Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

33 Capítulo XXXII: A Conspiração Contraventora


Notas iniciais
Trigésimo segundo capítulo. Boa leitura!

Dead World Assembly

“Brian e Nick se entreolham assustados. O que eles veem saindo da igreja — provavelmente atraídos pelas vozes e pelo disparo da arma — ficará na memória por muitos e muitos anos: [...] mortos-vivos se materializando por trás das aberturas dos vitrais e das portas semiabertas, alguns deles ainda vestidos com hábitos farrapados e ensanguentados, alguns em paletós de domingo e vestidos de crepe ensopados de bile. Alguns roem partes de corpo que foram arrancadas, enquanto outros carregam consigo outras partes, os órgãos ainda pendurados, da orgia asquerosa que aconteceu no interior daquela capela”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 88).

Capítulo XXXII:

A Conspiração Contraventora

Gaara era uma pessoa essencialmente lacônica, Sakura chegou à conclusão depois que os primeiros quinze minutos na companhia do garoto ruivo se findaram. Ele expressava-se pouco e inconstantemente, fosse através de gestos cuidadosamente executados ou de mínimas contrações dos seus músculos faciais.

Mantinha-se alerta e compenetrado o tempo todo; o olhar circunspecto, resguardado, entrefechado. A mandíbula estava cerrada, os sentidos eriçados, captando cada ruído ou farfalhar de vento que repercutia através das paredes do edifício abandonado. Também mantinha posse da sua Taurus, numa postura vigilante que jamais oscilava.

Pelas vestes puídas, era de se supor que ele estivesse em constante andança. A austeridade em seu olhar também falava muito a respeito do seu estilo de vida, assim como a sua conduta em pedir ajuda a dois estranhos que acabara de conhecer.

Foi com um estalo que Sakura percebeu a verdade: Gaara vivia na estrada.

Agora, ele encarava as poças de escuridão que se avultavam nos recantos da loja destruída. Era fácil imaginar que as engrenagens de seu cérebro trabalhavam meticulosamente por trás do seu olhar sisudo. As sobrancelhas claras levemente franzidas também o sugeriam. Aquele estranho — e inesperado — aliado parecia traçar uma rota de fuga para todos os três.

— Vamos deixar uma coisa bastante clara — ele sibilou repentinamente, voltando a encará-los, cada palavra cotinha uma rispidez ínfima, a ameaça por trás de seus olhos, contudo, não podia (e nem devia) ser ignorada. — Eu não confio nem um pouco em vocês dois, portanto seria benéfico para nós todos que não agissem de má fé e abusassem da minha generosidade. Até onde eu sei, estamos todos presos nessa merda até que os meus reforços retornem.

Sakura estremeceu interiormente e olhou de soslaio para Sasuke, rezando para que ele controlasse o gênio ruim ao menos por enquanto. Era doloroso admitir, mas precisavam da ajuda do estranho, não importava o quanto a ideia desgostasse Sasuke ou amedrontasse Sakura.

Portanto, esperando estabelecer um elo frágil de confiança com o garoto, ela deu um passo à frente e engoliu em seco antes de deixar sua voz fluir, aguda e esganiçada devido ao nervosismo.

— Você morava aqui nessa cidade? Em Takatsuki?

O rapaz, Gaara, a olhou demoradamente, desconfiadamente. Então, num gesto deliberado e relutante, ele meneou a cabeça de um lado a outro. Sakura suspirou inconscientemente em resposta.

— Nasci e cresci em Sataima com meus irmãos.

— Tão perto de Tóquio? — Sakura esboçou um sorriso em aquiescência. — Eu sou de Tóquio... Quero dizer, era... — ela se corrigiu com uma expressão encabulada. — Antes de o mundo acabar.

— E ele? — Gaara indicou com a cabeça para a silhueta hostil de Sasuke, resguardado sob uma faixa de escuridão vertente.

— Sasuke é de Tokushima — ela se apressou em explicar, cuidando de cada gesto, cada expressão em seu rosto; quanto mais inofensivos parecermos, melhor será, intuiu, mordiscando o lábio. — É de onde viemos.

— Percorreram um longo caminho até aqui — observou, mais uma vez exprimindo aquela dicção lacônica quase indecifrável.

