Notas iniciais
Enfim o 1° capítulo! Boa leitura!

Dead World Assembly

“Do lado de fora, no vento distante e quase inaudível, por cima do zumbido leve do aquecedor, o coral de gemidos desafinados não para, como uma série de ondas do inferno arrebentando na costa”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 30).

Capítulo I:

Céu de Fogo

As ruas ladeirentas e de paralelepípedos, aos poucos, ganham notoriedade na paisagem apocalíptica; por todo o lado há casas fortemente vedadas com tábuas de madeira e cercas de arame. Mas obviamente estavam todas abandonadas agora.

Carros estão estacionados ou no meio-fio ou no meio da rua, com as portas abertas e as chaves na ignição. Há a palavra caos e morte subtendida em cada esquina.

Na alvorada daquela obscura quarta-feira de agosto o céu pega fogo. O clima está sombriamente ameno, talvez fresco demais para meados de agosto, mas Sakura não reclama. Ela na verdade arregaça os punhos de seu casaco com capuz — largo demais, que ela encontrou há algumas semanas — e estuda as vielas mortalmente desertas.

Algumas criaturas ainda respondem ao ronco baixo do motor do Toyota prius. Arrastam-se de becos e saem mancando de portas, até mesmo se lançando sobre janelas. Suas expressões vazias rapidamente mudam; seus olhos mucosos brilham como asas de insetos na escuridão e as bocas podres baforam em sincronia.

São tão burras e lentas que ela ri, e uma gargalhada gostosa. Porque elas rosnam e elas gemem, tão inquietas e persistentes como moscas rondando um monte de merda. E Sakura está tão confiante que lhe mostras o dedo médio.

Há gasolina suficiente para que ela percorra mais alguns bons quilômetros, mas seria bom encher alguns galões e levá-los consigo no porta-malas, por garantia.

O cheiro da podridão exala daquela cidadezinha e faz Sakura subir o vidro, por pouco não a fazendo engasgar com o odor da morte e da putrefação. Enquanto o sol nasce lentamente no horizonte, os mortos errantes levantam-se das sepulturas; mais cadavéricos do que se poderia ter esperado.

Subitamente, Sakura olha para a garrafinha de água no banco passageiro. Tem menos da metade e isso a lembra de que seus suprimentos estão acabando; no máximo há algumas barras de cereais e alguns alimentos enlatados na caixa de papelão no banco de trás.

Ela passará fome dentro de alguns dias se não se abastecer em algum mercadinho e a perspectiva de morrer de fome a essa altura é tão ou mais odiosa do que a ideia de virar o alimento daquelas coisas. Mas também há uma preocupação constante esvaziando seus pensamentos e esta está relacionada à quantidade de mordedores que se arrastam pelas calçadas.

Se no outro distrito a ausência deles era inquietante, aqui a presença numerosa e impossível de se ignorar a faz engolir em seco. Nas paredes e muros das casas lê-se nitidamente, à tinta de sprays, as palavras “morte”, “apocalipse” e “inferno”. Komatsushima parece ter sido reclamada pelos mordedores, e, obviamente, nenhum morador fez qualquer tipo de objeção a isso.

Há alguns focos de incêndio que não foram devidamente controlados e os escombros ainda ardem sob as chamas. Alguns errantes estão carbonizados, estendidos feito bifes tostados no asfalto.

O coro de gemidos ainda é audível o suficiente para fazê-la checar a sua Glock, presa ao cós da calça de brim. Sakura sempre a dedilha quando está muito assustada; isso a acalma e a lembra de que se tiver problemas basta apontar aquela belezinha para os cabeças ocas e assistir ao espetáculo delas se rompendo numa chuva de tecido cerebral apodrecido.

Conforme avança para o centro da cidadezinha, a presença dos mordedores diminui gradativamente; ainda há alguns imbecis estirados nas calçadas vestidos com ternos sujos e faltando sapatos. Alguns até tiveram os membros decepados ou a carne mastigada o suficiente para tornarem-nos restos amargos do que um dia foram. Estes mal se movem, na verdade. Com as tripas para fora e os tocos das pernas, tudo o que fazem é grunhir e cerrar os dentes.

Há um carrinho de supermercado largado no meio da rua e Sakura toma isso como um bom sinal. Mais à frente, cerca de uns trinta ou trinta e cinco metros, ela se depara com o que um dia foi um mercadinho de bairro; as portas foram derrubadas e as prateleiras de metal jazem no chão.

