Notas iniciais
Pra variar um pouco, dessa vez não começarei me desculpando pela demora. Na verdade, vou falar um pouquinho sobre o capitulo em si. Ficou bem grande, eu não vou mentir, extrapolei, e está um pouquinho forte na parte da tortura. Quem tem estomago fraco, já estou avisando. Quem tem forte apreço pelos personagens torturados, também já aviso: Não me matem.><’.

“Entrarei em seus sonhos, te levarei a uma sala suja e fria e lá te partirei ao meio.”

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Evanecer estava encolhida em sua cama enrolada em um cobertor, seus braços tremiam de medo e ela cerrava os dentes com força impedindo a si própria de gemer de dor. Suas mãos tampavam seu olho esquerdo que não conseguia mais abrir uma segunda vez, ele se fora. Ao acordar no quarto de Arman com uma dor horrível no seu olho e esforçar-se muito para abri-lo e ver o que tinha caído dentro dele, o que encarou no seu reflexo foi um buraco em carne viva do que devia ser seu olho especial. Ela gritou de susto, caiu no chão e ficou muito tempo encarando aquele espelho até acreditar no que estava vendo. Doía muito, aquele buraco latejava insistentemente e ela só conseguiu pensar em fugir dali o mais rápido possível movida por um súbito pavor.

Assim que chegou no quarto que dividia com Oliver trancou a porta e se armou com uma faca que sabia que o menino escondia embaixo do seu travesseiro. Enrolou-se no cobertor por que não parava de tremer, mas nem assim os tremores diminuíram. Ela viu muita coisa dentro do circo, coisas que seria melhor não saber que existiam ali. Durante um tempo foi puro fascínio, depois conforme descobria mais coisas sentiu um medo crescente enraizar em seu peito, porém conseguiu se manter calma graças ao seu olho. Se visse e soubesse que tal coisa estava ali, poderia vigiá-la e quando ela sumisse de sua vista achá-la. Não ver era muito mais assustador para ela e agora que seu olho foi arrancado sentia-se como uma cega no meio de um tiroteio, não sabia de que lado a bala viria.

Durante muito tempo ela quis que seu olho parasse de lhe mostrar coisas que não deviam ser vistas. Tudo que alguém “queria esconder” seu olho revelava com clareza, o que a colocava em muitos problemas por saber demais. Mas aquele era um caso especial, estava num circo dos horrores onde quase tudo tinha algo escondido e nunca era uma coisa boa saber demais, não podia se dar ao luxo de ficar cega ali.

O Mago bate em sua porta e com o susto Evanecer pega a faca e aponta para a entrada do quarto.

– Evanecer, espero que você já esteja pronta – A voz do Mago atravessa a madeira da porta.

A garota nada diz, apenas continua a segurar sua arma.

– Você já se trocou? Está quase na hora – O Mago gira a maçaneta e percebe que a porta estava trancada. – Está me ouvindo?

– Eu não vou – Ela grita do seu cantinho ao se lembrar do show de mágica. Nem morta ela sairia naquele estado de completa vulnerabilidade.

– O que?

– NÃO VOU! – Ela grita de novo.

Um silêncio entre os dois se instala a partir daquele ponto, logo em seguida ela ouve a porta ser destrancada e quando a maçaneta gira o Mago entra no quarto. Com o susto ela quase se coloca de pé na cama, ficando numa posição estranha e agachada com a faca entre as mãos, os nós dos dedos já estavam brancos de tanto ela apertar o cabo da arma.

– Que magia é essa? – Ela olha pra ele assustada vendo a facilidade com que abriu a porta.

– Você pode chamar de magia ou chave extra – Ele mostra uma chave para ela com descaso. –Agora, voltando ao assunto, o que quer dizer com não vai?

– Eu perdi meu olho – Evanecer engole em seco.

– E daí?

– Como “e daí”? Eu não sou obrigada a sair daqui.

O Mago ajeita sua cartola.

– Esqueceu que você trabalha aqui?

