Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
51 Capítulo L: Degredados e Abolidos
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Naquela noite, eles tentam jantar e fingir que é só uma refeição normal entre amigos, mas o barulho insistente de garras do lado de fora acaba com todas as conversas. O som é uma lembrança constante do exílio em que se encontram, da ameaça mortal que está logo ali fora, do isolamento. Contam uns aos outros suas histórias de vida, se esforçam ao máximo, mas o barulho ameaçador deixa todos os nervos à flor da pele”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 134)
Capítulo L:
Degredados e Abolidos
* * *
— Estou surpresa que tenha nos encontrado, depois de tudo — Sakura comentou com um cinismo escancarado que não fez questão se esconder ao deixar seu pé-de-cabra de lado e Kabuto, em resposta, deu de ombros, apático.
Depois de ajeitar os óculos grandes, ele finalmente se deu ao trabalho de explicar como os havia encontrado, relatando sua jornada na floresta, após haver escapado da madeireira, até o primeiro distrito, Aikawa, no qual topou com uma horda numerosa demais para se arriscar.
— Foi nas primeiras horas do dia que me deparei com seu rastro e o de Sasuke, vocês não foram exatamente muito cuidadosos. — E então era a vez de ele se valer de um cinismo incisivo que levou Sakura a travar a mandíbula. — Além disso, Settsu me pareceu um paraíso assim que a encontrei: com poucos errantes, várias casas ainda abastecidas com suprimentos e que me protegeriam da tempestade.
— Pois que procure por outro lugar para você então, não o queremos aqui, não depois de haver nos deixado para trás — ela o dispensou com um floreio da mão e tentou passar pela porta, mas Kabuto se moveu tão rápido ao bloqueá-la que o primeiro instinto de Sakura foi levantar o pé-de-cabra novamente e ameaçá-lo com ele.
— Ei, ei, calminha! — ele ciciou ao espalmar ambas as mãos para mostrar que estava desarmado; na escuridão, seu cabelo louro-acinzentado se destacava e as lentes redondas dos seus óculos brilhavam. — Eu não quero machucá-la, tudo bem? Eu não quero nem mesmo causar problemas, só precisa me ignorar, se quiser, mas não pode me mandar lá para fora outra vez — ele argumentou com tamanha convicção que Sakura abaixou a guarda (e o pé-de-cabra), ponderando.
Ela o fitou demoradamente durante quase um minuto e ele retribuiu seu olhar com a mesma intensidade irremovível. Kabuto franziu o cenho, mas relaxou perceptivelmente assim que Sakura fez menção de passar pela porta, e desta vez ele se afastou para deixá-la ir.
— Faça como quiser, mas estou prestando atenção em você — deixou clara a ameaça ao se dirigir para a escada e subir os degraus novamente, movendo-se pela casa imersa numa penumbra densa.
O biomédico exalou um suspiro profundo e, depois de alguns minutos, se acomodou na sala de estar da casa, no sofá mofado. Não arriscaria segui-la, é claro, mas pela manhã se incomodaria em verificar alguns dos cômodos no segundo piso. Por ora, seria prudente não abusar da sorte.
De volta ao quarto, Sakura encostou a porta e só por precaução também a trancou, então se voltou para o olhar expectante e ansioso de Sasuke, que continuava acomodado embaixo dos cobertores.
— Era só o Kabuto — murmurou num tom cansado se aproximando da cama e ajeitando-se ao lado dele.
Sasuke soergueu uma sobrancelha, cético, e esperou por mais detalhes, que ela prontamente forneceu.
— Aparentemente ele é covarde demais para ficar sozinho e resolveu se juntar a nós.
Ele bufou, mas se arrependeu assim que o gesto fez repuxar as bordas do seu ferimento, debaixo das ataduras limpas que Sakura havia trocado não muito tempo atrás.
— Nós precisamos desse cara, Sakura — disse por fim num tom contido. — Ele é a nossa única chance de chegarmos a um lugar seguro.
— Como assim? — ela o indagou, levantando o tronco para fitá-lo e escorando-se nos cotovelos.
— Quando estávamos em Kyoto, esse cara, o Kabuto, nos contou a respeito de uma base militar em uma ilha para onde ele estava sendo transportado antes do seu helicóptero sofrer uma pane e fazer um pouso de emergência. Ele ia para Kunashir, Sakura.
