Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

10 Capítulo IX: Flores Mortas de Amaranto


Notas iniciais
Nono capítulo; obrigada a todos que estão comentando. =) Boa leitura!

Dead World Assembly

“O imenso cadáver fica quieto, ali na grama molhada, por minutos que parecem uma eternidade... até que alguma coisa se move nas extremidades do homem, nos tendões daquelas pernas portentosas e nos dedos inchados”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 50).

Capítulo IX:

Flores Mortas de Amaranto

Sakura limitou-se a apenas espiar o interior do cômodo; protegida pelo véu da noite, ela assistiu estupefata o errante contorcer-se com movimentos espasmódicos, quase convulsivos. Uma baba preta escorria pelo canto da boca e algemas reforçadas envolviam seus membros esquálidos e o pescoço cruelmente esfolado.

Camadas de epiderme haviam se desprendido dos ossos e pendiam como retalhos de roupa sobre o corpo franzino da criatura. O tilintar do metal ressoava com uma triste cadência enquanto as correntes eram insistentemente repuxadas.

O bruxulear da vela refletia nos olhos mucosos do que um dia foi uma mulher e os fios oleosos e quebradiços do cabelo negro caíam feito uma cortina encardida sobre seu rosto deformado. Havia um objeto metálico entre os dentes da mulher, algo que a impedia de rosnar e gemer naturalmente, uma espécie de cabresto improvisado com tiras de couro e um pedaço de ferro que servia para conter sua mandíbula destroçada.

Ainda, fileiras de dentes, negros e quebrados como lápides antigas, surgiam da boca esgarçada. A mulher parecia particularmente agitada na presença de Sasuke, que continuava a beber da garrafa de uísque, quase alheio à contorção flexível do errante.

Sakura sentia o odor da morte e temia sufocar com o mau cheiro, tanto que tapou os lábios e o nariz com uma das mãos enquanto com a outra mantinha o canivete suíço diante do corpo. Lágrimas de raiva brotavam dos seus dutos lacrimais, mas ela se recusava a vertê-las; estava doente de ira por haver confiado em Sasuke, por haver acreditado em suas palavras, por haver acreditado que poderia ficar ali — segura e aquecida.

Ela era uma perfeita tola.

E o que deveria fazer agora? Irromper naquele cômodo e atacar Sasuke? Exigir uma explicação? Ou atacar a mulher que se retorcia contra as algemas e o cabresto entre os dentes? Não, ela sabia exatamente o que faria a seguir. E por mais que doesse, Sakura estava convicta de que superaria.

Seu olhar alternava da silhueta embriagada de Sasuke, delineada pela chama da vela, à mulher apodrecendo, presa à parede. Um único suspiro de derrota ela permitiu-se exalar. E nada mais.

Sakura voltou ao apartamento, no andar logo abaixo, em silêncio, com passos mecânicos e quase sem respirar. Trancou-se em seu quarto e começou a arrumar os poucos pertences que havia reivindicado para si na última semana. Achou uma mochila nos fundos do roupeiro e instantaneamente começou a enchê-la.

Vestiu as roupas que havia lavado mais cedo naquele dia e sentou-se à cama, para esperar. Estava inquieta demais para tentar dormir e a noite nunca lhe pareceu tão longa — e nem tão assustadora. Mas a perspectiva do amanhã ainda lhe roubava as palavras.

Ela não ouviu qualquer som ou ruído pelo resto das horas e, a leste, o sol pálido de agosto começava a despontar no horizonte nuvioso. Sakura sabia o que tinha de fazer a seguir e ela aproveitava-se do fato de que Sasuke ainda não havia retornado para pegar o que lhe seria necessário.

Indo até a cozinha na ponta dos pés, ela furtou alguns alimentos e os escondeu no fundo da mochila, sob mudas de roupas recém-lavadas, seu rádio a pilhas que não funcionava, a bíblia e o rosário, alguns livros surrados, uma garrafa térmica e um isqueiro de plástico.

O único desafio agora seria pegar de volta a sua arma, que ainda estava no armário cuja chave apenas Sasuke possuía e que carregava consigo o tempo todo. Sakura não queria tentar a sorte arrombando a tranca, então ela apenas se sentou no sofá e esperou, sob a crescente luz matinal que varava as fendas nas tábuas das janelas, sob um céu cor de cromo, e com os olhos sensíveis devido à ânsia que ainda sentia de chorar.

Não seja idiota, ela se repreendeu prendendo o lábio entre os dentes, foi tolice sua pensar que poderia ficar aqui para sempre. As pessoas já não são mais as mesmas, Sakura se obrigou a lembrar, e suas unhas foram cravadas nas suas coxas, ou já se esqueceu do que aqueles homens quase fizeram com Ino?

