Dead Line Circus - Interativa

19 Canções antigas sopradas pelo tempo


Notas iniciais
Hello povo~ E aí? Tudo sussa na montanha russa? Este capitulo só vai apresentar um VIP dessa vez por que na hora de escrever o capitulo saiu um jorro de inspiração tão grande que acabei tendo que corta-lo um pouco. Até eu fiquei admirada, ele ficou maior que o de dez mil então tive que reduzir um pouco e deixar a outra parte para o próximo. O que quer dizer que dessa vez o próximo não vai demorar tanto. Quero agradecer a KyonLau por ter recomendado a fic. Na hora eu pensei "Ué, ela já não tinha comentado? Podia jurar que já respon-..." Aí eu abri o link e dei um grito de emoção. Acredita que eu confundi com um review? Fiquei ronronando igual um gato enquanto lia os "motivos para ler essa história" de sua recomendação.

“A música é um tipo de arte perfeita: nunca revela o seu último segredo.”

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Wei Sheng acorda quando um incomodo feixe de luz atinge os seus olhos. A primeira coisa que registra ao abri-los é a parede de madeira a qual estava encostado, a segunda coisa é o som de passos parando abruptamente. Ele ergue os olhos e encontra Magnus, com o susto seus sentidos despertam por completo e a sonolência inicial que tinha ao acordar dá lugar ao pânico. Magnus também parece atordoado, a expressão que Wei via era a de quem leva um choque ou se assusta ao perceber uma coisa que antes não estava ali.

– De todos os lugares... – Magnus diz parecendo não acreditar no que via.

Ao tentar se situar Wei percebe que seu kimono estava parcialmente aberto, deixando muito pouco para a imaginação, o chão ao seu redor estava sujo com um liquido branco assim como ele próprio. Sheng se encontrava sozinho, ainda podia sentir o calor humano que tanto do seu lado esquerdo quanto direito indicavam que não estivera até pouco tempo atrás e a pasta que Magnus segurava nas mãos, que Sheng se lembrou de ter visto o Imperador de Vidro deixando numa mesa, acabou fazendo-o corar ao se lembrar de tudo o que tinha acontecido durante a noite.

– De todos os lugares para esse tipo de coisa... – Magnus torna a repetir.

– Eu posso explicar – Sheng diz num fio de voz. – Eu só queria me esconder, mas no meio da noite-...

– Cale-se.

O olhar que Magnus lhe lança é tão frio que Sheng se arrepia. Ele parecia estar pensando, pensando seriamente no que fazer e quando parece decidir volta a ficar sério.

– Qual é o seu nome?

– Wei Sheng, senhor.

Sheng suspira acalmando o coração, o mais importante era sempre manter a calma. Ele ajeita seu kimono o melhor que pode e junta suas mãos escondidas pelas mangas vermelhas do traje, escondendo sua cabeça atrás delas e prestando uma reverencia formal.

– Aceitarei qualquer punição – diz com uma voz serena, que transmite toda a tranquilidade presente em sua alma.

– Oh, é mesmo? – Magnus o levanta pela nuca e o carrega até a porta como um filhote que por acaso achou vagabundeando por aí – Amanhã eu quero que volte para minha Casa de Chás e receba o castigo por sua “pequena aventura”. Se você não vier aqui eu o acharei – Magnus o joga porta a fora sem qualquer delicadeza como faria com um saco de lixo. – Chame a Arisu e ao menos até o fim desse dia eu não colocarei um dedo em você.

Magnus olha de novo para ele e fecha a porta atrás de si. Se o mordomo não estivesse ocupado naquele momento cuidando dos empregados desobedientes e preparando o terreno para os Comuns, ele não exitaria em ensinar a Sheng uma ou duas “lições” a seu respeito, mas como Sheng estava com sorte seu castigo teria que ser adiado. Magnus era um homem ocupado.

Sheng solta a respiração, percebendo só naquele momento que tinha parado de respirar. O chinês sente uma sombra cobrir a luz do sol que batia em sua cabeça e levanta o olhar percebendo a presença de duas pessoas que estavam o observando. Eram os gêmeos Vasiliev, que o olhavam com curiosidade até abrirem sorrisos maliciosos.

– O que foi que você fez lá dentro? – Nikon pergunta abrindo ainda mais o seu sorriso. Seu cabelo loiro se agita com o vento fazendo Sheng estranhá-lo por um momento.

Leopold, ao lado do primeiro, estende a mão e o ajuda a se levantar.

– Tem gente que gosta de sentir o perigo de ser descoberto, mas acho que você passou um pouco do limite – Leopold dá uma batidinha no ombro dele. – Como está se sentindo no momento?

– Meu corpo dói – Wei reclama mais para si mesmo do que para responder a eles.

Os gêmeos movem a cabeça entendendo, fazia mais sentido para eles do que para Sheng.

– Tudo bem, é normal no começo. Até você se acostumar leva um tempo – Leopold aconselha. – Você vai se sentir melhor depois de um banho, isso eu garanto.

– E também temos uma mistureba de ervas pra sua dor – Nikon sacode um ramo de ervas para exibi-los a Sheng. – Pelo menos eu acho que é pra dor.

– De onde saiu isso?

– Seryu – Nikon responde dando de ombros. – Antes dela entrar para o banho a cartomante pediu para esperarmos uma pessoa na frente da Casa de Chás. Já que você é a única “criança que aguarda o castigo” que estamos vendo, só consigo pensar que é pra você.

Sheng suspira e se põe a andar. Os gêmeos o seguem com sorrisos divertidos. Coincidentemente a primeira coisa que Sheng queria era mesmo um banho, estava sujo, cansado e sentia-se como um prisioneiro que acaba de receber sua sentença de morte.

Sheng chega as salas de banho e vê um grupo de mulheres saindo por uma porta, avista Arisu e vai até ela dar-lhe o recado de Magnus.

– Eu? O que ele quer comigo? – Arisu pergunta irritada.

A Arisu que via era diferente da que conhecia. Primeiro por que tinha olhos vermelho sangue, segundo por que não parecia mais calma e avoada como antes. Essa era mais... agressiva.

– Sinto muito, eu também não sei. Só estou lhe chamando como ele pediu – Sheng se desculpa.

– Que seja. Tanto faz, vou ver o que ele quer – ela o abandona mal humorada.

Quando os gêmeos vêem Madame Sondhein saindo pela porta eles ficam em alerta e arrastam Sheng para a sala do banho masculino do outro lado. Se até eles perceberam como o chinês tinha passado a noite, a cortesã seria capaz de ter um ataque quando o visse. Já conseguiam imaginar ela capturando Sheng e o interrogando atrás de detalhes, o que por empatia eles quiseram evitar.

Sheng levanta uma sobrancelha confuso com a atitude deles, mas acaba por ignorar. Despe-se no vestiário e entra nos banhos.

A sala de banhos masculina era igual a feminina em todos os aspectos, escavações nas rochas cheias de água quente, uma fonte que mantinha as banheiras cheias e arquitetura meio romana e meio egípcia. A única diferença era que a água das mulheres era perfumada com perfumes diferentes das dos homens.

O chinês afunda na água quente e suspira aliviado. Ele não era o único ali, é claro, mas estava tão cansado que pouco se importou. Sheng lava os seus braços, seu corpo e seu cabelo, logo ele sente um dos gêmeos batendo o ramo de ervas em suas costas, no que ele olha intrigado sem entender.

