"Esquecer de nossos erros e feridas não é o bastante para que eles desapareçam."

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Com uma lata de spray Yola desenhava o momento que Dean Nokav (personagem de seu livro favorito) encontrava o corpo da bela Dianne flutuando no rio. A garota com cabelos coloridos pichava as paredes do corredor de sua própria casa em cima de uma cadeira. Apesar de ter vinte anos ainda era baixinha, culpa dos genes de sua mãe já que o pai era bem alto.

Quando estava quase terminando ouve o som de um apito e apressa-se a guardar os sprays e correr para o mais longe possível da cena do crime. Tinha colocado suas amigas para vigiarem os corredores para dar tempo dela fugir quando alguém se aproximasse.

Yola abre a janela do segundo corredor e salta para o jardinzinho que dava para o bosque, ela se embrenha por entre as árvores e se esconde atrás do seu posto, longe o bastante para ninguém vê-la e perto o bastante para ela ver a reação de quem visse sua obra de arte. Ela fica em silêncio esperando, ansiosa e irritada por demorarem. De certo que fosse quem fosse estava guardando a bolsa, batendo papo com os empregados, tirando o sapato brega para colocar outro mais brega ainda e só depois se lembrar de passar pelo corredor. Não precisava ter se apressado, ainda dava pra fazer mais algumas folhas flutuando pelo rio com a Dianne visto toda aquela demora, mas agora já era tarde, se voltasse agora correria o risco de ser pega, não sabia mais quanto tempo enrolariam para descobri-la.

Por fim vê sua mãe entrando no corredor e se deparando com a pintura na parede. A mulher estaca assombrada e grita o nome de Yola pensando que ela estava na casa. Não era difícil adivinhar o autor do feito. Ela fecha a cara e pega seu celular discando para algum número de sua agenda telefônica.

Pela conversa que Yola ouviu provavelmente a mãe conversava com um pintor que cobriria sua obra de arte com uma camada de tinta, tão logo ela terminou de falar com o homem recebeu uma ligação de sua empresa e voltou a falar de trabalho. O jeito prático, rápido e simples que a mulher resolveu aquilo irritou Yola que esperava vê-la se descabelando ou caçando Yola que nem louca atrás de explicações.

Logo suas amigas se reuniram em seu posto.

– E então? O que ela achou? – perguntou uma delas.

– Dane-se – respondeu Yola mal humorada saindo do seu lugar.

A garota de cabelos coloridos dá a volta pela mansão e em seu caminho vê a casa da árvore abandonada ao longe. Quando era criança tinha sonhado em ter uma casa da árvore, seu pai prometeu lhe construir uma e os dois fizeram o projeto da casinha juntos a partir dos desenhos de Yola. Na hora de montá-la seu pai, o senhor Brisamkeit, martelou o piso de madeira até metade junto de Yola, que lhe trazia as tábuas e conversava com ele para passar o tempo, mas ao notar que estava torto, se enfezou, arrancou todos os pregos e contratou um marceneiro.

Yola tinha visto o homem trabalhar uma vez em sua oficina, mas nunca tinha conversado com ele. A casinha ficou pronta e perfeita, o marceneiro foi pago e o senhor Brisamkeit deixou Yola com o projeto como quem termina seu dever.

As janelinhas tinham dobradiças e vidro colorido, o chão era acarpetado para ela não se machucar, a casinha tinha dois andares e várias prateleiras pra ela pendurar suas coisas. Tudo estava simetricamente perfeito, melhor do que se eles próprios tivessem feito, mas quando Yola entrou nela, tudo o que fez foi sentar-se no chão e pensar no que faria dali pra frente. Tinha imaginado que quando a casinha ficasse pronta seu pai entraria com ela e os dois brincariam, mas não foi um projeto muito divertido. Se soubesse que seria assim teria preferido a casinha torta que eles estavam construindo do que aquela que conseguiram de um jeito tão prático.

Yola chega em seu quarto com suas amigas e se joga na cama, revirando-se de um lado para o outro amuada.

– Da próxima vez coloco uma lagartixa dentro da bolsa dela.

– Ela tem medo de lagartixa? – uma de suas amigas pergunta.

– Sei lá. Eu não gosto de lagartixa, fico sempre incomodada quando tem alguma no mesmo cômodo que eu. Hum... um sapo é melhor. Todos odeiam sapos, quero só ver a hora que ela enfiar a mão na bolsa e pegar aquele bicho nojento.

– Sapos são fofinhos.

– Ahn? Onde aquele troço é fofo? Eu odeio sapos – Yola se exalta.

– Aqueles olhinhos não são bonitinhos?

– Ahrg – Yola e suas amigas dizem juntas para a terceira.

