Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
3 Capítulo II: O Arcanjo Azrael
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Não foi Rudyard Kipling que disse que o mundo termina ‘não com um estrondo, mas com um gemido’”?
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 31).
Capítulo II:
O Arcanjo Azrael
Desde que todo esse inferno começou, Sakura permitiu-se apegar apenas a três certezas, e nada mais. Eram como códigos que agora deveriam guiar o seu estilo de vida. O instinto primal de sobrevivência inspira a completa extinção da comiseração vinha em primeiro lugar; Sakura prometeu a si mesma que não se prenderia a velhos preceitos — que agora não mais regeriam aquele mundo destruído.
Todos aqueles errantes, pedaços podres de carne que se locomoviam meramente por impulsos elétricos no cérebro, estavam mortos e não mereceriam compaixão. Ela sabia que atingi-los na cabeça era a única maneira de detê-los, e em seu rastro sangrento de fuga, Sakura jamais hesitou em golpeá-los, crivá-los de tiros, acertar suas cabeças e deformar seus crânios. Haviam sido de todos os tipos e idades, em diferentes estágios de putrefação. Não importava: ela derrubou todos eles.
Menos um, agora, e este ainda arranhava insistentemente o vidro da janela do seu carro. Abrindo e fechando os pequenos punhos sujos, torcendo o que ainda restava de seu lábio e projetando o pouco que permanecera intacto de sua mandíbula. Era uma visão macabra, aquela criança desfigurada, com os cabelos oleosos e em desalinho, e os olhos mucosos e cobiçosos.
Uma criança. Até mesmo a inocência em sua forma mais pura havia sido tocada por aquela viscosa e sórdida escuridão. E se as crianças não eram poupadas, o que seria dela, a deplorável criatura que só queria sobreviver, sentada no banco dos réus naquele julgamento?
Sakura nunca havia sido muito do tipo moralista, mas seguia à risca a sua ética. E agora ali estava ela, presa dentro de um automóvel destruído, com dezenas de errantes subindo a rua, sedentos por sangue e carne fresca. Eles vinham da forma como podiam; mancavam, arrastavam-se, gemiam, rosnavam. Eram os executores da sentença. Enviados do arcanjo Azrael, talvez?
Uma vez, a morte foi o descanso, o repouso da alma. Não que ela tivesse sido muito religiosa no passado; seus pais o eram, e mantinham um altar dentro de casa para cultuar os restos de sua Obaa-chan. Acendiam incenso e rezavam. Sakura sempre desdenhou desse costume. Velar os mortos. Ora, não é como se os mortos algum dia pudessem retribuir o favor.
Mas agora a morte não era mais um descanso. Era uma penitência. Uma que se pagava vagando sem rumo, desalmado, por ruas escuras e fedorentas, com o hálito da morte roçando a sua nuca numa eterna perseguição àqueles que ainda deveriam ser punidos e tocados pelas mãos mirradas do juiz. Mas em que distorcida epopeia a humanidade agora havia se metido!
O fim da linha. A completa extinção. Não a morte, mas a privação do descanso.
Pois que venham, ela ordenou. Estava cansada. Da solidão, do desespero, do medo crescente, da ausência da paz e da sanidade. O fim do túnel não era negro, mas alvo. Alvo como um crepúsculo matinal. Ele não mais a assustava.
Ainda arranhando o vidro, a pequena errante cujo rosto havia sido desfigurado da maneira mais cruel imaginável. Ela rosnou. Sakura a olhou, sem temores, debruçada sobre o volante e com a cabeça pesada latejando. Roçou os dedos em sua Glock, prometendo aos mordedores ao menos uma boa luta. Isso era tudo o que ela podia fazer antes de cair. Uma última luta, e tudo terminaria.
Ela arrebentaria quantos crânios podres conseguiria. Ela derrubaria tantos quantos pudesse. Não seriam muitos, mas Sakura gostava de pensar que em seus últimos instantes como humana, ela ainda daria algum trabalho para eles.
