Dead Meat

1 Bar of the broken heroes


Notas iniciais
Infelizmente o Nyah não tem nem 1/3 dos personagens registrados D:

"Então..."

Esse cara mal começou a falar e eu já fiquei enjoado. Olha pra cara dele. Bigodudo, cabelo moreno dos anos setenta, esses olhões azuis que ficariam menos perturbadores com um bom par de óculos. Evan. Me pergunto se duzentos dólares valem a informação e o sufoco que eu vou passar com esse cara aqui.

Me pergunto se duzentos dólares valem as consequências que essas informações vão trazer a ele.

"Você matou pessoas, certo?" Evan perguntou, com uma curiosidade muito estranha na voz. Algo me diz que ficou fascinado.

Eu só concordei, disse que matei uns russos. Ele não para de olhar pra minha cara. Nem são só meus olhos, entende? Esse filho da mãe fica olhando pra cada traço meu. Mas não o culpo; não é todo dia que se vê um cara de cabelo e barba azuis. Meus olhos estão vermelhos demais pra ficar encarando também.

"Esses russos, você os matou na guerra ou algo assim? Lutou no início da Guerra Fria?" Evan indagou, estalando os dedos.

"Guerra fria? Acha que eu lutei em prol de alguma conspiração?" respondi, bem irritado. Eu, lutando por algo ou alguém? É o fim da picada. "Porra nenhuma. Matei mafiosos russos aqui nesta cidade, na mesma Miami onde você mora."

Ele só afirmou com a cabeça e anotou alguma coisa num bloquinho que tava encima do balcão. Girei meu banco e estava erguendo o braço pra pedir outra rodada, quando o desgraçado teve a audácia de segurar meu pulso. Olhei pra ele igual eu olhei pro primeiro cara que tentou me matar.

"Eu acho que você já bebeu demais por hoje, amigo." Evan falou, coçando aquele bigode ridículo dele. "Sei que é meio egoísta, mas preciso de você sóbrio pra me contar o depoimento. Nada pessoal."

Arrastei meu banco pra perto do dele e me inclinei bem pra olhar ele nos olhos. Admito, as rodadas anteriores deixaram minha visão uma bela merda. Meus olhos ardiam, talvez de nervosismo. Ou só o álcool mesmo.

"Você é detetive ou alguma merda dessas?" Perguntei, tentando encará-lo sem piscar muito, mas meus olhos não colaboraram. "Porque eu não vou arriscar meu paradeiro pra um tira de folga. É a primeira vez em dois anos que consegui pisar em Miami."

"Sou sim, me desculpe." Evan admitiu, bem ereto no banco. "Mas não trabalho junto da polícia, nem pense nisso. Eu sou um escritor. Ser detetive faz só parte do meu trabalho. Saio por aí investigando histórias e colhendo depoimentos."

"Você vai conseguir mais inimigos do que leitores com o meu 'depoimento', Evan." Eu falei, me endireitando no banco novamente. Tive que enfatizar a palavra "depoimento", porque sinceramente, eu nunca iria bancar a testemunha amedrontada. "Mas tudo bem. Pergunta aí o que quer saber."

"Ahn, bem, primeiramente" Evan gaguejou, passando a mão esquerda no cabelo. Já disse que odeio o cabelo dele? Se bem que, sendo um cidadão de cabelos azuis, eu não tenho o direito de fazer tal crítica. "Por que aceitou me dar seu depoimento? Se entendi bem, até pouco tempo atrás você nem sabia que eu era um... Detetive."

"Olha, eu fiquei sabendo que tinha um cara disposto a me pagar duzentas pratas se eu falasse umas porcarias. Nunca que eu negaria uma dessas."

Evan riu a risadinha mais sem graça que eu já ouvi na vida. "Entendi! Vamos às perguntas de ouro, então." Essa foi a vez dele de se inclinar pra perto de mim. "O que o fez entrar na vida de matança?"

Respirei fundo. Cacete. Mesmo depois de dois anos, ainda era difícil falar daquilo tudo. Até hoje acho difícil acreditar nas coisas que vi.

"Tédio. Sério mesmo, eu tava entediado. Sempre fui um cara violento, brigava muito no colégio. Arranjar emprego tava difícil, e quando descobri que dava pra ganhar dinheiro fazendo o que mais gostava, nem perdi tempo e entrei na organização." Eu disse tudo de uma vez, pra me poupar das lembranças. Evan escreveu detalhadamente o meu relato.

"Organização? Seria essa a 50 Blesses?"