– Não, mas... eu... desculpe, mas eu não vou sair – Ela quase sussurra.

O Mago a observa em silencio, ajeitando sua cartola em seguida.

– Não sei se você se lembra, mas quando disseram que não havia regras, foi dito três conselhos importantes que te matariam se não fossem obedecidos – O Mago fixa seu olhar nela com seriedade e Evanecer se encolhe. – Se eu jogar uma maçã para cima tenho certeza de que ela vai cair por que é a lei da gravidade. Nem preciso ser vidente para adivinhar uma coisa tão óbvia. O mesmo acontece se eu disser que o sol é quente, todos sabem disso. Não fazer o seu trabalho segue a mesma linha. Por que acha que trabalhamos e sorrimos para nossos clientes quando na verdade desejamos matá-los?

– Eu não sei. Sadismo, talvez?

– Pense a respeito. Se simplesmente quisessemos prender vocês aqui então por que seriamos um circo em vez de uma prisão? – Ele sorri com sarcasmo. – Porém pense sobre isso depois, agora se arrume e enfaixe esse olho. O tempo corre e não espera ninguém.

– Não vou sair daqui. Me desculpe, mas eu não vou sair. Vou passar o resto da minha vida aqui dentro.

– Vai ser uma vida bem curta.

– Não importa, eu sei o que existe lá fora, coisas assustadoras virão me atacar agora que não posso mais vê-las – Evanecer aperta seu cobertor. – Você não sabe o que existe aqui dentro. Não viu as coisas que eu vi.

– Coisas assustadoras podem te atacar até mesmo se você permanecer aqui. Quando alguma coisa decide seu alvo consegue dar um jeito de chegar até ele, não importando o quanto você se prepare, é assim que funciona com ladrões – Ele se aproxima da cama, mas quando a garota se encolhe ele interrompe seu trajeto – Não vai mesmo sair?

– Não.

O homem suspira resignado.

– Eu tenho mais o que fazer. Não posso ficar perdendo tempo com uma garota teimosa em suas decisões.

– Eu já disse, daqui eu não saio. É uma escolha minha.

– Se é algo que você mesma decidiu então não vou interferir, melhor você quieta nesse canto do que atrapalhando o espetáculo – O mago dá meia volta e olha para ela antes de sair. – Adeus Evanecer. Foi um prazer conhecê-la.

– Tchau.

O peso do adeus dele foi estranho de se ouvir, profundo, decepcionado e mórbido. Quando ele saiu foi educado o bastante para trancar a porta de novo, mas Evanecer sentiu em seu tom de voz que ele acreditava que não a veria de novo, como se de repente ela adquirisse uma doença terminal e morresse assim que ele saísse.

Ela olhou em volta preocupada, com medo do que não conseguia ver. Não era claustrofóbica, mas de repente as paredes de seu quarto pareciam menores e prestes a lhe esmagar. Sua autoconfiança baixou para zero no momento que perdeu seu olho especial.

Evanecer segura seu crucifixo contra o peito e o aperta, rezando um silencioso pedido.

– Rick, me ajude.

~ ❖ ~

Um policial termina de examinar o Palco dos Pierrots sem encontrar nada suspeito e se dirige para a Roleta das Lâminas que era o ultimo lugar que faltava para ele.

Não tinha como não se admirar com a estrutura do circo, pra quem estava acostumado a sentar-se em uma arquibancada de tábuas de madeira e comer pipoca gelada ao visitá-los ver camarotes e poltronas forradas com veludo era algo fora de realidade. Sentia-se mais numa ópera muito enfeitada e alegre do que em um circo itinerante. Às vezes se pegava sorrindo antes de se envergonhar e voltar a ficar sério.

Fazendo um esforço para se concentrar no trabalho, o policial olha embaixo dos bancos e visita os camarotes. Perto de uma poltrona ele encontra duas únicas gotinhas vermelhas no chão e liga sua lanterna para vê-las melhor.

– Que olho você tem – Uma voz diz.