— Pretendemos chegar à Yokohama — ela murmurou esperançosa, e estremeceu quando o viu franzir o cenho em resposta. O olhar de repente já não era mais cauto, mas surpreso.

— O centro de refugiados? — supôs.

Sakura desgostou do tom brando dele, quase condescendente. Ela assentiu e Gaara, em resposta, emitiu um som de chasco. Ele virou o rosto no instante posterior, o que impediu Sakura de tentar decifrar a sua expressão.

— Qual é o plano? — Sasuke os interrompeu indelicadamente ao cruzar os braços sobre o peito e endurecer o olhar.

Gaara o encarou com a mesmíssima expressão austera.

— Plano? — Sua voz enrouquecida pareceu testar a sonoridade das sílabas. — Eu já disse, nós só vamos esperar que os meus reforços retornem e então vamos dar o fora daqui.

— Quantas pessoas estão com você? — Sasuke interpelou, entrefechando o olhar arisco; Gaara simplesmente deu de ombros.

— Meus irmãos estão comigo. Há mais algumas pessoas conosco em nosso acampamento na estrada, a alguns quilômetros daqui.

— Vocês possuem mais armas? — ele indicou com um gesto a Taurus em posse do ruivo.

Dessa vez, ele ficou visivelmente incomodado com a questão. Sakura sentiu a temperatura cair vários graus dentro da loja. O olhar trocado entre Sasuke e Gaara era desafiadoramente incomplacente. Apenas um súbito chiado estático arrancou-os violentamente do impropério inconveniente.

Gaara prontamente apanhou um walkie-talkie moderno, aparentemente de uso exclusivamente militar, e pressionou um botão. Aproximou os lábios do bocal e sussurrou roucamente:

— Temari?

Por baixo da estática irritantemente ensurdecedora, uma voz claramente feminina e apreensiva o respondeu.

Gaara, consegue me ouvir? Gaara?!

— Estou aqui — respondeu ele calmamente, dardejando olhares homicidas para Sasuke. — Onde você está?

A jovem chamada Temari riu delicadamente.

A incursão terminou, bobinho; já temos tudo o que precisamos.

— Certo — ele aquiesceu. — Onde nos encontramos?

Houve uma pausa, o silêncio alquebrado apenas pelo sibilo do aparelho.

Consegue chegar à estação de trem? Aquela defronte para os dois prédios bonitos e idênticos?

— Estou a caminho. — Foi tudo o que ele disse antes de mencionar guardar o aparelho.

A jovem, porém, o informou antes, com um tom relutante.

Você tem quinze minutos, maninho.

Em seguida ele se virou para os outros dois e esperou por uma confirmação. Sasuke apanhou sua Ruger e Sakura, imitando o gesto, abriu o fecho do coldre em sua coxa, preparando a sua Glock. Seus batimentos cardíacos de súbito estavam acelerados, a sua respiração dificultosa.

Gaara foi quem abriu caminho, esgueirando-se do abrigo que a escuridão da loja fornecia, e irrompeu no corredor, seus passos eram sussurros contidos contra o assoalho de mármore branco com veios dourados. Sasuke foi logo atrás, e Sakura protegia a retaguarda de ambos.

Os três avançaram pelo segundo piso, atravessando o que um dia foi uma charmosa praça de alimentação; um chafariz marmorizado jazia seco no centro da praça. Mesas e cadeiras espalhavam-se tombadas e quebradas por todas as partes e as fachadas do um dia haviam sido restaurantes temáticos e redes de fast-food estavam sujas e depredadas.

Havia uma luxuosa escada rolante ao término do segundo piso; o corrimão de vidro estava manchado de sangue seco e muco. Rapidamente, Gaara verificou o primeiro andar e após constatar que apenas um errante desgarrado vagava por ali, sinalizou para que Sasuke e Sakura o seguissem.

O homem morto, vestido em um terno retalhado e com um pedaço da mandíbula faltando e um globo ocular mucoso pendendo da órbita oca por alguns poucos nervos remanescentes, fez pouco mais do que olhá-los e rosnar baixinho. Cruzando mais uma vez aquelas portas de vidro destroçadas, Sakura foi acometida por uma sensação ruim, uma que perpassou seu corpo como uma corrente elétrica, como dedos frios se enrolando na base da sua espinha.