Olhando em volta pelo menos o dobro de vezes que julga necessário, ela manobra o Toyota prius e o estaciona em frente ao mercadinho. Respira fundo e seus nervos se retorcem dentro dela. Seus dedos tocam a Glock novamente e isso, sim, tem um efeito calmante. Mas ela não quer alardear o quarteirão inteiro com o som de um tiro. É por isso que ela desprende o fecho do cinto de segurança e se inclina para o banco traseiro, apanhando um velho taco de basebol.

Suas mãos o seguram com firmeza e mais uma vez ela olha em derredor. Há um mordedor idiota mancando em sua direção, rosnando e gemendo. Esse já devia ter sido infectado há muito tempo, pois sua pele já adquiriu aquela coloração cinzento-esverdeada e os cabelos ralos não escondem o couro cabeludo lustroso. Vestido com um terno que um dia foi cinza, mas que agora está tão manchado de sangue e sujeira, ele estende os braços e os punhos fecham-se e abrem-se freneticamente.

Sakura toma fôlego antes de abrir a porta do carro com violência, e seu corpo desliza do banco para o asfalto. Ela caminha até a coisa asquerosa, empunhando o taco de basebol com as duas mãos. Jogar no time de basebol feminino do colégio secundário nunca foi tão útil. Principalmente por ela ter sido uma excelente rebatedora. Quebrou duas vezes o próprio recorde de rebatimentos.

Ela gostava de pensar que as cabeças podres daquelas coisas eram bolas de basebol um pouco maiores e mais molengas.

Cerrando os dentes, ela levantou o taco na altura do peito e abordou a criatura. Segurou o taco na base com as duas mãos e ergueu-o na altura do rosto. Balançou os braços para trás e desferiu o primeiro golpe, atingindo a testa do mordedor. O crânio se partiu, rachando em inúmeros pedaços enquanto o taco se afundava no tecido esponjoso e úmido do cérebro. Acertou o lobo temporal em cheio e com força puxou o taco, vendo com prazer a coisa tombar no asfalto, a vivacidade apagando-se do seu rosto carrancudo.

Ela não hesitou; aproximou-se da criatura e ergueu o taco, golpeando a cabeça até que todo o crânio tivesse se aberto e o cérebro começasse a escorrer para o asfalto numa profusão de cores apagadas e sons úmidos.

Quando removeu o taco, afastou-se imediatamente, nauseada. Por sorte, as aulas de anatomia na universidade de medicina a haviam prevenido bem para esse tipo de coisa. Mas o odor forte e característico de carne podre ainda era difícil de aturar, mesmo para narinas tão bem treinadas como as dela.

Sakura olhou a calçada vazia com alívio, e, ainda em posse do taco, entrou no mercadinho. Seu saco de lona estava dobrado meticulosamente debaixo do casaco e ela o desdobrou para começar a enchê-lo. Percorreu as poucas prateleiras de pé, pegando desde latas a pacotes e garrafas de água. Pisava com cuidado dentro da loja para não provocar nenhum alarido, mas estava desesperada para pegar tudo e ir embora.

Exasperou-se quando suas mãos trêmulas acabaram por enviar uma série de latas de feijão ao chão; cada lata caía com um estrondo de parar o coração. Ela esperou, mortificada, que a última delas espatifasse-se no assoalho de linóleo. Decidindo que já tinha o suficiente para mais algumas semanas, ela fechou o saco e atirou-o às costas com uma mão, com a outra ainda carregava o taco.

Estacou quando ouviu o som de passos arrastados, oriundos dos fundos da loja. Era mais de um, intuiu, e um suor frio porejou a sua nuca. Virou-se para a origem do som, de onde as criaturas saíam, com dificuldade. Vinham de trás de uma das prateleiras tombadas, e eram dois. Um casal, vestidos com roupas cafonas e os olhos vazios e mucosos centrando-se em sua presa acuada.

Não teria jeito. Sakura sabia que não conseguiria deixar a loja a tempo com aquelas duas coisas em seu encalço. Deixou o taco no chão e buscou pela Glock, trêmula e assustada. Por semanas não precisara dispará-la e tinha se desacostumado ao estampido da arma.

Apontou para a cabeça do primeiro mordedor, um homem de meia idade com metade do rosto faltando, e atirou. O sangue escuro esguichou e o projétil alojou-se no meio da testa da coisa, enviando-a ao chão com o impacto. A mulher atrás dele reagiu com um medonho grunhido, esticando as mãos fedorentas e sujas na direção de Sakura. Pela segunda vez, ela não pestanejou. Atirou de novo e desta vez a bala atravessou um dos olhos mucosos da criatura, levando-a a tombar com uma das prateleiras ainda cheias de enlatados, desabando no assoalho de linóleo em meio a uma poça de sangue e miolos.