O policial se vira e encontra o malabarista de facas agachado em outra poltrona o observando. Cain tinha as típicas roupas circenses que nunca se veria alguém usando numa cidade, cheias de padrões monocromáticos e detalhes chamativos. Naquele dia além da gargantilha negra com quadrados metálicos ele também usava uma luva listrada que não cobria a parte dos dedos. O sorriso zombeteiro de Cain imediatamente despertou uma espécie de empatia e diversão no interior do homem.

– Ketchup? – O policial pergunta quase rindo.

– Vinho na verdade – Cain estende um lenço para o policial que o aceita de bom grado. Ao ver ele limpar as gotas de sangue que tinha se esquecido o sorriso de Cain cresce ainda mais. – Diz aí, vocês vão ficar pro show ou terão que patrulhar a cidade depois?

O homem suspira desanimado ao pensar no dia cheio que teria.

– Que dureza – Cain comenta já adivinhando a resposta.

– Queria trazer minha filha, mas com esse monte de gente desaparecida vou demorar pra ter folga – Ele suspira de novo.

– Uma pena, logo vamos partir. Seria divertido ter vocês dois em um de nossos shows, imagino como pai e filha reagiriam... Talvez quando voltarmos você já tenha aliviado um pouco do trabalho.

Cain salta da poltrona e o policial se levanta o acompanhando até a saída.

– Já que isso é um até logo... – Cain comenta tirando um ingresso de dentro da luva – Pode levar isso lá pra fora por mim? Considere uma cortesia da casa.

O policial pega o ingresso com um sorriso, com certeza voltaria a visitar aquele lugar um dia. Eles se despedem e o malabarista o vê se juntar ao grupo de policiais que deixavam as imediações do circo, pela reação dos demais não foi difícil imaginar que eles também não encontraram nada suspeito. Parece que alguém tinha sido bonzinho ao esconder tudo daquela vez.

– Se nos virmos de novo espero que seja durante a noite. – Cain diz para si mesmo vendo o grupo passar pela entrada e o céu ficar colorido com centenas de formas geométricas assim que eles saem.

A abobada celeste se estende como um manto até o chão. Seus cristais brilham e a terra treme, a explosão de cores sempre fascinava quem a via pela primeira vez, mas o malabarista já estava acostumado com ela, contentando-se apenas em observar. Quando o manto força um impacto contra o chão a grama amarelada é substituída por outra verde escura, e Cain se surpreende ao ver um circulo de dálias roxas* por perto. Já fazia um bom tempo que não via alguma.

– Opa, opa, isso é mau presságio.

O loiro pega uma de suas adagas e a esconde dentro da bota, por precaução.

– O que está tramando dessa vez Mestre?

~ ❖ ~

O garoto de cabelos negros e olhos insuportavelmente azuis tamborila os dedos impaciente apoiando sua cabeça na outra mão enquanto faz a expressão mais entediada que consegue. Sua professora tinha se adaptado mais rápido do que supôs ao seu ritmo, todos os planos de aulas já estavam prontos e não havia mais nada inflamável com ela. Elion estava no limite do tédio.

– ... e com a morte da imperatriz a guerra se alastrou por todo o continente. Se antes já havia tensão entre eles a morte dela foi o estopim, posso dizer sem duvida alguma que se ela tivesse conseguido chegar a tempo para a reunião de paz, nosso presente com certeza seria diferente. Quase trezentos anos desde que a guerra terminou e ainda vemos suas marcas, é realmente uma lástima. Por causa dela há vários partidos defendendo-... Elion você está me ouvindo? – A professora se interrompe chamando a atenção do aluno.

– Estou, – ele faz um muxoxo deixando a cabeça pender pra trás – guerra, morte, alguma coisa depois disso, mais guerra e guerra de novo. Viva, que legal.

– Não é legal, é trágico. Vou voltar do começo pra você entender. Quando Tom Milliet virou o rei de Tentrio, hoje um país que não existe mais por causa das Guerras de Mel, houve uma estranha mudança no equilíbrio da monarquia, por que Tom era de origem humilde-... ELION!