– Nick, isso é uma simpatia ou o que? – o irmão pergunta entrando no banho logo depois do primeiro.

– Estou passando a tal da erva nele. Deve ser assim que se usa... Eu acho. A Seryu não parece meio bruxa?

– Por que você acha que deve bater nele com isso? Isso é um remédio, não um banho de sal grosso. Deve ser pra esfregar na pele – Leopold pega um raminho e esfrega ele na nuca de Sheng. – Será que tem que fazer uma pomada com isso ou sei lá o que?

– É de comer – O Mago fala afastado em um canto. Quando ele se pronuncia Sheng enfim percebe a presença dele, a figura escondida pelo vapor da água estava tão afastada que mal percebeu que ele estava ali.

Sheng agradece fechando os olhos e movendo a cabeça, no que o Mago retribui num cumprimento silencioso.

Nikon entrega as folhas para Sheng e ele coloca na boca começando a mastigar. Eram folhas bem amargas o que fez o chinês ficar aliviado, normalmente os remédios mais amargos é que resolviam o problema, se fosse doce e suave provavelmente gostaria mais como sobremesa do que como remédio.

– O que aconteceu com você?

Sheng tira os olhos do ramo de ervas e olha para Arman que subitamente tinha se aproximado dele. Com os cabelos soltos e molhados Arman parecia quase elegante, não tinha percebido antes que os cabelos dele eram tão longos, emolduravam muito bem seu rosto agora sem tapa-olho. Wei ficou encarando aquele olho agora descoberto, era roxo igual o outro, mas o deixava desconfortável. Parecia ter alguma coisa errada. Pra começo de conversa, por que ele usava um tapa-olho?

– Nada demais.

– Não me parece – Arman cruza os braços – Você vai interferir na apresentação?

– Não senhor. Eu estou bem.

– Mesmo? – Arman cerra os olhos desconfiado.

– Sim.

O acrobata perscrutou a expressão de Sheng durante mais um tempo esperando ele vacilar, mas o menor permaneceu irredutível. Sua expressão estava tão calma e vazia quanto qualquer dia tedioso poderia proporcionar.

– Que isso Arman? Não precisa ficar tão sério – Cain intervém na conversa – Não liga pra ele, Arman é sempre assim Shung. Sempre preocupado com sua trupe – Cain aperta a bochecha do arroxeado.

– Perdão, trupe? – Nikon pergunta interessado. Não era da sua conta, mas não queria ser deixado de fora da conversa.

Cain abre um sorriso arteiro.

– Quer saber um segredinho?

Arman afunda a cabeça do loiro na água, impedindo-o de contar. Os braços de Cain se debatem e Leopold olha espantado para a cena.

– Você vai matá-lo afogado!

– Se isso fosse o bastante – Arman reclama pra si mesmo.

Cain afunda na água e submerge afastado do alcance dos braços do acrobata.

– Malvado – ele ri e joga um pouco de água no amigo. – Se eu morrer o que será de você? Arman ficará triste e sozinho pensando: “Ah, se eu não tivesse matado o pobre Cain...”

– Pobre Cain o cacete, já era pra você estar só o pó a essa altura Tyrfing.

O sorriso de Cain morre e seu olhar fica obscuro. Tarde demais Arman percebe que disse algo que não devia.

– Retire o que disse.

– Me faça retirar – Arman abre um sorriso irônico. Mesmo sabendo que estava cutucando a ferida queria ver até onde o colega ia.

– Retire, Enforcado.

Arman arregala minimamente os olhos e seu sorriso também morre. Leva uma mão ao pescoço parecendo se lembrar de algo ruim e seus olhos vagam perdidos pelo espaço.

Os gêmeos olham de um para outro, Cain estava se aproximando e uma centelha de irritação parecia crescer em Arman. Os irmãos podiam sentir a atmosfera de uma briga se formando.

– Ei Wei, o acrobata é o seu professor. Pode me ajudar a me situar aqui? Estou boiando – Nikon cutuca Sheng perdido na conversa.

– Receio que eu também não esteja entendendo.

O Mago suspira em seu canto.

– E quanto a sua aluna? Onde está a Tzna que você deveria ensinar a atirar facas? – Arman pergunta.

– Morreu – Cain dá de ombros, pouco se importando. Sua raiva diminuira um pouco. – Não deu nem pra recuperar o corpo, virou comida dos mortos-vivos. Que azar. Não consegui o Michael, nem a Sultana... Você quer ser o próximo? Podemos dar um jeito nisso.

– Dispenso.

– E você também perdeu um não é? Um loirinho?

– Não fará falta.

Sheng não estava sabendo disso ainda. Aegeon morreu? Tzvetana também? Quando? Onde? Quem os matou?

– Isso é verdade? Aegeon-... – Sheng pergunta sem conseguir completar.

Arman olha para ele parecendo perceber que tinha se esquecido de quem estava ouvindo.

– Sim, ontem à noite, – ele confirma – por que a surpresa? Muitos tinham armas e permissão pra atirar, por que imaginou que ninguém morreria na brincadeira?

– Brincadeira? Muitos também não tinham armas. Eu mesmo não peguei nenhuma.

– Quem mandou demorar? – Cain ri – Se bem que nesse caso você pode ficar feliz por só morrerem duas pessoas que você conhecia, imagine se fosse mais?

– E aquelas pessoas sequestradas no começo? Quantas sobreviveram? – Nikon franze uma sobrancelha estranhando o número. Ouviu gritos demais para só duas pessoas morrerem.

Cain sorri e faz um “0” com os dedos. Zero.

– Não teria graça se não fosse assim – ele abre ainda mais o sorriso.

– Como você consegue dizer isso com essa cara relaxada? Isso não te afeta nem um pouco?

– Por que me afetaria? – Cain indaga confuso.

– Não é aqui que entra a compaixão pelo próximo?

– Como é que é? Pessoas morrem todos os dias em diferentes partes do mundo. Tem lugares que morrem até cinco por hora. Se eu ficar infeliz por todas essas pessoas que eu nem conheço como é que eu vou viver? Inclusive nesse exato momento em que estamos conversando alguém já deve ter morrido, quer chorar um pouco pela perda dos parentes? – Cain aperta a bochecha do loiro – Se forem desconhecidos por que se importar? Vai me dizer que você sente alguma coisa?

– Não é que eu não sinta nada. Eu só não preciso sentir o tempo todo, é diferente.

– Diferente como?

– Deixa pra lá. Você não entende.

– É claro que entendo. Sei onde quer chegar. Só estou me divertindo te rebatendo com verdades obvias. É divertido deixar alguém sem argumentos lógicos – Cain sorri. – Ah, por falar nisso, se eu morrer quero todo mundo aqui chorando. Não tem essa de “Ele não gostaria que você chorasse.” Quero sim, podem se debulhar em lágrimas e lamentar bastante. Saudades... de preferência não quero que sintam todo dia, isso só no comecinho, depois uma ou duas vezes por ano já ta de bom tamanho. Não sou exigente.

– Está mais fácil chover canivetes do que você morrer, Tyrfing. – Arman suspira desanimado.

– Quer recomeçar? – Cain nada até Arman e lhe desfere um belo soco no queixo.

