Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

50 Capítulo XLIX: A Morada dos Abatidos


Notas iniciais
Quadragésimo nono capítulo de DWA que eu dedico à Lady Neliel e à AlaynaWinchester pelas recomendações maravilhosas! Espero que gostem! ... Boa leitura!

Dead World Assembly

“Philip olha para o norte e imediatamente percebe porque passou os últimos 15 minutos ouvindo o zunido infernal de 1.001 gemidos. Legiões de zumbis estão migrando para o edifício, provavelmente atraídas pelo barulho e pelo espetáculo do sangue explodindo na calçada. Talvez a dez ou doze quadras de distância, eles agora andam como um coágulo ondulante que viaja pelas artérias. Por um momento, Philip não consegue desviar os olhos daquela horrível expedição”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 134).

Capítulo XLIX:

A Morada dos Abatidos

* * *

Sakura foi despertada algumas horas depois pelos tremores — quase espasmos — do corpo de Sasuke; a respiração ruidosa dele também contribuiu para arrancá-la de um sono pesado e trazê-la de volta para o quarto mofado e frio no qual se refugiaram.

Mesmo sonolenta, ela esfregou os olhos com um punho antes de afastar o casulo de cobertas que a envolvia até o queixo. Calafrios a acometeram no momento em que deixou o calor dos cobertores, mas sua preocupação por Sasuke era maior. Por isso, tombou o semblante para olhá-lo mais atentamente, na escuridão da noite que caíra.

Podia ouvi-lo bater os dentes por conta do frio mesmo à distância. Então, estendeu uma mão e pressionou a palma contra a testa dele. Deixou escapar um gemido de frustração ao encontrá-la um pouco mais quente do que deveria. Indubitavelmente, ele tinha febre.

Pousando uma mão no ombro dele, chacoalhou-o por algumas vezes no intuito de despertá-lo:

— Sasuke! Sasuke, acorda!

Ele cerrou os dentes e resmungou algo incompreensível antes de se alarmar devido aos chamados persistentes de Sakura e chegar à conclusão de que havia algo errado na casa. Quando fez menção de se sentar, no entanto, as mãos de Sakura empurraram-no de volta para o colchão, mantendo-o deitado.

— Está tudo bem, acalme-se! Eu só preciso verificar uma coisa...

— O que aconteceu? — ele a questionou depois de engolir a seco; sentia frio, mesmo sob os cobertores e seu ferimento latejava.

— Eu acho que você está com febre — ouviu-a murmurar, então pressionou as costas da mão contra a própria testa e percebeu que a colocação dela tinha fundamento: sua pele estava alguns graus mais quente do que deveria.

O colchão afundou quando Sakura estendeu a mão para apanhar a garrafa d’água que deixara no criado-mudo, à cabeceira, fruto do punhado de neve que apanhou mais cedo, lá fora; ela retirou a tampa e encostou o gargalo aos seus lábios secos.

— Toma, beba um pouco.

Sasuke franziu o rosto quando, ao se remexer, a borda do seu ferimento sob o curativo se repuxou. Trouxe uma mão até a garrafa de plástico e bebeu um gole parcimonioso com dificuldade, mas Sakura voltou a pressioná-la contra a sua boca.

— Precisamos economizar — ele murmurou num tom arrastado que não a convenceu.

— E você precisa ingerir bastante líquido.

Sakura contra-argumentou ranzinza e, para não contrariá-la mais, Sasuke bebeu outro gole, um pouco mais generoso. Quando afastou a garrafa dos lábios com um floreio do pulso, voltou a se encolher sob os cobertores, fechando os olhos e tentando esquecer a dor que sentia.

O colchão voltou a afundar quando Sakura deixou a cama e seus passos foram abafados no carpete felpudo que cobria o assoalho, mas ele soube por instinto que ela apenas havia ido até o banheiro. Um pouco depois, ela voltou ao quarto e Sasuke conteve um sobressalto ao sentir um pano úmido ser pressionado contra a sua testa; os dedos de Sakura passaram a traçar um caminho preguiçoso pelo seu couro cabeludo, induzindo-o ao sono novamente.

— Tente descansar um pouco mais, eu vou ficar acordada, para o caso da sua febre aumentar.

— Você também precisa descansar — ele resmungou, mesmo de olhos fechados e Sakura balançou a cabeça.