– São muito nojentos. Eles tem aquela pele cor de vômito gosmenta, aquelas pernas esquisitas que dá nojo de olhar e quando eles incham o papo então... – uma das meninas diz tendo um calafrio ao imaginar – Se eu ver um sapo ou uma barata perto de mim eu grito.

– Barata é uma boa, mas como é muito pequena minha mãe pode abrir a bolsa e nem perceber que ela está ali. Eu continuo com o sapo – Yola afirma.

Atenção. Yola só queria um pouco de atenção, nem que fosse negativa. Da primeira vez que pintou os cabelos de roxo berinjela sua mãe pouco ligou pra seu novo visual, mas quando raspou toda a cabeça igual um monge aí sim conseguiu ouvir um berro. Demorou bastante pro seu cabelo crescer de novo, mas valeu a pena. Vê-la furiosa e desorientada foi impagável.

– Eu consegui ingressos pra filarmônica com meus pais. Vocês vem comigo? – uma das garotas pergunta.

– Musica clássica? Que chato.

– Eu sei, por isso quero que vocês venham. Eu vou morrer de tédio se for pra lá sozinha. Por favor, Yola.

As amigas de Yola tinham todas cabelos coloridos que a própria Yola pintava nelas. Uma tinha o cabelo curto azul celeste, outra tinha o cabelo cor de rosa que prendia em dois rabos de cavalo e a terceira que a convidara pro concerto, tinha o cabelo laranja que nem fanta laranja. Elas nunca que iam se passar por apaixonadas por musica clássica daquele jeito, mas até que seria interessante de assistir.

– Ok, mas faço isso por você. Quando é?

– Hoje.

– HOJE!? E você vem me avisar isso agora criatura? – Yola se sobressalta.

– É que foi meio em cima da hora.

– Ahrrr! Em cima da hora é apelido. Saiam, eu quero me trocar.

O trio de meninas sai do quarto como obedientes cachorrinhos, tão logo a porta é fechada Yola desliza as portas de seu closet para escolher a roupa que usaria. A maioria era chamativa e colorida, não era a toa que a chamavam de Miss arco-íris no circo. Como ia numa orquestra e encontraria pessoas requintadas por lá o certo seria escolher algo discreto e elegante, como se Yola fosse mesmo escolher isso.

~ ❖ ~

Ciaran re-lê as ultimas linhas com os olhos tentando pegar o sentido oculto da história. Parecia alguma espécie de fábula misturada com conto de terror sem moral da história ou talvez a moral fosse algo como “Não liberte prisioneiros perigosos.” Seria aquilo uma biografia camuflada?

– Vamos ver... Aegeon era um psicopata que perdeu sua sanidade e virou um monstro sem controle? Será isso de que se trata pequena Alma?

Alma dá de ombros. Como poderia saber? Ela pega o livro e abre na próxima página.

– Deseja mais uma irmã? – Ciaran olha para a garota de cabelos platinados que do seu modo concorda.

– Vejamos... Essa também não tem título.

“ Era uma vez uma pequena sereia que vivia num reino muito, muito distante e frio. Essa sereia teve a sua voz amaldiçoada por uma bruxa má, bruxa esta que sentia inveja da beleza de sua mãe, a princesa sereia mais bela de todas, mas como era um bruxa esperta e vingativa não amaldiçoou a mãe, em vez disso amaldiçoou a filha, que faria o estrago ser duas vezes pior.

Sua maldição era a seguinte: Toda vez que ela usasse sua bela voz para cantar quem a escutasse faria exatamente o que a princesinha pedisse. A pequena sereia não era uma boa garota, por conseguir facilmente o que queria ela acabou tornando-se mimada e rebelde, o fato das outras sereias a evitarem por causa da maldição também não ajudou muito em sua personalidade. Ela gostava muito de cantar, de modo que pouco se importou com a maldição da bruxa, pelo contrário, até achava a bruxa boba por ter dado um dom em vez de uma maldição para ela.

A mãe era uma sereia linda e gentil, porém todos achavam estranho ela ter se casado com uma foca. O pai da sereiazinha amava muito a bela esposa, tanto que temia perdê-la quando ela percebesse que ele não era um belo tritão a altura dela. Ele era um selkie* muito possessivo e diferente de todos os tritões que existiam ali, ele tinha uma missão muito importante para garantir a sobrevivência das demais focas.

Louco com a concorrência, a missão e a canção da filha, ele guardou a esposa num bloco de gelo e usou a voz amaldiçoada da menina para conseguir material para seu projeto.

Enquanto a pequena sereia cantava, ele usava o material que ela conseguia para montar a salvação de sua raça. Os tritões o receberiam de braços abertos e iriam admirá-lo por toda sua vida quando ele terminasse.

