Dead Line Circus - Interativa

18 Uma volta é só o que quero


Notas iniciais
Hello~ Primeiro, antes de qualquer coisa, preciso agradecer a Biscoito Doce e a AkumaCiel por terem recomendado a fic. Essa ultima que tinha perdido a conta poderia ter se arrependido da primeira vez, mas em vez disso recomendou de novo. Isso que é amor. Biscoito Doce, ler sua recomendação me fez abrir um grande sorriso, foi totalmente inesperado. Quando abri o Nyah cheguei a achar que tinha lido errado. Valeu fofinha ^^. Agora galera, o capitulo dessa vez vai ser um pouco diferente dos outros. Por que Yin? Simples, ele vai focar na vida fora do circo. Por que? O circo deixou de ser importante ou você só está enchendo linguiça? Nenhum dos dois. Decidi que devia mostrar a vida dos Vips fora do circo o quanto antes, pois eles também tem papel fundamental na trama, mas não se enganem, tanto as atividades dentro do circo quanto fora dele tem influencia direta na história.

“Não existe nada de completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado consegue estar certo duas vezes por dia.”

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Depois de se trocarem e conversarem com o motorista da família, Adeline e Naomi tiraram o dia para fazer compras. Graças ao café que tinha molhado sua blusa favorita, Naomi optou por também usar um casaco para o caso de Adeline surpreendê-la novamente já que tinha planos de tomar um cappuccino quando fizessem uma pausa. Adeline já preferiu usar um vestido de verão azul celeste, já que ia as compras e teria que provar as roupas seria melhor algo fácil de tirar e rápido de colocar.

O motorista as deixou na porta da loja favorita de Naomi e saiu para estacionar o carro. Mal entrou na loja as atendentes já foram correndo receber a cliente número 1 que possuíam. Naomi não era uma garota metida e com problemas de consumismo desenfreado, mas sempre que ia comprar alguma coisa tinha a estranha habilidade de se apaixonar pela peça mais cara da loja. Podia ter várias roupas mais baratas e bonitas ao seu redor, mas se não obedecessem suas três regrinhas ela não levava por nada no mundo.

Regra número 1: A roupa tinha que ser linda de morrer.

Regra número 2: Tinha que ser confortável.

E regra número 3: Discreta.

Não adiantava nada se a roupa era bonita e confortável se fosse chamativa igual uma sirene de policia. Tinha que ser moderada, nem muito simples e nem muito chamativa. E quando Naomi se apaixonava por uma peça tinha que ser aquela, não queria nem saber de levar uma parecida, era aquela e pronto.

– Bem vinda de volta. Chegou uma nova coleção de inverno da Cruz Company, quer dar uma olhada Senhorita Grayford? – Uma atendente pergunta com seu forçado sorriso profissional.

– Sério? Onde?

Naomi sai andando pela loja seguindo a atendente até a seção de inverno. Adeline vê a irmã rodeando os manequins com os olhos brilhando, e balançando a cabeça ela deixa a irmã se divertindo enquanto vai dar uma volta pela loja.

Adeline observava as peças nos cabides e as dos manequins. Separando as que lhe interessavam e pendurando no braço. Não estava indo a um encontro romântico, só ia se encontrar com a Livro de Mnemosyne para arrancar tudo o que ela sabia. Ainda não tinha engolido muito bem essa história de detetive, parecia meio fora do comum uma detetive se revelar de uma hora pra outra, não era muito saudável confiar em alguém que mal conhecia. Mas se aquela garota quase cega tinha informações para dividir não faria mal ouvi-la e investigar a veracidade dos fatos depois, afinal ela tinha a escutado e aceitado sua proposta.

Enquanto a pequena divagava sobre o circo e o que conseguiria descobrir com a suposta detetive, acaba indo parar na seção de tecidos sem querer. Encontrando um belo garoto vestido de branco avaliando as estampas e a textura de cada pano que pegava.

O garoto devia ter uns treze ou quatorze anos, bem perto de sua idade. Tinha os cabelos azuis presos em um corte moderno e olhos calmos e vazios como se o interior de seus olhos fosse feito de um vívido mar azul e distante. Parecia triste ou entediado, olhando tecidos enquanto sua mente divagava. Rondando próximo a ele, existia um guarda-costas com corte militar e o típico terno preto e formal. Olhava o tempo todo em seu relógio, esperando dar a hora para informar seu protegido do próximo compromisso. Tinha um ar ameaçador, Adeline suspeitava que devia ser um ex-militar, o que a fazia se perguntar que tipo de pessoa ele era para andar com um guarda-costas até numa loja segura e bem guardada como aquela. Devia ser mais rico que ela ou apenas alguém envolvido em situações de risco?

Naomi, que rodava com um vestido em frente ao corpo imaginando se ficaria bom quando provasse, não percebe o guarda costas do garoto, como era de costume em sua cabeça avoada e distraída, chegando bem perto do rapaz com dois vestidos ainda em seus cabides e apresentando-os a ele achando que era uma pessoa comum de classe média.

– Preciso da opinião de alguém de fora. Qual você acha melhor? Esse ou esse? – Ela alterna os vestidos em frente ao corpo para ele comparar.

Vendo a garota como ameaça o segurança interrompe sua ronda e vai direto até eles afastá-la do sobrinho de seu chefe. O garoto olha de uma roupa para a outra sem alterar seu olhar aéreo de quando examinava as estampas, mas ao sentir a aproximação do segurança estende um braço impedindo a passagem dele ao mesmo tempo que o mandava não interferir. O segurança fica parado atrás do braço do garoto, sem saber se fazia seu serviço ou obedecia a ordem dele.

Avaliando os dois vestidos o menino tira uma jaqueta preta com mangas longas de seu cabide e veste por cima do cabide de um vestido turquesa.

– Esse. – Ele diz entregando o vestido com a modificação.

– Valeu. Sabia que faltava alguma coisa. – Ela coloca em frente ao corpo imaginando como ficaria quando vestisse. – Adeline, olha só. Não ficou perfeito em mim?

Entregando a posição da sua irmã caçula, Naomi nem percebe que ela queria ser deixada de fora da situação. Sua personalidade distraída constantemente a colocava em enrascadas.

– Sim ficou... – Adeline dá um sorriso torto, tentando enviar sinais telepáticos para a irmã se afastar dali e deixar o garoto rico em paz.

– O que está esperando? Vem aqui ver como ficou. Vai que ele não te dá uma dica também?

Se tivesse o poder da mente como um Jedai, Adeline teria explodido a cabeça dela, mas como esse não era o caso e o garoto estava olhando na sua direção, teve que ir até lá tirar Naomi de perto dele antes que ela falasse alguma besteira e ele levasse para os tribunais.