— Eu dormi algumas horas, não se preocupe.

Com isso, ele pareceu enfim se render ao cansaço e voltou a dormir. Sakura velou o sono dele, como prometeu, atenta à temperatura da pele dele. Não quis demonstrar na frente de Sasuke, mas estava preocupada. A febre era um indício de que o ferimento dele podia estar infeccionando e a prospectiva disso a assustava. Como faria para combater uma infecção sem quaisquer recursos e esgotada como estava?

Suspirando, recostou-se à cabeceira da cama de casal e trouxe as cobertas para cima. Então, passou a observar o movimento do peito de Sasuke ao respirar; o peso e o ruído a cada vez que ele inspirava.

Àquela hora, o quarto — a casa toda — estava tomado por sombras: poças de escuridão que amedrontavam Sakura adensavam-se, confundindo sua visão cansada e fazendo-a ver coisas que, de fato, não estavam ali.

Era fácil imaginar que um monstro (vivo ou morto) recuaria de um dos recantos escuros do cômodo. E além da escuridão, havia o frio. Ela podia jurar que nas últimas horas a temperatura havia caído pelo menos dez graus.

Um leve farfalhar contínuo no parapeito da janela cerrada lhe deu a certeza de que havia voltado a nevar na prefeitura de Osaka. Ao menos, a nevasca dos dias anteriores não voltara a se manifestar — o que Sakura começava a tomar por sorte; ela e Sasuke não teriam a menor chance de sobrevivência em meio a uma tempestade de proporções como aquela.

Com Sasuke profundamente adormecido, Sakura decidiu que era hora de cuidar das suas próprias necessidades mais urgentes. Levantou-se o mais silenciosamente que pôde e entrou no banheiro mais uma vez. Um pálido feixe de luz varava a janela de vidro granulado e derramava-se no espelho em cima da pia.

Havia outra garrafinha ali com um punhado de neve que ainda derretia e foi dela que Sakura retirou uma pequena quantidade, umedecendo um pedaço de tecido, a fim de limpar seu rosto e pescoço das manchas claras de sangue na sua pele que ainda persistiam.

Ignorando o calafrio violento que se instalou na base da sua espinha, ela despiu o moletom e o suéter que vestia por baixo. Olhando para baixo, encontrou a superfície plana do seu ventre, sua pele alva que reagia ao facho de luz prateado que entrava pela janela. Passou o pedaço de tecido por entre os seios e desceu em direção ao seu baixo-ventre.

Sakura suspirou novamente antes de descalçar os coturnos, mas manteve as meias, e desabotoar o jeans, descendo-os pelos quadris e coxas. Vestida apenas com sua lingerie, ela abriu o armário embaixo da pia e vasculhou-o até encontrar o pacote que precisava, tiritando de frio.

Sentou-se na privada e sufocou o próprio choro enquanto trocava o absorvente encharcado por outro. As cólicas já haviam diminuído bastante, mas o fluxo de sangue persistia e Sakura se perguntava se seu corpo eliminaria todos os tecidos do feto morto ou se ela morreria por uma infecção em breve por não ter meios de retirá-lo de dentro do seu corpo.

Entre os gemidos estrangulados e os olhos marejados, ela descobriu que não chorava pelo medo, mas pranteava a perda do seu bebê. Depois de tudo o que havia passado , enfim encontrou tempo para o seu luto, para verter suas lágrimas.

Por isso, assim que terminou de trocar o absorvente, curvou-se sobre a privada e chorou baixinho para não acordar Sasuke.

* * *

Temari dirigia pela rota de Keiji, em torno de Kuminawa, beirando a Via-expressa Meishin, quando a madrugada invernal vagarosamente se tornou um novo dia, gelado e cinzento.

As nuvens imensas, ilhas errantes cor de chumbo que cobriram todo o horizonte, trouxeram consigo uma nevada contínua que bloqueou a maior parte da pista da estrada secundária de Keiji, mas que não progrediu para uma tempestade eventual — e isso ela considerava sorte.

Seus dedos enluvados haviam se mantido firmes ao volante do imenso caminhão militar coreano durante a noite toda, guiando-o através do asfalto semicongelado com os faróis apagados para não chamar atenção. Ao seu lado, Gaara ainda tirava um cochilo, envolto num cobertor puído e com a cabeça recostada ao vidro embaçado da janela.