O acrobata revida, é claro, e inicia-se assim uma briga. Querendo se afastar da zona perigosa, os três novatos nadam até o Mago que parecia relativamente seguro afastado.

– Eu estou confuso, Tir-não-sei-o-que é o verdadeiro nome de Cain? – Leopold pergunta para o mágico – Ou alguma espécie de palavrão?

– Não.

Leopold espera ele explicar, mas como parecia que ele tinha terminado ali decide insistir um pouco mais.

– Então é o que?

– É complicado – o Mago abre um sorriso sarcástico.

– Complicado como? – Nikon ajuda o irmão – Dê uma resposta bem completa, se não pegaremos no seu pé o dia inteiro.

Sheng espera o Mago responder, também interessado. O homem suspira parecendo desistir de ter seu momento de tranquilidade e abre um sorriso travesso em sua face.

– É um titulo de personagem. Cada historia tem certos personagens, que se não tiverem nomes ganham títulos imaginários. “A sereia”, “O vendedor de abóboras”, “O flautista dos ratos”, “a menina com tranças”, “o cara com chapéu” e assim em diante. Quando você se esquece do nome de alguém não costuma identificá-lo por alguma característica?Tipo... Eu esqueci seu nome, mas sei quem você é.

– E o que é Tyrfing? Parece-me mais um nome do que uma figura – Sheng pergunta.

– É uma espada. Uma espada amaldiçoada para ser mais especifico. – Ele se corrige – Era uma vez, o primeiro assassino e a primeira arma, Tyrfing é a primeira arma. Você já deve ter ouvido aquela musica infantil... – O Mago parece pensar um pouco – Ou será que ela já se perdeu no tempo?

– Cante um pedaço – Sheng pede com a voz calma.

– Ela deve ser antiga pra vocês. E minha voz não é muito boa pra cantar.

– Um pedacinho. Vai que a gente já conheça? – Leopold pede.

O mágico se põe a pensar na musica, tentando se lembrar da letra. Quando enfim ele começa a cantar os gêmeos se surpreendem com sua voz. Quem diria que o Mago tinha falsa modéstia?

Debaixo do carvalho

Onde o vento vive a soprar

Estava o menino

O primeiro a errar.

Uma pedra, uma enxada?

Qual foi a arma a usar?

Foi a pequena espada, a primeira a matar.

Tyrfing, não se esqueça

Tyrfing, desapareça.

Foi a temível Tyrfing

Que pegou sua cabeça.

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No alto da montanha

Sempre andando estará.

Que a maldição o siga

O tempo não o curará.

Chore... Se arrependa...

Nem a morte o levará

Foi a pequena Tyrfing a maldade libertar

Tyrfing, não se esqueça

Tyrfing, desapareça

Foi a temível Tyrfing

Que levou nossa cabeça.

– Só isso? Continua – Leopold pede empolgado.

– Acabou – O Mago volta a falar normalmente. – É uma musica só para as crianças brincarem, quando termina volta tudo do começo. Me admira que ela tenha sido esquecida sendo tão curta.

– Cain é o menino da música? – Sheng pergunta com seus olhos serenos perscrutando a expressão do moreno.

– Por que acha isso?

– Ele pareceu irritado por ser chamado de Tyrfing e a música menciona um menino.

– Talvez. Cain foi muitas coisas em sua vida, o primeiro assassino pode ser uma delas. Desde o começo ele é diferente de nós.

– Diferente de que forma? Ele não é humano? – Nikon pergunta.

– Humano... – o mágico parece pensar a respeito da palavra, do significado dela – Nenhum de nós é. Vocês também não são.

– Ahn? Que eu me lembre eu era humano da ultima vez que conferi. – Nikon olha para o irmão – Leo, eu ainda pareço com você ou já tem escamas crescendo em minha pele?

– Não é a isso que me refiro – O moreno balança a cabeça. – Na verdade acho que ninguém, tanto aqui dentro quanto lá fora, é humano. Segundo o dicionário “humano” é um individuo sensível à piedade e capaz de sentir compaixão. Aos poucos a humanidade foi perdendo essa definição tão simples. Mas no momento me refiro a enorme diferença entre as pessoas daqui e as de lá.

– Que diferença? – Leo pergunta.

– O tempo. O tempo aqui dentro é diferente do tempo lá fora. Cem anos corridos por aqui vão envelhecer seu corpo em apenas um ou dois meses. Não houve uma única vez, desde os tempos remotos, em que alguém morreu de velhice no circo, ninguém chegou a tanto.

– Impossível – Os gêmeos dizem juntos com expressões entediadas. – Todo mundo envelhece e morre, circo místico ou não. Se fosse assim vocês seriam mais velhos que múmias.

Wei também estava com dificuldade de acreditar naquilo. Tudo que viu lá dentro era estranho e difícil de explicar, mas algumas coisas já eram absurdas demais para se acreditar.

– Quantos anos você tem? – Sheng pergunta.

– Parei de contar a muito tempo...

– Você parece ter entre vinte e trinta anos – Sheng insiste querendo se agarrar a algo normal por ali.

– Pareço? Eu passei bastante tempo aqui, é natural que eu envelheça um pouco.

– Calma, calma, supondo que você seja tão velho quanto diz, o que é esquisito por que normalmente as pessoas costumam falar que são mais novas do que realmente são... – Leopold interrompe – supondo que todos aqui sejam imortais de sei lá quantos anos, em que o Cain é diferente de vocês?

– Enquanto nosso tempo corre lentamente, o de Cain está parado. Cain sofre de uma maldição diferente da nossa, o tempo dele já tinha parado antes mesmo do circo existir.

– Parece historia da carochinha.

– Parece não é? – O moreno abre um sorriso educado.

– Se você me dissesse que Magnus ou Michael eram tão imortais e antigos como você diz eu acreditaria, mas como é que aquilo-...

Leopold aponta para Cain, que ria enquanto jogava água e desferia golpes no companheiro de briga.

– Pode ser o "Senhor dos senhores" do circo?

– Senhor dos senhores? – o Mago segura um riso – Ele não é. Simples assim.

Leopold abriu a boca para perguntar mais, mas o Mago o calou antes que ele continuasse.

– Pense bem antes de fazer qualquer pergunta, pense se você quer mesmo saber isso. Muitas das respostas que vocês procuram não são as que realmente querem ouvir – dito isso ele sai de perto dos três e ruma em direção a briga. – Mas quando vocês vão terminar? Temos trabalho a fazer.

Por incrível que pareça eles param e olham para o Mago. Cain afrouxa sua chave de pescoço e dá um risinho debochado para o moreno.

– Nem vi que você estava aí.

~ ❖ ~

Ênia puxava Johanne por corredores labirínticos que pareciam todos iguais. Através dos olhos de Arachme a costureira conseguia ver que seus passos brilhavam no chão, mas não conseguia guardar o ritmo de cores ou a contagem de passos para uma nova surgir. Podia estar no meio de um corredor que seus passos mudavam de azuis para amarelos sem que ela entrasse em nada novo. Varias portas surgiam de forma aleatória em sua visão, umas redondas, outras triangulares, umas embutidas nas paredes e outras no chão, até portas que não davam pra lugar nenhum. Mesmo assim Ênia seguia por esse labirinto com uma calma anormal, Johanne já estava perdida aquela altura, só queria ver até onde a bailarina iria.

