Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
12 Capítulo XI: A Infesta Dissonância
Notas iniciais
Dead World Assembly
“É mais um dia nublado e feio, com o barulho da horda de zumbis cruzando os céus e o alto das casas. Isso deixa Philip maluco, conforme ele sua no jeans ao despejar terra no túmulo. O cheiro gorduroso e fétido de carne podre está mais forte do que nunca. Faz o estômago de Philip se embrulhar, enquanto ele despeja as últimas pás de terra na cova”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 52).
Capítulo XI:
A Infesta Dissonância
Sasuke teve a irritante sensação de estar aprisionado enquanto cavava o túmulo para o corpo da própria mãe. O céu cinza-gelo baixava sobre ele como o teto de uma gaiola de aço.
O suor escorreu pelo seu rosto, mas as mãos dele continuaram pregadas ao cabo da pá, revirando camadas úmidas e granulosas de terra. Ali, nos fundos do condomínio, próximo à grama orvalhada da manhã e sob a sombra monstruosa do prédio, ele tentava encontrar um pouco de paz.
O passado estava à espreita, ele pressentiu; transbordando das orlas frouxamente atadas da sua mente e escorrendo pelo solo ainda intocado da sua sanidade já fragmentada. Sua visão, aos poucos, embotava para nuances de vermelho conforme a raiva o infectava truculentamente.
Mas ele cerrou os dentes e obrigou-se a ir adiante. Depois, Sasuke se esforçou para trazer à tona as expressões que tanto o assombraram nos últimos meses. Eram como quadros pintados em sua mente, exceto pelo fato de que os tons sombrios imperavam, assim como formas abstratas, e faces demoníacas dançavam diante dele concedendo vida às telas mortas. Eram reflexos da metade atormentada da sua sanidade e eram todas as coisas que ele tentou prender durante tantos anos.
Sasuke não queria se recordar, ainda assim, aqueles antigos espectros, tão podres quanto cadáveres há meses em decomposição, preencheram as lacunas dentro do labirinto da sua mente. Ele se lembrou de Itachi, partindo junto da sua unidade, dias depois que a praga surgiu; ele se lembrou da mãe, amarrada à cama, delirando de febre, chamando pelos filhos e pelo esposo, e ele se lembrou do rosto do pai, daqueles olhos sagazes, daquele sorriso diabólico, daquela feição psicótica que ele demonstrava pouco antes de cometer alguma loucura.
O velho sempre adorou foder com tudo, ele chiou em pensamento, a verdade é que eu tenho também um pouco dele em mim. O mesmo gosto doentio por foder com tudo o que amamos!
O gosto da bile amargou a sua boca e Sasuke deteve-se para recuperar o fôlego, atirando a pá de lado e esfregando as costas da mão nos lábios de forma frenética. Eu não serei como ele! Não sou como ele! Ele deixou de me influenciar há tanto tempo... Mesmo assim, repetir aquelas sentenças, depois de tantos anos, ainda parecia apenas um pretexto esdrúxulo para Sasuke.
Ao longe, ele reconheceu a cabeleira cor-de-rosa e a silhueta miúda de Sakura aproximar-se a passos vagarosos e hesitantes. Sasuke teve que apertar o olhar por conta do mormaço quente. Mesmo que não quisesse reconhecer, uma parte dele sofreu pelo fato de saber que estava acabado.
Praguejando alto, ele abaixou-se a fim de apanhar a pá e recomeçou a cavar, preferindo manter as mãos ocupadas e preenchidas. Recusando-se a olhá-la, apenas esperou até que ela o alcançasse, estacando diante dele com uma postura que nem mesmo remotamente parecia confortável.
— Eu fiz como você me pediu — ela sussurrou e pelo seu limitado campo de visão, ele a viu torcer nervosamente a bainha da camiseta. — Eu a cobri com alguns lençóis e...
— Tudo bem — ele declarou peremptório e ergueu o tronco para tirar mais um punhado de terra da cova.
Sakura suspirou em resposta. Sasuke deixou a pá de lado, pressupondo que já havia cavado uma cova larga e funda o suficiente para que não sofressem por dias com o mau cheiro. Em seguida, intentou passar por Sakura, mas ficou surpreso quando sentiu a mão dela, pequena e firme, retê-lo, pressionando levemente seu ombro.
Apesar da expressão suave que encontrou no rosto dela, clara e receptiva, a intensidade dos olhos dizia-lhe exatamente o adverso. Sasuke notou que o ângulo em que as sobrancelhas finas se projetavam também sugeria incerteza ou descomodidade. Ele nunca havia visto aquela expressão antes no rosto dela, e nunca também a havia olhado por tanto tempo sem se sentir constrangido ou incomodado.
Ele nunca havia se sentido mais exposto, e nem menos emocionalmente estável.
— Você não tem que passar por isso sozinho — ela disse com simplicidade, suavidade. — Você não tem que fazer isso sozinho, Sasuke.