Temari calculou que eles poderiam percorrer em torno de mais vinte ou trinta quilômetros antes de ficar sem combustível, o que não poderia acontecer se ela quisesse continuar a busca pelo biomédico. Portanto, assim que passou por uma placa que dava boas-vindas aos viajantes, ela estendeu uma mão e chacoalhou de leve o ombro do irmão.

— Ei, maninho, acorda! Chegamos a Kuminawa.

Gaara resmungou algo antes de se endireitar no assento e esfregar um punho nos olhos sonolentos. As margens da estrada cobertas de neve e o céu cinza-gelo através do para-brisa foram as primeiras coisas que notou:

— Já amanheceu? — indagou ainda um pouco desorientado pelo cochilo desajeitado que tirou; suas costas doíam por conta da posição na qual pegou no sono.

— Uhum, faz mais ou menos uma hora — Temari assentiu sem desgrudar os olhos da pista. — Olha só, nós chegamos a Kuminawa e eu queria dar uma olhada no posto de combustível ou em alguns carros abandonados.

— Estamos sem gasolina? — ele se inclinou no banco para espiar o painel do caminhão e verificar seus ponteiros, mas a irmã foi mais rápida em respondê-lo.

— Não, mas vamos ficar se não encontrarmos alguns galões.

Gaara se lembrou do mapa dobrado no banco, ao seu lado, e afastou o cobertor para apanhá-lo, desdobrando-o rapidamente. Passando os olhos pelas linhas coloridas no mapa, localizou-se, pousando um dedo no pontinho que indicava a pequena cidade de Kuminawa.

— Acha que é seguro? — ele perguntou, olhando a irmã de viés, que franziu o cenho.

— Vamos averiguar primeiro, dependendo das condições nas quais ela estiver... Nós caímos fora, eu prometo — disse-lhe com ar solene, olhando-o dessa vez.

— Certo.

Gaara concordou e voltou o olhar para a pista parcialmente congelada assim que a irmã manobrou o imenso caminhão para a entrada da cidade, o único motivo dos imensos pneus não derraparem no gelo fino que cobria o asfalto era a habilidade excepcional de sua irmã em dirigi-lo.

Como todas as outras cidades pelas quais já haviam passado, Kuminawa estava deserta e exibia sinais do apocalipse a cada esquina que dobravam: prédios vandalizados, casas desabitadas e algumas até mesmo incendiadas, carros abandonados no meio das ruas ou encostados ao meio-fio. Lixo transbordava das calçadas e invadia as grandes avenidas, mas no fim poucos mortos haviam reagido ao ronco do motor e saído dos becos escuros e fétidos; em pouco tempo, Temari os tinha deixado para trás: figuras solitárias que vagavam a esmo pelas ruas atulhadas.

Eles encontraram o primeiro posto de combustível cerca de duzentos metros adiante, na esquina de uma avenida ladeada por prédios que outrora haviam sido reluzentes. Talvez sobreviventes tenham tentado construir barricadas em uma das pistas com placas de madeira e sacos de areia, na esperança de conter o avanço dos mortos-vivos, por infortúnio, elas não funcionaram aparentemente. Havia um ou outro cadáver estirado atrás dessas barricadas, apodrecendo ao ar livre e, hoje, cobertos pela neve.

Temari estacionou o imenso caminhão militar no meio da rua, por via das dúvidas, encaixou um pente novo de munição na sua Uzi Carbine recém-adquirida e voltou a encaixá-la no coldre em sua coxa.

Gaara guardou as duas Desert Eagles dentro da jaqueta e copiou a irmã quando esta abriu a porta da cabine e pulou para o asfalto congelado, seguindo-a bem de perto, na retaguarda. Temari havia desembainhado sua faca de caça e a empunhava diante do corpo.

O primeiro e único cadáver a vir saudá-los devia ter sido o dono do posto, em um passado não tão distante. A camisa social estava suja de sangue e gosma e sua calça cáqui estava em frangalhos, exibindo as lacerações profundas que sofrera em ambas as pernas; veio mancando na direção de ambos, da loja de conveniência nos fundos do posto, e rosnando. Os olhos amarelados faiscavam para ambos os irmãos.