De repente, elas entram por uma porta oval que dava em um quarto vazio, Ênia bate três vezes numa parede e uma nova porta se abre.

– Nossa, essa estava bem escondida – Johanne comenta enquanto passava pela nova porta. Esperando encontrar algo novo do outro lado.

Essa dava em um corredor com mais dezenas de portas em sua extensão. Johanne até desanimou ao pensar que teria que passar por tudo aquilo de novo.

– Mais portas...

– É o que mais tem por aqui. Portas, corredores, flores e espelhos – Ênia diz. – A maioria trancada ou vazia. É um labirinto bem confuso.

Para comprovar o que ela dizia a dinamarquesa tenta abrir uma porta e descobre que ela estava mesmo trancada. Tal como Ênia disse.

– Você sabe o caminho de volta? Eu já estou perdida tem um tempinho. Minha memória é boa, mas quando tenho que decorar algo muito longo eu perco o fio da meada.

– Você voltará quando terminarmos.

– Que bom, quero terminar tudo ainda hoje – Johanne estica os braços se espreguiçando.

– Aqui.

Ênia para na frente de um buraco do tamanho de uma bola de tênis. Johanne arqueia uma sobrancelha olhando o buraquinho esperando uma explicação.

– Não me diga que esse é seu quarto... – Johanne olha para Ênia que continua com a mesma expressão – Você não vai fazer igual a Alice e me mandar beber algum troço pra passar numa portinha pequena vai?

Ênia ignora o comentário.

– Quero que você veja o que tem ali dentro.

– Quer que eu veja-... Espera aí! Nós não estávamos indo pro seu quarto?

– Não. Sinta-se livre para ir embora se não quiser me ajudar.

– Vou fazer isso mesmo – Johanne dá as costas para a garota que sem se abalar senta-se ao lado do buraco calmamente, colocando um relógio de bolso a sua frente. Aquilo cheirava a encrenca e Johanne não queria se meter em nenhum rolo.

Johanne volta pelo caminho que elas tinham seguido, quando chega ao corredor lá fora consegue atravessar mais três corredores sem se enganar, mas quando chegou ao quarto esqueceu-se qual cor tinha a seguir. Era roxo ou azul? Ela olha de um lado para o outro indecisa e percebe que já tinha esquecido qual a sequencia certa.

– Merda.

Johanne coloca Arachme em cima da cabeça e tenta escalar uma das paredes cheias de hera. Se visse o labirinto como um todo ficaria mais fácil achar a saída dele. Graças as suas mãos afiadas, conseguiu chegar no topo com apenas algumas folhas no cabelo e uns arranhões ocasionais.

Uma vez lá em cima ela olha em volta. O labirinto era extenso, ele continuava até onde a vista alcançava. Era como subir em um morro e olhar o mundo ao seu redor, o próprio horizonte era a continuação do labirinto.

– Não é possível, nós não andamos tanto assim – Johanne pega Arachme e mira os olhos dela para a faixa de muro em que pisava, caminhando com calma e equilíbrio para não cair pelas paredes do labirinto.

Sentia-se um gato de rua andando pelos becos em cima de muros em vez de entre eles. Achou-se muito esperta por um momento ao ter tido essa ideia. Ela avançou um pouco mais e então mirou Arachme ao redor para ver se já estava mais perto de alguma interrupção ou qualquer coisa que pudesse avistar a saída. O labirinto continuava o mesmo.

– Labirintos não são infinitos. Você veio pela entrada, então saia por ela – Johanne ordenou a si mesma.

A dinamarquesa continuou seguindo por cima do labirinto, sempre parando quando precisava olhar ao redor. Em certo momento ela até se assustou quando tropeçou num ramo do muro, mas por sorte conseguiu se segurar a tempo.

– Assim não dá, melhor voltar – Ela olha para trás. – Ah, é...

O labirinto parecia sempre o mesmo, estava perdida. Devagar ela volta pelo caminho que tinha seguido, sem lembrar ao certo as direções que tinha tomado. Estava tão concentrada em tentar se lembrar que caminho as duas tinham seguido que esqueceu de memorizar o caminho que estava tomando.

– Ênia – Ela chama. – Eu me rendo.

Johanne desce do muro e começa a procurar portas redondas, sempre chamando pelo nome da bailarina. Abre todas as portas redondas que vai encontrando pelo caminho, apesar da maioria delas estar trancada como a morena tinha dito. Quando se cansa de andar ela suspira derrotada e senta-se no sofá de uma sala redonda que só tinha ele e uma mesa cheia de revistas, como uma sala de espera para uma única pessoa. O sofá a engole como uma esponja e Johanne cai no chão duro e frio de um corredor no andar de baixo.

– Você demorou 25 minutos para perceber que esqueceu o caminho de volta? – Ênia pergunta fechando o relógio e se virando para Johanne.

– Na verdade menos, eu desisti um tempinho atrás e esqueci onde você estava – Johanne senta-se no chão. – Você sabe o caminho de volta, né? Tem certeza disso?

– Se eu não tivesse nem teria saído daqui. Podemos continuar?

– Ok. Já estou nessa mesmo – A costureira dá de ombros cansada. – Qual o seu interesse nesse buraco?

– Escute – Ênia leva uma mão ao ouvido.

Johanne fica em silêncio tentando ouvir algum som distante. Ela inclina sua cabeça para o buraco e se concentra. Podia ouvir o som de uma respiração bem longe, bem baixinha pela distancia.

– Tem alguém ali – Johanne sussurra. – Quem é?

Ênia pega uma pedrinha e joga dentro do buraco. Johanne fica esperando o som de quando ela atingir o chão, pelo tempo calculou que era um tunelzinho bem longo, quando escuta o som do impacto identifica um barulho de galhos se partindo vindo junto. Um depois do outro, como passos ou movimentos.

– O que tem ali?

– É isso que quero que você descubra.

– Eu? Como eu vou fazer isso? Sabia, você tem algum bolinho escrito “Coma-me” igual a Alice não tem?

– Não. De qualquer forma isso é só uma história infantil – Ênia se ajeita. – Qual a distância máxima que você pode ficar longe de seus olhos?

– Distância? Eu... eu... não sei, não parei pra pensar nisso.

– Você pode ver o que acontece em outros lugares sem estar presente?

– Também não testei isso – Johanne coça a bochecha envergonhada.

– Faltam-me dados – Ênia segura o queixo pensativa. – Não fará mal conhecermos um pouco seus limites. Vamos usar essa oportunidade para testá-los. Explique-me como você vê.

Johanne pega Arachme e a acaricia com a parte lisa dos dedos.

– Eu posso ver pelos olhos dela. Tudo é banhado por uma luz esverdeada, mas eu consigo distinguir cores e formas.

– Sua aranha tem seis olhos – Ênia observa o animal. – Qual a impressão de ver por todos eles?

– Hum... é meio largo... – Johanne tenta explicar – Eu vejo o que está na minha frente e do meu lado, também vejo o chão perfeitamente apesar de estar olhando pra cima. Isso é normal? Vocês vêem desse jeito também?

– Alguma possibilidade de você poder ver pelos olhos de outras?

– Ahn... Outras? Como assim?