O garoto se deixou cair para o lado quando ela recomeçou a falar e ficou dobrando uma folha na forma de um aviãozinho de papel.

– Professora, eu não tenho interesse no que aconteceu centenas de anos atrás, quanto mais milhares de anos atrás. Pra mim não importa, eu não nasci nessa era das cavernas.

– O melhor profeta do futuro é o passado. Sabe quem disse isso? – A mulher se aproxima animada.

– Byron. – Ele responde sem exitar, ela adorava citar aquele poeta. Na verdade ele nem tinha certeza se foi mesmo o cara.

– Acertou. O passado é importante para entendermos o presente e se não aprendermos nada com o passado voltaremos a cometer os mesmos erros no futuro.

– Jura? Eu não sabia disso – Elion revira os olhos, mas depois abre um sorrisinho ao ter uma ideia e se aproxima da mulher com uma falsa animação. – Que tal me contar o passado desse lugar intrigante?

Ele levanta a saia dela com um sorriso travesso e após um grito constrangido por parte da mulher Elion recebe socos abafados na cabeça.

– Eu vou falar pro seu pai! – A professora com corpo de bujão de gás anuncia irritada.

– Que golpe baixo, você é uma criança ou o que? – Elion cruza os braços fazendo um bico. – Vou falar pra sua mãe que você me bateu.

Ela para imediatamente surpresa.

– Foi de leve – Ela se defende.

– Olha só, parece que alguém tem medo da mãe. Violência é violência, você foi muito malvada em apagar seus cigarros em minha pele linda e deslumbrante – Ele arregaça um pouco as mangas do seu casaco e mostra marcas de queimadura em sua pele.

– Eu nunca fiz... – ela analisa as marcas intrigada. Insegura sobre a próxima pergunta ela adquire um tom cauteloso. – Seu pai fez isso em você?

– Sim – Elion abaixa a cabeça e seus cabelos caem sobre seus olhos. Ele fica em silêncio, seus ombros se movem imperceptivelmente, parecendo que chorava.

A professora leva uma mão à boca sentindo pena do pobre garoto trancafiado em seu quarto com um pai violento como família. Ela alisa as costas dele num ato de solidariedade e o trás para perto de si abraçando-o como se fosse uma criança desamparada. Um menino tão rico... vestindo roupas puídas e velhas. Que pai demoníaco, além de não comprar roupas novas para seu filho e deixá-lo preso naquele quarto sem móveis, ainda maltratava-o? Ela iria denunciá-lo assim que saísse dali.

– Tudo bem, tudo bem. Já passou. – Ela ouve soluços contra sua pele, o pobrezinho estava se segurando para não chorar.

De repente, os soluços e choros se transformam em risadas, Elion por si só se separa dela gargalhando enquanto batia uma mão no chão sem aguentar segurar os risos.

A professora fica sem entender. Aos poucos a compreensão de que foi enganada vai se iluminando em sua mente, na mesma medida em que suas bochechas coravam de vergonha.

– Você realmente acreditou? – Elion limpa uma lágrima de tanto rir. – Meu velhote quase não me visita, isso aqui é das minhas brincadeiras com fogo.

Elion se levanta e começa a dançar em volta da professora cantando uma musica com o nome dela como tema. Improvisações irritantes eram sua especialidade.

Constrangida e irritada ela sai voando pela porta chamar o Sr. Karnal para dar uma bronca das bem merecidas no pirralho. Tamanha era sua ira que nem percebeu o pé de Elion impedir que a porta se fechasse depois que ela saiu.

A porta rangeu conforme o indicador de Elion a empurrava para fora, seu pé direito foi o primeiro a pisar no corredor. O garoto tinha um sorriso irônico de ia de orelha a orelha ao sair.

– Exatamente como previ – Elion cantarola antes de sair do quarto e caminhar pelos seus corredores.

