Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
11 Capítulo X: O Último Veredicto
Notas iniciais
Dead World Assembly
“As luzes da rua penetram os buracos da cerca e as sombras ambulantes interrompem os feixes em intervalos regulares, fazendo-os piscarem e deixando Philip maluco. Ele ouve a voz silenciosa na cabeça — a mesma voz que ouviu pela primeira vez depois que Sarah morreu: Incendeia esse lugar. Incendeia o mundo inteiro, porra”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 51).
Capítulo X:
O Último Veredicto
— Quer conversar sobre isso? — Sakura perguntou com um quase imperceptível suspiro enquanto Sasuke limitava-se a dar de ombros.
— Não vai mudar nada, infelizmente — ele declarou com secura. — Ela ainda estará morta no fim.
— Isso independe de você, Sasuke — ela interferiu brandamente, suavemente; não queria forçá-lo, feri-lo, mas sabia que aquilo era importante e não pretendia em momento algum ser leniente.
Sakura gesticulou ao redor deles, para os fachos de luzes que varavam as janelas vedadas, para os móveis dispostos ao longo do cômodo.
— Sasuke, olhe ao seu redor, por favor... Veja só o que você tem bem aqui! Você tem um lugar seguro — ela enfatizou e os grandes olhos verdes eram afáveis: — Você construiu isso tudo e você não pode simplesmente pôr tudo a perder.
— O que quer dizer? — ele a cortou, acomodando-se sobre o assoalho frio de forma mais confortável, pousando o cotovelo sobre o joelho flectido e apoiando o peso do torso sobre a outra mão.
— Quero que você tome uma decisão, Sasuke, e não, não pense que eu estou fazendo qualquer tipo de julgamento, mas algo tem de ser feito... — ela umedeceu os lábios subitamente secos e o olhar pestanejou, traindo-a. — Você sabe o que tem de ser feito.
Ele deliberadamente, lentamente balançou a cabeça.
— Você não entende, Sakura; eu já tentei. Mais vezes do que você possa imaginar, mais vezes do que possa me recordar e quer saber? Eu me sinto um filho da puta miserável toda vez que sequer penso na possibilidade, e não porque eu não seria capaz, eu sei que sou, mas porque eu estou fodido, Sakura. Eu estou fodido porque não consigo puxar o gatilho — ele assegurou e ela jurou ter visto relampejos de uma raiva antiga e contida no seu olhar, um ressentimento que vinha sendo nutrido nos últimos meses. — Não posso fazer isso com ela, Sakura, não com uma das pessoas com quem eu mais me importei na vida...
— Eu entendo o seu ponto de vista, Sasuke — Sakura apressou-se para se explicar, gesticulando nervosamente. Ela estava a par da tensão crescente que espreitava cada palavra trocada entre eles, cada sílaba recitada com deliberada incúria. — De verdade, eu consigo te entender, acredite em mim... Mas você acha correto deixá-la... Naquele estado? Lá em cima, acorrentada e amordaçada como um animal? Sasuke, eu só estou pedindo que você considere a possibilidade, por favor!
Em reação às palavras dela, ele levantou-se bruscamente, instantaneamente levando ambas as mãos ao cabelo enquanto sua respiração tornava-se errática, ruidosa, como a de um bicho acuado.
— Você não está compreendendo a situação, Sakura.
Derrotada, ela deixou escapar um único suspiro, alisando as palmas suadas das mãos no tecido grosseiro de sua calça.
— Na verdade, acho que estou compreendendo muito bem, Sasuke; mas eu já entendi que as suas regras continuam valendo, certo? O que você me disse no dia em que me salvou. Você disse sua casa, suas regras, estou intuindo que nesse caso quem tem que tomar uma decisão sou eu. — E levantou-se.
— Não toca nela — ele demandou com secura outra vez, o olhar colérico prendendo-se a ela, agarrando-se à Sakura com sôfregos apelos.
— Eu não vou fazer nada contra a sua vontade, Sasuke — esclareceu —, mas neste caso, ao menos seja justo comigo e devolva a minha arma.
— Você ainda está com essa ideia fixa de partir? — O desdém afetou o tom de voz dele e Sakura o encarou com raiva. — Sem chance, eu já disse isso.
— Sério? — Sakura cruzou os braços e bufou. — E o que houve ao livre arbítrio? Ao direito dos cidadãos corretos de ir e vir?
Sasuke sorriu torto, o que só a irritou ainda mais, fazendo com que a ira dentro dela ardesse em picos desiguais.
— Você não é uma cidadã correta.
— E eu já disse para você ir se foder, Sasuke.
