Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

34 Capítulo XXXIII: O Lamento do Profeta


Notas iniciais
Trigésimo terceiro capítulo. Boa leitura!

Dead World Assembly

“Eles passam rapidamente, permanecendo embaixo de uma fila de edifícios do lado sul da rua, os ombros roçando em portas pichadas e janelas manchadas. A noite está caindo e as sombras ficam mais longas no chão, o que os enche de tristeza”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 90).

Capítulo XXXIII:

O Lamento do Profeta

O ronco triunfante do motor do Army-M939 é um som constante e cadenciado no panorama acinzentado da cidade de Takatsuki, na província de Osaka. Da caçamba do caminhão, entre caixas de papelão abarrotadas de suprimentos e engradados, Sakura mira o aglomerado de prédios e se despede da cidadezinha interiorana e pitoresca.

O vento está rugindo não apenas em seus ouvidos, mas também dentro dos seus pensamentos. Ela sabe que Sasuke, ao seu lado, está neste exato e idêntico estado de confusão e estupor.

Gaara está à frente dela, os cabelos curtos flamejando em torno do seu rosto pálido e encrespado. Os olhos dele, da cor de águas-marinhas, são difíceis de ler, contudo. Os três viajam em silêncio na traseira do caminhão, ao passo que Temari e Kankuro dividem o assento na cabine e trocam sibilos e sussurros.

O grupo não chegou exatamente a um consenso depois que as más novas haviam sido divididas. Na verdade foi Sakura quem teve de se valer dos seus inúmeros métodos de persuasão para convencer Sasuke que eles, ao menos, deviam checar o acampamento dos irmãos; eles podiam pensar mais cuidadosamente sobre o assunto mais tarde, assim como poderiam postergar — ao menos por enquanto — o caminho que tomariam agora que Yokohama caíra.

Havia uma tensão palpável e crescente entre Sasuke e Gaara, uma antipatia notável e preocupante que só ficava mais evidente a cada vez que eles se encaravam em silêncio, as mãos postas discretamente sobre as armas em seus coldres.

Sakura olhou de um a outro, então umedeceu os lábios e elevou a voz acima do rugido do motor e do vento:

— Vocês estavam mesmo em Yokohama quando aconteceu?

Gaara a fitou com uma expressão indecifrável; em seus olhos, entretanto, via-se o horror que as lembranças lhe traziam. Até mesmo Sasuke prestava atenção agora.

— Você ouviu o que meu irmão Kankuro disse antes; nós estávamos lá quando Yokohama caiu.

— E como foi? — Sakura persistiu, a voz alquebrada, suplantada pelo ruído do motor do caminhão.

Gaara mudou de posição, aparentemente buscando mais conforto. Alongou as costas, curvando-as levemente contra uma caixa de papelão abarrotada de grãos e cereais ensacados, e flectiu um dos joelhos. Por fim, suspirou.

— Definindo em uma única palavra? — ele franziu o rosto em uma careta esquisita: — Inferno. O pânico, os mortos do lado de fora e de dentro das cercas, a escassez de suprimentos e munição. Foi só uma questão de tempo até que o sistema falho que mantinha o centro funcionado colapsasse, o que de certa forma abriu caminho para que alguns lunáticos tentassem assumir o controle da situação. No fim, não sobrou quase nada, exceto caos e destruição.

— E como você escaparam? — Sakura inclinou-se para frente, intrigada.

Gaara abriu um sorriso quase frio.

— Não tenha pressa, vai saber a resposta em breve. — E calou-se sem mais preâmbulos.

Ainda que se sentisse consternada com a situação, Sakura assentiu.

Seguiram o restante do percurso em silêncio, enquanto a tarde avançava e a temperatura caía depressa. Takatsuki desapareceu em menos de um terço de hora; seus prédios avantesmas, suas ruas silentes e cheias de lixo pouco a pouco vanesceram. Chegaram à Via-Expressa Meishin quase meia hora depois sem quaisquer incidentes ou imprevistos. Haviam mesmo deixado os mortos para trás.