– Desculpe o incomodo. – Ela pega a irmã pelo braço. – Essa cabeça de vento sempre acaba incomodando alguém. Já estávamos de saída.

– Tudo bem, faz parte de meu trabalho. Já estou acostumado com pessoas assim.

– Trabalho? Você é estilista? – Naomi pergunta.

O garoto move a cabeça uma vez concordando.

– Show! Temos um profissional irmãzinha, ele pode te ajudar com seu encontro. – Naomi passa o braço ao redor do pescoço dele orgulhosa como se fosse sua dona.

O segurança retira o braço da garota com delicadeza e a prensa contra a parede, checando se ela não havia roubado nada em seus bolsos. Indiferente aquela vistoria o garoto confere o relógio de seu celular e depois o guarda no bolso novamente.

– Ainda estou dentro do horário, não vai fazer muita diferença. Em que tipo de lugar vai ser?

– Não precisa me ajudar, é sério. Não é grande coisa, na verdade é uma coisa insignificante que nem merecia atenção.

– Vou mesmo perder meu tempo com sua modéstia? Vamos pular a introdução que você se mostra modesta e eu tento contornar seus argumentos até você aceitar minha ajuda que é o que queria desde o inicio? Seja direta ao ponto para economizar tempo com coisas dispensáveis. Que tipo de lugar vai ser?

– Er...

Realmente não era um encontro, deveria explicar a situação desde o inicio para ele? Não, aquela altura ele ia achar que era alguma desculpa bem elaborada para se mostrar modesta de novo. Por que Naomi tinha que abrir a boca?

– Eu respondo essa, é em um circo. Pode nos ajudar lindinho? – A irmã prensada responde por Adeline.

– “Boca de caçapa.” – Adeline pensa lançando um olhar fuzilante para a irmã.

– Um passeio informal... Não vai precisar ser algo muito elaborado, apenas moderno e natural. Carlos faça algo de útil e passe esse dois rolos na máquina para mim.

O guarda costas solta Naomi depois de verificar que ela não tinha nada mais perigoso que seu cortador de unhas e pega os rolos de tecidos que o menino indicou para ir pagar no caixa. Indo sem tirar os olhos de cima dele.

O garoto examina Adeline com o mesmo olhar aéreo e distante que observava... bem, quase tudo, avaliando suas curvas, seu tamanho e como realçar seu atributos. Se dirigindo para um conjunto de cabides e separando algumas peças em suas mãos, aproxima-se da menina logo depois e testa os conjuntos em frente ao seu corpo, analisando qual ficava melhor.

– Esses dois devem ficar bons se você prender o cabelo para o lado e esse se você usar o cabelo solto com alguma presilha para a franja. Se tivesse mais tempo eu te mostrava outras combinações, mas tenho um compromisso marcado.

– Tudo bem, já ajudou bastante. Na verdade não esperava ajuda profissional de alguém tão novo, então meio que foi uma surpresa você conseguir montar em tão pouco tempo.

O guarda costas chega com os rolos de tecido debaixo do braço e acompanha o menino para fora da loja, onde um carro preto esperava por ele com o motorista abrindo a porta para o garoto entrar. O segurança guardava os rolos no porta-malas enquanto o menino entrava no carro e abaixava o vidro para se despedir das duas irmãs.

– Aqui, um agrado por ter nos ajudado. – Naomi estende um Sunday para ele pela janela, que tinha pegado em uma barraquinha ambulante que passava em frente a loja.

O guarda costas olha de cara feia para o presente e corre até ela para pegar o potinho antes do menino pegar.

– Que foi? Ele é alérgico? – A mais velha pergunta.

– O senhor Cruz não pode comer alimentos vindos de estranhos. – Ele fala confiscando o sorvete e indo terminar de colocar o ultimo rolo no porta-malas.

O homem não estava errado. Aceitar doces de estranhos é umas das proibições que as mães constantemente repetem para seus filhos, quase tanto quando olhar os dois lados antes de atravessar a rua.

– Senhor... Cruz? Alguma ligação com a Cruz Company? – Adeline pergunta para o garoto, ela nunca deixava escapar nenhum detalhe.

– Meu tio é o representante da empresa. Ele dirige tudo para o presidente.

– Diga ao seu tio que eu adoro as coleções que ele faz. – Naomi se inclina mais para a janela. – Mande meus elogios ao presidente também, eu adoro essa marca. Sempre procuro por ela nas lojas que vou.

– Irei transmitir isso a ele.

– Ah, quase esqueci. Naomi e Adeline Grayford. – Ela finalmente se apresenta estendendo a mão para um cumprimento. – Não esquece hein.

–Narciso Días Rey Cruz. – Ele aperta a mão dela.

O segurança fecha o porta-malas e entra pela outra porta do carro, fazendo o vidro do lado de Narciso subir enquanto ele manda um aceno de despedida. O motorista liga o carro e se afasta da loja em direção ao próximo compromisso de Narciso.

Carlos joga o Sunday em um reservatório de lixo sem nem provar para ver se estava realmente envenenado e Narciso o observa fazer isso entediado.

– Não converse com estranhos Presidente, seu tio ficará preocupado. Se quiser novas levas de tecidos é só pedir para seus empregados buscarem.

– Só estava vendo os novos modelos de estampas Carlos, observar as variedades me trás inspiração. – Narciso olha a paisagem fora da janela. – E seja mais cortês com as pessoas influentes. Não quero ter inimizade com os Grayford por causa da atitude de meu segurança.

– Grayford? Eu não sabia que elas eram filhas dos Grayford, pareciam garotas comuns...

– Veja mais revistas sobre arte e ciência. Cada foto que o casal aparece suas filhas estão atrás, não é tão difícil identificá-las.

– Sinto muito...

Carlos pega seu celular para conferir a agenda de Narciso, havia várias coisas planejadas para aquele dia, embora a maioria delas fosse feitas em seu quarto. Como Narciso era menor de idade, dirigia a empresa pelas sombras, usando seu tio como representante. As decisões importantes ficavam com ele, enquanto seu tio aparecia nas reuniões sociais e usava a imagem de diretor. Narciso podia comandar tudo de seu quarto, controlando o tio como um Titereiro para poder se esconder em sua sombra, embora poucas pessoas soubessem sobre ele.

Enquanto o carro deslizava pelas ruas, Narciso ouvia seu segurança listar todas as suas tarefas que teria de fazer quando voltasse para casa, apesar de estar escutando tudo que ele dizia, seus pensamentos só conseguiam se focar em uma coisa: “Espero que a noite chegue logo.”

~ ❖ ~

Adeline sai do trocador usando uma blusa de lã com mangas compridas e uma saia plisada que exibia suas pernas vestidas com as botas cano alto. Naomi observava com seriedade a troca.