Mas um dia, enquanto a bela e mimada sereia dormia, as demais sereias acordaram de seu encanto e choraram de medo por viverem sob suas notas musicais. Um abutre que passava ouviu o choro e soube da história toda, ele era uma ave esperta e curiosa que amava mais do que tudo carne de foca, disse a elas: “É só não ouvirem, tampem os ouvidos e cheguem neles de fininho”.

As sereias e tritões seguiram o conselho e taparam bem seus ouvidos com algodão, marchando para o castelo da princesa sereia em busca dos materiais roubados.

A cruel menina foi capturada e teve suas lindas escamas arrancadas num acesso de ira das demais sereias, o palácio foi usado como churrasqueira e o abutre teve um ótimo jantar naquela noite. A pequena chorou e chorou, mas não teve ninguém que a ouvisse, suas lágrimas se transformaram em cristais de gelo ao escorrerem de seu rosto. Então sabendo que provavelmente morreria ela cantou e cantou esperando pelo seu fim, mas ele também não veio assistir seu recital. Ela encontrou alguém que a tirou dali e agarrou-se aquela chance de sobrevivência com todas as suas forças de menina, porém sua história não teve um final feliz. Ele também não era uma boa pessoa. Tzvetana. Lágrimas de vidro regam a rosa do Diabo.”

Liadan puxa a manga do irmão com certa urgência e aponta para o nada.

– O que vês? – Ciaran pergunta.

Liadan via uma mulher estranha. Seus cabelos negros flutuavam no ar e sua pele era quase translúcida, se fosse uma banshee* e gritasse Liadan gostaria que seu irmão não a ouvisse. A mulher dá meia volta e olha para trás esperando. Queria que a seguissem.

Liadan se coloca de pé escorando-se no ombro do irmão e tenta manter as pernas firmes enquanto caminha na direção dela.

– Desculpe, mas onde vai? – Ciaran pergunta dando o seu braço de apoio para ela.

Liadan não podia falar, mas aponta para a mulher. Ciaran não via a fantasma, mas achou melhor acompanhá-la em seu passeio.

A zumbi segue-a e quando a fantasma passa por um grupo de policiais Ciaran muda de lado, postura e comportamento. O que faz a irmã estranhar internamente a mudança.

– Nossa! – um policial diz ao ver os irmãos, chega perto de Liadan e se abaixa a altura dela – Ual, parece de verdade. Vocês capricham mesmo no visual hein?

– Realístico não? É praticamente um desejo tomando forma – Ciaran responde por ela.

– Como é que vocês fazem isso? – o policial admirado pergunta tocando a bochecha dela delicadamente pra não borrar nada – É tão bonito.

– A Beleza é uma forma de Gênio, sendo mesmo superior ao gênio, pois não necessita de ser explicada. Ela faz parte dos grandes elementos do universo, como a luz do sol, a Primavera, ou o reflexo nas águas nocturnas dessa concha de prata a que chamamos lua. Não pode ser contestada. Tem o direito divino de um soberano. Transforma em príncipes os que a possuem, por vezes, ouve-se dizer que a Beleza é apenas superficial. Talvez seja. Mas, ao menos, não é tão superficial como o Pensamento. Considero a Beleza a maravilha das maravilhas. Só os fúteis não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível e não o invisível.

O policial fica olhando para ele durante o seu discurso com cara de paisagem. Não entendera ao certo se tinha ganhado um sermão ou conselho de vida, só o que entendeu foi: É bonito por que é bonito e ponto final. Mas de alguma forma ficou bem melhor com ele dizendo.

– Ahn... minha namorada tem cabelo castanho. Por favor nunca converse com ela – o policial pede constrangido.

– Está com medo de perder pra ele? – seu amigo ri.

– Esse cara sabe falar. Suzanna vai cair de amores se ver ele e eu não vou conseguir nem abrir a boca.

O amigo avalia Ciaran preocupado.

– Pior. Eu tenho uma irmã. Por favor nunca veja ela – o amigo pede também.

– A preocupação de vocês não é necessária. O costume é que venham a mim – Ciaran diz contornando o grupo com a mão de Liadan circundando seu braço e saindo como um cavalheiro acompanhando sua dama.

Liadan percebera que ele estivera tenso, mas atuara como uma pessoa sem nada a esconder. Era incrível como podia parecer relaxado quando na verdade não estava.

A fantasma esperava por eles. Ela caminha até a Selva das Bestas e Liadan enrosca um pé nos ramos que brotavam dos assentos, Ciaran impede que ela caia e abaixa-se para desenroscar a planta de seu pé.