Sua mente digladiava, e seus antigos e mais secretos medos se confrontavam em um embate arrasador dentro dela. Seu estômago vazio estava nauseado e sua cabeça pesava sobre o pescoço. Pensamentos transcorriam a sua mente a todo o instante, dúvidas, temores. Mas ela sabia que não ia desistir.

Então, finalmente, Sasuke irrompeu pela porta, sem a garrafa, o cabelo desgrenhado, o rosto marcado pelo sono; deve ter dormido sobre a mesa, ela conclui, mas sua embriaguez parece pelo menos ter sido curada.

Ele olhou para ela, e Sakura se levantou, desconfortável, escondendo as mãos trêmulas nos bolsos da calça. Sasuke pareceu prestes a questionar por que ela estava vestida assim quando sua visão periférica notou a mochila cheia de roupas e suprimentos sobre o sofá.

Seu olhar mudou então, obscureceu; os olhos tornaram-se nuvens negras tempestuando sobre um céu cromado. Ela abriu a boca para tentar explicar, mas nada lhe veio à cabeça e Sakura sentiu o olhar inquisidor dele voltando a ela quase no mesmo instante em que o medo a atingiu.

— O que... — ele se calou, os olhos cansados alternavam dela para a mochila. Ele está de ressaca, ela conseguiu dizer com facilidade. A vermelhidão em torno das pálpebras, a boca ressecada, a lividez da pele eram sintomas bastante comuns.

Sakura sentiu que não podia recuar, não agora.

— Eu decidi que é hora de ir, Sasuke — ela informou sucinta, mas por dentro Sakura tremia sob o olhar dele. Ela não conseguiu explicar por que não gostou da expressão que transpareceu no rosto dele.

Ir?! — A voz dele acabou por sair áspera, enrouquecida pelo desuso. Sakura apenas levantou o olhar de forma quase insolente.

— Nunca foi minha intenção ficar aqui por muito tempo.

— E vai fazer o quê? — Sasuke indagou com cinismo, encostando a porta atrás dele e estreitando o olhar em desafio. — Pretende mesmo cair na estrada outra vez? Com aqueles desgraçados se arrastando pelas rodovias? Você perdeu o juízo — ele zombou de forma pífia. — Quer mesmo que eu seja conivente com isso?

— Você não decide nada por mim — ela disparou, corada de fúria e com um calor incomum e febril se alastrando em ondas devastadoras dentro dela. — Não dá para nos arriscarmos e tentarmos prever um padrão de comportamento para essas coisas e você sabe disso! Eu não quero ficar em um único lugar por tempo demais porque não sei que riscos eu assumiria, tá legal? Eu só esperei você voltar porque preciso que devolva a minha arma.

Sasuke a encarou como se de repente houvesse crescido uma cabeça a mais nela, mas no fim, franziu a boca e deu-lhe as costas, ignorando mesmo os seus apelos mais desesperados.

— Tente pegá-la — ele a desafiou e seguiu para a cozinha.

Sakura o encarou com raiva e descrença, tão furiosa como há muito tempo não se sentia. Ela o seguiu, colada no calcanhar dele enquanto Sasuke tentava amenizar os efeitos da sua ressaca com uma garrafa de água.

— Você tem que devolver a minha arma! — ela exigiu, cuspindo as palavras com tanta aspereza quanto conseguisse, mas ele continuava ignorando-a.

— Já disse para tentar pegá-la de volta, Sakura. Eu não a entregarei de boa vontade para você.

— Mas por quê?! — explodiu, cerrando os punhos e atirando-os diante do rosto passivo dele. — Puta merda, Sasuke! Não seja um canalha desgraçado e não dificulte ainda mais a situação!

— Então não parta — ele simplesmente lhe disse, deixando a garrafa de água de lado enquanto ela o encarava, pálida.

— Olha — ela recomeçou com o tom de voz mais calmo —, eu agradeço tudo o que fez por mim, é sério. Você foi muito legal e eu aprecio isso, de verdade. Mas se não devolver a minha arma...

— Vai fazer o quê? — ele a desafiou novamente ao enviesar as sobrancelhas escuras, deixando que elas pesassem sobre o seu olhar e o carregassem com a estática de um paredão de nuvens tempestivas.

Sakura hesitou e foi o bastante para que ele desse por encerrada a discussão.

— Viu só? Você não quer partir tanto quanto imagina...