– Sinto que foi uma ideia ruim ter pedido a ajuda dele.

– Por que? Ficou feio? – Adeline dá uma volta em frente ao espelho avaliando.

– Não, ficou bonito. Mas sinto que perdi pra ele e perder em moda pra um garoto é uma ferida no meu orgulho feminino.

– Ao menos sabemos que ele é mesmo um estilista.

– Sim ao menos sabe-... Por que? Você não acreditou no que ele disse?

– Falar é fácil e se ele estivesse mentindo? Já pensou nisso?

– Não, eu acreditei na hora.

– Esse é o seu problema, não desconfia nada de nada das pessoas.

– E o seu é que você desconfia demais. Podemos passar para os sutiãs agora?

– Mas nem pensar! Estou ótima com os meus desse jeitinho. – Adeline cobre o busto se protegendo da avaliação dela.

– Não vai ser tão ruim. É só aumentar um pouquinho de nada...

– Não! Você é exagerada. Seu pouquinho vai transformá-los em dois melões.

– Imagina, que tipo de irmã eu seria se deixasse você andar por aí assim?

Naomi balança um cabide com a peça na frente da caçula esperando ela pegar e vestir. Fazendo um bico Adeline pega o cabide e volta para o trocador, removendo o conjunto de roupas para experimentar o sutiã enquanto resmungava.

– E então, o que achou? – Adeline abre a cortina e sai do trocador emburrada.

Naomi não estava mais sentadinha em seu lugar esperando por ela. A garota olha em volta e procura dentro dos outros trocadores mas nem sinal da mais velha.

– Psiu. – Adeline chama uma atendente se escondendo para não ser vista por outras pessoas. – Você viu minha irmã por aí?

A atendente indica uma direção e Adeline segue seu dedo, Naomi estava quase saindo da loja enquanto perseguia o que parecia ser uma joaninha.

– EI!

Adeline sai detrás de seu esconderijo e corre na direção da irmã, mas a mais velha sai pela porta principal e Adeline chega tarde demais. Olhando pelo vidro a mais nova a vê atravessar a rua e irritada ela volta para o trocador para mudar suas roupas, as pessoas estavam começando a olhar para ela e nem morta Adeline sairia só de sutiã pelas ruas atrás de Naomi.

A morena coloca seu vestido de volta e pede para a atendente passar suas compras no caixa enquanto arrumava suas coisas. A pequena paga apressada e sai correndo da loja.

Naomi tinha sumido de vista, ela olha em volta procurando qualquer rastro mas nem sinal da mais velha.

– Onde ela se meteu?

Adeline chama pelo nome dela dando intervalos para tentar ouvir uma resposta, como não ouvia nada resolveu procurar por ela as cegas.

~ ❖ ~

Uma banheira cheia de um liquido vermelho sangue em um banheiro luxuoso e uma garota que despreocupadamente ensaboava suas pernas. Mina Klafke Bathory é uma garota que ninguém consegue entender. Com seus cabelos ruivos cheios de cachos e seus olhos tão azuis quanto o céu, ela era como aquelas bonecas colecionáveis que ficam de enfeite nas prateleiras.

Ao terminar com suas pernas ela relaxa na banheira e aproveita a sensação gostosa que tem durante esses banhos. Como a “água” estava quentinha era uma sensação que a confortava, por um momento ela fecha os olhos num estado de extremo relaxamento, até baterem na sua porta.

– Mina, desculpe eu não quero apressá-la, mas já está quase na hora da convidada chegar.

Era Janel sem duvidas, a única empregada que permitia lhe chamar por seu nome enquanto os demais a chamavam de Senhorita ou Lady, tratamentos adequados para alguém em sua posição.

A convidada a que Janel se referia era uma mulher da Suíça, membro da família Monado, que eram donos do United Bank of Switzerland, e que iria passar um tempo na Hungria.

O Líder dos Monado tinha três filhos, sendo que dois deles eram homens, Mina não queria ter que lidar com homens da próxima vez que fosse tratar de seus negócios na Suíça, por isso ofereceu sua casa como pousada para a única garota da família a fim de ver o que podia fazer para ela conseguir herdar o banco. Se sentiria mais disposta a ter reuniões comerciais naquele lugar se discutisse com uma garota do que com homens imbecis. Garotas eram mais delicadas, refinadas e elegantes do que os homens jamais conseguiriam ser, com uma garota esperando por ela até ficaria animada em ir para reuniões chatas e burocráticas.

Como Mina não respondia a empregada abre uma fresta da porta e vendo que não tinha perigo entra no banheiro. Mina sorri para ela descansando a cabeça em um braço enquanto observa o seu aproximar.

– Quer ajuda pra sair?

Mina estende uma mão na direção dela, como uma criança que cai e pede ajuda para levantar. Janel se aproxima da banheira olhando apreensiva para o liquido rubro com que ela se banhava e pega sua mão ajudando-a, mas Mina tem outros planos. Com um puxão a empregada acaba caindo dentro da banheira e se encolhe paralizada por ter caído justamente onde não queria cair, torcendo para aquele liquido suspeito não ser o que pensava que era.

– Por que não fica um pouco comigo? – Mina fala prendendo a aterrorizada empregada em um abraço.

Um sorriso doce transpassa seus lábios, mas não era de afeto ou amor, apenas de diversão. Janel fica com os braços paralisados para fora da água em repulsa e aproveitando esse momento de fraqueza Mina senta-se em seu colo passando um dedo pelos lábios da empregada deixando-os tão vermelhos quanto se tivesse passado batom.

– Me diz que isso não é sangue... – Janel pede olhando para Mina.

– Tudo bem, isso não é sangue. – Mina diz com um sorriso malicioso.

– Você não está mentindo está?

– Quem sabe?

A garota dá um selinho na mulher e sedutoramente se levanta, saindo da banheira por conta própria e caminhando alguns passos até parar e abrir os braços, olhando maliciosamente para trás esperando Janel vir lhe secar.

Aturdida, a empregada se revira na banheira tentando ficar de pé e quando consegue essa façanha pega uma toalha e se põe a enxugar o corpo de Mina. Era costume da Condessa Elizabeth Bathory tomar banhos de sangue para manter-se sempre jovem e bela, ao menos segundo as lendas, mas era fato que ela ficou conhecida como uma monarca cruel que torturava seus súditos por puro prazer e sadismo, o clã dos Bathory tem sua história manchada de sangue e pecados, que vão desde incesto à canibalismo e tortura, embora hoje em dia estejam reduzidos a uma família normal da alta sociedade. Apesar disso, Mina parece ser a sucessora disposta a retornar aos antigos costumes.