– Vá com calma, por favor

A fantasma fica em pé no palco fazendo movimentos com as mãos como se fosse um maestro, em seguida dança dando voltas como uma bailarina e corre para um canto fingindo que chorava. Ela volta a repetir os mesmos movimentos mais duas vezes e junta as mãos no final como se implorasse pra Liadan fazer alguma coisa.

A irlandesa considerou aquilo instruções para alguma coisa, mas não sabia o que fazer. Não era um maestro e não havia banda para ela orquestrar, também não sabia dançar balé, no seu atual estado mal conseguia andar sem tropeçar, chorar ela conseguia, mas tinha a impressão de que não eram suas lágrimas que a fantasma queria. Não sabia bem o que fazer.

A fantasma usa suas mãos para quebrar um galho imaginário no ar, repete o movimento e passa um dedo pelo pescoço preocupada. Liadan tentava entender, mesmo, mas não sabia o que fazer.

– Ciaran, você não devia estar com o Mago? – Erich, o domador, aparece carregando um filhote lobo.

Liadan se vira surpresa para o domador e quanto volta o olhar para a fantasma ela já tinha sumido.

– Minhas desculpas, aproveitei o tempo livre para dar um passeio com minha irmã. O sol brilha, a brisa é fresca e o momento parece propicio para se comemorar a vida.

– Logo, logo, vai começar o movimento. Sugiro que você se apresse... – Erich o olha de cima abaixo – Queria alguma coisa comigo?

Erich estava desconfiado por ter alguém na Selva das Bestas quando ele não estava lá e Ciaran sabia disso, elaborando uma desculpa:

– Talvez. Devido o tempo terei que deixar para nosso próximo encontro, por hora como o senhor mesmo disse, devo me apressar.

Liadan olha para o domador intrigada, mas acaba seguindo o irmão para fora da tenda. Cuidaria do caso da fantasma depois, não devia ser tão urgente.

~ ❖ ~

Arisu escuta uma música estranha ao abrir os olhos. Ela estava pelada, suas mãos e suas pernas estavam amarradas a uma cadeira e sua boca estava coberta por uma mordaça. Demora só um segundo pra perceber a situação em que se encontrava. Ela levanta a cabeça assustada e se vê num aposento desconhecido. O lugar era escuro e de poucos detalhes nítidos, como o interior de um homem sem sonhos. Talvez o termo correto não fosse “escuro” e sim “umbrifero”. No escuro você tem um breu que o impede de ver o que se esconde por ali, já naquele local você tinha sombras que dançavam pelas paredes forçando a imaginação a ir a limites que nem sabia que possuía.

Uma vitrola no canto tocava aquela música estranha e ela não era a única ali. Os outros empregados também estavam amarrados em cadeiras ao seu lado, acordando aos poucos como ela.

Primeiro foi Callisto, que piscou os olhos tonto e observou sua situação mais intrigado do que assustado. Depois foi Johanne, que não via nada por não estar com Arachme, mas percebendo logo o que estava acontecendo ao tentar mexer seu corpo e não conseguir. O ultimo foi Ivan, que se debateu tentando soltar-se ao perceber onde estava.

A música continuava a tocar, algum clássico que começou a irritar Arisu e deixar Johanne desorientada de onde estava.

Magnus surge no aposento saindo de uma parte escura que ninguém estava prestando atenção. A luz era fraca e o aposento era grande, mas Magnus colocava mais medo neles do que o aposento em si.

– Vejo que acordaram – Magnus olha para cada um.

Estranhamente todos ficaram quietos. Ninguém queria ser o primeiro a dizer alguma coisa, até por que a mordaça os impedia de falar.

Ênia se coloca ao lado dele com expressão indiferente carregando uma bandeja com instrumentos metálicos. Arisu a fuzila com o olhar.

Magnus se aproxima de Arisu e se coloca atrás dela, inclinando seu tronco para frente e tocando seu ombro com o polegar, examinando a área. Em seguida ele olha para a bandeja de Ênia e pega um prego enferrujado trazendo-o mais pra perto para examiná-lo.

Sem qualquer aviso ou preparação ele martelou o objeto contra ombro dela, ganhando um grito abafado de Arisu.

Ênia olha para aquilo surpresa.

Magnus se afasta e olha a cabecinha do prego com falso ar critico.

– Errei.

Arisu arregala os olhos ao ouvi-lo se aproximar de novo, sem conseguir olhar para trás devida a dor em seu ombro. O mordomo usa a parte de trás do martelo para retirar o prego e Arisu agoniza ao sentir ele sendo retirado lentamente de sua carne. Por duas vezes o mordomo deixa o prego escapar de propósito.

Arisu soluça atrás da mordaça deixando as lágrimas escorrerem de seus olhos. Depois de retirar o prego e examiná-lo, Magnus pousa novamente a ponta dele contra o ombro de Arisu, ajustando seu eixo em cima da pele macia.