— Merda, Sasuke! — ela chiou, seguindo-o de volta até a sala de estar. — Só me devolva a porcaria da minha arma que eu vou embora e nós nunca mais teremos notícias um do outro.

— Aí é que está — ele a contrapôs, calmamente, e ela piscou. — Não quero nem pensar na possibilidade de você se arriscar sozinha lá fora com os cabeças podres.

Sakura sentiu que sua raiva começava a ser canalizada na forma de lágrimas para os seus dutos lacrimais e se amaldiçoou por isso.

— Vá se ferrar, Sasuke, e me dá logo a droga da minha arma, inferno!

— Você acordou bastante espirituosa essa manhã; mais tarde discutimos isso — ele observou com certo sarcasmo e deu-lhe as costas outra vez, dirigindo-se para o seu quarto, mas ela o bloqueou, postando-se à sua frente.

Sasuke não sabia se estava mais surpreso pelas lágrimas furiosas no rosto dela ou se era o brilho da pequena lâmina que ela empunhava diante do corpo que chamou mais a sua atenção.

— Nós não vamos adiar isso! — ela bradou, segurando o canivete diante de Sasuke. — Você vai devolver a minha arma e eu vou partir. Agora!

— Esse é o canivete do meu irmão — Sasuke apontou para a lâmina que tremia na mão dela. — Onde você o encontrou?

— Dane-se o seu irmão! Eu quero a minha arma!

Por um instante, ele apenas ficou lá, tão imóvel quanto uma versão mais moderna e exótica de um Adônis, mas depois de algum tempo, encarando-a com uma frieza notável, Sasuke apenas suspirou profundamente...

...E partiu para cima de Sakura.

Ela mal teve tempo de registrar tudo o que havia acontecido; sabia que ele era rápido, tinha tido uma ideia ao longo da última semana, vendo-o andar descamisado pelos cômodos e se havia algo tatuado de forma subtendida naqueles músculos esguios seria a palavra perigo. Mas ela nunca imaginou que ele fosse tão rápido.

Em um segundo, o canivete estava em suas mãos, no outro, ela já não sentia mais o seu peso familiarmente confortável e seguro entre os dedos. Sasuke usara uma das mãos para envolver o seu pulso, ao mesmo tempo em que espalmava a outra sobre o ombro dela e a impelia em direção à parede. As costas dela entraram em contato primeiro, recebendo todo o impacto e deixando que o ar fugisse aos tropeços dos seus pulmões. Em seguida, o canivete caíra com um tintilar agudo no assoalho e Sasuke tratou de chutá-lo para longe no mesmo segundo.

Ele a conteve na parede, seu olhar indecifrável pousando sobre o rosto arfante dela enquanto Sakura lutava para recobrar seu fôlego. O cérebro dela, momentaneamente abalado pelo ataque imprevisto, logo traçou uma rota de escape e a arrebatou diretamente para o passado, para as aulas de jiu jitsu que ela havia tido.

Sakura cerrou o punho e não retrocedeu; muito pelo contrário, assim que seu instinto lhe disse para atacar, aproveitando a deixa criada pelo acaso, ela o fez. O punho esquerdo, ocluso e empedernido, encontrou o maxilar de Sasuke com um som oco. Empregando toda a força que podia, os nós dos seus dedos entraram em contato com carne e osso. O impacto do golpe combaliu o agarre de Sasuke em seu ombro, libertando-a, e ela decidiu que não desperdiçaria tempo.

Com a visão turva devido ao borbotão de adrenalina e os dentes cerrados, Sakura investiu na direção dele, direcionando o outro punho em direção ao estômago dele. Mas Sasuke desviou no último instante, saindo de sua trajetória enquanto lançava o corpo para o lado oposto ao dela.

— Mas que merda, Sakura! — ele protestou, piscando aturdido e alisando o queixo.

Ela o encarou, furiosa, ambos os punhos vigorosamente cerrados diante do corpo, como uma lutadora experiente e que sabia exatamente como prosseguir, como dar cada passo. Sasuke, no entanto, ainda era o mais rápido, com mais massa corporal e tônus muscular e podia vencê-la se conseguisse imobilizá-la usando o próprio corpo.

E seria exatamente o que ele faria para evitar que ambos se machucassem — ainda mais.

Sasuke avançou sem qualquer traço de hesitação ou remorso, desviando dos punhos da garota — que ele tinha de admitir: tinha mais força do que aparentava —, segurando seus pulsos e postando-se às costas dela antes que ela conseguisse impedir. Assim, com ambos os braços presos às costas, ele acreditou que ela não conseguiria escapar facilmente.

— Eu disse que nós discutiríamos isso mais tarde — ele tentou argumentar. — Porra, Sakura, você me socou!