Tão logo Janel termina de lhe secar, Mina se dirige a seu quarto abrindo seu closet e escolhendo a roupa que vestiria, jogando-a para a empregada e se colocando em frente ao espelho.

A criada pega a roupa e abre seus botões, ajudando Mina a vesti-la enquanto ajeita cada dobra durante o processo.

– Que cara preocupada é essa? Acha que não escolhi bem? – Mina sorri se divertindo.

A escolha do dia foi um vestido gótico vitoriano que tinha detalhes de caudas de escorpiões em seu tecido escarlate, não era o tipo de coisa que Janel vestiria, mas já estava acostumada com o gosto bizarro de Mina, o motivo de sua preocupação era outro:

– Não acho que tenha sido uma boa ideia convidá-la para passar um tempo aqui... A mansão tem... bem... muita coisa que a maioria ia considerar esquisita... Mina, seria muito muito ruim ter hospedes aqui, nem todo mundo pode entender... seus gostos... meio excêntricos entende? E se ela recorrer as autoridades? E se ela espalhar pra todo mundo o que acontece aqui? Ou pior, e se ela acabar morrendo aqui? A família vai achar que fomos nós.

– Tsc, tsc, Janel, é por isso que você é a empregada e eu sou a chefe de um conglomerado. – Mina lhe dá um sorriso sarcástico. – Não entende como o mundo pensa e age.

Janel termina com o vestido e faz Mina se sentar em frente a penteadeira enquanto arruma seu cabelo. Cheshire pula em seu colo e Mina acaricia seu pelo negro. Aquele gato era provavelmente a única coisa normal para uma garota como Mina, mesmo que o pequeno felino já não possua mais olhos por causa de um trágico acidente quando Mina era criança.

– Se fosse uma riquinha meia boca eu jamais ia permitir que ela sequer chegasse perto daqui, mas estou lidando com uma filha dos Monado. Me pergunto se ela já não está sufocada com tantos frufrus em sua casa. A mãe dela costumava odiar a minha, então sei do que estou falando.

O barulho de rodas deslizando sobre cascalhos chama a atenção da empregada que espia pela janela e vê uma limusine estacionando na entrada.

– Droga, eu ainda tenho que me trocar.

Janel olha assustada para seu vestido molhado de sangue e se prepara para correr para a ala dos criados até ter o cabelo puxado por Mina que a impede antes da largada em alta velocidade.

– Ai, ai, ai... Tá doendo, doendo... – Janel se contorce abaixando-se para perto de Mina.

– Onde acha que vai? Eu tenho uma roupa separada pra você. – Ela lhe sorri com malicia enquanto acaricia a cabeça do gato.

A empregada a olha espantada, pois qualquer roupa vinda de Mina não era uma roupa normal.

– Obrigada, eu passo. Nem vi e nem quero ver, mas eu passo.

– Eu não disse que você tinha opção.

~ ❖ ~

Uma garota com longos e sedosos cabelos platinados abaixa seus óculos escuros ao vislumbrar a entrada da mansão. Tirando todo o bosque que o carro percorreu como parte da propriedade Lissandra não conseguiu deixar de pensar que seu motorista a levou para o lugar errado. Propriedade grande? Ok. Uma mansão enorme? Ok. Parecia ser de um proprietário rico? Ok. Mas a aparência era a de uma mansão abandonada. Teias de aranha decorando a entrada, porta principal que rangia ao se abrir, móveis antigos de madeira escura e empregados silenciosos que de tão discretos pareciam não existir. Se um trio de servos não tivesse vindo recebê-la levando em silencio sua bagagem para cima a suíça acharia que não havia ninguém em casa.

Lissadra senta-se em um divã na sala de estar e enquanto espera a anfitriã vir recebê-la, pinta suas unhas com um esmalte renda. Não demora muito para ouvir os passos se aproximarem, uma garota ruiva senta-se a sua frente acompanhada de uma empregada de rosto corado usando apenas um corpete com lingerie.

Um sorriso perverso se abre nos lábios de Mina ao observar a convidada mais de perto. Ela era alta, cerca de 1,74cm, seus cabelos ondulados estavam bagunçados como os de uma pessoa que acaba de acordar mas isso não lhe tirava o charme, de tão brancos que eram lhe davam até um ar de sutileza e refinamento, mas o que contrastava com a imagem delicada que tinha eram os espinhos de roseira tatuados em praticamente todo o lado esquerdo do corpo. Da metade do rosto, descendo pelo braço até chegar à perna. Todo o lado esquerdo com espirais de espinhos de rosas corrompendo o ar delicado de anjo que transmitia.

– Lissandra Tristain Monado eu suponho. Como foi sua viagem até aqui?

– Sem maiores problemas, obrigada. – A mulher sopra as unhas recém-pintadas. – E você? O que quer de mim?

– Alguém lhe disse que quero alguma coisa? – Mina pergunta com um sorriso.

– Ninguém me disse nada, por isso estou perguntando. Todos querem alguma coisa. Se não quer nada então vou embora, não é como se eu não tivesse dinheiro para me hospedar em um hotel, só aceitei seu convite por educação. – Ela começa a passar o esmalte na outra mão.

– Sua educação me comove mas infelizmente seu pai já pagou por sua hospedagem e suas malas já estão no quarto, os Bathory revirariam em seus túmulos se eu não lhe desse as boas vindas inesquecíveis pelas quais somos conhecidos em minha própria casa. – Mina pousa as mãos em seu colo. – Não são todos que recebem a honra de passarem as noites aqui, sugiro que aprecie meu humor caridoso.

Lissandra para de passar o esmalte no meio do caminho e levanta os olhos para Mina com hostilidade.

– Não preciso de caridade, sou tão rica quanto você senhorita Bathory.

Janel olhava de uma para a outra aflita, o clima estava tenso, especialmente quando as duas podiam falir a empresa uma da outra por puro prazer se assim desejassem. Quase podia ouvir o som de jatos sobrevoando a mansão e descarregando bombas “sem querer” no meio da noite.

– Língua afiada não? – Mina lhe dirige um falso sorriso. – Mas não há nada que eu queira de você, a menos é claro que você consiga fazer todos os homens desaparecerem da face da Terra sem maiores problemas judiciais, nesse caso eu teria um favor pra lhe pedir.

– Vamos logo ao assunto, o que quer do banco de minha família? – Lissandra passa um braço ao redor do sofá adquirindo uma pose mais relaxada.

– Planejava deixar essa conversa pra depois do jantar, mas já que você quer saber... Desejo ter sua influencia na Suíça para garantir o meu comercio de diamantes no país. Sua amizade me garantirá isso.