Arisu olha para ele desesperada, sua respiração ficando acelerada ao perceber a intenção dele. Seus olhos implorando por misericórdia.

– Apenas inflingir dor não é o bastante, – Magnus explica para Ênia – deixe-os pensarem o que você quer que eles pensem: “Não vou aguentar uma segunda vez”. A mente é o lugar mais forte e resistente, use a dor e as palavras para fazê-la se quebrar. De nada adianta torturar o corpo se a mente permanecer firme e sã.

Ele martela o prego contra o ombro dela novamente, ganhando mais um grito abafado pela mordaça como recompensa.

Satisfeito, Magnus coloca o martelo em cima da bandeja de Ênia com certa delicadeza e circula a cadeira de Arisu, levantando seu rosto para que ela o visse.

– Com medo? Reprima. Isso não é nem mesmo o começo do que preparei para você.

Magnus faz um sinal para Ênia e ela deixa a bandeja em cima da mesa e vai até um canto, empurra uma armação feita de madeira para um lugar um pouco mais iluminado e se afasta do aparelho. Ivan observa a construção intrigado. Parecia um portal de madeira bem resistente com uma serra no topo. Lembrava-lhe uma guilhotina, mas não havia nada em baixo para prender a cabeça de alguém.

– Preste atenção. Eu irei lhe ensinar como fazer isso corretamente – ele abandona Arisu e se dirige a Ênia.

– Por que estou aprendendo isso se é que eu posso perguntar? – Ênia indaga incerta.

– Foram as ordens que recebi, devo te ensinar o que sei sobre esse assunto. Creio que você sabe o motivo melhor do que eu.

Magnus se dirige a Ivan que lhe lança um olhar afiado de advertência. Ênia congela no lugar, mas Magnus continua seu caminho.

– Observe.

Magnus desamarra um dos braços de Ivan presos na cadeira e tão logo é solto o membro se lança em direção ao seu pescoço, mas Magnus o torce habilmente para trás das costas de Ivan e o imobiliza no lugar.

– Sua vez – Magnus ordena a Ênia.

A bailarina se aproxima do outro braço preso e desfaz os nós exatamente como viu Magnus desfazer. O segundo braço de Ivan se lança para ela e a bailarina tenta agarrá-lo, infelizmente é um blefe e ele consegue se esgueirar e atingi-la. Ela cambaleia com um belo tapa no rosto e Ivan pressiona seu pescoço contra a braçadeira da cadeira.

Magnus não a ajuda, mantém a sua parte bem presa e observa o desempenho de Ênia com seriedade.

Ela segura a mão que a sufocava e a afasta de si usando sua força para conseguir se libertar. Uma vez livre ela puxa o braço dele contra as costas e o imobiliza ao lado de Magnus.

O mordomo segura os dois braços só com uma mão e usa a outra para amarrá-los com uma corda. Ênia observa com atenção os movimentos dele e os nós que estava usando.

– Você ia deixar? – ela pergunta se referindo ao fato de Ivan quase tê-la matado.

– Se fosse necessário eu iria intervir.

– E não era?

– Você precisava aprender a sair sozinha. Entender uma coisa na prática é melhor do que se eu explicasse e roubasse suas descobertas de você.

Magnus contorna a cadeira e desamarra um dos pés de Ivan, segurando-o firmemente, pousando um prego na sola de seu pé e entregando o martelo a Ênia.

Ela já sabia o que fazer, já tinha visto como era feito, mas não sabia se conseguia fazer aquilo.

– Isso é mesmo necessário? – ela pergunta.

– Se não quiser que ele fuja, sim.

Ela se abaixa e olha o prego indecisa. Respira fundo, acalma seu coração e o martela. O mordomo usou três pregos em cada pé, se Ivan tentasse correr sentiria uma dor imensurável. Eles o arrastaram para a estrutura de madeira sob o olhar assustado dos companheiros e o prenderam de cabeça para baixo suspenso com as pernas abertas em V e amarradas na estrutura.

Ênia olhou para a serra e sua trajetória e assustou-se ao perceber como se usava aquele instrumento.

– As áreas sensíveis são os lugares onde você deve mirar. Os seios, o sexo, os olhos, as unhas. Quando se quer infligir dor, as áreas sensíveis são as mais indicadas e mais certeiras de atingir os resultados esperados – Magnus desprende a serra e segura um lado, entregando o outro a Ênia. – Perca suas noções do que é correto ou digno de privacidade. As coisas pouco ortodoxas são as mais interessantes de explorar.

O mordomo centraliza a serra no meio das pernas de Ivan e Ênia a puxa para seu lado, Magnus faz o mesmo com o seu e eles começam a serrá-lo ao meio.