Ênia pega a aranha de Johanne e a costureira vê a enorme mão dela se aproximando. Seu foco de visão muda e está olhando para si mesma novamente. Ela se remexe desconfortável, sempre que ajustava a visão para si mesma sentia-se outra pessoa, como se tivesse deixado o próprio corpo.

– Seus olhos estão ligados com os seis olhos deste aracnídeo, mas você pode ver apenas o que ele vê. E se em vez de uma, você tivesse seis aranhas? Se você as espalhasse pelo circo e pudesse ver o que cada uma vê em diferentes lugares, o que acha disso?

– Confuso. Já acho estranho ver pelos olhos de Arachme, agora ver pelos olhos de varias outras aranhas é uma história totalmente diferente.

– É só uma hipótese. Não tem como confirmá-la, mas se fosse possível isso não seria interessante? Você saberia muitas coisas sem precisar mover um dedo.

Ênia inclina a aranha para dentro do buraco e Arachme desde lá pra baixo. A visão de Johanne desaparece e tudo fica escuro novamente. Por reflexo a costureira segura-se no chão tentando se ancorar em alguma coisa.

Ênia puxa um caderno e um lápis e os pousa no chão, apesar de Johanne não poder mais vê-la ela começa a desenhar linhas retas na folha. Anotando o caminho que tomavam.

– Descreva o que você estiver vendo para mim.

– Ahn... Eu estou vendo um túnel. Que acaba de se dividir em dois, estou entrando pela direita.

– O que tem na esquerda?

– Eu não sei – Ela dá de ombros tensa.

– Pode voltar e conferir?

Johanne inclina a cabeça para o lado confusa.

– Você pode controlar sua aranha, não pode? – Ênia pergunta.

– Não, eu não sei como fazer isso. Eu nunca adestrei Arachme, você já viu alguém adestrar uma aranha? Se eu bater nela com um pedaço de jornal ela morre. Cães e gatos são adestrados, não aranhas.

Ênia suspira.

– De fato, também não li livros sobre isso. Vamos ter que conferir depois. Perguntarei ao domador se existe algum método. Por ora apenas descreva o que vir.

Johanne leva uma mão a boca parecendo segurar um vomito.

– Eu estou comendo um inseto – Johanne faz uma cara enjoada. – Espera um pouquinho. Já, já, eu termino. A propósito, por que está me ajudando com isso? Eu nem tinha pensado nesses limites... Você sabe que se eu entender todas as minhas limitações eu posso te observar sem você saber, não sabe?

Ênia abre a boca para falar, mas muda de ideia e fecha de novo. Seu cérebro já tinha elaborado trinta e duas respostas diferentes, mas ficou em duvida de qual a melhor. Antes que pudesse responder Johanne grita assustada e tampa a boca temendo ser ouvida.

Ênia a observa indiferente, com o lápis pronto para rabiscar a folha.

A dinamarquesa estava vendo uma cena muito estranha. Monstros sem pele que eram só cartilagem e ossos dormiam aninhados uns com os outros. Alguns serviam de travesseiros para meninas de cabelos brancos como o trigo e camisolas de hospital. As pernas e os braços finos das meninas deu a Johanne a impressão de serem muito frágeis. Eram idênticas as meninas que tinha visto com Oliver quando foram a Caixa de Brinquedos junto de Arisu, mas essas meninas pareciam doentes. A que estava observando no momento tinha as pernas amputadas e respirava sofregamente enquanto dormia encostada no monstro. O bicho move sua cabeça durante o sono e esse movimento produz o som de um galho se quebrando, fazendo Arachme deslizar pra longe dali.

– Estou vendo meninas dormindo com monstros. Elas parecem doentes, precisamos chamar o Doutor – Johanne pede para Ênia que apenas rabisca em sua folha.

– Descreva-os.

– Ahn... As meninas tem cabelos brancos e olhos amarelos, todas vestem camisolas brancas de hospital. E os monstros... ahn... são monstros. Eles não tem pele, só carne e ossos, parecem humanos ao mesmo tempo que não parecem. Tem dentes pontudos e um monte de... de... coisinhas saindo da boca. Parecem camarões que alguém tentou enfiar na goela abaixo. O que será que aconteceu com as meninas? Antes elas não pareciam assim.

– Você já se encontrou com elas antes? – Ênia adquire um olhar perspicaz.

– Sim, uma vez, na Caixa de Brinquedos.

Arachme continua caminhando e Johanne vê cada vez mais meninas em situação igual ou pior que a primeira. Um grupo das mais saudáveis tinha se reunido em volta de uma das doentes, foi só um vislumbre, mas Johanne pensou ter visto o cabelo ruivo de Ivie no meio do grupo. Ela tentou virar a cabeça para olhar melhor, mas Arachme continuou seu caminho ignorando sua vontade.

– Acho que vi a malabarista de fogo lá embaixo.

– Ivie? O que ela está fazendo lá?

– Não vi direito. Estava no meio de um grupo de meninas, ah, estou vendo alguma coisa!

Arachme tinha parado de andar e os olhos de Johanne se fixaram em algo novo. Uma estatua de uma rainha. Os cabelos da figura eram tão longos que chegavam até os pés, a coroa estava inclinada de lado e ela estendia uma mão em frente ao rosto como se segurasse o cabo de alguma coisa; um martelo, uma varinha, um buquê, um espelho... mas apesar de ter o vão certinho ela não estava segurando nada. Parecia a espera de que alguém entregasse o que ela tinha perdido.

– Encontrei um enigma para você: O que a estátua de uma rainha estaria segurando?

Ênia pensa.

– Como está a mão dela?

– Fechada em torno de algo com formato parecido ao de um galho – Johanne abre um sorriso bobo. – É tão bom poder falar o formato das coisas agora que eu consigo vê-las. O mundo é mais colorido do que tinha imaginado.

Johanne sente uma mão pousar em cima de sua cabeça. Achou que Ênia estava lhe parabenizando e estranhou essa atitude vindo dela.

– Ênia?

A cabeça de Johanne vai de encontro ao chão com força e com apenas uma batida ela sente a visão se distanciar da luz esverdeada e ela desmaia.

Ênia olha espantada para Magnus enquanto ele puxa a Johanne desacordada pelas pernas. A bailarina se perguntava o que tinha deixado passar para ele a encontrar ali, tinha certeza de ter pego o caminho mais longo e confirmado que Magnus estava ocupado pelas próximas duas horas em tarefas fora de seu labirinto. Tinha certeza de que ainda sobrava tempo até ele descer ali, mas por que ele tinha aparecido de repente fora de seus cálculos?

O mordomo olha para ela por um momento e Ênia sente que será a próxima, mas Magnus parece lhe ignorar e continua a arrastar Johanne para fora.

– Pra onde vai levá-la? – Ênia pergunta sem deixar nenhuma emoção passar pela voz.

– Por que quer saber?

– Tenho um assunto inacabado com ela.

– É questão de vida ou morte?

– Não.

– Poderá vê-la de novo em alguns dias – ele chega ao fim do corredor. – E Ênia...

Magnus olha seriamente do buraco para a garota.

– O que você está fazendo?

– Não é nada importante.