– Ou seja, quer que eu limpe a sujeira que você fazer como parte de uma aliança. Quer poder dizer “Eu sou amiga dos Monado e eles te colocam atrás das grades se não fazer o que eu digo.” Desculpe, pessoa errada. Não pretendo te ajudar nessas ligações ilícitas e mesmo que quisesse eu não perderia meu tempo com isso.

– Errado, já tenho meus meios de dobrar alguém sem recorrer a toda essa burocracia, uma amizade já é o bastante pra você me oferecer.

Lissandra tira o braço ao redor do sofá e se senta de um modo comportado, levando um dedo para cobrir os lábios enquanto muda para uma expressão tímida e envergonhada.

– Puxa Mina, eu não sabia que queria algo assim... – Ela olha de relance para a ruiva com timidez e o rosto corado. – E pensar que você queria uma amizade colorida comigo, assim eu fico envergonhada, mas eu posso me esforçar.

Janel levanta os ombros assustada com a interpretação que a albina levou e dá um passo a frente para desfazer o mal entendido.

– Mina não quer dizer isso, ela só quer que vocês sejam amigas. Ahn... Só amigas entende? Sem nada a acrescentar.

– Então ela não tem interesse em mulheres? Mesmo com uma empregada andando de lingerie pela casa e que a chama de Mina em vez de Senhorita? – Lissandra direciona seu olhar para a mulher com uma afiada perspicácia. – E ela mesma não disse a poucos minutos que gostaria de fazer todos os homens sumirem da face da Terra? Uma empregada que se apresenta semi-nua na frente de uma visitante não me passa muita convicção.

– Não!... é que... ahn...

Mina solta risinhos.

– Venha comigo senhorita Monado eu vou lhe apresentar minha casa. – A ruiva se oferece levantando-se e se pondo a andar.

– Obrigada. – Lissandra se levanta dando um sorriso sarcástico para a empregada antes de acompanhá-la. – Estou só brincando, relaxe.

Janel ficou lá observando elas se afastarem. Ainda tentando encontrar o que dizer para rebater o argumento da albina, vendo-a acariciar um relógio de bolso com ar distraído enquanto seguia Mina pelos corredores da mansão.

~ ❖ ~

Após tragar uma dose do cigarro e demoradamente soprar a fumaça por sua boca fazendo círculos no ar, o homem fixa seus olhos na mulher ajoelhada a sua frente com um olhar entediado de quem já viu essa cena varias vezes.

– Por favor. – Ela pede sem levantar a cabeça.

O homem apóia o rosto em uma mão e apaga o cigarro no cinzeiro, suspirando em desaprovação.

– Pela sétima vez... e eu estou contando, eu não sei onde ela está.

– Mas pode descobrir não pode? – A mulher diz levantando a cabeça. – Você é minha ultima esperança, seus contatos no mercado negro podem achá-la rapidinho.

Ele olha para a mulher e intimidada ela abaixa a cabeça novamente. Bek de Nille tinha a pele morena comum aos mestiços, em seu braço esquerdo havia a tatuagem de um dragão chinês, a “coroa” da corporação, que serpenteava por sua pele marcando território e seus olhos dourados imitavam a concentração de tal dragão. A mulher olhava de esguelha do dragão para os olhos dele e quase conseguia encontrar semelhanças entre os dois.

Bek tinha o controle de todo o sistema de narcotráfico da Ásia e boa parte do Oriente Médio, ela não estava exagerando quando dizia que ele tinha muitos contatos no mercado negro, afinal ele comandava o mercado negro.

– Você mesma não disse que seu bichinho de estimação ainda deve estar no Egito? Sem passaporte ou documentos ela só poderia sair clandestinamente e se isso acontecesse eu saberia. Mas pela sétima vez, não tenho nenhuma informação da saída dela Oritia.

Ele se levanta e caminha até a porta, abrindo-a e interrompendo o movimento que um homem estava prestes a iniciar para entrar no aposento. Pego de surpresa o homem trata logo de ajeitar sua postura e abrir passagem para o líder.

– Leve a senhora Oritia de volta para casa e a ensine a não desperdiçar o meu tempo. – Dito isso ele sai do aposento deixando o homem sozinho com a mulher.

Caminhando pelo corredor ele observa a paisagem fora da janela e nota como o sol está forte no Egito aquele dia, em algum lugar debaixo daquele mesmo sol devia haver uma escrava hibrida fugindo de sua dona obsessiva. Ele tira da manga a foto da fugitiva mais uma vez para observá-la. Era uma garota ruiva acorrentada a uma parede, tinha olhos dourados e garras de leão, na foto ela rosnava para a fotógrafa ameaçando dar o bote se a mulher desse mais um passo. Até ele fugiria de uma mulher como Oritia se estivesse na posição da menina.

Ao virar o corredor e guardar a foto, um homem passa a segui-lo lado a lado carregando uma prancheta com varias folhas. Nem precisava olhar para saber quem era. Hong, seu fiel e grudento cachorrinho.

Ocasionalmente Bek fazia uma boa ação, era tão raro que fazia-as uma vez por década. Hong foi sua boa ação do ano, um chinês que de tão descartável que era acabou lhe sendo útil. Conseguiu-o em Pequim. Ele não reclamava, fazia seu serviço obedientemente e quando a barra pesava ele colocava o rabo entre as pernas e fugia. Era covarde e ganancioso. Quando surgiu a proposta de ser seu secretário ele a agarrou com as duas mãos e deixou tudo pra trás sem pensar duas vezes. Se ele tinha irmãos ou uma família, nunca pareceu dar a menor importância. Não era o tipo de pessoa a qual confiaria sua vida, era apenas alguém fácil de manipular que lhe obedecia cegamente, o que lhe era útil.

Bek puxa um cigarro do bolso e o coloca na boca, vendo essa ação Hong prontamente tira um isqueiro do casaco e o acende oferecendo a chama. Bek encosta a ponta do cigarro no fogo e aspira uma dose da fumaça.

– Então? O que você quer?

– Nada, eu... ahn... Já reservei o seu quarto no hotel e separei os relatórios semanais dos pontos de produção e distribuição, querem que você leia e tome as decisões apropriadas.

Bek pega a prancheta e passa os olhos pelas folhas. Ao chegar em uma ele franze uma sobrancelha.

– Eles de novo...

O chinês estica o pescoço discretamente para ver o que prendeu a atenção dele, era a pagina que relatava a situação da expansão para o Ocidente. Não era de se espantar seu desgosto, o submundo agia na ilegalidade e havia sempre mudanças de cursos e problemas com grupos menores, mas desde sempre haviam dois grandes pólos que concentravam o poder. Os de Nille comandavam o Oriente, todo o narcotráfico estava no controle de suas mãos, pode-se dizer que eram como lideres da yakuza. Já o Ocidente era comandado pelos Ratzinger, trafico de órgãos, substâncias ilícitas e lavagem de dinheiro, eles eram como lideres da máfia. Um tentava invadir e ter controle sobre o território do outro, Máfia contra Yakuza, não era a toa terem rivalidades.