Johanne tremia em sua cadeira sem conseguir ver o que acontecia, mas dando asas à imaginação só com os sons dos gritos abafados de Ivan que chegavam aos seus ouvidos misturados à música da vitrola. Arachme deslizava em algum lugar cheio de cadáveres e ver aqueles montes de corpos só piorava o estado mental da costureira.

Arisu tinha plena consciência do prego cravado em seu ombro, como estava enferrujado tinha medo de adquirir tétano com aquela porcaria, mas mesmo assim ela se debatia em sua prisão desesperada por escapar dali. Perto do que estavam fazendo com Ivan tétano era a menor de suas preocupações.

Callisto observava tudo sem conseguir acreditar no que via. Parecia um pesadelo. Sentia os gritos de Ivan o perfurarem como agulhas e a dor dele era tanta que quase sentia a serra entre as suas próprias pernas. Mas o pior de tudo, era que ele não conseguia desviar os olhos daquela cena. Mesmo cerrando alguém ao meio, Magnus era elegante e preciso em suas ações. Seu rosto de olhos cor de gelo tinha uma seriedade e tranquilidade sólidas, seus movimentos eram refinados e impecáveis. Belo e terrível, parecia muito estranho admirar aquilo na situação em que se encontrava, mas Magnus era estranho por natureza.

Ênia acelera seus movimentos fazendo Magnus franzir uma sobrancelha. Quando Ivan se cala e pende inerte ela o observa intrigada e então olha para Magnus perguntando.

Ele suspira.

– Não é para matar de imediato. O objetivo de torturar é prolongar ao máximo o sofrimento e pra isso é preciso mantê-los vivos – ele levanta a serra ensanguentada e a prende de volta em seu lugar. – Serre até a metade, deixe o sangue se acumular na parte superior e demore para chegar até o peito. É assim que se usa a Serra*.

O Doutor entra segurando alguns panos limpos e os pousa em cima de uma mesa, dirigindo-se em seguida para Ivan e segurando seu pulso.

– Pensei ter dito para esperar – Magnus comenta com um toque de advertência na voz.

– Não consegui – o Doutor se desculpa.

Ao dá-lo como morto o médico começa a alisar o pulso do cadáver num gesto nervoso. Magnus pousa sua mão no ombro dele e o Doutor o solta.

– Está morto. Seus serviços não serão úteis – Magnus diz.

O Doutor afirma com a cabeça tirando a mão de cima do seu ombro num gesto diligente. Ele se dirige até um canto mas para no meio do caminho, fica alguns segundos parado e dá meia volta, se dirigindo até Arisu. Ele vai direto até seu ombro avaliando o estrago.

O médico pega um alicate e Arisu o fuzila com o olhar, como se dissesse “Deixe aí!”.

– Uma hora isso vai ter que sair – ele diz indiferente pegando a cabeça do prego e o tirando rapidamente.

A garota arqueja e logo em seguida sua ferida é coberta pelas mãos do médico, que devagar vai fechando e limpando o buraco.

Em algum momento Callisto deixou de ver aquilo como uma coisa boa. O médico iria curá-los, fecharia os ferimentos que o mordomo abrisse e os impediria de morrer. O que abria a possibilidade de Magnus começar tudo de novo.

~ ❖ ~

Will ajeita os seus óculos e observa a Caixa de Brinquedos com atenção. Não encontrava Ivie em parte alguma e precisava dela para começar as preparações para o show. Havia chegado um pouco mais cedo que de costume já que era sua primeira apresentação oficial, mas o lugar era tão grande que decidiu dar uma volta para matar o tempo enquanto esperava. O problema: Ficou perdido.

Ele anda mais um pouco e escorrega numa pista de óleo fazendo-o tropeçar e se escorar nas bordas de um poço para não cair. Novo problema: Seus óculos caíram lá dentro.

– H-H-Hoje def-f-f-finitamente não é meu dia.

Um rosto feminino surge da água usando os óculos de Will, seus cabelos azuis ondulam na água numa confusão de fios emaranhados e seus olhos vítreos com as cores do arco-íris forçam o olhar através das lentes.

– Aqui não é lixeira docinho – a mulher diz. – A propósito, como você enxergava com isso aqui? Está tudo embaçado.

– É um óculos de grau – Will tira com cuidado do rosto dela e coloca no seu. – Desculpe, eu deixei cair sem querer.

– Ok. Te desculpo por que você está triste e não quero lágrimas salgadas no meu poço.

Ele franze uma sobrancelha e coça os olhos, conferindo se eles pareciam prestes a chorar por alguma razão.

– Eu não estou triste – ele responde.