— Kunashir? — ela ecoou o nome, pouco familiarizada.
— É uma ilha que está sob controle dos russos, ao norte de Hokkaido. É nossa única esperança de escapar de tudo isso — completou taciturno e ela voltou a se recostar nos travesseiros, pensativa.
— Uau — exalou enfim. — Kunashir, é? Não me parece uma má ideia...
— Assim que eu me recuperar — Sasuke a interrompeu —, nós o levaremos até Shizuoka. É lá que uma unidade remanescente o espera com um helicóptero. Nós vamos escapar desse inferno, Sakura, vamos conseguir...
Mas então, a voz rouca dele foi esmorecendo gradativamente e, quando ela voltou a fitá-lo, encontrou-o adormecido, ressonando tranquilamente debaixo dos cobertores ao seu lado. Suspirando, ela se acomodou mais confortavelmente (sem tocá-lo) e fechou os olhos, tentando copiá-lo.
Sasuke não era o único que ainda precisava se recuperar, ela própria também necessitava disso. Todos os três precisariam disso, caso tivessem mesmo de partir dali a alguns dias em direção à Shizuoka, em direção ao paraíso prometido.
* * *
Na manhã seguinte, Sakura foi despertada novamente pelos tremores violentos do corpo do Sasuke: a febre alta havia voltado, para o seu desespero. Ela o acordou com um chacoalhão no ombro para fazê-lo tomar o que restava dos antitérmicos que encontrou e rezou para que eles fizessem efeito.
Infelizmente, por volta do meio-dia, Sasuke ainda sofria com a febre alta, tremendo debaixo dos cobertores e, dessa vez, parecia que ela não cederia tão cedo. Em determinado momento, aproveitou que ele dormia profundamente, embora incomodado pelos tremores e bater de dentes, e espiou o ferimento debaixo dos curativos recentemente trocados.
Quase chorou ao encontrar a ferida ainda mais avermelhada do que antes e com um brilho purulento nas bordas, sem dúvidas se tratava de uma infecção. Examinando-a mais de perto, notou o corrimento amarelado e o inchaço. Deus, isso não podia estar acontecendo, não agora, lamentou com lágrimas silenciosas correndo pelo rosto.
Ela havia tomado tanto cuidado para limpar a ferida e cobri-la com curativos limpos, mas não havia adiantado. Secando os cílios úmidos, Sakura se recompôs e fez novas bandagens para a ferida de Sasuke, precisava pensar, precisava encontrar uma solução — e depressa.
Incapaz de permanecer no mesmo cômodo que ele, ouvindo-o respirar tão ruidosamente, ela se levantou da cama e desceu as escadas. Afastou o cabelo do rosto num gesto de frustração e inspirou e expirou o ar metodicamente.
Lá embaixo, deu de cara com Kabuto e decidiu ignorá-lo deliberadamente ao passar por sua figura na sala de estar. Lembrou-se das listas telefônicas que deixara sobre a mesa de centro no dia anterior e concluiu que só havia uma opção para salvar Sasuke.
Notando sua agitação e a aura soturna que a cercava, o biomédico se sentou num dos sofás e observou-a folhear uma lista telefônica, frenética. Levantou uma sobrancelha ao vê-la, em seguida, usar uma caneta e um pedaço de papel um pouco amassado para traçar rabiscos que, pouco a pouco, se tornaram um mapa improvisado.
— Está acontecendo alguma coisa que eu deveria saber? — quebrou o silêncio com um tom monótono; Sakura bufou e voltou a ignorá-lo em seguida, concentrada em desenhar seu mapa.
Foi a vez de Kabuto franzir o cenho e censurar a atitude desnecessariamente circunspecta dela. Com calma, entretanto, deslizou do sofá para o carpete e ajoelhou-se ao lado dela, cobrindo a mão trêmula e fria que ainda rabiscava no papel.
— Conte-me o que está havendo — pediu mais uma vez, verdadeiramente solícito. — Tem a ver com Sasuke?
Foi então que ela desabou. Um soluço sofrido rompeu do fundo da garganta dela e ela estremeceu violentamente, desatando num choro compulsivo e doloroso só de se olhar. Com os olhos claros toldados pelas lágrimas, ela confessou entre os soluços:
— O Sasuke não está bem. Estou com medo, com tanto medo... Não posso perdê-lo, entende? Não vou suportar.