Ele ajeita a blusa envolta do corpo cobrindo sua cabeça com a touca e ergue o lenço puído até o nariz imitando um ninja. Ao passar pela sala de jantar e ver a carteira do pai descansando tranquilamente em cima da mesa Elion não resiste à tentação de causar um pequeno infortúnio para seu progenitor, desliza a carteira para seu bolso e continua seu caminho. Uma vez fora da casa ele passa pelos jardins fazendo o possível para não chamar a atenção e consegue com sucesso sair dos terrenos de seu pai. Sorte que o homem tinha diminuído os empregados para manter a situação de seu filho em segredo, seria um baque para sua reputação se seus amigos empresários conhecessem Elion, que em nada lembrava o homem bem sucedido que ele era.

Uma vez que está a uma distancia relativamente segura da casa Elion tira o lenço do rosto e ajeita seu rabo de cavalo. Ele inspira fundo o ar fresco e limpo da natureza e em seguida se joga na grama e sai rolando capim abaixo enquanto cantava uma musica sobre liberdade que tinha escutado uma vez.

– Como eu amo gente burra – Ele diz esparramando-se na grama, porém seu sorriso logo desaparece e seu semblante fica carregado.

Elion não era idiota, mais cedo ou mais tarde o procurariam e sem duvida seu pai conseguiria achá-lo, era só uma questão de tempo. Claro, ele não queria andar pelo mundo como um foragido sem teto, não tinha o mínimo interesse em passar fome ou virar pobre da noite pro dia, apenas queria sair de vez em quando e ter alguns luxos que seu paranóico pai não permitia.

O garoto pega a carteira furtada e distribui os cartões de crédito pela grama assim como as notas, as moedas e os cheques. Vendo o que havia a sua disposição ele começou a fazer as contas do quanto poderia gastar e em que poderia gastar. Para maximizar o efeito de sua fuga.

Traçado o seu plano ele recolhe os objetos distribuídos e esconde a carteira em um bolsinho secreto que tinha dentro da blusa. Não seria bom ser assaltado por ladrões e esperar a próxima oportunidade quando ela surgisse.

Ele caminha até a cidade mais próxima evitando usar a estrada para não ser descoberto e se embrenha pela floresta, atento aos mínimos ruídos por precaução.

Algumas horas de caminhada depois ele ouve um galho estalar perto dele e se vira pronto pra atacar o que quer que fosse, mas era apenas um passarinho pegando ramos para fazer o seu ninho. O pássaro voa e Elion acompanha sua trajetória, cruzando seu olhar com a estranha figura de uma garota sentada em cima de uma figueira. O vento agitava os cabelos cor de mel dela e algumas folhas da árvore estavam emaranhadas entre eles. A garota usava seu uniforme da escola que Elion não fazia ideia de onde pertencia já que ele estudava em casa.

Uma borboleta vem voando até ela e a garota estica o seu pé para o inseto pousar. Curiosamente é isso mesmo que a borboleta faz, abrindo e fechando suas asas para flexioná-las antes de descansar. Porém ela não ficou muito tempo e a borboleta logo levantou vôo.

– Ei, você tem fogo? – Elion pergunta tentando chamar a atenção dela. – Até um palito de fósforo serve.

Os olhos cor de mel da garota o observam e depois de um tempo ela se coloca de pé em cima do galho, fitando-o como se estivesse indecisa sobre alguma coisa.

– Terra para a Lua, está me ouvindo ou vou ter que repetir? – Elion se aproxima da árvore ficando um pouco afastado para o caso dela ser agressiva, quais são as chances de uma garota educada e refinada estar sozinha no meio da floresta?

A garota desce da árvore e pega um figo caído no chão com ar distraído, dando voltas ao redor do tronco enquanto observava as raízes.

Elion observa ela dando voltas ao redor da árvore sem entender.

– O que está procurando? – ele pergunta – Deixou cair seu juízo? Desculpe, ele é invisível aos olhos.

– Acho que perdi meus sapatos – ela olha para o galho em que estava sentada e tomba a cabeça para o lado. – Como eu fui parar lá em cima?