O céu escurecia por trás dos topos dos pinheiros e das criptomérias. Outeiros outrora virentes margeavam a pista, agora cobertos por um gramado seco e amarelado; pequenos botões de canolas emurcheciam sob a iminência impávida do inverno. As árvores desnudavam-se ante a proximidade enregelante da transição de estação.

Alguns quilômetros à frente, o Army-M939 parou bruscamente, o que fez com que os três ocupantes da caçamba levantassem-se em sobressalto, as armas preparadas. Gaara apressou-se a saltar para o asfalto quando ouviu as portas da cabine batendo. Sasuke preveniu Sakura de segui-lo, retendo-a com um olhar desaprovador.

— Por que paramos? — o ruivo demandou, unindo-se aos dois irmãos.

Diante deles, um automóvel abandonado bem no meio da pista. Kankuro, munido de um pé de cabra, acercou-se do Subaru Forester preto. Sasuke observava-os ainda de cima da caçamba, o olhar firme e atento de uma águia.

— Essa joça não estava aqui pela manhã — divagou o mais velho dos irmãos, coçando a barba rala que cobria a linha de seu maxilar.

— E daí? — retrucou Gaara com rispidez. — Dê a volta nessa porra e vamos embora.

— Ei, calma aí, maninho — Kankuro gesticulou com as mãos no ar efusivamente, uma atitude claramente paliativa. — Vamos só dar uma olhada dentro; precisamos de gasolina e eu adoraria um maço de cigarros — ele piscou para o irmão mais novo, cuja expressão austera não arrefeceu diante do próximo comentário: — Posso até procurar algumas balinhas se você se comportar como um bom menino.

— Vá se foder — Gaara murmurou ao esconder os punhos cerrados nos bolsos de seu jeans e dar meia volta, afastando-se do irmão.

— Mamãe detestaria te ver usando esse linguajar — ele retrucou com um meio sorriso enquanto corria as mãos pelo pé de cabra, manuseando-o em pleno ar como se testasse a resistência do objeto.

— E depois você reclama do mau humor dele — Temari intercedeu a favor do irmão caçula com um sorriso cínico.

Kankuro deu de ombros.

— Isso se resolve fácil, fácil com uma boa transa. Se apenas o nosso maninho ligasse para bocetas... — Ele se encolheu de repente, em resposta à cotovelada que ganhou de Temari nas costelas, um complemento ao olhar reprovador que ela lhe lançou em seguida. — Tudo bem, tudo bem... Me desculpem se feri os sentimentos de vossa alteza — escarneceu, curvando-se ligeiramente em uma falsa mesura.

— Pare de perder tempo e vá logo verificar a droga do tanque do carro; quanto mais cedo partirmos, melhor — Temari o apressou, afastando-se na mesma direção que Gaara havia seguido.

— Com saudade do perneta? — Kankuro a provocou com um risinho baixo. — Ou talvez do pinto dele.

Temari não se dignou a encará-lo; limitou-se a erguer a mão esquerda, permitindo-lhe ter uma clara visão do seu dedo médio levantado. Kankuro fungou e ajeitou o pé de cabra entre os seus dois punhos cerrados. Com um bufar, voltou-se na direção do automóvel, cutucando a lataria com o objeto, provocando um alarido, e simplesmente aguardando.

Ele olhou para a traseira do caminhão de soslaio e sacudiu a cabeça com um ar de resignação. Voltou-se para o Forester no exato momento em que uma mulher morta se lançou violentamente contra a janela do passageiro, a expressão faminta em seu rosto deformado avultando-se através do vidro sujo. As mãos podres e os dedos carcomidos estavam fortemente pressionados contra a janela, tentando em vão alcançar a sua presa.

— Mas que puta feia você é — ele exclamou depois de se recuperar do susto inicial. Olhou os cabelos desgrenhados da mulher, uma verdadeira juba revolta em torno do seu rosto quebradiço e podre.