Respirando fundo, Kabuto se sentou com as costas apoiadas no sofá atrás do seu corpo e dobrou os joelhos, envolvendo-os com os braços.
— Conte-me o que está havendo. Sou biomédico, lembra? — brincou com um sorriso inadequado que não aplacou o humor sombrio de Sakura, mas ao menos fez cessar o seu choro.
Ela secou o rosto com as costas da mão e com as mangas do suéter que vestia.
— Ele está com uma infecção. O ferimento infeccionou mesmo eu tendo tomado tantas precauções...
— Não é culpa sua — Kabuto se adiantou. — A lâmina que o perfurou já podia estar contaminada, além disso, ele ficou muito tempo com o ferimento exposto, não é?
Sakura anuiu combalida com um gesto da cabeça e precisou refrear a vontade de chorar outra vez. Não, não podia fraquejar agora, Sasuke precisava dela, precisava que ela tomasse alguma decisão.
— Sabe dizer em que estágio se encontra a infecção?
Sacudindo a cabeça a fim de desanuviá-la e pensar num prognóstico decente, ela fez outro gesto afirmativo em seguida, mas em seguida desistiu e se levantou, convocando Kabuto a segui-la e a ver por si mesmo.
Eles subiram as escadas até o segundo andar e entraram no quarto com Sakura fazendo o mínimo de ruído possível. Kabuto analisou o cômodo só por um instante antes de voltar sua atenção para a figura que repousava sob os cobertores pesados. Ela fez sinal com a mão para que ele a acompanhasse enquanto se aproximava do leito.
Juntos, eles examinaram Sasuke e traçaram um diagnóstico com base na aparência do seu ferimento e nos sintomas que ele já mostrava. Apesar da antipatia ainda existir entre ambos, Sakura decidiu que daria ao biomédico o benefício da dúvida, afinal ele estava ao menos se prontificando a ajudá-la com o caso de Sasuke.
Minutos depois, ambos deixaram o cômodo em silêncio e ela encostou a porta para não perturbar o sono de Sasuke. Conversaram ali mesmo no corredor, entre sussurros:
— E então, o que acha? — perguntou a ele, aflita pela resposta.
Kabuto alisou o queixo pensativamente, mas não hesitou em respondê-la.
— A infecção já se encontra num estágio mais avançado, mas ainda pode ser tratada. O que mais me preocupa, entretanto, é uma possível septicemia.
— Envenenamento do sangue? — Sakura ecoou horrorizada e ele anuiu.
— Notou as linhas vermelhas ao redor do ferimento? A infecção já pode estar se infiltrando na corrente sanguínea dele e se assim continuar ele não terá muito tempo. A febre alta já é outro indício de que a infecção já está agindo no organismo dele.
— O que pode ser feito? — ela indagou prontamente muito embora sentisse uma ardência incômoda nos olhos e um nó na garganta.
— A essa altura, ele precisará de antibióticos para tratar a infecção, talvez até de piperacilina e penicilina, considerando o estágio da infecção.
— Sim, sim, é claro! — ela anuiu um pouco mais esperançosa, o caso de Sasuke era delicado, mas tratável.
Mas havia um problema...
Como conseguiriam os medicamentos dos quais ele precisava? Sakura respirou fundo quando percebeu que tivera a resposta desde o começo. Por isso, fitou Kabuto decididamente e disse-lhe:
— Eu vou buscar os medicamentos que ele precisa.
— Como? — foi a única pergunta dele, a única que importava.
Sakura se adiantou e desceu as escadas novamente com Kabuto em seu encalço. Rapidamente, ela alcançou a lista telefônica e o mapa que estivera esboçando mais cedo. Então retirou do bolso da calça jeans o mapa da região que havia destacado da lista, desdobrando-o e juntando-o ao rascunho que havia traçado na folha de papel amassado.
— Há dois hospitais nas redondezas de Settsu — disse para Kabuto, desamassando o mapa sobre a mesa de centro e percorrendo com os dedos os caminhos que a levariam a qualquer um deles. — O Hospital de Shinsei e o Hospital de Daijukai.
— O Hospital de Daijukai está mais perto, mas fica do outro lado do Rio Yodo — Kabuto observou enquanto ajeitava os óculos.
