Dead Meat
2 Desertpunk
Notas iniciais
Já disse que odeio a cara desse cidadão? Acho que eu devia reafirmar. Odeio a cara do Evan, ainda mais quando ele faz aquele negocinho com o bigode toda vez que fica calado. Uma mexida pra cima, de longe um dos piores tiques que eu já vi. E aqui estou eu, encarando essa face simpática em silêncio total. Na verdade silêncio figurado, pois o bar ainda está a pleno vapor.
"Então?" Evan perguntou, quebrando o nosso silêncio particular. Admito que me aliviei, porque eu não sabia o que falar. "Vai continuar a falar sobre o que houve no Phone Hom?"
Me endireitei na cadeira e passei a mão no cabelo. Me arrependi na hora, porque minhas madeixas azuis estão nojentas. Dei uma tossida de dignidade antes de responder ao Evan.
"É, o mascarado no Phone Hom" comecei, muito inseguro. Não acredito que aquele cara me deixa pilhado até hoje. "Eu tava no computador quando ele abriu a porta. Foi uma visão intimidadora, Evan. O cara com a luz do corredor atrás dele, fazendo uma sombra enorme encima de mim. Parecia premonição."
Interrompi minha narrativa quando o bartender apareceu com uma bela garrafa de vodka. Verdade seja dita, não esperei algo tão forte, mas a gente tem que aceitar o que a vida nos dá.
"Enfim, drama à parte, eu fui pra cima dele, lógico. Na época eu era imprudente e me achava o fodão" Eu disse, depois de respirar muito fundo pra aguentar aquela vodka terrível descendo na goela. Preciso lembrar de pedir melhores opções pra vida na próxima vez. "Fiquei bem confiante quando vi ele correndo de mim e do meu cutelo, revidando só de vez em quando. Então eu finalmente acertei o cara."
"Imagino que o que veio a seguir foi bem violento." Evan deduziu, correto como Sherlock Holmes. Com uma expressão genuinamente fascinada, devo adicionar.
"É, detetive, foi sim." Continuei, porque algum vestígio de ego dentro de mim não quis deixar espaço pro Evan deduzir coisas. "Fui atrás do cutelo, e do nada o cara tava comigo nas mãos igual a uma boneca de pano. Mas eu fui mais rápido e desci a porrada até ele apagar. E olha que eu tinha avisado pra ele cair fora."
Evan fez um silêncio respeitoso enquanto anotava minhas palavras no caderninho dele. A letra dele é estranha, e depois de observar melhor, vi que ele transcrevia muitas palavras com abreviações, numa tentativa de escrever mais rápido e em menos espaço. Esperto.
"Enfim, depois desse incidente no Phone Hom, eu fui atrás daquela dupla de otários responsável por tudo isso. Acredita que me fizeram entrar nos esgotos? Esse casaco ficou dois dias impregnado."
"Já estive nos esgotos antes, posso acreditar nisso" disse o Evan, dando a primeira risada sincera desde que ele sentou nesse banco pra falar comigo. "Continue."
"Eu tinha inserido a senha no computador deles, e vi que esse lance inteiro era uma missão. Os caras se consideravam uns patriotas, e faziam os membros da 50 Blessings, como eu, matar russos. Ameaçavam a gente, então tínhamos medo do que aconteceria se não cumpríssemos as ordens. Mas eu nunca fui do tipo que segue ordens."
Pausei pra deixar o Evan anotar a história. Não sei se o álcool foi o responsável, mas me senti menos desconfortável em contar meus relatos. Um pouco de alívio, devo dizer. Finalmente deixar o mundo saber dessas merdas.
"Enfim, aqueles dois disseram que era um esquema muito maior do que eu pensava, e que se consideravam patriotas. Mandei eles se foderem e fui pra casa."
"Simples assim?"
"Quem dera. Assim que eu cheguei em casa e olhei pro telefone, decidi que tava cheio daquilo. Não queria mais saber de Miami, porque com certeza a 50 Blessings viria atrás de mim depois de eu ter descoberto as raízes deles. Peguei minha grana, bebi uma água e subi na minha moto pra nunca mais voltar."
Evan ergueu uma sobrancelha. "Você está aqui agora."
"Uau, isso deve ter sido difícil de deduzir" falei, bem azedo. Comentários irrelevantes merecem respostas de cunho idêntico. "Muita gente me ligava perguntando onde eu tava, mas eu não podia arriscar minha vida vazando esse tipo de informação. E também que podiam rastrear meu número, então destruí meu telefone."
"E por que arriscar sua vida agora?" Evan perguntou, cruzando as pernas igual a um terapeuta. Fala sério, esse cara deve se achar o intelectual da cidade.
"Porque agora não faz mais diferença. Como pode ver, eu topei divulgar uma informação que nunca devia sair da minha boca em troca de duzentas pratas."
"Não se importa se vierem atrás de você por causa disso?"
"Foi o que eu acabei de dizer."
Aquele papo tava me irritando, e eu esvaziei a garrafa de vodka. Resolvi ponderar no que eu faria com duzentos dólares. Não dá pra sequer começar a pagar um aluguel em Miami. Roupas novas, uma passagem de avião, gasolina pra moto, uma ida no cabeleireiro mais badalado da cidade só pra fazer ele encarar meu cabelo imundo? Talvez eu acabe gastando a grana todinha nesse bar mesmo.
"Enfim, eu fui pro deserto, talvez pra roubar o trailer de alguém, sei lá o que eu tava pensando. Entrou na minha cabeça que o deserto me daria proteção, e eu rodei vários quilômetros de areia com um sorrisão aliviado na cara. Mas qualquer felicidade dura pouco, e não foi diferente comigo. Quando a noite chegou, eu só tinha este casaco que tô usando agora, e eu tava quase morrendo de frio."
"Imaginei que você fosse citar alguma miragem!" Evan falou, rindo não sei de quê. Ele acha que sou um doido de pedra. Canalha. "Mas tudo bem, prossiga."
"Miragem ou não, considere o que veio a seguir como quiser. No meio dos meus tremores horríveis, eu vi, bem do meu ladinho, aquele cara com a máscara de galo. Só que a máscara se movia, Evan. Cacete. Eu ainda não acredito naquilo."
"Está insinuando que... O tal do mascarado era uma assombração?" Evan indagou, cheio de curiosidade. Ele tornou a anotar, e só torço pra não ser nada sensacionalista.
"Falei que você pode considerar o que quiser, porque eu não sei o que era aquilo. Mas a máscara começou a falar comigo, Evan. Eu tremia tanto que não sabia mais se era de frio ou de medo" Tive que fazer uma pausa pra respirar um pouco. Nunca tinha contado aquela história pra ninguém.
Contei até três e prossegui. "Bom, aquilo começou a falar comigo sobre muitas coisas ruins. Coisas ruins que eu tinha feito, dito, ou deixado acontecer. O galo me culpava pelo passado, jogava verdades na minha cara, dizia coisas que eu não queria admitir. Minhas vítimas, meus superiores, as pessoas que eu deixei pra trás, até o brilho do meu cutelo... Eu te juro, Evan, eu via tudo aquilo nos olhos daquela coisa."
Evan anotava igual um escriba escravizado. Sequer olhava pra mim antes de escrever, e ele teria muitos motivos pra isso. Eu tava suando, e bem inquieto com meu próprio relato. Tudo parecia muito mais insano agora que eu falava.
Evan deu fim às anotações com um grunhido e uma mexida no bigode.
"Acredito em você. Prossiga."
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