— Devia ter te nocauteado, isso sim! — ela chiou, contorcendo-se como uma cobra entre as mãos dele para conseguir se libertar. — Eu só quero a minha arma de volta!

— Para de se contorcer! — exigiu, cerrando os dentes de frustração quando não previu o próximo movimento dela. Antes que percebesse, um dos cotovelos dela o atingiu com força nas costelas, forte o bastante para lhe tirar o ar e fazê-lo crispar o rosto de dor.

Irritado, ele decidiu que já não havia mais meios de conter a garota naquela posição, então se deixou cair sobre o assoalho, jogando todo o peso do seu corpo sobre o dela, recuando quando mesmo assim Sakura levantou o rosto para tentar mordê-lo.

Ela se debateu, ainda assim, xingando-o de todos os palavreados que conseguisse se lembrar, e se contorcendo o quanto seria possível a um inseto dentro de um quadro. Por fim, sem fôlego, ela desistiu, a bochecha pressionada contra o assoalho, a respiração ofegante e a capacidade de vocalizar a sua raiva exacerbadamente nem um pouco diminuída ou abalada.

— Vá se foder, Sasuke!

A respiração dele estava igualmente alterada, soprando caótica na orelha esquerda dela, entre os fios do seu cabelo.

— Eu até que gostaria — ele desdenhou, apertando-a ainda mais contra o chão e levando-a a protestar com um gemido —, mas você me parece meio avessa à ideia...

Sakura grunhiu, mas ele não diminuiu o aperto nos pulsos dela, ou o peso do corpo dele sobre o dela.

— Eu só quero ir embora! — vociferou cada palavra com o pouco de fôlego que ainda lhe restava.

— Por que a pressa de ir embora? Até ontem você parecia perfeitamente bem com a possibilidade de ficar aqui...

Sakura cravou os dentes no lábio, mas no fim a frustração a venceu:

— Merda, Sasuke! É porque eu te vi ontem! Eu vi! E você não pode negar... Eu te vi bebendo, ontem... Lá em cima... Eu te vi lá... Com um errante!

O choque das palavras dela o levou a soltá-la, e Sakura imediatamente se arrastou para longe dele, encarando-o tão altiva quanto uma leoa ferida.

— Você não entende — ele sussurrou, a expressão em seu rosto não podia ser lida, não podia ser perscrutada.

— O que eu não entendo, Sasuke? — Sakura rebateu, sem fôlego. — Que você tem uma droga de um errante lá em cima?! Que você o guarda lá?! E para quê, afinal?! Ela é o seu bichinho de estimação?! Você quer domesticá-la?!

— Cala a boca! — A voz dele, afetada pela raiva e pela dor, fê-la recuar. — Você não entende, Sakura... Não sabe do que está falando... — Dizer cada palavra parecia feri-lo terrivelmente, como se enfiassem espinhos sob a sua pele.

— O que eu não entendo, Sasuke? — Frente ao silêncio, à relutância dele em respondê-la, Sakura o pressionou um pouco mais: — O que há nessa história que eu não posso compreender?! Céus, aquela coisa está acorrentada lá em cima, com um cabresto na boca! Você tem noção do quanto isso é doentio?! Pensei que você odiasse essas coisas mais do que tudo...

— Eu odeio — ele confirmou sem preâmbulos, os olhos duros como cristais de obsidiana ou talvez rochas de sílex. — Mas... — calou-se.

— Mas... — Sakura o instigou, atônita, e viu-o expirar calmamente.

Quando os olhos negros a encontraram outra vez, ela soube, ela entendeu; Sasuke estava sofrendo e aquele sentimento mortífero em seu olhar era o peso do luto. Tinha de ser.

— Mas aquela era a minha mãe, Sakura.

* * *

Eu sou um verme antes de ser um homem

Eu era uma criatura antes de conseguir me firmar

E eu me lembrarei disso antes que eu me esqueça

Antes que eu me esqueça disso.

Slipknot — Trecho de Before I Forget.

Notas finais
Quem achou que o errante era a Mikoto, bem, acertou, mas... Tem muito mais nessa história ainda para ser contado... Haha ... Feliz ano novo adiantado, pessoal! Último dia do ano, pois é. Que 2014 nos traga muitas coisas boas, especialmente a outra metade da 4ª temporada de TWD, e a 5ª temporada no fim do ano! Além do fim do mangá, que já está confirmado para 2014. lol ... Responderei os reviews ainda hoje; não se esqueçam de comentar. Tentarei voltar na quinta ou na sexta-feira. ;D Até.