— O de Shinsei está a noroeste daqui, só alguns quilômetros adiante. Vou verificar os dois, para o caso de um deles haver sido saqueado ou tiver hordas numerosas demais.
— Você vai desarmada? — ele soou horrorizado pela possibilidade, mas Sakura não tinha escolha.
— Todas as nossas armas foram furtadas por Zaku e pelos outros. Além disso — ela afirmou pragmática enquanto se levantava e dobrava ambos os mapas —, já me virei com menos em ambientes mais hostis.
Kabuto também se levantou e não desgrudou os olhos dela por nenhum momento. Avaliava-a criticamente, desde a postura ereta até os olhos verdes que pareciam querer esconder o medo e a dor, represando-os, mas falhavam em fazê-lo.
— Vou cuidar dos preparativos — disse a ele enquanto cruzava a sala de estar até a porta da frente —, conseguir tudo o que preciso para ir.
Entretanto, parou com a mão a centímetros da maçaneta quebrada e tombou o rosto crispado para Kabuto.
— Cuide dele até eu voltar — não pediu, ordenou ao sair para a tarde gélida e invernal, deixando um Kabuto melancólico para trás, plantado na sala de estar.
Uma vez lá fora, Sakura começou a cuidar de sua viagem até os hospitais. Não podia fraquejar, Sasuke precisava dela, estava contando com ela. Sabia que seria demais considerar pedir para Kabuto acompanhá-la e na verdade nem mesmo desejava isso. Sasuke estava muito debilitado e inspirava cuidados, o biomédico seria mais útil se ficasse para trás e o protegesse enquanto ela estivesse fora.
Por isso, atravessou as ruas meio congeladas daquele bairro de Settsu e, armada somente com um pé de cabra e uma faca de cozinha, invadiu uma a uma as casas das imediações, rápida e furtiva. Seu foco era um veículo e combustível, mas estava contando com a sorte para encontrar, talvez, algum armamento ou outros apetrechos que seriam úteis para a jornada.
No caso do veículo, foi encontrá-lo na terceira casa do outro lado da rua: um Suzuki Swift cromado, pequeno e ágil, com as chaves escondidas no porta-luvas. Quanto ao combustível, isso ela precisou se esforçar um pouco mais para conseguir, mas na quinta residência que invadiu encontrou um galão de gasolina pela metade e o usou para completar o tanque do Suzuki.
Sem perder tempo, ela deu a partida no veículo e o manobrou até tê-lo estacionado no meio-fio coberto de neve, defronte para a casa onde Sasuke e Kabuto estavam. Antes de sair, entretanto, revistou o restante do veículo, incluindo debaixo dos bancos e o porta-malas. Poderia ter sorrido quando encontrou a maleta com cerca de cinco sinalizadores nesse último compartimento se a saúde de Sasuke não lhe ensombrecesse tanto o humor.
Fechou-o e seguiu para dentro da casa, agarrando-se ao seu casaco de lã recém-adquirido em uma das casas, e foi direto para o quarto sem pestanejar. Kabuto não estava à vista, mas não era dele que ela precisava agora.
Sorrateira, entrou no quarto onde Sasuke ainda descansava e encostou a porta para não ser perturbada enquanto estivesse com ele. Notou tardiamente que ele estava desperto, pois reagiu ao som dos seus passos no carpete, tombando o rosto para ela.
Sakura se sentou na beira do colchão e abriu um sorriso para ele, estendendo a mão para afastar a franja do olho roxo que ainda desinchava.
— Oi — sussurrou contida. — Como está se sentindo?
Observando-o, notou como o suor porejava sua tez corada, a respiração dele, entretanto, seguia ruidosa e dificultosa, o peito expandia-se sofrido a cada meia inspiração. O olho bom de Sasuke focou nela, no seu rosto.
— Estou com sede — ele murmurou rouco e alquebrado e Sakura imediatamente estendeu a mão para a garrafa de água que deixara à mão, próximo à cabeceira.
Abriu-a e pressionou-a de encontro aos lábios secos dele, que sorveram a água com parcimônia.
— Beba um pouco mais — incentivou-o e assim ele o fez debilitadamente.
Depois, ele afastou a boca da garrafa de plástico e voltou a repousar a cabeça nos travesseiros.