Na traseira do caminhão, Temari, olhando o irmão à distância, balançou a cabeça com um suspiro e voltou seu olhar para o casal que descia da caçamba, Sakura auxiliada por Sasuke, que a segurou por um bom tempo mesmo depois que os pés dela tocaram o chão.

A garota tinha estranhos cabelos cor-de-rosa artificiais, mas que de um jeito quase incompreensível complementavam as feições em seu rosto; os olhos verde-mar eram expressivamente esperançosos, com um toque de candura e calor. A sujeira, entretanto, em sua pele pálida e roupas lhe conferia um contraste interessante. Temari sentiu que aquela garota, a tal Sakura, não era tão frágil quanto sua aparência delgada sugeria.

Já o garoto... Temari mordiscou o lábio levemente. Ele era bonito, mas de uma forma perigosa, quase severa, apesar dos seus traços finamente aristocráticos. Tinha olhos escuros e tempestuosos, e na maior parte do tempo austeros. A curva de sua boca era pecaminosamente sensual e o tom de sua pele, pálida e impecável, representava uma antítese exótica aos seus cabelos preto-azulados. Desde a estatura elevada à postura tensa dos ombros e das costas, até as densas sobrancelhas escuras e oblíquas... Tudo naquele rapaz, Sasuke, não era?, admoestava claramente a palavra perigo.

Temari decidiu que manteria um olhar atento sobre aqueles dois, especialmente ele.

— O acampamento está muito longe? — A garota, Sakura, indagou, arregalando ligeiramente aqueles grandes olhos verdes.

Era difícil olhá-la sob uma perspectiva ameaçadora; o cor-de-rosa delicado em suas bochechas e até mesmo no botão de seus lábios a fazia parecer mais uma criança.

— Só mais alguns quilômetros — Temari informou prestativamente, adicionando um sorriso à sua expressão que, como alguém costumava lhe dizer com constância, tendia excepcionalmente e irritantemente para um sarcasmo quase apático.

— Há muitas pessoas com vocês? — Sasuke inquiriu, demandando sua atenção.

Temari não deixou de notar a forma como ele sempre se postava ao lado de Sakura numa postura eternamente protetora. Ela até poderia considerar um gesto nobre e “fofo”, diria o seu lado mais piegas, se sua intuição não lhe dissesse que havia algo a mais ali. Não havia dúvida de que Sasuke e aquela garota estavam juntos, mas ela sentia que não era só isso.

— Algumas — ela respondeu naquele mesmo tom apático, distante, soerguendo o queixo e, consequentemente, o olhar frio em desafio. — Na maioria pessoas indefesas e generosas; não precisa nos ofender com as suas suspeitas — declarou numa agudeza implacável enquanto encarava Sasuke sem vacilar. — Éramos pessoas de bem antes do mundo tentar nos foder, e garanto que ainda o somos. Na pior das hipóteses, somos sobreviventes, nada mais e nada menos do que isso — frisou com um tom que não mascarava toda a dor que aquele novo mundo já havia lhe infligido. — Na verdade os interrogados aqui deveriam ser vocês, e não nós. — Sorriu cinicamente e Sasuke a fulminou com o olhar.

— Perdoe a desconfiança do Sasuke — a garota interviu, diplomaticamente, sensatamente. — É que nós já encontramos algumas pessoas que não lidaram exatamente bem com o fim do mundo.

— E quem é que lida bem com tanta merda acontecendo? — Temari deu de ombros, sorrindo. Ela descobriu que gostava da garota até, Sakura parecia ser legal. O garoto, por outro lado, era quem não inspirava confiança.

— Isso é verdade — ela assentiu, retribuindo-lhe o sorriso.

— Mas não precisam esquentar a cabeça com suspeitas. Garanto que não estamos maquinando nada — Temari acrescentou, pragmática desta vez.

Gaara não dissera uma única palavra o tempo todo. Sua postura e expressão mostravam-se indiferentes à conversação. Com os braços cruzados sobre o peito e o corpo recostado ao caminhão, ele olhava o casal com olhos frios e críticos, mas focava uma parte de sua atenção especialmente para vigiar cada gesto de Sasuke. Temari chegou à conclusão de que partilhavam os mesmos sentimentos quando o assunto era aquele rapaz intimidante.