Assentindo, ele esperava poder se desvencilhar não somente do toque ou do olhar dela, mas também daquela inoportuna sensação de que — exceto pelo irmão que nem sabia se estava vivo — ele estava sozinho no mundo. Claro que ele aceitara que a mãe havia morrido há muito mais tempo, desde que a viu exalar os seus últimos e febris suspiros, mas agora enterrá-la ao lado do pai dele, apenas tornava tudo mais lúgubre, mais real, mais oficial. E, no entanto, Sasuke se sentia livre do peso do luto.
Sakura também concordou e soltou-o por fim; juntos, eles seguiram até o prédio, subiram os degraus em silêncio. Lá em cima, Sasuke não disse uma palavra assim que se deparou com o corpo estirado sobre o assoalho desgastado, envolto em lençóis puídos e que cheiravam a mofo.
Mesmo que não tivesse requisitado verbalmente a ajuda dela, Sakura ajudou-o a carregar o corpo até lá embaixo, e, decidindo que seria melhor dar espaço e tempo a ele não lhe perguntando nada, auxiliou-o também a pousar o embrulho pesado no fundo da cova. Conforme Sasuke passava a encher o túmulo com terra, encrespando o rosto tanto por conta do trabalho braçal quanto pela verdade cada vez mais irrefragável que o consumia, Sakura aproveitou a deixa para percorrer as imediações do grande condomínio e voltou minutos depois, trançando entre os dedos um ramalhete de flores. De tons variados, desde o tímido lilás ao fogoso rubro, as pequenas flores entre os dedos cônicos dela eram pontos de cor contra a paisagem pitorescamente desbotada.
Sasuke terminou de despejar as últimas pás de terra na cova quando Sakura abaixou-se e, de forma tímida, pousou a coroa de flores sobre a terra ainda revirada.
— São flores de Amaranto — justificou ela e entrelaçou os dedos. — Segundo algumas crenças, depois de colhidas, elas se tornam ainda mais belas; além disso, são conhecidas como o símbolo da imortalidade porque dificilmente murcham. Achei que...
— Obrigado. — A voz dele, bela como a de um barítono, a deixou sem palavras.
Então, ela apenas assentiu e, dando-lhe as costas, partiu para voltar ao prédio. Mas Sasuke permaneceu ali, relutante à ideia de abandonar o túmulo da mãe, e, mesmo assim, seu olhar insistentemente vagava para as flores depositadas sobre a terra úmida.
Sasuke fugira disso a manhã inteira, e mais persistentemente na última meia hora, mas ele sabia que precisava confrontar aquele fato, mais cedo ou mais tarde. Sakura estava certa, ele soubera assim que as palavras escorregaram da boca dela: Ele tinha mesmo que deixar a mãe ir. Precisava despedir-se dela de forma definitiva e precisava fazê-lo agora.
Então, abaixou-se; seus dedos roçaram a terra úmida e também as flores de pétalas viçosas e aveludadas que Sakura deixara ali, para coroar o túmulo da mãe. Mais tarde, aqueles mesmos dedos agarraram punhados de terra e cerraram-se com força, enquanto para Sasuke o golpe doloroso da verdade, conforme o atingia, assemelhava-se a uma lança instalando-se entre as suas costelas.
Ele havia perdido a mãe. Havia matado o pai. E não sabia onde estava o irmão.
O que mais poderia lhe restar àquela altura senão o desejo de sobreviver?
Já não havia mais nada para se agarrar.
* * *
Apenas quase uma hora mais tarde, Sasuke voltou para o apartamento, e Sakura soube disso porque ouviu a porta se fechando com força atrás dele. Ela que estivera desde então reclusa dentro do quarto, resistiu ao ímpeto de ir vê-lo e saber como estava.
Não seja tonta, ela disse para si mesma, apenas dê o tempo e o espaço de que ele precisa. Você sabe como é essa sensação. Você perdeu a Ino e sabe o quão horrível é... Logo, o som do chuveiro sendo ligado fez-se audível, mas Sakura permaneceu imóvel, sentada à beira da cama.
Suspirando, ela decidiu que não resolveria nada agir como uma covarde, então retomou a rotina com o máximo de normalidade que conseguisse reunir para atuar. Sua mochila ainda não havia sido desfeita e jazia sobre o colchão, apenas para o caso de que ela tivesse de partir mesmo assim.
Ela estava na cozinha, recostada ao balcão de mármore, decidindo o que fazer com duas das últimas latas de carne que estavam perto do prazo de validade quando ouviu passos pesados às suas costas e em seguida Sasuke surgia no seu campo de visão, ainda com o cabelo úmido do banho e uma toalha em torno dos ombros desnudos.
Desconcertada, ela emudeceu, evitando até mesmo olhá-lo porque algo lhe dizia que a relação de ambos seria diferente a partir de hoje, não só porque eles haviam discutido mais cedo, ou porque ela — com embaraço lembrou-se disso — o havia socado, mas, sim, porque infortunadamente Sakura percebeu que cruzou uma linha importante naquela manhã, um limite que ela havia traçado e imposto a si própria antes como sendo uma perfeita tolice.