— Melhor agora? — inquiriu solícita e ele anuiu com um gesto quase imperceptível.
Sakura afagou o rosto dele e voltou a umedecer uma tira de pano para pressioná-la contra a testa molhada de suor no intuito de amenizar o calor excessivo que afogueava sua pele. De súbito, Sasuke franziu o cenho e murmurou com ares de desconfiança:
— Você está estranha.
Ela abriu um sorriso forçado, e é claro que ele percebeu. Mas, então, tentou se justificar usando um pretexto convincente.
— Só estou preocupada com tudo o que está acontecendo... Conosco especialmente.
— Eu estou fodido, não estou? — surpreendeu-a ao perguntá-la tão diretamente, sem rodeios, acerca do seu estado. — Não minta para mim.
Ela nem sequer cogitaria fazer isso, Sasuke a conhecia bem demais, a lia com naturalidade demais; seria inútil se o fizesse. Rendeu-se com um suspiro demorado e abatido.
— O seu ferimento infeccionou, Sasuke, mas ainda pode ser tratado com os remédios certos.
No mesmo instante, o olho bom dele esbugalhou e o rosto corado dele perdeu cor.
— Você não vai a lugar algum!
Ele decretou peremptório, forçando a voz a fim de soar ameaçador e até mesmo tentou se levantar da cama, mas deteve-se quando a súbita movimentação fez repuxar o ferimento no seu abdome. Sasuke trincou os dentes assim que a dor se alastrou pelo seu corpo, inexorável, obrigando-o a cerrar os dentes.
Sakura o retia em seguida, empurrando-o com delicadeza de volta para a cama e para os lençóis encharcados de suor. Sasuke arquejou e precisou conter o instinto de tocar o ferimento, que ainda latejava lancinantemente.
— N-não se mova, por favor! — ela implorou sofrida e conseguiu rearranjá-lo confortavelmente sobre a cama.
Ao término, ele ainda ofegava em agonia, a metade esquerda do seu corpo queimava e não, não era um eufemismo.
— Eu não vou a lugar nenhum, eu prometo! — Sakura murmurou de forma irrefletida, só queria acalmá-lo, aquietá-lo sobre a cama, se ele se movesse seria pior.
Em meio a toda agonia, Sasuke havia agarrado a mão dela e apertado-a como se buscasse ancorar-se ao mundo real e não sucumbir à dor que o assolava e esfolava sua carne.
— Está tudo bem, tudo bem... — ela repetia sem cessar e sem pensar enroscou-se ao corpo dele, à metade que não se encontrava ferida, pressionando o rosto de encontro ao cabelo grosso e escuro. — Eu estou aqui — voltou a repetir e beijou o cabelo dele — Não vou a lugar algum.
— Você... não pode sair... sozinha — Sasuke arquejava pausadamente e mesmo seu fiapo de voz sofrido o fazia soar categórico e inquestionável. — É arriscado demais.
Sakura apertou mais o rosto contra o cabelo dele a fim de abafar o soluço agoniado que ameaçou romper-lhe a garganta, se chorasse agora se entregaria, sabia disso, por isso mostrou-se forte, por isso abraçou o corpo dorido de Sasuke, agarrou-se a ele, firmando o aperto da mão dele, que ainda se ligava à sua.
Quando o silêncio imperou, ela passou a contar as inspirações e expirações fora de ritmo de Sasuke, acompanhava o subir e o descer dificultoso do seu peito e acariciava os fios grossos sob os seus dedos. Esperou-o adormecer para fazer o que precisava ser feito.
Não precisou esperar por muito tempo, de fato. Então, devagar para não despertá-lo, desprendeu-se dele, do aperto frouxo de sua mão e deslizou por cima do colchão com suavidade. Não desgrudou os olhos da face dele, que mesmo adormecida se contorcia em agonia pela enfermidade que o afligia.
— Se eu não for — ciciou condoída, os lábios se movendo vagarosamente mal produziam som —, eu vou perder você.
Quando seus coturnos atingiram o carpete, ela se empertigou, mas não ousou se afastar da cama, não ainda. Queria beijá-lo no rosto, nos lábios, mas temeu acordá-lo. Abriu e fechou os punhos, suas articulações estavam duras e tensas.