— Quando e onde você quiser.
Sakura lançou as mãos para o alto, admitindo a derrota — por ora. Ela ainda encontraria uma forma de fazê-lo pagar, só não conseguia pensar claramente em como o puniria pela ousadia e pela arrogância desmedida.
— O fato é que se depender de mim, Sakura, você não vai partir, não sozinha pelo menos.
— E por que tudo isso? Você nem ao menos faz o tipo sentimental! — Sakura fez aspas no ar para a última palavra.
— Eu me apeguei a você — ele zombou e Sakura grunhiu em frustração. — Certo, certo! — Sasuke tentou apaziguá-la, amaciando a voz para um suave rouquejar. — Veja, Sakura... Nós não precisamos tomar nenhuma decisão agora, precisamos?
Ao ver que ela não havia recuado ante as palavras dele, Sasuke olhou-a com uma condescendência velada que não a agradou.
— Uma hora ou outra, Sasuke, você terá que agir. Acredite em mim quando digo que é difícil, eu sei qual é a sensação de se estar atrás do gatilho. Eu tive que fazer isso com a minha melhor amiga! — A lembrança trouxe lágrimas frescas às bordas avermelhadas das pálpebras dela. — Ino e eu crescemos como irmãs, na verdade. Fazíamos tudo juntas, nós nos conhecíamos mais do que qualquer outra pessoa, e acredite em mim quando eu digo que dói.
“Por sorte, eu não precisei tomar esse tipo de decisão com relação aos meus pais porque logo antes de eu fugir de Tóquio, nosso bairro havia sido infestado por aquelas coisas, e meus pais não pensaram em mais nada a não ser em me mandar embora junto com Ino. E o mais impressionante é que eu fui! — ela praticamente fremiu, exaurida e esfolada até o tutano dos ossos.
“Você não sabe como foi ter que puxar o gatilho, mas essa foi a nossa promessa, o nosso pacto... — ela recitou as palavras seguintes com dificuldade, como se estivesse sufocando: — E quer saber eu faria de novo. Eu puxaria aquela droga de novo porque a Ino merecia que eu pusesse fim ao sofrimento dela.
Sasuke expirou longa e profundamente.
— Você não precisa partir por causa disso, Sakura. A minha oferta de hospitalidade ainda continua de pé e antes que você surte, eu acho, sim, que nós devíamos permanecer juntos. Não sobrou muitos de nós por aí e sozinhos estamos mais vulneráveis àquelas coisas.
— Você é impossível, sabia? — ela suspirou, descruzando os braços e desviando o foco do seu olhar. — Mas eu acho que devia ter esperado por isso... — continuou. — As coisas já não funcionam mais do mesmo jeito e as pessoas parecem estar perdendo a cabeça. Deve ser um efeito colateral da praga, não é?
— Sakura — Sasuke a chamou, mas ela o ignorou.
Com um suspiro pesado, ela aproximou-se da mochila depositada sobre o sofá, apanhou-a, jogando-a sobre um dos ombros, e encaminhou-se em direção à porta recostada.
— Certo, não me devolva a minha arma; eu vou embora do mesmo jeito.
— Ela foi mordida enquanto tentava ajudar outra pessoa, sabia? — A voz de Sasuke, às costas dela, fê-la estacar e, lentamente, ela encontrou o olhar dele, consumido pelo pesar. — Nós só havíamos tido relatos de casos isolados nessa cidade, o nosso bairro vinha sendo protegido por militares, os noticiários apenas relatavam os avanços da praga, e havia um toque de recolher. Mas a minha mãe... — Sasuke sorriu consigo mesmo, um sorriso amargo e involuntário. — Ela insistia em continuar levando uma vida comum, como se nada estivesse acontecendo... Às terças-feiras, ela lavava as roupas na lavanderia coletiva, cantarolava enquanto preparava o café da manhã; aos domingos, ela ia às missas porque dizia que as tribulações haviam finalmente chegado e que nós devíamos ter fé agora. E nas quintas-feiras, ela ia ao supermercado fazer compras.
— Sasuke — ela tentou detê-lo, mas ele fez-lhe um gesto, pedindo que apenas o ouvisse.
— Então, em uma quinta-feira, ela saiu bem cedo para fazer compras, disse que queria fazer algo especial para o jantar. Minha mãe nunca demorou tanto para voltar e nós estávamos prestes a ir atrás dela quando ela chegou. Só que quando ela voltou... — Sasuke obrigou-se a continuar, cerrando os dentes audivelmente. — Ela disse que uma moça estava passando mal perto dela, ela disse que não podia tê-la deixado sozinha, então... A minha mãe ficou ao lado daquela estranha, implorando para que alguém a ajudasse. A minha mãe deve ter segurado a mão dela até o fim, garantindo que tudo ficaria bem... Até que a estranha se foi, e voltou, e mordeu a minha mãe.