E começaria agora.
Seus dedos entorpecidos, seu braço pesado, e a sua cabeça latejante moveram-se. Ela endireitou-se no banco do automóvel e trouxe consigo a Glock. Apontou-a para a testa da pequena criatura e cerrou a mandíbula.
O dedo lentamente pressionou o gatilho e o estampido da arma reverberou por toda a coluna dela, reavivando aquele insano desejo de lutar. Ela assistiu com prazer o projétil estilhaçar o vidro da janela, uma tênue fumaça deixou o cano da arma, e então a pequena criatura deteve-se, a bala alojada no centro de sua testa, um buraco que jorrou sangue podre e infectado e respingou no vidro estilhaçado. Tombou no asfalto numa poça fétida de secreções um pouco depois, completamente imóvel.
Respirando fundo, Sakura abriu a porta amassada, lutando quando ela emperrou e relutou em abrir. Deslizou do banco, tonta, cambaleante. A luz da matina cegou-a momentaneamente. Mas assim que seus olhos se ajustaram à luminosidade, ela avistou outro errante, vindo em sua direção. Não hesitou, não pensou. Apenas reagiu.
Outro estampido encheu a rua e os gemidos e grunhidos avultaram-se; eram como um enxame de abelhas zumbindo furiosas. E cresceram e avolumaram-se numa massa podre e fedorenta que tomou toda a rua.
De costas para o automóvel destruído, Sakura continuou a disparar. Não errou nenhuma vez — não se permitiu errar. Mesmo que sua cabeça doesse terrivelmente, mesmo que seus ouvidos zumbissem e mesmo que seu corpo fraquejasse, ela não parou.
Um depois do outro, os ribombos ecoaram como trovões em uma tempestade. E por alguma razão, os mordedores se viam mais e mais atiçados a cada vez que um deles ia ao chão.
Venham, venham, seus desgraçados!, ela sorriu doentiamente e cruzou a linha de seu próprio limite. Descarregou a arma no último deles, enviando-o ao asfalto com um baque suficientemente audível para torná-lo repugnante. Tecido cerebral escorria no concreto, sangue borrifava os paralelepípedos. Estava acabado.
Quando disparou pela última vez, Sakura ouviu o zumbido em seus tímpanos decrescer e o coro de gemidos aumentar. Eles a cercavam, rapidamente, e em breve a alcançariam, com seus passos trôpegos e desajeitados. Seus carrascos a haviam encurralado, afinal.
O primeiro deles destacou-se da massa apodrecida de corpos. Seus olhos mucosos prenderam-se em Sakura conforme seus passos de bêbado açodavam. Mas era tão patética aquela criatura! O fato de ter tentado apressar o andar arrastado enviou-o de encontro ao asfalto. E ali ele ficou, de bruços, usando os cotovelos para locomover-se feito uma cobra, rosnando e grunhindo.
Suas mãos podres alcançaram os pés dela e agarraram-se com desespero aos coturnos. Içando o corpo até ela, a coisa idiota tentou mordê-la, mas seus avanços foram impedidos pelo couro resistente dos calçados. Sakura não se moveu um centímetro, contudo, havia aceitado aquele desfecho com mais facilidade do que previra.
Ela vira pessoas demais morrerem, testemunhara-as serem feridas e despedaçadas por aquelas coisas; vira-as arder de febre nos corredores do hospital da universidade, e, principalmente, assistira-as levantarem horas mais tarde como monstros irracionais.
Agora tudo estava terminando. Sua jornada chegava ao fim rapidamente.
Que seja rápido, ela refletiu e sentiu as mãos podres do errante escalarem a sua perna, procurando uma parte mais receptiva de seu corpo onde ele pudesse meter os dentes. Um rastro de saliva agora era deixado na sua calça e a coisa parecia à vontade agora para tentar mordê-la novamente.
Fechou os olhos e esperou. Ouviu o som de um tiro, contudo, e, abrindo os olhos assustada, viu a coisa que se prendia às suas pernas, apenas átimos de segundos antes, desabar de encontro ao asfalto. Seus olhos mucosos se apagavam.