– E eu vou saber?

Elion a deixa de lado e continua seu caminho, porém a garota o segue. Conforme anda ele ouve os passos dela atrás de si, ao virar a cabeça Elion vê a garota uns dez passos atrás, com o mesmo olhar distraído que tinha antes. Ele para e ela para, ele anda mais três passos e ela também. Não tinha duvida, ela estava seguindo-o. Nunca em nenhum lugar ser seguido era uma boa coisa, ainda mais por desconhecidos que você encontra no meio da floresta, apesar de que ser seguido por garotas não era uma ideia de todo ruim, isso se ela não fosse psicopata, claro.

Teorias foram se formando em sua cabeça a respeito dela, desde a isca de alguma gangue que ataca pessoas no meio do mato até uma bruxa que raptava crianças para comer os seus dedos. Algumas bem absurdas, ele tinha que admitir.

– Estamos no mesmo caminho ou você está brincando de ‘Siga o mestre’? A próxima ordem é lamber o próprio cotovelo – Elion ri.

A garota fica em silencio.

– Ok, você é caladona, já percebi. Vou deixá-la em paz – Elion dá as costas para ela e continua.

Para aumentar suas preocupações ela continua seguindo-o, Elion já sentia seu corpo suar frio. Porém a caminhada dela era desengonçada, enquanto ele seguia em linha reta ela contornava obstáculos invisíveis, dava giros pega de surpresa e as vezes tropeçava nos próprios pés. Parecia estar andando no meio de um monte de filhotes que pulavam em seus joelhos em vez de uma floresta deserta. Uma teoria de que ela devia ter saído de um sanatório começou ganhar força na mente de Elion, nem ele seria tão esquisito assim no meio do nada.

Elion se abaixa e pega um galho caído no chão, virando-se para ela como se segurasse uma espada.

Reconhecendo a intenção de luta ela ameaça com seu figo ficando numa posição prestes a arremessá-lo.

– Tudo bem, vamos colocar as cartas na mesa. Qual é o seu jogo? – Ele fala.

– Ahn... poker? – Ela arrisca.

– Não, por que está me seguindo?

A garota tira uma folha do cabelo com a expressão serena e parece olhar para alguma coisa muito distante com ar distraído.

– Não sei, parece que você vai pra algum lugar – Ela responde.

– Sei, continue.

– Só estou seguindo a corrente. Todos ficaram com tanto medo de repente...

Elion arqueia uma sobrancelha sem entender e depois a compreensão ilumina sua mente. Ele deixa a ponta do galho cair no chão, mas não o solta.

– Você se perdeu? – Ele pergunta sem acreditar.

Ela faz um gesto com a mão que queria dizer “mais ou menos”, ainda sem mudar a expressão apática.

– Bom... então tanto faz – Ele dá de ombros e continua seu caminho. – Por falar nisso, quem é você mesmo?

– Você quer saber meu nome ou quer saber quem sou eu?

– E faz diferença?

– São perguntas diferentes, mas... – ela dá de ombros – Amelie.

– Só Amelie?

Ela fica em silencio.

– Tá, se quer ser a misteriosa então eu sou o gato de Cheshire. O que você veio fazer no meio da floresta, se é que eu posso saber?

– Isso é um interrogatório? Eu estava dando uma caminhada.

– No meio da floresta? Está pedindo para ser atacada.

– Não, era no campo bobão. Mas quando começo a caminhar acabo parando em um monte de lugares estranhos.

– Você devia comprar uma bússola.

– Na verdade eu já tenho uma – Amelie mostra sua bússola. – Mas ela não me leva a lugar nenhum. Está sempre apontando para o norte.

– Posso ver?

Amelie entrega a bússola pra ele. Elion examina o objeto e assente com a cabeça, arremessando contra o tronco de uma árvore e espatifando-o em pedaços.

– Ei, sabe cantar o hino mundial com o nariz? – Elion pergunta sorrindo.