Sasuke fungou. Os músculos do rosto contraíam-se dolorosamente enquanto ele obrigava-se a refregar a dor.
— Ela voltou para a casa tranquilamente, em nenhum momento se importando consigo mesma... Meu pai e eu nos desesperamos. Àquela altura, Itachi já havia partido, e nós tínhamos que ter cuidado dela. Nós tínhamos que tê-la protegido. O meu pai foi o que reagiu de forma mais estranha a isso... Não gritou com ela, não chorou por ela, apenas ficou sussurrando que tudo ficaria bem, que em breve descobririam a cura e que ela ficaria bem.
“Eu pensei que o filho da puta estivesse apenas tentando confortá-la, eu nunca imaginei que... — Sasuke engoliu em seco. — Nós não contamos a ninguém, sabíamos que se dissesse a qualquer um sobre o estado dela, os militares a levariam e então enfiariam uma bala na cabeça dela. Meu pai tomou todas as providências; primeiro, ele a isolou de nós, prendendo-a a cama enquanto a minha mãe delirava por causa da febre. Eu nunca previ o próximo passo dele, nunca imaginei que ele fosse tão doente ao ponto de...
— Ao ponto de o quê, Sasuke? — ela ciciou e não se surpreendeu pela vermelhidão dos olhos dele, pelo músculo retesado do maxilar.
Ele expirou, recuperando o seu fôlego — e a sua sanidade.
— Muitos dos nossos vizinhos já tinham abandonado a cidade, e enquanto eu assistia a minha própria mãe morrer e voltar, eu não percebi o que o desgraçado estava preparando. Eu só percebi quando perguntei o que faríamos com ela, qual de nós dois devia pôr um fim ao sofrimento dela.
“O meu pai me olhou naquele momento como se me desafiasse a tentar machucá-la, como se estivesse me instigando a tentar ser aquele que mataria a minha mãe. Sabe o que ele me disse? — Sob a luz diurna filtrada pelos pedaços de pano e madeira agarrados à janela, Sakura pensou ter visto o relance de uma lágrima nos olhos dele. — O desgraçado me disse que não permitiria que ninguém fizesse mal a ela, que ele mataria qualquer um que tentasse... E eu não o contestei, Sakura, porque eu não queria ser aquele que puxaria o gatilho. Eu nunca quis. Por isso eu me omiti, por isso eu deixei que o meu pai fizesse o que quisesse... Mas eu não percebi, eu não compreendi as intenções dele há tempo.
Outra pausa inesperada, e Sakura largou a mochila no assoalho com um pequeno baque.
— Meu pai encontrou uma forma de contê-la. Foi ele que a amordaçou e a acorrentou lá em cima porque não havia mais ninguém nos andares superiores. E eu o deixei. Eu fui um desgraçado por deixá-lo fazer isso porque depois... As coisas só pioraram.
“O meu pai passava horas naquele apartamento, olhando para ela, conversando com ela. Não demorou muito para que a mente doente dele começasse a ter novas ideias e eu apenas fechei os meus olhos porque eu não queria ter de encarar a realidade. Primeiro foram só pequenos animais; ele os capturava ainda vivos e levava para ela, para que ela pudesse se alimentar. Mas depois, Sakura, ele começou a levar pessoas para ela.
A garota arfou no semissilêncio, incapaz de articular ou vocalizar qualquer palavra ou qualquer outro som. Sasuke agora parecia arrependido, profundamente arrependido de ter assistido a tudo aquilo de forma tão passiva.
— Eu sabia que não podia mais fechar os meus olhos para isso. Eu sabia que tinha de fazer alguma coisa para deter o meu pai. Ele estava matando pessoas e as estava usando para alimentar a minha mãe e eu não podia permitir mais isso... Então, numa noite, eu o embebedei de propósito. Eu o fiz beber tanto quanto seria possível a alguém. Em algum momento, eu devo ter torcido para que ele engasgasse ou quem sabe que ele apenas entrasse em coma alcoólico. Mas o desgraçado era forte e bebeu tudo sem pestanejar.
O punho dele cerrou-se com força.
— Eu o ajudei a levá-lo para a cama, eu o deitei lá... E esperei. Quando percebi que ele estava dormindo, eu voltei para o quarto e fiz o que tinha de ser feito.
— Você matou o seu pai? — Sakura piscou, aturdida; a boca entreaberta, o rosto pálido.