Mordendo o lábio, ela esperou até que ele bebesse água direto da torneira e se afastasse logo em seguida para só então relaxar os músculos retesados e respirar. Ainda em silêncio, ela decidiu o que faria com a carne enlatada. Lembrou-se de uma receita de sua mãe, uma de suas favoritas, o Gyukatsu Don.
Ela certamente teria de improvisar alguns ingredientes e talvez a carne enlatada não substituísse o sabor inigualável do filé mignon, mas ela sentia que precisava recompensar Sasuke pelo que acontecera e queria pedir desculpas a ele por não haver compreendido — por não haver sabido — desde o começo.
Mais tarde, ela serviu a refeição nas duas tigelas e intentou procurá-lo para avisar que o almoço estava pronto. Não ficou exatamente surpresa por se deparar com ele, sentado no sofá, totalmente seco desta vez, mas não mais vestido certamente. A expressão no rosto dele, entretanto, apagou todo o restante da mente dela.
Sob a luz que varava a janela, ela jurou que os olhos dele estavam da tonalidade do pez com suaves auréolas cinzentas em torno das pupilas dilatadas. Não apenas isso como todo o peso que ela vira anteriormente no rosto dele parecia ter afrouxado consideravelmente.
Respirando fundo, ela estufou o peito com coragem para fitá-lo.
— O almoço já está pronto, então se você estiver com fome... Mas, se não estiver, não há problema, eu posso reservar para você mais tarde. Eu só... — Sakura obrigou a parar de tagarelar, o que ela sabia ser uma espécie de cacoete que só vinha à tona quando ela estava se sentindo intimidada ou embaraçada.
De qualquer forma, Sasuke assentiu e se levantou, mas parou no meio do caminho, entre a cozinha e a sala de estar, e bem diante de Sakura.
— Eu... Pensei um pouco a respeito — murmurou à meia voz e Sakura piscou.
— Pensou sobre o quê? — ela o instigou, sentindo-se nauseada de repente, mas ele apenas lhe deu as costas, andou até o armário — aquele armário! — e, retirando uma pequena chave do bolso da calça de moletom, encaixou-a na fechadura e destrancou a porta.
Sakura resistiu ao impulso de espiar seu conteúdo enquanto Sasuke apenas apanhava algo dentro dele e em seguida, sem fechá-lo, estendia em direção a ela. Ela teve que se assegurar de que não estava se enganando, e de que, sim, aquela era mesmo a sua arma.
— Por que está me devolvendo? — Não conseguiu se impedir de perguntar; as palavras apenas saltaram da sua boca sem pedir qualquer permissão.
Sasuke ponderou durante um tempo, tão desconfortável quanto ela, e não muito inclinado a ter de explicar as suas motivações. De qualquer forma, ele tornou a estender a arma em direção à Sakura. Tinha que admitir que dera uma olhada nela há algumas noites, sentindo seu peso, avaliando seu preço. A Glock .9mm era uma arma bastante compacta e ágil, ideal para uma garota pequena e veloz como Sakura. Além disso, depois do que havia acontecido, por alguma estranha razão, ele preferia vê-la armada e apta a se defender de qualquer eventualidade.
— Apenas pegue-a — Sasuke demandou, mas sem brusquidão, ainda oferecendo-a a ela.
— Certo — respondeu com um revirar de olhos e estendeu a mão para apanhar a pistola.
Ela mal pôde conter a sua excitação — e alívio — quando a tocou outra vez. O pente estava descarregado, mas havia mais seguramente guardados nos bolsos do casaco dela.
— Obrigada por me dar esse voto de confiança, Sasuke — ela sussurrou, e se ele não estivesse tão perto dela — a ponto de poder contemplar as adoráveis sardas douradas que pintalgavam o nariz e as maçãs do rosto dela — certamente não teria ouvido o que ela disse a seguir: — E obrigada por ter me confiado aquilo. Eu... Eu sei que não foi fácil para você e... — suspirou. — Eu sinto muito, muito mesmo. Eu...
— Está tudo bem, Sakura. — Foi a resposta dele ante a terrível e patética tentativa dela de lhe dar as devidas condolências.
Mas ela sabia que não estava. Não ainda. Sakura sabia que Sasuke havia, ele próprio, cruzado aquele limiar que antes ela havia julgado como sendo algo completamente insensato. Desde que havia chegado ali, ela não confiou em Sasuke mais do que ele havia confiado nela. Todas aquelas noites com a porta trancada e sobressaltando-se com qualquer ruído a deixaram terrivelmente embaraçada e arrependida.
Porque agora Sasuke estava dando claros sinais de que pretendia confiar nela a partir de agora. E o que ela poderia fazer para retribuir aquele gesto?
Expirando, ela fez ao menos o que se era esperado. Olhou-o intensamente e com singeleza declarou; a voz afetada pelos sentimentos confusos que agora experimentava:
— Eu prometo que as coisas serão diferentes agora, Sasuke.
Dias se passaram antes que ela provasse da verdade irrefutável de suas próprias sentenças.
* * *
Não é como se você tivesse matado alguém, afinal.
A Perfect Circle — Trecho de Judith.
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