Ela ignorou a sensação e continuou o percurso atrás dos dois rapazes.

Uma vez no estacionamento, os três apertaram o passo. Gaara ainda ia à frente, costurando entre os poucos automóveis deixados ali, olhava um por um, verificando se tinham chave e combustível.

— Aqui — indicou ele para um Toyota Voxy cinza, estacionado próximo a um canteiro morto de lilases.

Gaara abriu a porta do motorista e mais que depressa deslizou até o banco, inclinando-se até poder alcançar a extremidade inferior do painel. Seus dedos trabalharam cuidadosa e rapidamente, removendo a tampa de plástico para depois buscarem, no bolso de seu moletom, um rolo de fita isolante quase no fim, um canivete e uma chave de fenda com cabo desgastado.

Ele separou os fios certos enquanto Sasuke o observava de perto. Um coro progressivo de gemidos às suas costas fez Sakura morder o lábio com força enquanto suas mãos seguravam a Glock com firmeza.

Trinta segundos depois, o som do motor ligando os acalmou, ao mesmo tempo em que uma urgência desesperadora os empurrava para dentro do Voxy. Sakura entrou primeiro, seguida de Sasuke, ambos no banco de trás enquanto Gaara fechava a porta, engatava a primeira marcha e se preparava para tirar todos os três dali.

Os gemidos tornavam-se cada vez mais distintos no sussurro do vento outonal.

— É bom se segurarem — alertou o ruivo antes de forçar o motor um pouco mais, acelerando ao passo que eles deixavam o estacionamento do Shopping Center.

Alguns errantes surgiram no meio do caminho, mas Gaara desviou deles com facilidade, conduzindo o Voxy através das ruas ladeirentas e largas.

O céu acima deles era metálico com nuvens escuras e volumosas. O conjunto perfeito para os prédios silentes e as calçadas atulhadas de lixo. Apenas o ronco baixo do motor do Voxy estilhaçava o silêncio crescente nas ruas — isto e a sinfonia concebida pelos mortos.

Sasuke cuidadosamente prendeu o cinto de segurança de Sakura e em seguida fez o mesmo com o dele. O olhar de Gaara encontrou-os através do retrovisor, ele calmo e composto, ela pálida e assustada.

— Então vocês pretendem chegar à Yokohama. É isso, não é?

Sakura umedeceu os lábios secos com a ponta da língua antes de conceder o benefício da dúvida ao estranho.

— Este era o plano... — ela pigarreou de leve para firmar a própria voz. — Inicialmente.

— Vocês estão na estrada há muito tempo?

Mais uma vez, foi ela que tomou a iniciativa de respondê-lo, já que Sasuke persistia taciturnamente insatisfeito com a progressão dos fatos. Quando acordaram naquela manhã, estavam por conta própria com um longo percurso à frente. Agora tudo estava indistinto, nebuloso; estavam nas mãos daquele garoto estranho.

— Só há alguns dias — esclareceu sucintamente, sufocando as memórias mais sombrias do que vivera na estrada nos últimos dias.

— Entendo — ele soltou num murmúrio, dobrando em uma esquina. De repente, limpou a garganta e elevou o tom de voz, alegando para si mesmo: — Isso vai ser difícil.

Sakura compreendeu-o no instante em que olhou adiante, ladeira abaixo para uma larga avenida, margeada por paralelepípedos e edifícios suntuosos. Na verdade o que mais chamara a sua atenção — e a de Gaara — fora a horda numerosa lá embaixo, aglomerada como um vespeiro enlouquecido.

Ela os encarou à distância, sob a luminescência fosca daquela manhã cinzenta. Cadáveres andejos esfarrapados e ensanguentados reagiram instantaneamente ao som do motor do Voxy. Dezenas de faces apodrecidas se viraram ao mesmo tempo para eles, para o veículo parado que encimava o aclive pavimentado.

— Mas também pode ser divertido — Gaara murmurou para si mesmo com um sorriso torto antes de trocar a marcha e em seguida afundar o pé no acelerador, levando o motor do utilitário ao limite.