— Ele já tinha ido longe demais e aquele desgraçado nunca foi um pai para mim e para Itachi. Quer saber de uma coisa, Sakura? Em todos esses anos, eu pensei em mil formas diferentes de matá-lo, eu cogitei todas elas, mas eu nunca pensei que mataria o meu pai para proteger outras pessoas. No fim, eu puxei o gatilho enquanto ele ainda dormia profundamente, e eu o enterrei lá embaixo. Acabei dando ele uma chance de remissão, mesmo sabendo que ele mereceria arder no inferno para sempre.
— Mas você nunca conseguiu puxar o gatilho contra a sua mãe, não é? — A fria convicção que antes ela estivera alimentando murchou e seus ombros encolheram-se ao término do relato dele.
Sasuke concordou com um menear da cabeça e Sakura suspirou.
— Eu sinto muito que você tenha passado por isso.
Ele não havia se movido um centímetro desde que terminara de lhe contar o ocorrido, e até mesmo o subir de seu peito por conta de sua respiração — agora suave — era quase imperceptível. Sakura umedeceu os lábios e passou por ele. No corredor, encontrou o canivete suíço que Sasuke chutara mais cedo e o apanhou.
— Me deixa fazer isso, Sasuke — ela pediu de forma branda, não recuando mesmo ante ao olhar ressabiado dele. — Você sabe que a sua mãe precisa disso. Você sente, não é? Deixe-a ir, Sasuke, e deixe-a ter um pouco de paz. Eu posso fazer isso. Eu faria por você e por ela também.
Mesmo relutantemente, ele concordou; um simples menear da cabeça, e então escondeu seu olhar fugidio do dela. Sakura suspirou aliviada e segurou o canivete com mais força.
— Eu serei rápida, prometo. Apenas... — ela balançou a cabeça, incerta. — Apenas fique aqui.
— Quando terminar... — A voz dele, apesar de monocórdia, carregava um pesar indescritível, e, ao mesmo tempo, o término do luto. — Cubra-a, por favor. Eu... Eu vou cavar uma cova para ela, ao lado do meu pai... Apesar de tudo, ela o amava.
Sakura assentiu, mas antes de sair pela porta em direção ao segundo andar, ela parou para se abaixar até a sua mochila, vasculhando-a até que apanhasse um rosário de prata, enrolando-o no punho.
— Obrigada por me confiar isso, Sasuke. — Os olhos gentis dela encontraram-no, e enrijeceram a sua determinação.
Sem mais uma palavra, ela calçou os sapatos e saiu da presença dele. Sabia que ele precisaria ficar um pouco sozinho agora, e ela tinha algo que precisava fazer. Mais uma vez, naquele apartamento escuro e malcheiroso, ela aproximou-se da mulher que se contorcia e tentava escapar das correntes que a atavam.
Sakura apenas ergueu o canivete diante do corpo, segurando-o o mais firme que conseguisse. Com os olhos suaves, pincelados pelas nuances de sombras cinzentas que esgueiravam ali, e os lábios entreabertos, ela espreitou o cadáver apodrecido, e sussurrou:
— Mas alguém dirá: Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão? — Sakura umedeceu os lábios, relembrando-se do trecho de Primeiro Coríntios que lera há algumas noites, tantas e tantas vezes que ele agora estava gravado em sua cabeça: — Eis que vos digo um mistério: Na verdade, nem todos nós dormiremos, mas todos seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista de imortalidade.
Sakura aproximou-se ainda mais, comedindo seus passos, ciente da criatura estar mais atiçada e mais arisca. Os olhos cheios de mucos viam através de Sakura e os rosnados pareciam quase chamá-la.
— Prometo que vou cuidar do seu filho — ela sussurrou e, por fim, investiu na direção da criatura, com os olhos marejados.
Cravou a lâmina fina bem fundo na pele apodrecida da testa; uma única fissura no cérebro e logo a mulher apagou, desabando de encontro ao chão. Os membros tão retorcidos quanto as correntes permitissem. Sangue coagulado borrifou na camisa de Sakura, mas ela não se importou.
Simplesmente se abaixou até o cadáver, desenrolou o rosário do punho e ternamente o pôs nas mãos mortas da criatura.
— Tragada foi a morte na vitória — ela concluiu, e afastou-se da mulher caída.
* * *
Em um domingo eles matarão o mundo
E na segunda-feira eles chorarão e gritarão
Então, em uma terça-feira eles apenas testemunharão
O que acontecerá à multidão que queima.
Draconian — Trecho de On a Sunday They will Kill the World.
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