No intervalo de uma inspiração profunda a fim de encontrar forças para deixá-lo, entendeu a necessidade inquestionável de salvá-lo, o impulso que a levaria a arriscar a vida por ele, morrer por ele se precisasse.
Fechou os olhos e exalou todo o ar vagarosamente, então decidiu que não deveria mais perder tempo. Deixou o quarto e encontrou Kabuto no corredor com os olhos baixos e o semblante indecifrável.
— Cuide dele até que eu retorne — pediu mais uma vez e viu-o assentir.
Sentiu lágrimas queimarem seus olhos e piscou a fim de afugentá-las, mas o buraco em seu peito ameaçava devorá-la a cada instante que permanecia ali, a cada instante que desperdiçava ali. A vida de Sasuke dependia dela, ela que foi salva por ele tantas vezes deveria se arriscar agora.
— E se eu não retornar — murmurou contrita e viu o semblante de Kabuto ensombrecer ante a possibilidade. — Se eu não voltar e Sasuke não resistir...
— Então tudo estará perdido — ele emendou, interrompendo-a e desencostando da parede.
Sakura assentiu e fungou, de fato, se ela não voltasse com os remédios, se Sasuke não se recuperasse, então o mundo estaria perdido e a última esperança da humanidade se reerguer se extinguiria.
Por isso, recompôs-se e saiu apressada da casa. Caminhou decidida até o automóvel que deixara estacionado junto ao meio-fio mais cedo e entrou. Havia abastecido o carro com tudo o que precisaria para fazer a jornada. Não podia falhar.
Fechou a porta do Suzuki, bloqueando a corrente de ar glacial, e deu a partida no motor. Manobrou o veículo pela rua vazia e pelas calçadas cobertas pela neve que ainda derretia. Pegou o mapa meticulosamente dobrado sobre o banco do carona e o abriu, colocando-o diante de si, apoiado no volante e no colo.
Seguiu com os olhos o traçado que fizera antes, o esboço do percurso que seria realizado. Seguiria pela rodovia 14, uma estrada pequena e, esperava, livre de percalços, até uma intersecção com a rodovia 133. Ela a levaria até o primeiro hospital: o de Daijukai, à margem direita do rio Yodo.
Olhou pelo para-brisa sujo para o céu cinza-gelo, a paisagem anormalmente insólita e aquietada de uma tarde invernal na região de Kansai. Flocos de neve espiralavam sobre as ruas ladeirentas e desertas, chocando-se contra o para-brisa. As residências estavam vazias e fantasmagóricas, abandonadas havia muito.
A cidade enlutada pranteava suas mortes a cada esquina, a cada errante, morto ou apenas inativo, estirado em cada calçada atulhada de lixo. Alguns poucos ainda vagavam a esmo por aí com passos arrastados sob a nevada que tornara a cair naquela tarde.
E embora seus olhos estivessem pregados às ruas e seus ouvidos estivessem atentos para qualquer ruído incomum, os pensamentos de Sakura estavam longe, voltavam-se apenas para a casa que deixou para trás há alguns quarteirões, para Sasuke, para a descoberta e o entendimento epifânico que mudou tudo e deu sentido a tudo.
Amava Sasuke e, por isso, precisava salvá-lo. Se não o fizesse, estaria condenada, independentemente se escapasse com vida dessa jornada ou não.
* * *
Gaara dirigia atentamente pela estrada Daini-Keihan a uma velocidade constante e com os faróis apagados. Era mais uma tarde terrivelmente fria na prefeitura de Osaka e eles rumavam um pouco para o norte agora.
Ao seu lado, na cabine do caminhão, com a cabeça pendendo e encostada à janela, Temari dormitava e as duas crianças a acompanhavam, apoiadas uma à outra sob a manta para dividirem o calor do corpo.
Ele bufou discretamente e voltou sua atenção para a estrada vazia. A nevada daquele fim de tarde ameaçava tornar-se uma tempestade e isso o preocupava. Se isso acontecesse, precisariam encontrar um abrigo para se protegerem. Céus, ele já estava congelando dentro daquela cabine!
— Tudo bem, maninho?
Gaara ouviu a voz da irmã lhe chamando e virou-se para ela só para encontrá-la bem desperta e atenta, fitando-o como se procurasse dissecá-lo. Ele respondeu-a lacônico, como de praxe, e apertou os dedos em torno do volante.