Magnus junta Johanne com três outros corpos desacordados lá fora. Ênia identifica imediatamente todos os empregados do circo. Ivan o cozinheiro, Callisto o quebra-galho, Arisu a mecânica e agora Johanne a costureira. Ele não pegou nenhum artista, apenas os empregados. O mordomo faz um gesto para que ela o acompanhe e Ênia vai para o lado dele, temerosa, uma vez fora dali Magnus fecha a porta redonda e se abaixa até ficar da altura da garota.

– Se tiver algo para me contar eu sugiro que diga agora.

– Não há nenhuma regra que diga que eu devo contar tudo a você – ela se defende.

– De fato, você pode fazer o que quiser desde que isso não prejudique o Mestre ou seu trabalho – O olhar dele fica rígido. – Você entendeu? Se você estiver prestes a prejudicar algum dos dois é melhor me falar antes que eu tome providencias.

Magnus pega os quatro empregados desacordados e continua seu caminho pelo labirinto. Ênia o segue, tanto por ele ter mandado como por querer que ele não desconfiasse de suas ultimas ações. Precisava manter Johanne de bico fechado.

~ ❖ ~

Debaixo de três grossos cobertores um garoto desenhava uma mulher de cabelos negros acompanhando um homem de cabelos dourados noite afora. Ele tinha os cabelos negros iguais os daquela mulher, mas ao contrario dela gostava de os prender em um rabo de cavalo. Seus olhos eram azuis turquesa, os quais ela costumava dizer que eram “Mais azuis que o próprio azul”. Ele tentou desenhar uma cidade ao redor da fuga dos dois, mas quando deu por si tinha desenhado novamente labaredas de fogo incendiando a tal cidade. Parou de desenhar antes que o fogo chegasse neles, não querendo machucar a fugitiva de seu desenho. Não se importava se o resto pegasse fogo, mas não queria que ela se queimasse.

Três batidinhas tímidas na porta e ela se abre. Uma mulher de óculos finos carregando vários livros didáticos entra temerosa abrindo só uma fresta da porta com medo de não ser bem vinda ali dentro. A mulher avista o garoto debaixo dos cobertores e arqueia uma sobrancelha intrigada.

– Você é o Elion?

– Que eu me lembre... – o garoto abre um sorriso animado – Sou desde que nasci.

A mulher entra mais aliviada. Ao menos no começo, não houve hostilidades.

– Eu sou Mariam. Sua nova professora – ela se apresenta esperando pela reação dele.

Ela parecia muito uma dona de casa. O corpo era fofo igual um bujão de gás e os cabelos eram curtos e encaracolados. Parecia um estereótipo da tia legal que faz biscoitos para seus sobrinhos. Até os óculos fininhos ela já tinha.

– Legal, bem vinda.

Elion pouco se importa, voltando para seu desenho.

– Você está... com febre? – a mulher pergunta olhando os cobertores.

– Não, é só a casa que está muito fria.

Mariam olha em volta. Parecia uma temperatura normal. Nem o ar condicionado estava ligado.

– Se você diz... – ela se aproxima sentando-se no chão ao lado dele.

A professora olha em volta para avaliar um pouco o quarto do seu novo aluno. Não havia móveis de nenhuma espécie, nem cama, nem guarda-roupa, nada. Elion estava deitado no chão de concreto polido como via os japoneses fazerem e a única decoração do quarto eram as folhas de desenhos pregadas nas paredes. Casas queimando, árvores queimando, animais queimando, pessoas pegando fogo e o que parecia ser o Senhor Karnal trancado dentro de um forno. A professora estranha e muito os desenhos, se fosse um psicólogo que visse aquilo já faria um exame rápido do garoto. Estranho também o quarto dele ser o único daquele jeito, quando foi recebida na casa tinha ficado encantada com os lustres de cristal, o sofá de couro e as mesinhas de centro que ia vendo. Os Karnal eram muito ricos, disso não tinha a menor duvida, mas por que o único filho dele estava num quarto que nem cama tinha?

– Então... ahn... O que está desenhando? – ela se inclina para a folha tentando puxar assunto.

Elion cheira o ar e olha surpreso para ela. O garoto sai de debaixo dos cobertores com uma expressão curiosa e rodeia a professora.

– Você fuma? – ele pergunta contendo um sorriso.

A professora arqueia uma sobrancelha incerta do que responder. E agora? Estava lidando com um viciado em drogas? Muitos filhinhos de papai se acabavam em drogas, fazia sentido.

– Estou com cheiro de cigarro? – ela pega o colarinho da blusa e cheira.

– Levemente – Elion abre ainda mais o sorriso, sentando-se de frente a ela.

A professora deixa o corpo rígido, pronta para se defender se ele a atacasse.

– Posso ver seu isqueiro? – ele pergunta com os olhos brilhando de ansiedade.

– Is-isqueiro?

– Se você fuma deve ter um isqueiro para acendê-los. Posso vê-lo um minutinho de nada? – ele se balança ansioso como uma criança a espera do presente.

A professora olha do aluno para os desenhos em chamas, dos desenhos, pro aluno. Ela teria que ser louca pra dar um isqueiro para ele.

– Eu... esqueci ele em casa, uma pena. Eu ando tão esquecida ultimamente – ela ri nervosa.

– Tudo bem, então eu uso esse que achei no seu bolso – ele mostra a caixinha prateada que surrupiou.

Elion abre a caixinha e aciona o mecanismo, vendo a chama se erguer como um passe de mágica. Passa os dedos pelo fogo, sentindo-os queimarem e retirando rapidamente. Elion gira a caixinha em vários ângulos, observando fascinado a chama alaranjada que dançava na palma de sua mão.

– Quando!? – a professora tateia o bolso sentindo o espaço vazio da caixinha escondida – Me devolve! – ela fala alarmada tentando pegar o isqueiro de volta.

Elion se desvia dela e caminha pelo quarto com o isqueiro aceso fugindo da mulher que o perseguia. Ele se desvencilha com facilidade dela, sem tirar os olhos do fogo.

– Quando se inclina pro lado não parece que tem uma bundinha? – Elion fala rindo – É que nem uma bailarina que só mexe o quadril.

– Para de brincadeira, isso é perigoso.

Brincar com fogo era um perigo, todo mundo sabia disso, mas a professora estava mais preocupada com o isqueiro nas mãos dele do que com o fogo em si.

Elion faz caretas enquanto fugia da mulher, deixando-a cada vez mais irritada e ansiosa. Depois de dez minutos a professora enfim consegue pegá-lo e arranca o isqueiro da mão dele. O moreno olha surpreso para a mão vazia e sombriamente ele observa a caixinha prateada na mão dela.

– SOCORRO! – Mariam grita sentindo seu sangue gelar, pressentindo que ele iria atacá-la – SOCORRO!

Elion faz uma cara emburrada.

– Eu nem toquei em você ainda, você acha que eu sou o que? – Ele junta as mãos atrás das costas e anda ao redor dela, tentando tranquilizá-la, mas só deixando-a mais apavorada ainda – Eu só estava brincando. Se bem que se você quiser me dar o isqueiro eu não acharia ruim não. Nós nos tornaríamos bons amigos.

A professora aperta a caixinha com as duas mãos, olhando de esguelha para o desenho de uma mulher pegando fogo.

– Eu te darei com a permissão de seu pai – ela fala tentando ganhar tempo.

Elion fecha a cara.