Temari o abateu sem qualquer dificuldade, cravando a faca fundo no seu crânio podre. Eles contornaram o cadáver quando este desabou no chão e seguiram na direção das bombas. Por sorte, havia combustível. Encheram os galões vazios com gasolina e depois vasculharam a loja de conveniências atrás de suprimentos.

Apesar de boa parte das estantes de metal já haverem sido saqueadas, eles encontraram alguns suvenires úteis e enfiaram tudo numa cesta de plástico antes de deixarem a loja para trás, a passos apressados. Voltaram ao caminhão e Temari deu a partida, ligando o motor.

Deixaram Kuminawa para trás em pouco tempo, com seus fantasmas e mortos.

* * *

Com o alvorecer, a febre de Sasuke cedeu um pouco, embora ele continuasse sonolento e sofrendo com espasmos e calafrios violentos. Sakura o acordou com delicadeza para limpar e trocar os curativos dele.

Durante o procedimento, sentiu seu peito apertar devido ao aspecto do ferimento dele: as bordas antes avermelhadas agora continham um contorno amarelado, de aparência purulenta. Mas ela não teve coragem de dizer isso a ele.

Eles beberam mais água e dividiram um desjejum escasso, abrindo duas latas de uma sopa rala e, depois disso, Sasuke voltou a dormir. Sakura havia encontrado alguns antitérmicos e analgésicos e deu-os para ele para tentar aliviar a febre e as dores que ainda sentia.

Naquela mesma manhã, ao olhar-se no espelho, Sakura também encontrou o rosto forrado por equimoses, frutos das agressões que sofreu nas mãos de Zaku. Agora, elas haviam escurecido para um tom profundo de violeta, embora as bordas amareladas já lhe mostrasse que desapareciam em questão de dias.

Sem nada a fazer e com Sasuke adormecido, ela decidiu vasculhar minuciosamente cada cômodo da casa à procura de antibióticos para ele, para tratar a infecção o mais depressa possível. No entanto, sua busca mostrou-se infrutífera e a deixou frustrada e ainda mais preocupada no fim.

No fim, havia encontrado apenas uma lanterna com algumas pilhas e um pé-de-cabra no fundo de uma velha caixa de ferramentas, alguns lençóis mofados no roupeiro em um dos quartos, que ela rasgou em tiras pequenas e lavou com água fervida (fruto de mais neve que ela recolheu do lado de fora) para usar como curativos em Sasuke, e uma lista telefônica com um mapa anexado da cidade de Settsu e da região na sala de estar.

Enquanto o percorria com os olhos, localizou os hospitais mais próximos: o Hospital de Shinsei e o Hospital de Daijukai, só para o caso de a infecção de Sasuke piorar e ela ter que buscar por antibióticos. Memorizou rapidamente ambas as distâncias e decidiu, no fim, arrancar a folha e dobrá-la, guardando-a no seu bolso.

Aproveitando que Sasuke ainda dormia, ela decidiu verificar as casas vizinhas, somente as mais próximas e se achasse algo proveitoso em uma delas, não se arriscaria com as demais; realmente precisava daqueles medicamentos, caso contrário, a vida de Sasuke correria perigo muito em breve.

Como precaução, levou a faca de cozinha e o pé-de-cabra consigo, mas ainda assim se sentiu exposta uma vez que atravessou o jardim frontal coberto de neve.

Sakura pulou o muro que divisava a primeira casa e pousou desajeitada num jardim atulhado de lixo, lamentando a pontada súbita que sentiu no ventre; as cólicas ainda não haviam desaparecido completamente pelo visto.

Ao olhar para cima, encontrou a silhueta soturna e fustigada da velha casa de madeira contra o céu cinzento e nuvioso.

O mais silenciosamente que pôde, Sakura espreitou a entrada da casa, pisando nas tábuas rangentes logo abaixo do frontão antes de testar a maçaneta; trancada, concluiu, mordiscando o lábio inferior. Pela terceira vez, conteve o reflexo de olhar para trás, para a casa onde Sasuke estava sozinho.

Ela havia se assegurado de que todas as portas estavam bloqueadas ou trancadas antes de sair. Ele ficará bem, refletiu ao encaixar a faca de cozinha no cano de um dos seus coturnos e pegar o pé-de-cabra com ambas as mãos. Com precisão, encaixou a ponta recurva na fresta da porta e se posicionou melhor para forçá-la a abrir.