Amelie arqueia uma sobrancelha como se dissesse “O que?”.

O garoto revira os olhos e tampa uma das narinas passando a nasalar uma musica irritante enquanto dava as costas para a desconhecida e marchava pelo caminho.

Elion continua andando emitindo aquela musica irritante e Amelie olha para sua bússola em caquinhos uma ultima vez antes de segui-lo. Depois de um tempo os dois saem da floresta.

Em vez de ver a cidade, a primeira coisa que eles viram foi um circo. Um circo bem grande e colorido. Extremamente familiar para ambos.

– Já faz algum tempo – Amelie acena para o circo como se fosse um amigo ao longe que pudesse vê-la.

– É, já faz algum tempo... – Os olhos de Elion faíscam ao observar a estrutura com desconfiança, parando imediatamente de tocar a musica com o nariz.

Amelie vai andando na frente e a situação se inverte, pois é Elion quem a segue. Quanto mais se aproxima mais um sentimento vago de desconforto vai rodeando ela. Quando já estava de frente a entrada do circo observando as letras douradas com bordas escarlates é que sente o ar venenoso vindo de dentro dele. Quanto mais perto, mais pesado o ar era.

Ela olha através da entrada sentindo um vento frio arrepiar os pelos do seu braço. Uma fila pra comprar os ingressos ainda estava no começo, pelo visto não fazia muito tempo que o circo abriu.

Elion entra na fila da bilheteria e Amelie entra logo atrás dele. O caixa tinha um vidro escuro que impossibilitava as pessoas de fora verem quem estava lá dentro, porém a abertura onde entrava o dinheiro e saia o ingresso com o troco nunca falhava. Elion pagou o ingresso dos dois, ele deslizou um cartão de crédito pela abertura e pediu para que o vendedor sacasse um pouco a mais para voltar troco.

Os ingressos saíram junto com um maço de notas, para Elion “um pouco” era mais do que a maioria recebia em seu salário. Quando foi pegá-los pela abertura do caixa teve a impressão de que tocou na mão do vendedor, se não conhecesse próteses diria que sentiu uma mão gelada e lisa feito porcelana do outro lado.

Elion entregou o ingresso para Amelie e segurou firme quando a garota foi pegá-lo.

– Alguns minutos na floresta não nos fazem melhores amigos. Você nunca me viu – Ele adverte com um tom sério.

– Já vamos guardar segredos um do outro? Nosso relacionamento está progredindo mais rápido do que pensei. – Ela ri.

– Se alguém perguntar, você não me conhece. É a sua palavra contra a minha e sejamos francos, a minha tem mais peso.

– Você não quer ter nenhuma ligação comigo? – Os olhos serenos dela fitam os dele sem expressar emoção.

– Isso aí.

– Nenhuma ligação comigo? – Ela frisa bem a palavra sem acreditar. Ele não conhecia Amelie Dufour de’Bouvier? Normalmente a maioria faria o possível para ter alguma ligação com ela, nem que fosse ter dito ‘oi’ a cinco quadras de distancia.

– Nenhuma ligação com você. Não leve para o lado pessoal, sou uma pessoa ocupada. – Dito isso ele se despede e caminha pelas ruas do circo.

Amelie olha em volta sem saber para onde ir. Costumava vir ao circo com o pai quando era criança, mas nunca gostou de lá. O ar era denso e carregado, ela podia sentir a agonia de cada lugar em que alguém tinha morrido e suas noites eram recheadas de pesadelos quando deitava na cama. Fazia muito tempo que ela não visitava o circo, mas o ar era exatamente como ela se lembrava. No entanto, por algum motivo, sentia que dessa vez era diferente.

Ela sente uma respiração gelada em sua nuca e suas costas curvam-se para frente com o peso repentino que se apoia nela.

– Ah, você chegou. Já estava demorando, sabia que algo assim ia acontecer– ela diz sem alterar a expressão.

Puxa um caderno de seu uniforme e o folheia até encontrar a folha com o nome “Minme”.