– Quem você acha que me proibiu de chegar perto do fogo? – ele se arrepia quando uma brisa entra pela janela e volta pra debaixo dos cobertores tremendo – Que casa fria.

– Por que não compram um aquecedor?

– Por que não vai dar uma volta na lua? – ele se enrola nos cobertores como um caracol dentro da concha – Ah, quentinho.

Uma batida na porta e um homem com chapéu de palha entra temeroso da reação. Ele olha para a mulher e depois para o garoto enrolado igual um rolinho primavera.

– Tudo bem aqui? Eu ouvi gritos – o homem pergunta.

– Que demora! E se eu tivesse morrido?

– Desculpe dona, esse quarto é bem afastado, foi sorte eu ter ouvido enquanto cuidava do jardim.

Elion solta uma risadinha.

– Toma. Leva isso pra longe daqui – Mariam entrega o isqueiro para o jardineiro.

– MISERICÓRDIA! Quem deixou isso entrar aqui?

– Não importa, agora já tá tudo resolvido só... tira isso daqui.

O jardineiro pega a caixinha e se retira, deixando a porta aberta para o caso dela querer fugir se algo mais acontecesse. A professora olha de cara feia para o aluno.

– Quantas vezes você já pôs fogo em alguma coisa?

– Que exagero, eu só as incendiei uma vez – ele se defende. – Pelo menos por aqui.

Agora ela sabia por que não havia móveis em seu quarto. Nem nada que ele pudesse usar pra fazer fogo ou incendiar.

– Bem... se foi só uma vez... – ela relaxa colocando uma mão na cintura. – O que você incendiou?

Elion faz um circulo no ar com o dedo. Mariam não entende.

– Uma... roda?

– Não – ele torna a fazer o circulo.

– Uma bola? O que?

– A casa inteira.

~ ❖ ~

1 e 2 desenhavam flores de renda com um pincel na pele de Liadan quando o irmão dela aparece. As siamesas olham para ele por um momento e decidem ignorá-lo enquanto continuam seu trabalho. Liadan permanecia parada no colo delas, todas as aberrações do jardim tinham as rendas em alguma parte do corpo e ela tinha achado aquele toque bonito, quando chegou sua vez não se importou muito de fazê-las. Não doía e era bonitinho.

– Faz ideia do quanto a procurei ontem a noite irmã? – Ciaran fala com um tom calmo de censura.

A zumbi baixa os olhos sem mover a cabeça para não borrar o desenho. Mexe levemente a perna sentindo a lâmina escondida que Cain lhe deu e aperta os lábios sentindo o coração se apertar.

Ciaran senta-se ao seu lado abrindo aquele sorriso de quem diz que está brincando e se desculpa por censurá-la. Ele beija levemente o topo de sua cabeça torta e pega uma de suas mãos. No momento que as pega Ciaran arregala minimamente os olhos, notando filetes na pele de sua irmã. Vários cortes cinzentos que nem vermelhos estavam por não haver mais sangue correndo pelos pulsos dela. Liadan é quem os fez em si própria, arranhando com as unhas até a pele se abrir e continuar arranhando mesmo depois disso, toda vez que pensava no fato de ter aceitado uma faca para matar o seu irmão ela se sentia culpada e começava a se cortar para diminuir a tensão. Ela tremia e chorava com a dor, pois mesmo depois de morta ainda sentia dor e ver o seu corpo continuar a apodrecer enquanto tinha voltado a vida só a deixava cada vez mais desesperada. Chegaria uma hora em que ficaria tão horrível que ninguém mais chegaria nem perto dela e ao pensar em Ciaran a olhando com nojo enchia-se de uma urgência tão grande que ela pegava novamente a faca decidida a matá-lo, mas no momento que a segurava tornava a se sentir culpada e a se arranhar por ter sequer pensado naquilo.

A franja de Ciaran cai em seus olhos e a irmã não vê que sentimento se refletia em seu olhar, temendo ser negativo ela puxa suas mãos das dele e as esconde de sua visão.

1 e 2 terminam sua obra de arte e Liadan se escora nelas para poder ficar de pé. Suas pernas ainda tremem um pouco, mas agora ela já consegue andar pra qualquer lugar sem precisar de ajuda. Ela usa suas mãos pra levantar a franja de Ciaran para cima e se surpreende ao encontrar um olhar culpado por trás delas. Tinha olhado tanto apenas para seu próprio lado que não tinha percebido que Ciaran também estava sofrendo, era doloroso ver aquele olhar. Culpa, sofrimento e tristeza estampados em seus belos olhos azuis, que Ciaran tratou de esconder tão logo ela percebeu.

– Noto que o anel que lhe dei não está mais em seu dedo, você o guardou para não perdê-lo de vista? – Ciaran fala mansamente abrindo um sorriso, tentando a todo custo não demonstrar sua culpa por deixá-la naquele estado.

Liadan leva as mãos ao pescoço e puxa uma fitinha de cetim que segurava o anel.

– Bem escondido. Brilhante de sua parte, ninguém o procurará aí.

Liadan relaxa sentindo o clima leve, mas não consegue esquecer o olhar que ele escondeu dela. Queria animá-lo, nem que fosse só um pouco. Ela anda um pouco para fora e tropeça numa pedra, antes de cair ele a segura pela cintura.

– Devagar – a voz rouca de Ciaran é quase uma canção para seus ouvidos. – Eu não vou a lugar nenhum, não tenha pressa por favor.

Liadan anda com mais cuidado a partir daí, se dirigindo a estátua de um anjo redentor em cima de uma lápide. As donas do Jardim de Monstros haviam lhe dito que as lápides eram meras decorações para o jardim e não havia mortos enterrados embaixo delas. Segundo as siamesas os corpos ficavam num lugar chamado “Abismo” e todos pareciam concordar com elas, Liadan também aceitou aquele fato, sentiu que não era mentira e elas não teriam motivo para mentir sobre aquilo, não era como se Liadan fosse cavar as sepulturas quando ela própria havia saído de uma.

Todo o jardim parecia uma espécie de cemitério no meio de uma floresta. Lúgubre e selvagem. Lápides de pedra misturadas à vegetação. A irlandesa já havia visto varias imagens de plantas nos livros que Ciaran lhe entregava, mas não havia uma única planta que reconhecia no jardim. Sentia-se vendo a floresta de um planeta alienígena e isso aguçava sua criatividade em dar nomes para as plantas.

Quando chega ao anjo redentor percebe que já havia alguém ali, o que a deixa decepcionada, mas ela não demonstra. Seu rosto era sempre uma máscara pacifica, era difícil expressar suas emoções através de expressões faciais, seu interior poderia estar tumultuado, mas sua expressão sempre permanecia a mesma.

Era Alma, que balançava as pernas sentada na lápide enquanto batia um dedo na capa de um livro com impaciência.

– Que ironia o destino nos prega. Encontrarmos uma alma errante em um cemitério mal assombrado – Ciaran diz escondendo um sorriso.

Alma leva um susto e protege o livro contra o peito. Ao perceber que era Ciaran e a irmã fica em duvida se deve ou não relaxar.

– É este o novo figurino que lhe ditaram?