"50 Blessings!" Eu o corrigi, revirando os olhos daquele jeito que minha mãe sempre me chamou a atenção sobre. Por que eu pensei na minha mãe agora? "Mas sim, eles mesmos. Vejo que andou fazendo o dever de casa."

Eu não soube dizer se a expressão no rosto dele era de orgulho ou constrangimento, mas qualquer pessoa com um bigode daqueles devia ser proibida de expressar orgulho. Evan perguntou se eu era conhecido por algum aspecto peculiar.

"Bem, pode-se dizer que eu era um mestre das armas brancas." Eu respondi, me apoiando no balcão. O bartender olhava pra gente com desdém — com certeza não gostava de ter dois caras ocupando seus bancos sem sequer beber alguma coisa. "Facas, estiletes, espadas, facões, facas de arremesso... E meu cutelo."

Ele deve ter notado meu sorriso, porque olhou pra mim igual um turista olha para um animal exótico no zoológico — aquela mistura de "uau, olha só como ele se move" e "devo ficar longe". Infelizmente eu não pude conter meu ferido orgulho. Eu e meu cutelo éramos a dupla perfeita.

Dei uma tossida pra quebrar o gelo e continuei. "Enfim, eles tinham respeito pelas minhas habilidades corpo a corpo, e à minha pontaria também. Qualquer milícia vai preferir soldados que matam sem o som de tiros, lembre-se disso."

"Certamente me lembrarei." disse Evan, anotando no bloquinho. "E foi isso que o fez ter sucesso na 50 Blessings? As habilidades com lâminas, digo."

"Talvez sim, talvez não, sei lá." eu respondi, tossindo de verdade dessa vez. "Eu era um bom hacker também. Hoje em dia já nem é tão raro, mas no final dos anos oitenta era difícil pra caralho achar alguém que soubesse mexer a fundo nos computadores sem ser membro da NASA."

"Imagino que eles não queriam se desfazer de um capanga tão útil."

"Com certeza não. E foi assim que eu fui ganhando fama, com meu capacete azul e acompanhado da minha fiel motoca vermelha. Dizem até que os russos se mijavam só de ver um casaco rosa nas ruas."

"Ainda o usa, pelo visto." Evan apontou pro meu casaco, cujo rosa felizmente ainda era vívido e forte. Talvez a única coisa forte que sobrara de mim.

"Uso, uso. Mas casacos à parte, eles me davam umas missões meio estranhas — e o método de comunicação, cara... Eu recebia mensagens na secretária eletrônica todo santo dia. Nunca nada claro, entende? Umas mensagens subliminares. Me confundiu pra cacete, e eu quis sair daquela furada."

Comecei a suar quando lembrei do que vinha depois. Evan, como sempre, percebeu minha reação.

"E o que você fez pra sair da 'furada'?" Evan perguntou a questão que eu não queria ouvir. Respirei fundo novamente e contei até quarenta e dois. Mentalmente, claro.

"Fui perguntando membro por membro, usando cada vez mais hostilidade. Aí um cara me apontou um técnico que tava escondido num restaurante chinês." Ergui o braço e chamei o bartender. Acho que daquela vez o Evan não me impediu por puro bom senso. "Perguntei pro tal do técnico sobre as mensagens que eu recebia, quem mandava e tal. O cretino me mandou investigar um lugar chamado Phone Hom, e aí..."

Eu parei. Minha cabeça foi tomada pelas memórias. A tela do computador, e de repente a porta se abrindo atrás de mim, uma máscara de galo, eu e meu cutelo, então aquele mascarado --

"Tá tudo bem? Você tá muito pálido. Bartender! Uma garrafa de água, por favor!"

A voz desesperada do Evan me trouxe de volta à realidade. Sinalizei pro bartender não trazer porra de água nenhuma, e me virei pro bigodudo.

"Aconteceu que eu fui pro Phone Hom. Matei todo mundo no caminho, entrei numa sala enorme que tinha o computador. Acessei o computador, Evan. E aí veio aquele cara."

Pela primeira vez eu vi uma expressão que não fosse constrangimento ou orgulho na repugnante face do escritor. Ele tava suando tanto quanto eu.

"Que cara?" Evan perguntou, e deu pra ver que ele tentava parecer inabalado. Coitado. Respirei fundo mais uma vez pra responder aquela questão maldita.

"O que tinha a jaqueta colegial. Com uma máscara de galo em látex. O cara que fodeu com minha vida."

Notas finais
Desculpem se eu não responder de imediato, essa história foi programada ;-;