesma. – Nathaniel nunca faria algo assim... – Concluí, respirando fundo.



Ouvi o barulho da porta se abrindo e meu coração pareceu ir parar em minha boca. O cachorro saiu da cama pulando alegremente e correu em disparata pelo corredor.



– Dee? – Ouvi a voz dele, que só fez com que eu tivesse ainda mais vontade de chorar. – Oi, garotão...



Fiquei em silêncio, reprimindo os soluços.



– Dee? – Ele tentou de novo, agora a voz mais próxima. Max apareceu no quarto e correu até a cama, derrapando uma ou duas vezes nos papéis espalhados pelo chão, pulando no meu colo, com a cabeça encostada em minha barriga.



Olhei fixamente para o corredor e observei Nath entrar no quarto, com seu sorriso descontraído e os cabelos bagunçados e cheios de neve. Ele balançou a cabeça e então me olhou com atenção.



– Oi meu am... Delilah! O que foi? – Ele largou a mochila em qualquer canto e foi até mim. Tocou minha mão, mas eu a afastei, indo para trás. – O que aconteceu? – Ele perguntou, entrando em pânico.



Apontei para o chão e ele virou relutante a cabeça, olhando para as fotografias espalhadas pelo linóleo.



Sem dizer nada, abaixou-se e foi pegando foto por foto vagarosamente, olhando-as com atenção. Cobri o rosto e respirei fundo. Não poderia começar a chorar novamente. Observei Nath levantar do chão com o montinho em mãos. A cada foto, seu rosto ia ficando cada vez mais vermelho, com cada vez mais raiva e cada vez mais espantado.



– Delilah, eu... – Ele começou a falar, mas eu o cortei:



– Não... Não fale n-nada antes de le... ler o bilhete... – Falei, com voz falha.



Ele me olhou com desespero e pegou um último papel, que havia entrado debaixo da porta. Seus olhos verdes passaram rapidamente pela carta e ficaram levemente marejados.



– A quanto... – Ele parou para respirar fundo. – Quanto tempo você sabe disso?



– Uma semana. – Falei com voz quase inaudível.



– E só me falou agora? – Ele perguntou, jogando as fotos na cama. Balancei a cabeça e não respondi. – É por isso que vem me evitando... – Ele sorriu, mas não havia humor nenhum em seu tom de voz. – Você devia ter me mostrado isso antes.



– Não consegui. – Respondi, agora mais calma. Sentia que ia explodir em lágrimas a qualquer momento, de novo.



Ele andou de um lado para o outro no quarto, alisando os cabelos.



– Eu não acredito que ela fez isso... – Murmurou.



– Não acredito que você fez isso! – Retruquei, batendo as mãos no colchão.



– Eu não estava pensando, ok?! – Ele me olhou, elevando a voz.



– Sério?! Talvez se pensasse tivesse ido para a casa dela! Vai saber com quanta saudade da cama dela você está!



– Não fale isso! – Ele começou a ficar nervoso.



– Estou errada, por acaso?



– Está! – Nath gritou, como se quisesse colocar um ponto final na discussão.



– Não estou acreditando nisso... – Murmurei, agarrando a raiz dos cabelos.



– Delilah, nós não temos nada! – Ele tentou novamente, ficando de joelhos na cama.



– Ah, claro! Você simplesmente se agarrou com essa garota e não tem absolutamente nada com ela.



– Não complica as coisas... — Ele respondeu, passando as mãos no cabelo.

– Não complicar? Como não complicar? Sabe o que é isso? — Perguntei, apontando para as fotos. — Isso é prova de que você não gosta de mim realmente...

– Delilah, não!

–... Se gostasse, não estaria se atracando com aquela vagabunda enquanto eu estava em casa, TE ESPERANDO! – Comecei a gritar. Estava com raiva e não sabia como ainda estava no mesmo cômodo que ele. Nunca havia sido traída antes, ou qualquer coisa do tipo. Não saberia reagir de modo diferente.