O vestido que V e D tinham encomendado estava finalmente pronto. Alma salta da lápide para exibi-lo. A saia parecia uma abóbora, uma abóbora com tentáculos de água viva, o busto era cheio de pedrinhas coloridas e brilhantes com diferentes formatos (flores, corações, borboletas e espirais), as mangas ficavam folgadas em seus braços dando um ar bufante de ondas. Era um vestido bem colorido e alegre, mas quando Alma puxava um dos tentáculos a abóbora muchava e dava lugar a outro tecido fosco e sem brilho, preto e com rasgos nas pontas, a pele laranja da abóbora subia para o busto e virava do avesso, dando lugar a um novo arranjo cinzento, com correntes ziguezagueando como os cordões de um corpete e suas mangas bufantes davam lugar a mangas listradas de preto e cinza de uma blusa. Um truque de mágica bem simples para se ter dois vestidos em um.

Alma se exibe orgulhosa como se ela própria o tivesse feito, mas os olhos de Liadan estavam fixados em seu livro. Liadan amava ler, mais do que qualquer outra atividade, e fazia um longo tempo que não tinha um único livro em suas mãos, observar uma pessoa lendo um livro na sua frente aguçou sua curiosidade em querer saber o titulo. Seu pescoço já estava naturalmente inclinado, mas mesmo assim ela não conseguia ver nenhum nome. Na capa o crânio de uma coruja fundido no couro negro, várias faixas selando as páginas dos livros e o buraco de uma fechadura sem cadeado. Era um livro muito curioso, do tipo que se quer pegar nas mãos ao menos uma vez pra ver que mistérios ele escondia.

Não aguentando de ansiedade a albina estende uma mão na direção do livro pedindo emprestado por um momento. Alma o esconde atrás das costas desconfiada e coloca sua máscara de pierrot no rosto para não demonstrar suas expressões.

– Você o deseja, minha doce irmã? – Ciaran pergunta vendo a reação da menor.

Um olhar de Liadan é o que lhe basta para ele entender o seu pedido. Seria muito fácil roubar dela, ele até poderia pegar sem que ela nem percebesse que o perdeu, mas não querendo mostrar isso na frente da irmã decidiu ser pacifista ao menos uma vez.

– Alma, poderia emprestar-nos esse livro por um momento? Gostaria de ler uma ou duas histórias desse misterioso volume que carrega.

Alma olha em volta tornando a bater os dedos no livro ansiosa. Callisto estava demorando. Ela olha para Ciaran pensando se deveria deixá-lo ler no lugar de Callisto, fixa seus olhos no rosto do albino perscrutando cada linha atrás de alguma falha ou deslize. De tanto olhar para o rosto dele se pega suspirando apaixonada. Ciaran tinha o rosto mais belo que o de um modelo. Tentando retornar imediatamente a razão. Alma imita uma arma com as mãos e faz um gesto explicando que ia revistá-lo. Ele permite e a garota perscruta seus bolsos atrás de qualquer arma que ele pudesse usar contra ela para pegar o livro e fugir. Só o que encontrou foram curativos e um baralho de cartas, nada potencialmente perigoso. Ao menos era o que ela achava.

A pierrot entrega o livro para Ciaran satisfeita e ele e a irmã se sentam embaixo do anjo de pedra. Ciaran inclina o livro para a albina e decepcionada ela percebe que não conseguia lê-lo, a posição de sua cabeça dificultava a leitura. Nem quando ela inclinou o livro de lado conseguiu se focalizar nas palavras tortas.

Alma se aconchegou do outro lado dele como qualquer garota esperta faria em sua situação, não era todo dia que uma oportunidade assim surgia.

Ciaran passa os olhos pelas folhas rabiscadas de vermelho com marcação deveras misteriosa e deixa que sua irmã escolha a história. Ela escolhe uma aleatoriamente já que não conseguiria lê-la de qualquer jeito, ao menos o som da voz de seu irmão faria o devido trabalho ao transportá-la para dentro das páginas.

– “Era uma vez um pequeno pássaro vermelho com asas de tesoura. Na árvore em que seu bando vivia os outros passarinhos cegavam suas lâminas na casca da árvore para perderem o fio da lâmina e viverem em harmonia. O bando só vivia com ele mesmo, sendo proibido o aproximar dos outros animais. O único com que eles conviviam de fora do bando era um grande hipopótamo que dividia suas frutinhas com os que tinham as lâminas mais cegas e para esse privilégio, eles sempre tinham pressa em perderem o seu fio.

O passarinho achava suas asas afiadas muito bonitas e seu espírito aventureiro o impedia de querer ficar só com o hipopótamo obeso e covarde. Ele queria um amigo só dele e de mais ninguém. Logo depois que aprendeu a voar o passarinho saiu da arvore em sua primeira aventura.

Seu primeiro alvo foi um grande São Bernardo que protegia um arbusto de amoras. Querendo começar a amizade o passarinho lhe deu um abraço bem forte que sem querer cortou a garganta de seu amigo peludo. Seu segundo alvo foi um gafanhoto que teve sua cintura cortada em duas. Do terceiro em diante todos tiveram o mesmo fim, um abraço era o que bastava para eles não se verem nunca mais.

O passarinho vermelho ficou intrigado com o avanço de suas asas depois dessas desastrosas tentativas. Quanto mais cortava, mais afiadas ficavam, ele sentiu que a espécie dele estava destinada aquela evolução. Por que dividir se eles podiam ter tudo de uma vez?

Ao voltar para seu ninho e apresentar a descoberta aos seus pais, toda o bando concordou que ele devia ponderar sobre o que tinha feito e cegar suas asas antes que o hipopótamo descobrisse. Ele ficou trancadinho no ninho isolado até aprender o quanto a harmonia era importante. O que eles não sabiam é que o passarinho conseguia afiar suas asas mesmo quando ainda estava preso e suas asas mais vermelhas que as outras pareciam irradiar intenções para sua cabecinha.

De vez em quando ele saia para tomar sol e assustava a colônia ao abrir alguma coisa próxima da árvore, atraindo predadores. Seus pais lhe davam tudo o que ele queria para manterem-no afastado deles e entretido, mas quando o passarinho começou a atacar a própria colônia eles o prenderam definitivamente no ninho isolado.

Meses se passaram com o passarinho em silencio, até que o irmãozinho curioso sobre o membro da família trancafiado foi lhe fazer uma visita noturna para ver se a “doença” que tinham lhe dito já havia passado. Encontrou-o deitado como quem se ajeita para ir dormir. Aproximou-se e ouviu-o dizer:

“Veja se tem monstros embaixo da minha cama.”

Era como um filhotinho com medo do escuro. Para acalmá-lo o passarinho olhou embaixo da cama e viu outro dele ali embaixo, assustado, lhe sussurrando:

“Tem alguém na minha cama.”

As asas vermelhas e afiadas se abriram gloriosamente enquanto o passarinho vermelho abria um sorriso. O irmãozinho tentou fugir voando quando percebeu que o ultimo sopro de controle tinha sumido embaixo das asas do primeiro, mas com um empurrão ele teve seu peito atravessado por um galho. O ar lhe faltou e ele não pode cantar o que tinha feito, não pode avisar a ninguém para fugir.” Aegeon. Três cabeças avoadas fazem qualquer coisa por um elogio.

Notas finais
Como só tem um VIP, só uma imagem. Elion Karnal: https://dataportdoll.files.wordpress.com/2014/03/wpid-noragami_12_04.png