Enquanto isso, Kankuro procurava por um galão de gasolina vazio e uma mangueira na cabine do caminhão, praguejando consigo mesmo enquanto a mulher faminta, ainda dentro do carro, rosnava e arranhava o vidro da janela com dedos curvados em garras.

— Sabe como eles eram chamados lá no centro? — disse ele, alto o suficiente para que todos o ouvissem e Temari bufou discretamente.

Kankuro virou o rosto para cuspir no asfalto num gesto de puro chasco. Seu rosto bronzeado porejava suor levemente quando ele deixou o galão vazio e a mangueira diante do Forester com a mulher morta pressionada contra a janela, observando cada movimento seu com olhos de tubarão.

Em seguida, ele apanhou o pé de cabra e girou-o experimentalmente com floreios do seu pulso. Separou bem as pernas e estendeu uma mão até a maçaneta. Com um único movimento, puxou-a, abrindo a porta e afastando-se do automóvel negro com um salto.

A errante desabou de encontro ao asfalto, o rosto podre pressionado contra o concreto. De sua garganta, gemidos baixos manavam, sons roucos que eles aprenderam a distinguir como o som da fome. Então, firmando vagarosamente os membros no chão, ela começou a se erguer. O cabelo sujo e embaraçado caía-lhe sobre a face cadavérica como cachos de medusa.

— Venha — Kankuro a atiçava, o pé de cabra firme em suas mãos. — Venha, sua puta feia.

A mulher rosnou conspicuamente, balançando os braços que pareciam feitos de borracha e pondo-se sobre os joelhos. A mandíbula esgarçada deixava escapar filetes de saliva preta que escorriam até seu queixo e manchavam o cashmere de seu suéter, já sujo com sangue seco.

Kankuro encrespou a expressão, fixando o olhar sobre a mulher morta que agora se colocava de pé e gingava em sua direção com passos trôpegos e vacilantes.

— Os pesquisadores e os cientistas que trabalhavam em uma cura lá no centro — ele murmurou entredentes, o tom de voz elevando-se acima dos ruídos roucos que provinham dos lábios podres da mulher. — Eles os chamavam de “A Etapa Final do Processo Evolutivo”. A última parada nessa porra que eles chamam de “Seleção Natural”. Separar os fortes dos fracos, os mais aptos dos menos aptos, os sobreviventes dos fracassados.

A cada palavra, a mulher parecia reagir, gemendo roucamente e avançando na direção dele com suas passadas cambaleantes.

— Processo evolutivo uma ova — ele sorriu e então preparou o pé de cabra, levantando-o acima da cabeça, e assim que a errante se aproximou o bastante, descendo-o com força contra o lobo parietal dela, acertando-o em cheio.

A parte curvada e pontuda do pé de cabra enterrou-se com força no crânio enquanto fluídos acinzentados respingavam nas roupas do homem. A errante gemeu uma última vez antes dos seus olhos se apagarem e suas pernas se dobrarem sob o seu corpo franzino. Ela caiu como uma boneca de pano no chão; imóvel, sem vida.

Kankuro lutou para remover o objeto da massa encefálica da mulher, chegando ao ponto de apoiar uma bota sobre o peito dela. Uma vez que obteve sucesso, voltou-se para os irmãos e para os dois estranhos que o fitavam à distância.

— Como eu disse, um monte de baboseira.

Temari balançou a cabeça em desaprovação enquanto Gaara limitou-se a bufar e encarar o irmão desinteressadamente. Mais tarde, eles voltaram ao caminhão, agora que tinham retirado a gasolina do tanque do Forester e que Kankuro encontrara uma caixa de fósforos, mas nenhum maço de cigarro no porta-luvas.