– Os irmãos Ratzinger são duros na queda. – Hong comenta.

Bek abre um quase invisível sorriso de canto. Sorriso esse que Hong costumava ver quando ele parecia apreciar a ideia de confusão.

– Será?

~ ❖ ~

Um homem amarrado por cordas de aço a uma cama se debatia com o corpo coberto por labaredas que dançavam enquanto consumiam sua pele. Suas roupas e os lençóis ardiam com as chamas, quanto mais ele se debatia mais feio e desfigurado seu corpo se tornava. Dois gêmeos (um menino e uma menina) assistiam ele queimar com as mãozinhas unidas. Eles não desviaram o olhar até mesmo quando o fogo desceu pela madeira da cama e se alastrou para o resto da casa. Com um puxão do menino, que sentia as chamas se aproximarem deles, a menina o seguiu para fora. Corpos jogados de qualquer jeito pelo corredor com os pescoços rasgados formavam poças de sangue que os gêmeos pisaram sem se importarem nem um pouco. Uma vez lá fora, ainda de mãozinhas dadas, as crianças olham para trás vendo a casa pegando fogo, a única luz naquela noite escura.

A sua frente, um ponto final para a história mal resolvida, e atrás deles um mundo enorme e desconhecido para desbravarem.

Niklaus abre seus olhos castanhos fitando o teto de seu quarto. Apesar de ter amanhecido lá fora seu quarto permanecia escuro, não que ele pudesse abrir as cortinas. Ele vira sua cabeça para o lado e encontra uma empregada adormecida em sua cama, os cabelos estavam soltos e uma gargantilha rendada cobria seu pescoço. Ele ajeita o cabelo atrás da orelha dela e esse mínimo movimento faz ela acordar, tão logo acorda já cora envergonhada ficando tímida na presença dele. Niklaus abre a gargantilha no pescoço dela e deixa o enfeite cair na cama, inclinando-se sobre seu pescoço e lambendo a jugular. A empregada solta um suspiro ao sentir a língua áspera acariciar sua pele e estica mais o pescoço querendo mais contato. As presas dele fincam em sua pele e ela ouve os sons molhados do seu sangue descendo pela garganta dele. Agarra suas costas, desejando poder fundir-se aquele corpo que lhe sugava com volúpia, porém para Niklaus ela era apenas o café da manhã.

A porta se abre e uma garota albina com vestido negro entra no aposento, acompanhada de outras duas empregadas.

– Finalmente acordou?

Niklaus retirou as presas da carne macia da empregada e lambeu lentamente o ferimento da mesma, como se o beijasse, isso enviou arrepios para o corpo da mulher e logo seu lugar foi substituído por outra que a empurrou para o lado e ofereceu seu pescoço, onde Niklaus logo fincou suas presas.

– Estou faminto. – Ele disse entre o intervalo.

– Era de se esperar, você está acabado. – A garota senta-se na beirada da cama e observa o irmão. – Fiquei te procurando a noite inteira, só quando voltamos é que te encontrei. Você estava um trapo, ficou brigando de novo com os animais de Erich?

– Não, eu conheci uma garota.

– Garota? – Uma pontada de ciúme passa pelo rosto dela. – Quem era?

– Não sei. Ela parecia uma Chihuahua latindo pra um Pit Bull, mas quando ataquei ela, ela virou um Rottweiler.

– Bem feito, tomou do próprio remédio.

Ele larga a empregada desacordada e se inclina para a ultima, que prende contra o colchão e finca suas presas em seu pescoço com violência fazendo-a ofegar.

Victoria Ratzinger observa seu irmão com encantamento, as presas dele entravam cada vez mais fundo na pele dela e os sons que seus lábios produziam lhe soavam obscenos. A mulher finca as unhas nas costas dele abrindo finos cortes pelo caminho que logo cicatrizavam, quando ele finalmente retira as presas de seu pescoço sua cabeça tomba para trás e seu braço amolece, ela estava morta.

– Eu gostava dessa. – Victoria faz um bico fingindo estar emburrada.

– Eu te compro outra.

– Não existe outra como ela. – A garota cruza os braços.

– Então compro uma melhor. – Ele a pega e a pousa no seu colo. – Uma partida de racha melhoraria o seu humor?

Victoria tenta permanecer séria, mas seu rosto lhe traí e seus lábios começam a se curvar para cima.

– Eu fico com o vermelho. – A garota diz topando.

– Você sempre fica com o vermelho. – Ele lhe sorri e se levanta, dirigindo-se até seu guarda-roupa.

– Mas só no crepúsculo, eu odeio o sol. – A garota diz se esparramando na cama dele. – Por ora devemos nos concentrar nos negócios.

Niklaus concorda vestindo um terno preto.

– Irmã, o que esteve fazendo ontem a noite?

– Como eu disse, te procurando.

O rosto dele aparece em frente ao seu. Seus cabelos negros encostam as pontas no rosto dela fazendo cócegas e cobrindo sua visão do aredor como uma cortina. Os olhos vermelhos da garota só conseguiam focalizar o rosto dele, cujos olhos castanhos brilhavam em divertimento e ele abria um sorriso presunçoso que imitava o vôo de um pássaro.

– Sem mentiras entre nós.

– Não é mentira.

– Se insistir eu vou ficar bem zangado. – Ele abre mais o sorriso. – O que fez ontem a noite enquanto eu não estava olhando?

Ela desvia o olhar e ele torna a centralizá-lo.

– Hum... O que será que eu fiz? He He. – Victoria se diverte. – Talvez sua irmãzinha Victoria tenha encontrado uma pessoa bem interessante e feito amor a noite toda.

O olhar cético que ele lhe lança não deixa duvida de que ele não acreditou. Em sua ultima viagem para a Tailândia, a albina conheceu um tatuador com quem fez amizade e antes de partir fez uma tatuagem no tornozelo com a frase “Ninguém irá me tocar a menos que eu permita”. Era um lembrete assim como a representação de todos os anos de tortura e assedio que ela passou nas mãos de seu sequestrador, que eles passaram nas mãos de seu sequestrador.

– Nem vem, sinto o cheiro daquela Chihuahua em você. – Ele roça o nariz na bochecha dela. – O que você queria com aquela louca?

– Niklaus, meu adorado e inocente irmão. – Ele levanta a sobrancelha ao ouvir “inocente”, desde quando ele ganhava esse adjetivo? – Você já ouviu falar do Flautista de Hamelin?