Ela os deixou onde estavam. Apressou-se em sair do mercadinho, já consciente do coro de gemidos que subia a rua, todos obviamente reagindo ao ricochete da arma. Pisou na calçada e olhou com espanto as dúzias de mordedores que vinham de todos os lados. Correu até o carro, atirando em outro antes de tentar entrar.

Fechou a porta e jogou seu saco de lona no banco do passageiro. Com as mãos trêmulas tentou girar a chave na ignição. Chorou de raiva por ouvir o som do motor falhando pela primeira vez desde que encontrou aquele carro. Travou a portas e pulou no banco quando o primeiro deles chocou-se contra o vidro da janela, os dedos insistentemente arranhando a superfície lisa.

Mais deles chegaram, rodeando o automóvel enquanto Sakura ainda tentava dar a partida. Já eram tantos àquela altura, cercando o carro, batendo suas mãos oleosas e podres na lataria e no vidro, que o automóvel sacolejava.

Por fim, ela conseguiu ligá-lo, e, olhando para trás, não pensou duas vezes; engatou a ré e afundou o coturno no pedal, atropelando pelo menos dois mordedores e mantendo-os embaixo do carro. Engatou a marcha novamente enquanto afundava o pé novamente, os pneus cantando no asfalto. Quando soltou a embreagem, o para-choque do Toyota arremessou pelo menos três mordedores contra a calçada.

Ela não se importou; limpou as lágrimas de medo do rosto e seguiu pela rua, não se importando em quantos errantes ela atropelava, em quantos outros ela atirava contra marquises de restaurantes e vitrines de lojas. Acelerou e ignorou o velocímetro que já acusava uma velocidade perigosa.

Desceu uma ladeira, ganhando ainda mais impulso e passou voando por um condomínio tomado pelas coisas. Cerrou os dentes e foi adiante, sem qualquer remorso pelas sombras que voavam por cima do capô e do teto.

Os tiros que disparou no mercadinho haviam alardeado metade da cidadezinha interiorana e, mais preocupante, trouxe dezenas de mortos até a sua localização.

Sakura não diminuiu ao fazer uma curva em um bairro residencial. Àquela altura, já havia deixado os mordedores para trás, mas o ponteiro de seu velocímetro não acusava uma redução na velocidade. Ela poderia ter chorado de alívio. Não fosse uma sombra ter surgido na rua sem qualquer aviso; Sakura avistou uma criança com um vestido de estampa floral e agarrada a um bichinho de pelúcia e não pensou em mais nada. Sabia que tentar frear seria impossível, então jogou o carro contra o muro de uma casa, virando o carro de lado enquanto os pneus guinchavam no asfalto.

O impacto foi mais doloroso do que ela inicialmente previu. O cinto de segurança a salvou do pior, mas o tranco que seu corpo recebeu enviou-a de testa contra o volante enquanto a frente do Toyota se espatifava contra o muro de tijolos. O caos foi tudo o que ela ouviu, o som da lataria amassando como uma folha de papel, o som dos tijolos quando não foram mais capazes de conter a força da batida e também cederam, esparramando-se sobre o capô numa chuva de entulho.

Desnorteada e com a testa latejando e sangrando, num corte horrendo bem acima da sobrancelha esquerda, Sakura lentamente ousou se mexer. Mais mordedores agora haviam sido atraídos pelo acidente e já se aglomeravam no fim da rua. Ela vagamente ouviu o som de punhos batendo contra o vidro da janela e olhou, através da névoa de dor que toldava seus olhos, para a menina com o vestido floral e agarrada ao ursinho de pelúcia. Ela não tinha metade do lábio superior e grunhia enquanto arranhava o vidro com suas mãozinhas.

Havia um forte zumbido em seus ouvidos e Sakura estava tonta. Mas, por cima deste zumbido, ela ouvia distintamente uma voz que insistia para que ela saísse do carro e viesse atrás dele.

Não registrou mais nada antes de apagar por completo em cima do volante.

* * *

Diga as suas preces, pequeno

E não se esqueça, meu filho

De incluir a todos nelas...

Metallica — Trecho de Enter Sandman

Notas finais
Obrigada a todos que deixaram comentários no capítulo anterior. Espero que tenham gostado desse também. Estou amando escrever essa Fanfic! *-* ... Por outro lado, estou meio deprê porque The Walking Dead só volta em Fevereiro agora. :( Se puderem me indicar músicas que combinem com essa temática (preferencialmente de rock), fiquem à vontade. :D ... Espero os reviews de vocês! Até o/