A escuridão espreitava àquela altura, assomando acima dos contornos amorfos das montanhas. O vento gelado soprava nas copas das poucas árvores ainda frondosas e vergastava aquelas já completamente desfolhadas. Um leito de folhas secas tomara a pista principal, cobrindo-a de um odor suave e característico de putrefação. Elas agitavam-se perante a impetuosidade do Army-M939.

Sasuke puxou Sakura para perto quando notou que ela tremia, passando o braço em torno dos seus ombros. Deixou que ela repousasse a cabeça em seu peito e dormisse um pouco. Estava anoitecendo e apenas os faróis brilhantes do caminhão abriam caminho através da escuridão violácea do ocaso.

Haviam acabado de passar por uma placa de limite de velocidade quando o caminhão inesperadamente dobrou à esquerda e seguiu por uma trilha estreita de terra batida através da floresta. Sasuke prestou bastante atenção nas árvores e nos contornos desenhados dentro das poças de sombras.

O olhar de Gaara ainda estava sobre ele, seguindo-o em cada gesto, cada movimento. Às vezes, ele tinha a impressão de ver o garoto envolver a Taurus em seu coldre por mais de uma vez.

Estavam há mais ou menos quinze minutos seguindo aquela trilha floresta adentro quando a claridade suave de tochas ardendo contra a noite chamou a sua atenção. Ele abaixou o rosto e fitou Sakura, adormecida sobre o seu peito, e cutucou-a de leve no ombro para despertá-la.

Ainda que desnorteada, ela logo compreendeu o motivo de ter sido acordada.

O caminhão havia acabado de alcançar um cercado de arame farpado de cerca de dois metros e meio; uma cerca que se estendia até onde a escuridão a engolfava, protegendo um perímetro em toda a sua extensão. Então, eles pararam pela segunda vez e ouviram uma voz masculina ecoar à distância, dissonante.

Em seguida, Kankuro e Temari trocaram algumas palavras com o estranho. Logo, um som metálico e poderoso repercutiu na floresta silente. Um portão, Sasuke compreendeu assim que o caminhão adentrou o perímetro protegido pela cerca. O céu estrelado revelou-se pouco depois, quando a trilha os levou até um imenso descampado. Havia mais claridade ali, oriunda de tochas e fogueiras, e não eram poucas.

O caminhão parou e Gaara, sem dizer qualquer palavra, se apressou em descer. Sasuke e Sakura entreolharam-se, sem saber ao certo o que fazer. Mais vozes se fizeram audíveis, assim como o som de passos na grama macia do prado. Vozes que saudavam os três irmãos, que os recepcionavam de uma jornada perigosa. Houve risos, cumprimentos e boas-vindas.

Sem conseguir se conter mais, Sasuke levantou e se debruçou sobre a extremidade da caçamba, saltando em seguida e pousando no gramado alto. Ele voltou-se para ajudar Sakura e a desceu cuidadosamente no chão. Logo se viram alvo de pelo menos uma dúzia de pares de olhos.

Sakura forçou os olhos a se acostumarem com a claridade âmbar das chamas das fogueiras e suprimiu um arfar de surpresa. Temari sorriu para ela, como se a encorajasse, enquanto Kankuro e Gaara se aproximavam da caçamba do caminhão para começarem a descarregar os suprimentos.

Ainda estupefata pelos rostos que a fitavam, dentre eles mulheres com bebês de colo, idosos e crianças, Sakura engoliu em seco e sentiu que o braço de Sasuke em sua cintura começava a encurtar a distância que os separavam, puxando-a para ele. Ela olhou adiante, assim como o próprio Sasuke, para o aglomerado de veículos e barracas, cadeiras e mesas espalhadas, pessoas que partilhavam comida e água e homens fortemente armados que protegiam os perímetros delimitados pelas cercas.

Ela contou rapidamente e viu pelo menos vinte e cinco pessoas transitando pelo acampamento. Mas quando decidiu compartilhar essa informação com Sasuke, notou que ele fitava intensamente um Jipe militar estacionado a cerca de trinta, quarenta metros dali. Um Toyota Land Cruiser 4x4 verde-escuro, no mesmo tom do Army-M939.