Ela olhou para além da massa de zumbis que se aproximava, encurralando-a por todos os lados, e viu uma silhueta esguia do outro lado da calçada, equilibrada em cima do teto de um nissan x-trail preto, abandonado no meio-fio. Seus olhos se encheram de água e em seguida outro disparo foi efetuado, seu estampido atiçando os mordedores, deixando-os mais alvoroçados.
Sakura contemplou-o à distância, o seu herói, munido de um rifle de caça que certamente lhe faria inveja em outros tempos. Ele era mais jovem do que ela havia esperado, e apoiava a arma no ombro com familiaridade e desenvoltura impecáveis. E agora, ele também acenava e chamava-a do outro lado da rua.
Ela nunca soube que tipo de instinto a levou a correr em direção àquele estranho, talvez suas esperanças tivessem sido renovadas, talvez a constatação de que não estava sozinha a tivesse enchido de uma vontade desesperada de sobreviver.
Lançou-se rumo ao garoto do outro lado da rua, ditando ordens às suas pernas amolecidas pelo medo. Estava assustada com a súbita necessidade de viver outra vez, quando segundos atrás havia apenas aceitado a sua punição. O quão voláteis e imprevisíveis eram os seres humanos.
Correu e não parou para olhar para trás uma única vez. Desviou dos mordedores que se fechavam em torno dela e desviou daqueles que o garoto atingia com seu rifle. Chegou ofegante até ele e mesmo assim não encontrou oportunidade de parar; ele saltou do teto do nissan x-trail e instantaneamente virou-se para acertar um errante que se interpôs em seu caminho, golpeando-o com o cano fino da arma, deixando-a se enterrar no tecido esponjoso do cérebro e removendo-a com uma expressão de desagrado.
Olharam-se apenas uma vez antes que ele a instigasse a correr outra vez, disparando na direção contrária à massa de andantes, e fazendo Sakura ofegar para acompanhá-lo com seu ritmo e suas pernas longas. Chegaram ao fim do quarteirão com as coisas em seu encalço e ainda mais irritadas do que antes pelo fato de suas presas estarem escapando.
À sombra de um magnifico prédio de condomínio, eles dobraram uma esquina, ainda sem diminuir o ritmo, e Sakura sentia que seus pulmões estavam queimando, implorando por oxigênio. Mas ela não se permitia diminuir a cadência de suas passadas. Estava ficando tonta novamente, mas cerrou os dentes e perseguiu o estranho até a entrada de um luxuoso condomínio.
Antes ela acreditara que aquele lugar estivesse tomado pelas coisas, mas pelo visto se enganara; ainda havia um ali e outro acolá, recostados às paredes das casas, largados no meio do asfalto, mas não davam sinais de poderem se levantar.
Ela resfolegou, além de qualquer limite — físico e emocional — e adentrou a sombra do grande prédio que uma vez havia sido impecavelmente branco. As janelas dos andares superiores estavam fortemente vedadas por dentro e o único portão de acesso era um de aço reforçado, automático, que foi acionado tão logo eles o alcançaram quando o garoto deteve-se para apertar uma combinação de números e destravar a tranca.
Com o rifle pendurado nos ombros, o garoto, com sua pele pálida e os cabelos pretos em desalinho pela corrida, adentrou o prédio, passando pelo portão, e instigando Sakura a fazer o mesmo. Ela o fez, mas só depois de conferir que o coro de gemidos continuava no encalço deles, apenas mais distante.
O portão automático se fechou atrás deles com uma trava que pareceu firmemente segura e Sakura imaginou se aquele lugar ainda possuía energia elétrica — o que significava que suas esperanças estavam ganhando proporções inimagináveis e desastrosas caso não fossem supridas ou correspondidas.