Sakura afundou as unhas no estofado do banco e tentou conter a sensação de pânico que pulsava dentro dela, desesperadamente tentando se libertar. Sasuke também se segurou ao assento à medida que o Voxy, descendo a ladeira, ganhou ainda mais impulso e velocidade.

Eles se acercaram da horda numerosa em um piscar de olhos. Era uma visão apavorante, os mortos estendendo os braços, separando os dedos, esperando acolhê-los em seu cerne corrompido ao passo que as suas bocas se abriam para baforar o hálito frio da morte. Era algo que Sakura sabia que se recordaria por muito tempo, todos aqueles pares de olhos sobre ela, fulgurando com uma espécie de fome macabra. Todos aqueles gemidos ficariam gravados a ferro em sua memória.

Gaara acertou o primeiro deles sem o menor indício de ressentimento. Lançou o cadáver ressequido a quase cinco metros de distância contra o asfalto e seu rosto não se alterou por um único átimo de segundo. Mais deles bateram contra a lataria do Voxy em seguida, pancadas úmidas e abafadas contra as laterais e o capô.

Eles abriram caminho através dos mortos como uma navalha afiada em um pedaço de carne podre. O olhar de Gaara subitamente foi atraído para o aparelho de som. Seus dedos pressionaram alguns botões antes que um CD fosse reproduzido e o som potente de uma guitarra preenchesse o interior do automóvel. Ela de longe reconheceu a voz de barítono de Till Lindemann do Rammstein quando os líricos de “Sonne” se iniciaram.

— Olha só — refletiu Gaara, aprovando, meneando a cabeça de acordo com o som —, parece que os merdinhas ao menos tinham bom gosto para música...

Seguindo os impulsos eufóricos das guitarras, que por sua vez respondiam às convocações dos baixos e da bateria e à própria voz do vocalista, Gaara aumentou a velocidade. A música em um volume ensurdecedor ao menos abafava os sons dos mortos, Sakura pensou como uma espécie de conforto.

Ao fim do percurso, os dois prédios gêmeos cintilavam na manhã fantasmagórica; monólitos cinzentos edificados em uma era passada por mãos humanas. Agora eles se acercavam da estação de trem, e os mortos gradualmente começavam a se fechar em torno do Voxy, dificultando a passagem.

Gaara apenas se limitou a desviar daqueles em que era possível executar tais manobras, e atropelava aqueles que não podiam ser evitados. Alguns se agarravam insistentemente ao capô do carro, escalando-o como alpinistas amadores. Ele conseguira se livrar de um ou outro, mas alguns eram obstinadamente determinados e rosnavam para os ocupantes do carro com suas mandíbulas esgarçadas e seus dentes que eram como lápides negras e quebradas.

— Estejam preparados para descer do carro ao meu sinal — ele murmurou apaticamente, os olhos pregados à pista, ao errante teimoso agarrado ao capô do Voxy, as pernas balançando suspensas sobre o asfalto como as de uma boneca de pano.

Sakura ponderou suas palavras, mas não por muito tempo. Sob os últimos acordes da banda alemã, Gaara pisou fundo no acelerador, livrando-se do morto-vivo agarrado ao capô no processo. Trêmula, ela pousou os dedos sobre o fecho do cinto de segurança, vendo que Sasuke fazia o mesmo com sua visão periférica.

A avenida chegava ao seu término, os prédios gêmeos da estação de trem estavam a poucas centenas de metros. Uma horda enraivecida e faminta vinha logo atrás deles.

Então, em uma manobra quase suicida, considerando-se a velocidade e a altura do Voxy, Gaara girou o carro em um ângulo de 90º, jogando o veículo de lado enquanto rezava interiormente para o carro não capotar. Os pneus guincharam no asfalto estridentemente, o cheiro de borracha queimada era quase insuportável.

Um segundo depois, a dianteira do Voxy invadia a fachada do que um dia foi uma loja de equipamentos eletrônicos. O para-choque bateu violentamente contra a vitrine, estilhaçando-a enquanto o para-brisa trincava e rachava sob a força do impacto. A lataria cedeu e amassou como uma frágil folha de papel.