— Por que demoraram tanto? — Uma voz masculina rouca soou à distância, claramente insatisfeita, enquanto uma sombra se movia sob a luz das fogueiras, vindo em sua direção.

Sakura soube imediatamente que havia algo errado com aquele homem. Movia-se com dificuldade, apoiado em duas muletas enquanto uma de suas pernas, mais curta que a outra, ficava suspensa e ligeiramente dobrada no ar.

O homem alcançou-os, a tez pálida, os olhos pequenos e escuros sondando-os. O cabelo preto estava preso em um rabo de cavalo alto e apertado. Vestia as mesmas roupas puídas que todos naquele acampamento pareciam usar, mas carregava no semblante uma expressão que mesclava o tédio e o inconformismo.

Foi Temari a vencer a distância que os separavam. Seus olhos azuis brilhavam sob o fulgor do fogo, e não mentiam.

— Tivemos alguns... — ela olhou rapidamente para Sasuke e Sakura — contratempos em Takatsuki e Gaara fez dois novos amigos.

Ele balançou a cabeça depois de uma rápida avaliação dos dois estranhos. Olhando-o mais atentamente agora, Sakura descobriu por que a perna esquerda dele era mais curta que a outra. Não se tratava de uma deformidade ou defeito de nascença, estava claro para ela, pelas ataduras que a envolviam, que uma parte do membro havia sido amputado.

O homem abriu um pequeno sorriso e tornou a fitar Sasuke e Sakura com seus pequenos e sábios olhos. Kankuro e Gaara rapidamente começaram a descarregar o caminhão e logo demandaram ajuda.

— Esses são Sasuke e Sakura — Temari os apresentou de forma sucinta, gesticulando primeiro para um, e depois para o outro. — Eles são da província de Tokushima.

Agora parecia haver um interesse a mais nos olhos do jovem homem. Com dificuldade, ele se aproximou mais dos dois, firmando bem suas muletas no gramado. Temari o acompanhava a cada passo, sempre atenta.

Ao apoiar o peso do corpo sobre uma das muletas e a perna direita ainda intacta, ele estendeu a mão para Sasuke.

— Shikamaru — apresentou-se, mas Sasuke não fez menção de estender a mão e cumprimentá-lo.

Pressentindo que a situação poderia sair de controle, Sakura tomou a iniciativa e apertou a mão do estranho.

— Sakura, e na verdade sou de Tóquio. Só o Sasuke nasceu em Tokushima.

— Devo supor que percorreu alguns bons quilômetros nos últimos meses. — Seu tom de voz era brando, amigável, a expressão em seus olhos, por outro lado, persistia em conservar a cautela.

— Você também estava no centro de refugiados? — ela perguntou, tímida, mas o viu assentir sem pestanejar.

— Minha função era protegê-lo para ser franco, mas perdemos o controle da situação muito mais cedo do que havíamos imaginado.

— Você é militar. — A voz de Sasuke soou bem ao seu lado, mais aguda do que ela poderia ter previsto; o olhar dele estava fixo sobre Shikamaru, inabalável.

— Bem, eu era até quase todo o meu esquadrão começar a tentar cravar os dentes em mim.

Temari tocou o ombro de Shikamaru, afagando-o por cima do tecido de sua camisa de botões.

— Nós só conseguimos escapar de lá graças a ele — ela murmurou com um sorriso gentil.

— Uma pena que não exatamente ileso — ele acrescentou com sarcasmo e indicou a perna esquerda que terminava em um toco enfaixado por bandagens um pouco abaixo do seu joelho.

A cor desapareceu do rosto de Sakura.

— Você foi mordido?!

— E devo dizer que foi uma dor fodidamente lancinante em cada minuto.

— Ele teve sorte que eu trabalhei como enfermeira durante alguns meses em Sataima — Temari acrescentou com divertimento.

— Sorte ela diz — Shikamaru fungou, revirando os olhos, mas a jovem loura e esbelta apenas alargou o sorriso.