Ainda sem dizer uma única palavra, e agora ela o olhava, emudecida, o garoto indicou com a cabeça para que ela o seguisse, e assim ela o fez, hesitante. A recepção do prédio estava escura e assustadora, cheia de lixo e móveis partidos sobre o chão, o que a fez ponderar sobre como o portão reforçado lá atrás ainda funcionava, mas sua cabeça foi toda esvaziada quando o garoto, que a salvara ainda há pouco, voltara-se para ela com uma expressão estranha no rosto.
Ele retirou o rifle de caça dos ombros e passou a carregá-lo nas mãos, indo em direção às escadarias e começando a subi-las sem esperar por Sakura. Atônita, ela decidiu segui-lo, um pouco mais atrás, subindo os degraus com cuidado, agarrando-se ao corrimão de ferro. Sentia-se um pássaro engaiolado e claustrofóbico ao redor daquelas paredes brancas que tanto absorviam da escuridão.
Conforme seus passos ecoavam descontinuados e por vezes frenéticos, ela imaginou se ele sempre vivera ali, ou se fizera daquele lugar a sua fortaleza. Parecia antes ter sido um condomínio de alto padrão, a julgar pela segurança reforçada que viu lá fora e pela estética do grande prédio branco.
Talvez houvesse mais pessoas ali, ela esperançou, e mordiscou o lábio para refrear a si própria. Não criaria expectativas antes do tempo, ainda nem sabia o nome daquele garoto que a salvara ainda pouco.
Quando enfim ele chegou ao andar desejado, irrompeu por uma porta estreita de metal, e Sakura fez o mesmo. A tontura ainda não havia passado por completo e sangue quente ainda brotava do ferimento em sua sobrancelha. Mas ela continuou no encalço daquele estranho, seguindo-o por um corredor acarpetado — embora sujo agora — e estacou quando o viu entrar em um dos apartamentos naquele andar.
Imaginou se deveria ir além, quando ele reapareceu no corredor, e seus olhos negros não inspiravam confiança. Muito pelo contrário. Estavam desprovidos demais de calor humano. Talvez os olhos dela se parecessem com os dele agora se ela tivesse mais passado mais algum tempo com sua loucura e solidão.
Vários palmos mais alto do que ela e com músculos esguios, ele parecia extremamente intimidador.
Ainda estagnada no meio do corredor, ele olhou-a sem qualquer traço de empatia para transparecer em seu rosto de traços finos, e deliberadamente estendeu a mão pálida de dedos longos, demandando com um tom rouco que não deixava espaço para ponderações:
— A arma.
Sakura precisou piscar para compreender do que ele estava falando. A letargia causada pelo acidente ainda a incomodava profundamente e ela ainda não havia se recuperado completamente do choque. Então, ele apontou para a mão direita dela, onde a sua Glock, agora esvaziada, jazia, firme entre seus dedos.
— A arma — ele repetiu impaciente. — Entregue-a.
— Está descarregada — ela informou tonta e exausta. Mas ele não se comoveu com isso, aparentemente.
— Minha casa, minhas regras — ditou austero e estendeu a mão em direção à arma dela. — Entregue-a se quiser ficar.
Aturdida, mas sem outra saída, ela o fez. Mas não da forma submissa como ele havia esperado. Sakura jogou-a para ele e franziu os lábios, desgostosa. Ele a apanhou agilmente e crispou o olhar para a atitude rebelde dela.
Decidiu confrontá-lo com igual hostilidade até ele quebrar o contato visual e desaparecer dentro do apartamento outra vez. Relutantemente, pé ante pé, ela o fez também, mas sem conseguir deixar de concordar com o instinto que dizia a ela para não confiar naquele garoto.
Teria de manter-se vigilante de agora em diante, ou sabe-se lá o que poderia aguardá-la mais.
As hipóteses e possibilidades que passaram por sua cabeça eram tão ou mais assustadoras do que o coro de gemidos que ainda ressoava lá embaixo, nas ruas.
* * *
E como nós venceremos
Quando os tolos tornam-se reis?
Muse — Trecho de Knights of Cydonia
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