— Só estava pensando se essa nevada pode se transformar numa nevasca como a de algumas noites atrás.
Temari inclinou-se no banco para fitar o céu que escurecia a cada minuto através do para-brisa. Era uma possibilidade, julgou, a partir das nuvens cinza-chumbo que encobriam o horizonte.
— Se isso acontecer, ligue os faróis. Seria suicídio dirigir numa noite tão escura em meio a uma tempestade — ela aconselhou e buscou pelo mapa no porta-luvas.
Desdobrou-o sobre o colo e analisou as linhas coloridas, acompanhando seus padrões com a ponta do dedo.
— Tem ideia de onde estamos?
Gaara balançou a cabeça em negação e apertou os olhos para a pista que começava a se cobrir de gelo.
— Permaneci na Daini-Keihan como você disse, em direção ao norte, noroeste talvez — admitiu e depois acrescentou num rompante: — A última placa pela qual passamos indicou que estamos nos aproximando de uma intersecção com a rodovia 307, que vai nos levar diretamente para Hirakata.
— Ótimo — ela aprovou, satisfeita. — Então, pegue-a. Precisamos de suprimentos e de roupas mais quentes, talvez.
Gaara assentiu e voltou-se para a pista, seguindo as instruções que a irmã lhe deu. Começou a cair a noite na região de Kansai e, como as previsões mais pessimistas afirmaram, a nevada se tornou uma tempestade de gelo com rajadas de vento intensas.
O céu escureceu completamente, tornou-se um breu sem fim e até mesmo as nuvens fervilhantes que o tomavam desapareceram em tamanha escuridão. Ficou difícil distinguir a pista do acostamento e dos obstáculos ocasionais que a atulhavam.
— Ligue os faróis — Temari instruiu e Gaara o fez sem ter alternativas.
Os faróis imensos do caminhão banharam a estrada e se tornaram dois clarões no cair de noite invernal. Temari sabia que seriam detectados a centenas de metros agora por qualquer coisa — viva ou morta —, mas não podiam dirigir às cegas abusando da sorte.
Percorreram mais alguns quilômetros antes que algo despontasse na pista contrária, fachos de luz tão intensos que iluminaram toda a escuridão provinda da noite e da tempestade de gelo que os assolava.
— Merda, você está vendo o mesmo que eu estou vendo? — Gaara precisou buscar confirmação com a irmã tamanho era o seu assombro.
— Sim, estou — Temari anuiu estupefata enquanto os clarões se aproximavam rapidamente, alumiando tudo: as pistas, as árvores sombrias que as ladeavam.
— Porra! — ele conseguiu articular, apertando os dedos no volante e mantendo a velocidade do caminhão estável.
As duas crianças acordaram nesse momento, talvez pelo impropério soltado por Gaara ou talvez pelas luzes intensas que despontavam na pista esquerda da autoestrada.
— O que acha que é? — ele sussurrou circunspecto e esperou pela resposta da irmã, mas tudo o que obteve dela foi um arquejo atônito.
— É um comboio — ela arfou algum tempo depois, quando as luzes já estavam perto o bastante para serem distinguidas e refletir nos faróis potentes do caminhão no qual viajavam.
— É, é a porra de um comboio! — Gaara ecoou ao cerrar os dentes. — Mas o que eu quero saber é se são confiáveis!
De todo modo, não houve tempo para cogitarem a resposta. Os veículos se aproximaram numa velocidade espantosa, liderados por um jipe militar. Gaara contabilizou duas vans e o veículo maior na outra ponta: um caminhão militar, tão monstruoso quanto os deles.
Então, o inexplicável aconteceu: o jipe da ponta dianteira piscou seus faróis para o caminhão que vinha ao seu encontro na pista contrária da autoestrada. Sinalizou uma mensagem indecifrável para os ocupantes da cabine.
Amigável ou não, isso eles descobririam em pouco tempo, pois todos os veículos pararam ao mesmo tempo no meio da pista.
* * *
Esse fardo pesa tanto...
Quando os nossos demônios temos de carregar
Apegando-se a esse fôlego fugaz
Morrendo por uma chance de lutar
Nós somos um, nós seguimos em frente.
The Phantoms feat. Amy Stroup — Trecho de We Carry On.
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