Foram alguns preciosos minutos perdidos antes que a madeira reforçada cedesse à pressão constante que ela empregava na barra de ferro e trincasse, arrombando a maçaneta. Sakura enxugou o suor que porejava sua testa com o dorso da mão antes de chutar a porta e se armar com o pé-de-cabra para qualquer coisa que tentasse atacá-la.

Felizmente, enquanto explorava a casa, descobrindo a mobília dos lençóis mofados, encontrou a casa completamente vazia. Seus moradores decerto haviam a abandonado nos primeiros estágios da disseminação da praga e desde então ninguém havia estado na casa.

Contente por isso, ela tirou a mochila vazia que trouxera pendurada nos ombros e passou a enchê-la de tudo o que pudesse lhe ser útil. Mas os melhores achados, com toda a certeza, haviam sido alguns antibióticos que ela achou numa caixinha de madeira na cozinha. Eles não resolveriam cem por cento o problema de Sasuke, mas retardariam por enquanto os avanços da infecção, até que ela pudesse decidir melhor o que faria.

Ainda, ela se sentia indubitavelmente mais leve quando voltou a casa onde Sasuke ainda dormia — por sorte ele não havia despertado enquanto esteve ausente. A última coisa que queria é que ele, no estado debilitado em que se encontrava, andasse por aí às cegas indagando-se a respeito do seu paradeiro.

Por isso, uma vez que voltou ao quarto, esvaziou a mochila com tudo o que havia conseguido na outra casa e se deitou ao lado de Sasuke na cama, embaixo das cobertas.

Contemplou-o adormecido, tão sereno, mesmo que a febre continuasse a enfraquecê-lo.

* * *

— Eu estou dizendo que nós já passamos o desvio para a Rodovia Daini-Keihan! — Gaara insistiu com exaspero, gesticulando para a placa que indicava que eles estavam se aproximando do Parque Shinnarita Ryokuchi.

— Quando você me disse isso?! — Temari protestou bem ao lado dele, apertando os dedos no volante enquanto continuava a seguir por uma via secundária, paralelamente àquela que eles deveria ter tomado: a Rodovia Daini-Keihan.

— Eu te disse assim que deixamos Kuminawa — ele abaixou o tom para um murmúrio, mas manteve o sobrecenho enviesado ao fitar a pista estreita da estrada; anoitecia outra vez na Prefeitura de Osaka.

— Você não me avisou porra nenhuma de que o desvio para a Daini-Keihan era lá! — Sua irmã rebateu pela terceira vez desde que iniciaram aquela discussão.

— Foda-se — Gaara vociferou por entre os dentes cerrados e atirou o mapa para o lado, cansado. — Eu só quero sair dessa merda de estrada!

Temari abriu um sorriso cáustico para o irmão caçula, que o enervou ainda mais:

— Está com o traseiro dolorido, maninho? Cansado de ficar sentadinho nesse banco enquanto eu estou dirigindo há mais de doze horas?

— Foda-se, eu já disse — reiterou, afundando no assento. — Podia me deixar dirigir um pouco se está tão cansada assim.

— Com o seu senso de direção? — Temari caçoou e recebeu um olhar fulminante de Gaara como resposta. — Acabaríamos ainda mais perdidos!

— Você precisa dormir — ele a lembrou com um tom condescendente que a fez trincar os dentes.

Temari limpou a garganta e se ajeitou no assento do banco; não abriria mão de sua posição tão cedo, seu irmão intuiu. Conhecia o orgulho da irmã e também conhecia sua teimosia.

— Eu te aviso quando não puder ir mais adiante.

Foi tudo o que prometeu enquanto ligava os limpadores de para-brisa mais uma vez, pois a nevada estava aumentando; flocos de neve e granizo se chocavam contra o para-brisa continuamente, embaçando o céu estranhamente azulado. No fim, ela suspirou, quebrando o silêncio dentro da cabine gelada, e voltou a encarar o irmão.

— Olha, dirija um pouco para mim então? Eu acho que realmente preciso de um descanso — admitiu com um sorriso pequeno.

A expressão dura no semblante de Gaara arrefeceu e ele concordou. Temari estava prestes a manobrar o caminhão para ao acostamento, para que pudessem trocar de lugar, quando algo a deteve. Duas silhuetas pequenas andando a esmo na margem esquerda da pista, sob a neve que caía.