– Ó homem de pouca convicção. Dá pra ver na sua voz séria que você não está feliz.

– Só por que não estou feliz, não quer dizer que eu esteja triste. Eu e-e-estou com raiva.

– Também estou com raiva – ela faz um bico emburrado. – Meu cabelo está todo embaraçado e eu não posso pentear, eu devo estar parecendo um ninho de pássaro.

– Se não tem um pente você pode usar os dedos – Will encena a ação no seu próprio cabelo.

– A-há! Você não negou, então quer dizer que estou mesmo parecendo um ninho de pássaro – ela faz uma expressão horrorizada.

– N-N-Não, não, você está ótima.

– Tarde demais. Não adianta falar agora. Estou horrível, uma aberração, posso quebrar um espelho se olharem para mim nesse estado.

– Que ex-e-exagero.

– Você acha espertalhão? Seu cabelo está muito bem. Lisinho e bem penteado, aposto que até perfume de flores tem aí. Como pode saber alguma coisa sobre essa juba?

– Eu te ajudo. Ok? Vou p-p-p-pentear o seu cabelo e fica tudo certo. Me d-d-d-dá sua mão, vamos te tirar desse poço primeiro – ele estende sua mão para ela.

A mulher fica olhando a mão estendida e não faz nada para pegá-la.

– Que foi? Não está s-s-s-su-...

– Suja – ela completa impaciente.

– Isso, obrigado.

Ele espera ela pegar, mas a mulher ainda não faz nada. Com um suspiro Will segura o rosto dela entre as mãos e a levanta para cima, logo percebe que não havia pescoço embaixo daquela cabeça, não havia nada, era uma cabeça decapitada que falava. Com o susto ele a deixa cair de volta no poço, onde ela volta à superfície com uma mecha azulada enroscada em um de seus olhos.

– Gênio – ela zomba.

– Onde está o seu corpo?

– Ta aí em algum lugar. Sei lá. Vai me tirar daqui hoje ou não vai?

Will pega de volta a cabeça do poço e a balança um pouquinho para a água escorrer. Procura um lugar para se sentar e encontra uma boneca flutuante o espiando atrás de um baú.

– Que foi? – ele pergunta.

– Ela vai te morder – a boneca dá risinhos.

– Você vai? – Will pergunta seriamente para a cabeça decapitada.

– Talvez – ela lhe lança um olhar malicioso.

Will a coloca em seu colo e usa seus dedos para desembaraçar os fios azulados dela. Quando termina de penteá-la trança umas florzinhas brancas em seu cabelo azul e a pousa em cima do baú para secar.

– Quanto capricho. Você não faz as coisas pela metade, hein? – ela ironiza – Como estou?

– Está ótima. É uma musa sem c-c-c-c-...

– Corpo – ela termina.

Um jato de água atinge o pescoço de Will e quando ele se vira para ver o que o acertou encontra outra cabeça de madeixas azuis flutuando no poço.

– Ei Romeu, você não vai se esquecer de mim, vai? – a segunda cabeça não disfarça a irritação.

– Gêmeas – Will ri enquanto vai até o poço. – O que v-v-v-você quer?

– Um cabelo penteado é muito?

– É, pra quem não tem mãos – a primeira cabeça se intromete.

Will retira a segunda cabeça do poço, escorre a água e a coloca em seu colo para poder penteá-la. Quando termina, trança as mesmas florzinhas da primeira no seu cabelo azul para não haver confusão mais tarde e a coloca ao lado da primeira para secar.

– Até que você é bom. Tem feito muito isso? – a segunda pergunta.

– Claro, carregar cabeças deca-de-c-c-c-s...

– Decapitadas – elas completam impacientes.

– Isso, – ele continua – por aí é meu hob-b-b-...

– Hobbie! – elas terminam.

Ele afirma constrangido. O problema de ser gago era as pessoas impacientes terminando suas falas por ele quando ele próprio não conseguia. Quanto mais forçava, mais sua língua enrolava.

Uma terceira cabeça se eleva da água e o brilho arco-íris dos seus olhos é o que chama a atenção dele.

– Deixe-m-m-me adivinhar. Quer que eu deixe seu cab-b-belo penteado?

A terceira dá um sorrisinho como se dissesse “Não é óbvio?”.

– Com carinho, por favor. Sou muito delicada – a terceira levanta o queixo com ar superior.

Will repete o mesmo processo das duas primeiras, trança as florzinhas brancas e a coloca ao lado das irmãs. Todas eram exatamente iguais, o mais bonito de se ver eram os olhos raiados com as cores do arco-íris. Ele espera alguns segundos e se vira de súbito para o poço, esperando por uma quarta ou alguma outra cabeça. Não havia ninguém, por enquanto só existiam aquelas três.