~ ❖ ~

Johan Earnshaw termina de assinar a ultima folha e observa uma flor presa numa redoma de vidro. Ela tinha pétalas fluorescentes que brilhavam quando o pólen se dispersava e um caule fino e escurecido. Uma brisa de ar fresca agita seus ondulados cabelos loiros e seus serenos olhos verde oliva vagam perdidos no tempo e espaço. Um click o desperta e ele vê um homem de jaleco branco e óculos entrar pela porta. Sem nem cumprimentar, o homem vai direto ao assunto.

– Mandou me chamar? Agradeceria se não mandasse uma pessoa que desmaia facilmente passar o recado da próxima vez.

– Ela tinha estomago forte, não são todos que permanecem calmos quando entram em seu laboratório. Senhor Tesla, podemos discutir sobre seu projeto Medb um instante?

– Que aspecto dele quer que eu explique? Os resultados das cobaias estão favorecendo minha teoria.

– Eu sei, estou inclinado a aceita-la. – Johan da uma batidinha na redoma.

O projeto Medb visava entender o complexo e intrincado processo dos sentimentos humanos. A pergunta chave do projeto era: De onde eles vinham? Eric Tesla tinha a teoria de que eles não passavam de substâncias bioquímicas produzidas no cérebro. Seus estudos com cobaias humanas o fizeram encontrar varias substâncias que estavam diretamente ligadas com os sentimentos. A Dopamina, por exemplo, era a substância responsável pela alegria. A alegria era causada por um neurotransmissor que liberava a dopamina, grandes quantidade produziam a euforia, como quando se comemora um gol ou vê-se a cena que esperou temporadas acontecer, mas para que o organismo não sofresse um colapso havia um outro neurotransmissor que diminuía a produção, ele liberava um analgésico natural chamado de Opióide, que controlava o nível da dopamina.

E Eric parou por aí? Não. O cientista investigou mais a fundo: o medo, a raiva, a tristeza, o nojo, a compaixão, o ciúme, a desconfiança, até chegar no seu atual objetivo: o amor.

– A planta serve apenas para estudar o comportamento humano quando induzido diretamente. Assim que conseguir uma cobaia mais sincera eu terei dados mais precisos.

–Não precisa mais disso. – Johan coloca um amontoado de folhas datilografadas em cima da mesa e o desliza para Eric. – Já fiz a experiência, não conseguirá relatório mais sincero.

O cientista olha o livro de folhas avulsas desconfiado.

– Eu não presenciei essa experiência. Quem foi a cobaia usada?

– Sempre desconfiado... – Johan sorri. – Permita-me explicar. A pedido de uma amiga eu dei algumas sementes para que ela usasse para diversão. De inicio achei que ela usaria em uma pessoa em especifico mas ela tinha uma “ideia melhor”. As coisas saíram do controle e tudo virou uma bagunça. Eu acabei envolvido e fiz um relatório para não ser uma experiência totalmente perdida.

Eric Tesla se aproxima da mesa e pega o documento folheando as paginas. Estava tudo ali, as sensações que Johan sentiu, as expressões que viu seus parceiros fazerem, até pensamentos que lhe passaram pela cabeça. Tudo detalhado e bem escrito.

– Sua sinceridade é mais clara do que vidro. – Eric folheia as paginas. – Já passou pela sua cabeça que eu posso acabar com sua vida usando isso?

Johan abre um sorriso debochado.

– Já.

Eric o encara com olhos rígidos durante um bom tempo, frio em sua análise. Ele fica em silêncio, assim como Johan que aguarda sua decisão.

– Usarei seu relatório, mas ainda pretendo fazer mais testes. Preciso conferir se há variação nos resultados. Algo mais a relatar? O que sentiu ao escrever sobre isso por exemplo?

– Não precisei sentir nada. Era destinado a você. – Johan se levanta. – Eric é tão frio e profissional em suas análises que não guarda julgamentos morais nem se recebesse documento desse tipo. Você é a pessoa perfeita para estudar qualquer tipo de coisa sem se deixar abalar, alguns empregados já estão comentando que você é algum tipo de robô.

– Seria um privilégio.

– Quando o projeto Medb acabar imagino que ficará entediado.

– Já tenho outros projetos em andamento. – Ele diz num tom glacial.

O cientista guarda o documento e sai sem dizer adeus. Enquanto anda as pessoas vão abrindo caminho evitando contato visual ao andarem com as cabeças abaixadas, Eric Tesla era um sujeito brilhante que sempre conseguia atingir resultados, mas era tão excêntrico e frio em suas experiências que nem parecia ter sangue nas veias. Muitos já até desistiram de tentar entender como a mente daquele homem funciona, era simplesmente uma tarefa impossível.

~ ❖ ~

Ólafur acorda ouvindo os sons de mecanismos e engrenagens funcionando. Ele estava cercado de máquinas, tubos a vapor e ferramentas, mas o barulho vinha de seu peito. Podia sentir seu coração mecânico pulsando e as engrenagens dele girando aceleradas. Desde que instalaram aquela máquina em seu peito ele vem acordando com esse barulho, o estranho objeto metalizado ocupava quase todo o lado esquerdo de seu peitoral, possuindo uma tranca, indicando que ali, uma chave se encaixaria. No entanto Ólafur não podia mexer nele.

O moreno se levanta sonolento e a primeira coisa que vê é a sua coleção de olhos em cima do encanamento embutido na parede. Havia algo de fascinante nos olhos das pessoas... a cor, o brilho... fazia-o se perguntar o quanto eles já viram. Uma vida inteira passa na frente dos seus olhos, cada imagem é primeiro refletida neles para chegar ao cérebro, colecionar olhos pra ele era como colecionar vidas, com o mistério de não se saber tudo o que já foi refletido naquelas esferas.

Ele caminha por entre as dezenas de canos se abaixando e desviando de vários. Sua governanta já havia lhe dito várias vezes que devia dormir em seu quarto, mas ele sentia-se mais confortável no porão, no meio de todas as máquinas e o som do vapor silvando por elas.

Ólafur boceja e enfim chega a sua mesa de trabalho, cheia de parafusos, porcas, ferramentas e sua nova máquina não terminada. Ele estende a mão para um espaço da mesa, mas interrompe o movimento antes de finalizá-lo. Ólafur sobe as escadas até o primeiro andar, onde abre a porta de um quarto e encontra uma mulher dormindo serenamente em uma cama. Da ultima vez não era um homem? Ólafur já teve tantos assistentes que já tinha perdido a conta há muito tempo, ele nunca guardava os nomes deles.

O homem se coloca perto da cama e a empurra para fora, a mulher cai e bate a cabeça no chão acordando assustada e desorientada.

– Ai! Que isso? – Ela olha em volta irritada até focalizar Ólafur. – Que que foi?