Todos os três ocupantes procuraram absorver a colisão da melhor forma possível. Sasuke lançou os braços sobre Sakura e a reteve sobre o banco, procurando poupá-la da maior parte do choque da batida. Ela ofegava baixinho sob ele quando se afastou para averiguar se estava tudo bem.

— Hora de ir — sinalizou Gaara, desprendendo o cinto, e conferindo o estado de seus passageiros através do retrovisor uma última vez antes de escapulir pela porta amassada do motorista.

Sasuke cerrou os dentes e lutou para suprimir a raiva ebuliente em seu peito. Lançou um olhar descrente à Sakura, quase indignado. Mas, por ora, ele priorizaria o bem-estar dela e do bebê. Por isso, rapidamente desprendeu o cinto de segurança e estendeu a mão para abrir a porta do carro.

— Vamos — ele a apressou e ela, ainda que desorientada, assentiu e desceu, firmando os pés no asfalto.

Gaara não os esperara por muito tempo, visto que estava uns bons metros à frente, sua cabeleira ruiva brilhando sutilmente sob o mormaço quente. Sasuke apertou a mão de Sakura e sem protelar mais a arrastou consigo. Alguns errantes já se aproximavam, atraídos pela comoção.

Em posse da Ruger, ele seguiu Gaara através da estreita rua adjacente. Ao longe, viam-se os prédios da estação de trem de Takatsuki. Faltava pouco, forçou-se ele a pensar.

— Apressem-se — ele ouviu Gaara murmurar, logo à frente, enquanto preparava sua Taurus e abatia um errante na calçada com um tiro certeiro na cabeça.

— Sasuke — Sakura o chamou às suas costas; ela estava ofegante e assustadoramente pálida, mas ele apenas balançou a cabeça e a puxou com ainda mais determinação consigo.

Aos poucos, a estação de trem revelou-se a eles. Os prédios gêmeos enquadravam-na ao fundo. A plataforma de concreto estava suja com restos da alimentação de errantes, manchas de sangue e muco e pedaços de roupas ou sapatos perdidos. Os trilhos, contudo, ainda reluziam como nos dias em que eram utilizados.

Um caramanchão de concreto, pintado em branco, tinha as palavras “Encontre-me em Yokohama, Kiyoko” escritas com tinta spray vermelha em sua parte posterior.

Gaara avançou através da plataforma da estação de Takatsuki antes de saltar com elegância para o nível inferior, onde os trilhos se situavam. À distância, os três ouviram o ronco de um motor potente se aproximar gradativamente.

Em silêncio, eles aguardaram.

Um caminhão militar estadunidense 6x6, um Army-M939 verde-escuro e sem a lona de camuflagem, se acercou, uma jovem loura com um penteado curioso estava de pé na caçamba do monstruoso caminhão, recostada contra a cabine. No volante, um homem igualmente jovem.

O caminhão estacionou a alguns metros dos três e a garota loura instantaneamente saltou para o chão; vestia jeans surrados, botas de montaria e uma jaqueta de couro sintético. Ela sorriu para Gaara, mas fechou a expressão assim que notou Sasuke e Sakura.

— Ei, maninho — disse ela de uma forma gentil, aproximando-se com curtas e rápidas passadas —, você não nos disse que tinha feito amigos.

Gaara bufou discretamente.

— Eu os encontrei em um Shopping Center, do outro lado da cidade. — Indiferente, ele acenou primeiro para o rapaz de expressão hostil, e em seguida para a garota que parecia prestes a desmaiar. — Eles são Sasuke e Sakura; vieram de Tokushima.

— De tão longe assim? — a garota soergueu uma sobrancelha loura e encarou os dois criticamente.

O terceiro homem se juntou a eles depois de descer da cabine do caminhão e bater com força a porta do motorista. Olhando para a caçamba, Sakura notou que ela estava abarrotada de caixas de papelão.

— Seja simpática, Temari — ele disse, seu rosto era mais maduro do que o de Gaara, sua pele era mais morena, os seus olhos castanhos eram mais agudos e sarcásticos, mas havia algo muito familiar naquelas feições. Suas roupas estavam igualmente puídas.