A princípio, ela pensou que se tratasse de dois errantes vagando sem rumo, à procura de qualquer coisa quente em que pudessem cravar os dentes podres naquele princípio gelado de noite. Entretanto, notou seu equívoco quase meio segundo depois de pisar abruptamente no freio, fazendo o caminhão sofrer um solavanco violento.

Ambos os irmãos foram lançados para frente e para trás com força, quicando em seus assentos.

— Mas que porra foi essa? — Gaara indagou à irmã, mas congelou no momento em que percebeu que ela abria a porta e descia da cabine, saltando no asfalto congelado. — Temari?!

Esticando a cabeça para fora, notou as duas silhuetas pequenas que Temari perseguia, chamando-as pelos nomes:

— Ei, Konohamaru! Moegi! Aqui!

Só então notou que eles haviam encontrado duas crianças do acampamento. Dois sobreviventes do ataque dias atrás. Como eles haviam chegado tão longe sozinhos?, Gaara se perguntava. Mas não importavam os meios no fim.

Nem tudo havia se perdido. As duas crianças vivas que agora abraçavam Temari eram prova disso, assim como a pequena vida que crescia no ventre de sua irmã.

Havia esperança, afinal.

* * *

Sasuke acordou só à noite, faminto e debilitado. Sakura limpou o ferimento e fez novos curativos e o fez tomar alguns dos antibióticos que não haviam estragado. Quando perguntou sua origem, contudo, recebeu uma resposta evasiva. Ele reclamou no início, disse não ser necessário, mas ela o persuadiu a tomá-los.

Os antitérmicos que ele tomou mais cedo haviam abaixado um pouco a febre e os analgésicos haviam, ao menos, aliviado as dores que sentia pelo corpo. Infelizmente, não fizeram nada para aplacar a ardência que ainda sentia no corte em seu abdome.

Sakura ajeitou os travesseiros às costas dele, já que Sasuke se recusava a voltar a dormir. Por isso, o deixou apenas recostado à cabeceira da cama.

— Seu olho está desinchando bem — ela observou ao afastar a franja que o escondia, avaliando o inchaço remanescente.

— E esses hematomas no seu rosto? — ele perguntou, indicando as manchas violetas que cobriam ambas as faces dela.

Sakura as tocou, um pouco sem jeito:

— Eles não incomodam, não se preocupe.

Sasuke baixou o rosto então, ocultando seus olhos do escrutínio de Sakura.

— E quanto ao... — interrompeu-se, sem saber ao certo como se referir ao acontecido; por sorte, ela o respondeu sem rodeios.

— Acredito que meu corpo esteja eliminando tudo. Eu estou bem, já disse para não se preocupar comigo, Sasuke.

Ele assentiu, ainda que contrafeito, e relaxou nos travesseiros. Sakura refestelou-se ao seu lado, tomando cuidado para não roçar na parte ferida e sensível do seu corpo. Àquela altura, sabia onde podia tocá-lo e onde deveria manter distância.

Tinha a sensação de que Sasuke estava escondendo outros ferimentos dela, como, por exemplo, o chute que levou nas costelas. Naquela mesma manhã, ela acariciou-o sem querer no local e ele trincou os dentes. Na ocasião, dissera ser apenas o corte que ainda latejava, mas Sakura tinha a impressão de que o chute havia causado mais do que um hematoma era possível que tivesse trincado uma costela.

Inclinando-se com cuidado sobre ele, roçou os lábios nos dele, percebendo que estavam secos de novo. O único olho bom dele recaiu sobre o seu rosto, fitando-a com interesse incontido. Há tanto tempo eles não podiam compartilhar esses pequenos e delicados momentos de intimidade. Por isso, envolveu o rosto dele com uma mão e voltou a roçar a boca na dele com cuidado, contornando-a com sua língua antes de senti-lo suspirar comedidamente.

Sasuke a correspondeu como pôde, pousando a própria mão sobre a dela, que cobria seu rosto. Ao fim, encostou a testa à dela e permitiu-se desfrutar de um instante fugaz de paz e de serenidade.

— Nós sobreviveremos a isso, Sasuke; eu sei — ela sussurrou com convicção ao acariciar o rosto dele. — Já passamos por tanta coisa juntos... Mas eu também nunca mais quero me separar de você.