— Foi um procedimento rápido e limpo, e que eu saiba o ferimento está cicatrizando estupendamente bem.

— Você não me viu reclamar, viu? — ele a provocou num tom monocórdio e Sakura sacudiu a cabeça, incrédula.

— Eu não sabia que isso podia ser feito. Quero dizer, que uma excisão da parte infectada do corpo poderia deter o processo da mudança — ela ponderou o último termo, incerta.

— Eles realizavam esse procedimento no centro. Quando o membro podia ser removido, é claro. Não era cem por cento efetivo, mas eficaz na maioria dos casos — Temari assentiu consigo mesma.

Foi só então que Sasuke voltou a se manifestar, o tom de voz oscilando; ora decrescendo, ora elevando-se várias oitavas. E Sakura entendia a razão.

Ele colocou a mão no bolso da sua jaqueta e fitou Shikamaru com olhos entrecerrados.

— Já que você é militar e estava naquele centro — ele puxou do bolso da jaqueta uma fotografia antiga, dobrada cuidadosamente —, preciso que me diga se conheceu uma certa pessoa.

Shikamaru o encarou em silêncio, e em seguida aquiesceu, sério.

— Se eu puder ajudar... Quem é?

Sasuke prendeu a respiração enquanto seus dedos apertavam a fotografia inconscientemente.

— O meu irmão, Itachi.

* * *

Eu ouvi o grito do vento, bem debaixo dos meus pés

Eu senti a terra estremecer, bem dentro de mim

Eu vou fugir para sempre, mas não vou muito longe.

Voxhaul Broadcast — Trecho de You are the Wilderness.

Notas finais
Perdão pela demora... De novo. Dessa vez eu não tenho outra desculpa que não seja a minha preguiça T.T Mas FINALMENTE esse capítulo saiu! lol ... Obrigada a todos pelo apoio e pela compreensão, e por todos que desejaram melhoras ao meu avô. Não teve jeito, ele teve que passar por uma cirurgia de risco, mas graças a Deus tudo deu certo e ele já está bem novamente :D Obrigada mesmo, fiquei emocionada com o carinho de todos vocês *-* ... Enfim, aí está o quarto aliado. Doces para quem acertou e disse que seria o Shika. E, sim, teremos ShikaTema aqui! Eu acho que depois daquele sonho do Shikamaru no Mugen Tsukuyomi, é impossível esses dois fofos não terminarem juntos no mangá *u* ... Naruto e Itachi por enquanto não aparecem, mas eles estão vivos sim e com certeza estarão aqui, mas não por enquanto ;D ... QUEM AQUI PIROU COM O TRAILER DA QUINTA TEMPORADA DE THE WALKING DEAD?! AHHHHHH MEU DEUS, EU TIVE PELO MENOS UNS 68313565 MINI INFARTOS DURANTE ESSE TRAILER T.T Coisa linda, Robert Kirkman não podia ter feito isso comigo u.u CADÊ OUTUBRO AGORA?! D: ... E sobre o mangá, eu devo dizer que ri demais do capítulo dessa semana. Foi tão, mas tão Kishimoto no Jutsu aquela coisa do Obito voltar e doar seus olhos pro Kakashi XD E Kakashi com Susano'o perfeito... OMG! Adeus, coerência XD Pobre do Sasuke que foi humilhado pelo seu sensei depois disso. O Kakashi até salvou a Sakura na frente dele, não deixou o Sasuke-kun ter seu momento de herói *u* EU TE AMO, KAKASHI! Mesmo você tendo detonado com um momento do meu casal AHAHAHAHAHAHA E é a segunda vez que ele faz isso com o Sasuke! Alguém aí se lembra da missão no País das Ondas?! E a cara do Sasuke nesse mangá... Putz, me definiu quando vi o Kakashi de Susano'o perfeito XD SOCORRO! ... Enfim, obrigada a todos pelos reviews lindos *-* Pretendo respondê-los entre hoje e amanhã. Não se esqueçam de comentar nesse aqui, ok? ... Até o próximo.