– Cadê a Bonnie? – Ele pergunta calmamente com a voz um tanto infantil. Se não parecesse tão vazio ela o confundiria com uma criança procurando pelo brinquedo.

– Bonnie? Que Bonnie? É um coelho? – A assistente atual nunca tinha visto ele com um coelho, mas parecia ser o nome de um coelho. O que custava perguntar?

– Não, cadê a Bonnie? – A voz dele começa a dar indícios de ficar irritada.

– Eu sei lá. Estava dormindo. Não conheço nenhuma Bonnie.

Tão rápido quanto veio, a irritação dele foi embora. Quando a assistente achou que ele ia insistir mais um pouco na história Ólafur virou as costas e saiu do quarto. Com o rosto ficando vermelho de irritação a mulher pega um travesseiro e tampa a cara, começando a gritar dentro dele para abafar o som.

Ao voltar para o porão, sua governanta tinha acabado de depositar o café da manhã na mesa, perto da bandeja estava uma chave inglesa que ela tinha achado num dos bolsos da calça dele quando foi lavá-la.

– Bonnie. – Ele esfrega a ferramenta na bochecha matando a saudade.

Todas as ferramentas de Ólafur tinham nomes. Ele nunca se lembrava no nome das pessoas com quem convivia, mas suas ferramentas eram tão queridas que mereciam parte de sua memória. Da mesma forma, sempre que ele pedia uma ferramenta para um assistente a chamava pelo apelido, fazendo o coitado nunca entender o que ele queria.

Ele come os pães de queijo que a governanta preparou sentindo a fumaça quente subindo quando os mordia.

Enquanto isso, a governanta encerava a mesa da cozinha limpando qualquer migalha que tivesse caído no móvel. Ao seu redor as demais empregadas executavam suas tarefas domésticas. Quando ela se vira para molhar o pano e voltar a encerar a mesa encontra um par de olhos escondidos atrás do móvel a encarando como olhos de um jacaré submerso.

– Bom dia. – Ela diz para Ólafur.

Sem sair de sua posição ele desliza um pratinho vazio pela mesa e olha para ela.

– Quero mais.

– Gostou né? É uma antiga receita de família. O segredo é... – Antes que ela terminasse de falar ele já tinha ido embora.

Já tinha até acostumado com isso, ele só era curioso com o que lhe interessava e se dava melhor com máquinas do que com pessoas. Era assim desde criança. Jenara costumava ser a babá de Ólafur quando ele ainda era um menino, quando o encontrou por acaso durante a entrevista de emprego quase não o reconheceu depois de tanto tempo. Ólafur a colocou como governanta por amizade aos anos em que ela cuidou dele enquanto sua mãe trabalhava, Jenara não podia pedir por emprego melhor, apesar do Ólafur de agora ter adquirido bastante bagagem com o passar dos anos.

O moreno suspira voltando para seu quarto/porão e se põe a trabalhar na nova máquina. Ela era semelhante a uma espinha de peixe metálica cheia de engrenagens e chips de memória, mas claro aquilo ainda era o esqueleto dela. Ele estava rosqueando um parafuso quando uma folha é atirada com violência em sua mesa.

– Ah, tchau tchau. – Ele diz.

– Você nem olhou direito. – Sua nova assistente fala irritada.

Ólafur revira os olhos e olha rapidamente para a folha, sabendo que era um pedido de demissão.

– Novamente: tchau tchau.

– Só isso? Não vai me pedir pra ficar? Não quer nem saber por que estou me demitindo?

– Não tenho interesse.

– Grrrr.

– Você é substituível, essa a realidade. – Ele para seu trabalho e olha para ela. – Não há peça que não possa ser substituída. As pessoas são como peças e máquinas, podem facilmente serem trocadas. – Ele abre uma gaveta e tira uma lista de dentro dela. – Veja, estes são seus substitutos.

A mulher pega a folha e confere uma longa lista de nomes e telefones impressos, havia pelo menos umas quinhentas pessoas para uma única vaga, tudo em letrinhas miúdas para caber na pagina. Ela não sabia que haviam tantas pessoas prontas para tomar o seu lugar, não daria nem tempo dele sentir sua falta.

– Pode pegar Edmond pra mim? – Ólafur estende sua mão na direção dela.

Distraída ela pega um prego e coloca na mão dele, o escocês arregala os olhos chocado como se tivesse sido picado por uma aranha venenosa, a expressão que ele faz até assusta ela.

– O que? Eu acertei?

– Como você me confunde o Fernand com o Edmond? Eles são inimigos mortais.

– Que? Agora suas peças também tem inimigos? Chega, eu não vou me arrepender. Se quer a porcaria de um prego então diga que quer um prego! – Ela sai batendo a porta com força.

– Eu quero um parafuso sua avoada. – Ele diz para o vento. Se esticando e pegando um parafuso francês na outra mesa.

Jenara logo vem com o outro prato de pães de queijo, suspirando desgostosa para Ólafur que sorri rapidinho para ela e volta ao trabalho.

– Eu vou chamar o próximo. – A mulher deposita o pratinho na mesa e pega a folha dos candidatos, se dirigindo para o próximo da lista.

Notas finais
Olá de novo. A pedido de uma leitora eu acabei pensando: Se os Artistas tem imagens no final do capitulo, por que os Vips também não? Então se preparem, minha mania de colocar as imagens nas notas finais vai voltar. Apesar de já ter a grade não vejo por que não colocar aqui também. Então lá vai, para os personagens que apareceram nesse capitulo: Adeline Grayford: http://data3.whicdn.com/images/22445064/large.png Narciso Díaz Rey Cruz: http://fc01.deviantart.net/fs70/f/2013/322/c/b/ai_mikaze_by_aimikaze01-d6uspeb.png Mina Klafke Bathory: http://angel-tears.bplaced.com/bilder/godchild/e4.jpg Lissandra Tristain Monado: http://asshiah.free.fr/galerie/couleur2/rochel2.jpg Bek de Nille: https://pp.vk.me/c621318/v621318404/1ae41/NzpKRa4urY8.jpg Niklaus Ratzinger: http://fc03.deviantart.net/fs70/f/2013/099/c/9/sebastian_michaelis_by_alex_claude_sebby-d611o6z.jpg Victoria Ratzinger: https://a2-images.myspacecdn.com/images04/6/d26b349731004a7c8e6c912989c34252/full.jpg Johan Earnshaw: http://nsae01.casimages.net/img/2014/09/12/140912111542419996.jpg Eric Tesla: http://img5q.duitang.com/uploads/item/201407/15/20140715120315_zzdGJ.thumb.700_0.jpeg Ólafur Sigríðursson: http://x3.cdn03.imgwykop.pl/c3201142/comment_AMVhAW1wK4yRM7vg7rN20REhBtJuxX6y.jpg