Ele não lhe disse nada, mas afundou o rosto nos cabelos dela e beijou o topo da sua cabeça com afeto. Infelizmente o pequeno momento de paz teve um fim abrupto: no andar de baixo, um baque abafado fez ambos se separarem num sobressalto. No instante posterior, com o coração martelando o peito, Sakura apontou para Sasuke:

— Fique aqui! Eu vou ver o que foi isso!

Sasuke até tentou discordar e segurá-la ali, mas ela já tinha saltado para fora da cama e para longe do alcance dele a essa altura. Ele a viu empunhar um pé-de-cabra e espreitar a porta cerrada do quarto na ponta dos pés, cobertos apenas por meias de lã.

Sakura colou o ouvido à porta, à espera de mais ruídos, mas o silêncio foi sua única resposta. Sem esperar mais, ela levou uma mão à maçaneta e a girou sem fazer um único ruído. A casa estava banhada nas sombras do ocaso invernal e a única luz provinha da vela, sobre o criado-mudo ao lado da cabeceira da cama.

Em absoluto silêncio, ela deslizou pelo corredor acarpetado, abafando cada passo, cada lufada de ar que expirava pelos lábios. Segurou no pé-de-cabra com as duas mãos e avançou pelo segundo andar, em direção às escadas: o ruído viera do primeiro piso. Com Sasuke debilitado, ela era a única quem podia proteger a ambos e Sakura faria isso a qualquer custo.

Degrau por degrau, ela desceu as escadas em posse do pé-de-cabra e virou-se na direção da cozinha. Conteve um arquejo quando ouviu um baque alto dessa vez, provavelmente algo que havia caído (ou mais provavelmente: sido derrubado) no chão. Destemida, Sakura prosseguiu pelo corredor escuro até entrar na cozinha com o coração lhe socando as costelas e pressionando a garganta.

Ouviu o ruído de uma expiração forte no ar gelado e levantou o pé-de-cabra mais alto quando o som de uma vez familiar a deteve:

— Por favor, não! Sou eu!

Uma silhueta conhecida recuou das sombras da cozinha e fez Sakura arfar, incrédula:

— Você aqui?

Ela abaixou o pé-de-cabra quando o reconheceu mesmo na escuridão densa: o cabelo louro-prateado amarrado num rabo de cavalo baixo e a armação redonda dos seus grandes óculos eram seus traços mais marcantes. O sorriso torto, por outro lado, lhe foi uma novidade:

— Lembra-se de mim? — ele perguntou com um tom divertido e Sakura bufou.

Como se esqueceria do covarde que se desamarrou e os deixou para trás naquela madeireira? Ali estava o biomédico, em roupas sujas e surradas, mas são e salvo sob um primeiro exame superficial.

Ali estava a única esperança do que ainda restava da humanidade e o detentor da cura: Kabuto.

* * *

Caminhe comigo

Caminhe comigo

Não deixe esse mundo fodido

Te partir ao meio.

Slipknot — Trecho de XIX.

Notas finais
E o Kabuto... reencontrou Sasuke e Sakura. Teremos muuuuuitas complicações nos próximos capítulos, especialmente com a saúde do Sasuke D: ... Sabe ontem? Então, 15 de Novembro e DWA completou dois aninhos :v DOIS ANOS com vocês! OMG! Mas não se preocupem, pretendo concluir essa Fanfic antes que ela complete seus 3 aninhos u.u ... Eu devia ter postado esse capítulo antes, mas aí eu coloquei minhas mãozinhas semana passada em Rise of the Tomb Raider e fui concluir esse capítulo (que estava pela metade) só hoje HUAHUAHUA ... Então, eu ando tão enrolada ultimamente que até episódios de TWD eu estou acumulando pra assistir. Até agora já são três ;-; Mas e aí, qual o palpite de vocês? Nosso coreano entregador de pizza mais amado está vivo ou está morto? ;-; E o que acharam do ator escolhido para viver o Negan na série? Eu particularmente amei :v Eu vi Watchmen e, basicamente, ele foi o Negan de lá HUAHUAHUA ... Agradeço a todos que comentaram e não se esqueçam de comentar nesse também, ok? Nos vemos nos reviews ;) Até o próximo!