— Não pega no meu pé, Kankuro — a loura chamada Temari rebateu, os olhos azul-escuros pousaram em Sasuke e Sakura mais uma vez.

Ela era esguia e bonita, seu cabelo cor de caramelo estava preso no alto de sua cabeça por quatro elásticos. Pendurada no seu ombro por uma alça de couro estava uma Heckler & Koch MP5, uma submetralhadora de fazer inveja a qualquer um. Sakura se perguntava onde ela teria encontrado uma arma como aquela, e estremeceu ante as possibilidades.

O homem, Kankuro, também portava uma arma impressionante. Um Fuzil T-65 5.56 x 45 mm de calibre pendurado no ombro. Aqueles eram exemplares potentes demais para terem pertencido a meros civis no passado.

— Será que podemos dar logo o fora daqui? — Gaara rosnou, visivelmente irritado e Temari e Kankuro se entreolharam com desconfiança.

— E quanto aos seus amiguinhos? — Temari questionou, os dedos inconscientemente roçando a sua MP5.

Gaara emitiu o que pareceu à Sakura um som de deboche. Sasuke enrijeceu ao lado dela. Ela só podia imaginar o quão irritado ele estava agora.

— Eles estão indo para Yokohama — o ruivo revelou com todo um tripúdio secreto e, mais uma vez, Kankuro e Temari trocaram olhares.

— O centro de refugiados — Kankuro assentiu consigo mesmo, o olhar vago mirando o céu cinzento. — Pena que vocês não possam mais chegar lá.

Sakura estremeceu, mas não de frio. Sasuke cerrou o maxilar e fuzilou o homem mais velho.

— O que você quer dizer? — ela sussurrou, antevendo a resposta e mesmo assim desejando não ter de ouvi-la.

Kankuro suspirou, mas foi Temari quem lhe respondeu, num sussurro quase ininteligível. Os olhos escuros dela eram suaves quando a encarou com uma condescendência irrevogável.

— Bom é que... — ela pausou inesperadamente, lutando com as palavras. — O centro de refugiados já não existe mais.

Sasuke e Sakura se sobressaltaram ao ouvir as más novas. Buscando o olhar de aprovação de seus dois irmãos, a garota loura reiterou com uma maior convicção.

— Yokohama caiu há cerca de dois meses.

— Como vocês podem saber?! — Sasuke explodiu ao seu lado, o tom de voz elevado, as pupilas dilatadas, os dentes trincados.

Desta vez, foi Kankuro a respondê-lo com um sorriso torto em seus lábios grossos.

— Essa é fácil de responder, na verdade, sabichão. Nós estávamos lá quando aconteceu.

* * *

Este câncer cadavérico!

Humanidade atroz, respirai!

Respirai através do fluxo

Ninguém está livre.

Draconian — Trecho de Wall of Sighs.

Notas finais
Como havia dito em minha página há alguns dias, estou com alguns problemas pessoais bem sérios... No caso, é meu avô que está muito doente, e, enfim, minha família toda está sofrendo bastante com isso. Espero que compreendam o motivo da minha demora em atualizar... Eu tive que insistir comigo mesma por várias vezes essa semana pra conseguir digitar. ... E essas eram as más novas para Sasuke e Sakura... rs E agora? Não existe mais centro de refugiados :P E temos mais uma surpresa no próximo capítulo, um quarto aliado! Será que vocês advinham quem ele é?! ... O mangá da semana passada foi SURTANTE. Maravilhoso mesmo *-* Teve tudo o que eu amo no casal SasuSaku. E a capa de ontem... Perfeita demais! SasuSaku agarradinho cavalgando juntos bem no dia do aniversário do Sasuke. Coincidência? Eu acho que não UEHUEHUEHUEHUE ... Certas pessoas tentaram tirar o mérito do nosso momento no 685, mas eu nem ligo. Foi tudo de bom sim, e tenho certeza que as coisas só vão melhorar para nós agora. SasuSaku é vida o/ ... Falando em casais... Teremos, além de NaruHina, mais um casal por aqui que eu gosto bastante (e o Kishi aparentemente também rs) ;D ... Enfim, obrigada a todos pelos reviews lindos. Não deixem de comentar nesse, ok? Até o próximo.