– Ela que me... — Ele começou a falar, abaixando um pouco a voz, mas eu o olhei com frieza e o cortei:

– Não ouse falar que ela quem o beijou. Suas mãos pareciam bem seguras na cintura daquela vadia, ok?

Nathaniel me olhou e eu não consegui descrever sua expressão. Mas parecia triste.

Parei na sua frente e olhei fixamente em seus olhos.

– Eu não sou idiota, Nathaniel. Suas intenções estão muito bem claras nas fotos.

Ele segurou meus braços e aproximou seu corpo de mim. Não esbocei reação, mas continuei fria.

– Tenho nojo de olhar para sua cara naquelas fotografias, parece que você nunca foi mais feliz na vida.



– Não é nada disso! – Ele disse, sacudindo meus ombros.



– Foi no dia em que você comprou o Max, não foi? — Perguntei, agora falando normalmente. Minhas palavras estavam carregadas de mágoa e decepção. — Aquele dia que você chegou mais tarde... Me pediu em casamento pra aliviar a sua situação?



– Não! Eu te amo, Delilah! – Ele me olhou com súplica.



– Eu também te amo, Nathaniel. – Falei me afastando. – Mas nem sempre o amor é tudo.

Virei as costas para ele e chutei o bilhete, rasgando-o.

Fechei a porta do quarto e corri até a de casa, sentindo as lágrimas começarem a escorrer por meu rosto mais uma vez. Ele suplicava atrás de mim, para que eu entendesse, para que lhe desse uma chance, mas eu não conseguia pensar racionalmente. Não agora.

Nathaniel se colocou na minha frente, quando eu fiz menção de abrir a porta. Ele me olhou com lágrimas ameaçando cair em suas bochechas coradas. Olhei-o mais uma vez, agora com dúvidas bombardeando minha mente.

Deveria ficar? Deverir sair? Minha cabeça dava voltas e mais voltas e eu não conseguia prender nenhum pensamento por tempo suficiente de escolher.

Baixei a cabeça e coloquei a mão na maçaneta. Ouvi o garoto chamar meu nome com voz embargada e falha. Estava chorando.

Saí de casa com os gritos insistentes de Nath atrás de mim. Ele veio atrás, mas eu não conseguia olhar para seu rosto. Lembrava da face satisfeita e prazerosa que vira nas fotos, quando ele beijou Marianne. No meio da rua, eles se beijaram. No meio da rua onde há a lanchonete de Joshua, onde eu comprei minha câmera. Onde eu fui para acertar com Josh, e ele me disse que ela não estava, que tinha saído.



Aproveitei que um táxi estava passando e pedi carona. Assim que o carro parou, abri a porta e entrei. Fechei-a e ele começou a bater no vidro, chorando, gritando palavras que se perdiam pelo vento gélido. Eu não ouvia direito sua voz abafada, mas sabia que ele estava me pedindo para ficar. Balancei a cabeça negativamente e o motorista deu partida.



Não olhei para trás quando o automóvel ganhou velocidade, mas sabia que Nath chegaria a correr atrás do mesmo. Embora o esforço, o perdemos em uma das curvas.



Recomecei a chorar e agradeci mentalmente pelo motorista não tentar puxar assunto ou algo do tipo.



Olhei pela janela e tudo me deixou ainda mais depressiva. A neve espessa caía sem parar e cobria com uma camada branca tudo ao meu redor. Flocos haviam caído em meu casaco, derretendo lentamente.



– Aqui estamos.



Agradeci e saí do carro, pedindo para ele esperar. Toquei a campainha e tive que esperar dois minutos até que alguém me atendesse.



– Lilah! O que aconteceu, meu amor? – Sammy perguntou, vendo meu rosto.



JJ apareceu logo em seguida. Deu meia volta e voltou dois segundos depois, com uma nota em mãos. Pagou o motorista e ambos me levaram para dentro da casa, para perto da lareira.



A mansão Phelps nunca foi tanto meu lar, como naquele momento.



Notas finais
Beijos, até quarta ♥