– Vocês não saberiam onde é-é-é-é a sssssss-...

– Saída – a terceira ajuda. – Não, docinho. Nós não andamos muito por aí.

– Até por que nem temos pés – a segunda interrompe.

– Quem colocou vocês ali dentro? – Will pergunta se referindo ao poço.

As três começam a assobiar uma música. As bonecas flutuantes entram saltitando e marchando ao ritmo da canção, as bolas de duas cores quicam no chão e os palhaços de mola batem seus tambores e pratos, a Caixa de Brinquedos inteira parece se animar com a música sem letra.

Essa confusão alegre atrai Ivie que encontra seu pupilo no meio da festa. Ela lhe dá uma bronca por tê-la feito esperar e manda ele devolver as cabeças de volta para seu lugar. Ivie conduz a marcha saltitante de bonecas ficando no começo da fila e as levando de volta para seus lugares enquanto também marchava ao ritmo da música do Exilado.

Will coloca cabeça por cabeça de volta ao poço e se despede delas. As três observam o seu afastar enquanto ele acompanhava Ivie.

– Até que é um menino legal, – a primeira comenta – apesar de seu passado.

– Você também viu? – a segunda abre um sorriso cúmplice. – Você não presta, ficou vendo a intimidade dos outros?

– Ei, você também viu que eu sei – a primeira se exalta.

– Pobre irmãzinha, ela deve achar que ele é o culpado até hoje – a terceira comenta.

– Espero que ela não volte. Aquela seria uma peste na Terra – a segunda diz. – Ele não vai desejar a volta dela, vai?

– Sei lá. Eu não leio desejos – a terceira revira os olhos. – Só sei que ele é esquisito. Gostei dele, mas será que tem salvação?

– O que a gente dá pra um caso desses? – a primeira morde o lábio preocupada.

– Posso dar uma dica? – Uma mulher se senta na borda do poço.

As três cabeças olham para a mulher e abrem um sorriso ao vê-la. A mulher de longos cabelos negros e olhos de cristal embaralha suas cartas com a expressão séria.

– Seryu! – elas dizem animadas. – Já faz algum tempo, como soube que subiríamos a superfície hoje?

A cartomante retira uma carta de seu baralho e mostra a elas. No topo da carta havia três cabeças de olhos fechados enroscando seus longos cabelos azuis envolta de um garoto que estava na base da carta.

– Tinha que perguntar, né? – a primeira cabeça censura a terceira.

– Diz aí, o que podemos dar pra esse garoto? Algo útil, por favor – a segunda pergunta.

A cartomante saca três cartas do baralho e mostra a elas. Três cabeças, três presentes. Essa era a regra.

Notas finais
*Banshee: É uma fada da mitologia celta. Quando alguém avista uma banshee sabe logo que seu fim está próximo, seus gritos ou gemidos são associados à morte. *Selkie: Os selkies vivem como focas no mar, mas possuem a capacidade de se tornarem humanos ao retirar suas peles de foca, do mesmo modo, basta vestirem novamente sua pele de foca para retornar à sua forma original. É uma criatura mitológica igual as sereias. *Serra: Instrumento de tortura da idade média, caso queiram ver uma imagem: http://resumodanet.com/wordpress/wp-content/uploads/2014/05/Instrumentos-usados-em-terr%C3%ADveis-t%C3%A9cnicas-de-tortura-medievais-11-527x700.jpg Yola Farness Brisamkeit: https://lh3.googleusercontent.com/-SPQdTFLf9ig/VeiIIPGinpI/AAAAAAAAAYg/fHJCBRhhx-k/s512-Ic42/cdr__hellga_bellhorne_by_yumchow-d5i126k.png Hello galerinha. Peço desculpas pela demora, vocês sabem como eu demoro pra escrever né? Mas esse é um caso diferente por que em vez de escrever a fic eu dei um pause nela rapidinho pra mim poder escrever outra história. Dessa vez eu participei do desafio de Julho/Agosto do Nyah, o tema me interessou (e como o limite de palavras estava alto eu logo vi que eu precisava participar). Como vocês sabem eu demoro pra escrever², então conseguem imaginar o meu desespero? Eu costumo demorar um mês pra escrever um capitulo, agora uma história inteira só em dois meses? Fui escrevendo que nem louca pra conseguir terminar a história a tempo. Eu consegui, com muita luta e sacrifício, mas consegui. É um yaoi com RamsésXMoisés do Principe do Egito, mas claro numa versão mais “futurista”. Enfiei tanto mistério nessa história que mal parece o Principe do Egito, mas tai, gostei do resultado no final. Por isso já me desculpo pela demora absurda deste capitulo.^^’ Vocês me perdoam? *Olhos de gatinho do Shrek*