Seu amigo não tinha forma, ele era uma mudança no ar que ela só conseguia sentir. As vezes achava que ele se parecia com um humano, as vezes com uma nuvem, dependia de como seus olhos estavam concentrados no dia, havia vários como ele por aquele lugar, ela só conseguia diferenciá-los pela singularidade do peso das emoções que cada um carregava.

Todas as entidades que ela conhecia ficavam registradas em seu diário, era uma forma de elas não serem totalmente esquecidas. Mas por causa desse dom inconveniente foi taxada como estranha e mentirosa. O dom dela também não era perfeito, não sabia controlá-lo e nem pra que servia, ele só parecia ter um objetivo: colocá-la em enrascadas.

Amelie ignora a existência de Minme e caminha para longe dele. Por onde passava sentia os demais tentando chamar a sua atenção, seus olhos ardiam quando quase via a forma deles. Ela piscava tentando lubrificá-los, mas sentia seus olhos queimando conforme a silhueta dos fantasmas ficavam mais definidas. Tinha algo errado, aquilo nunca havia acontecido antes.

Quando dá por si está dentro de uma das tendas do circo. As paredes da sala estavam pintadas com representações das constelações mais importantes do céu noturno, cortinas escuras cobriam as janelas deixando pouquíssima luz entrar, os armários estavam cheios com vidros coloridos, ramos de ervas secas e um pequeno vaso com uma planta que ela não conhecia, uma espécie de bonsai com apenas duas flores na base do tronco. A sua frente via uma mesa redonda com um tecido negro cobrindo-a até o chão. Em cima da mesa, um baralho de cartas.

Amelie não pode deixar de ficar intrigada, ela se aproximou do baralho e estendeu a mão para pegá-lo.

– Eu não tocaria nisso se fosse você – disse uma voz feminina em tom sereno. Ela estava sentada em uma cadeira de espaldar alto imediatamente atrás da mesa, mas Amelie não a percebeu até que ela se pronunciasse. A mulher era linda, de uma beleza magnífica. Seus cabelos eram negros como penas de corvo e perfeitamente lisos, caindo suavemente por seus ombros e desaparecendo abaixo de sua cintura.

– Desculpe – Amelie recolhe sua mão.

– É um de seus defeitos, não posso culpá-la. – A cartomante olha para ela – Seus olhos não vão parar de arder se você continuar com isso. Essa sensação vai te acompanhar pelo resto do dia.

– Devo ter deixado alguma coisa cair dentro dele – Amelie coça os olhos com as pontas dos dedos, sem perceber que não tinha como a mulher saber de seu recente problema já que ela própria só começou a tê-lo há alguns minutos. – Tem algum espelho?

– Atrás de você, mas não encontrará nada suspeito dentro deles. Era inevitável que algo assim acontecesse.

Amelie se olha no espelho procurando algum cisco ou vermelhidão na esclera, como a cartomante disse realmente não encontrou nada estranho.

– Viu isso nas suas cartas? – Ela pergunta.

– Não precisei. Hoje vai ser o primeiro dos piores dias de sua vida, eu sei disso há quase onze anos. – Os olhos de gelo da mulher encaram o reflexo dos olhos amendoados de Amelie – Já que veio até mim que tal uma consulta?

A garota olha a cadeira ao seu lado e aceita o convite.

Seryu separa uma carta antes de começar a embaralhar e a coloca virada de cabeça pra baixo em cima da mesa. Amelie estendeu sua mão para pegar a carta e recebeu um tapinha quando estava perto de tocá-la.

Um olhar de Seryu a fez sentir um arrepio e juntar as mãos no colo para não irritá-la novamente. A cartomante termina de embaralhar e distribui as cartas em fileiras pela mesa, deixando a carta que ela separou no início longe das outras.

– Você pode não gostar do que vai ouvir – Seryu avisa.

– Vou correr o risco. – Amelie se inclina para perto da fileira de cartas e a observa – Quantas cartas eu tenho que escolher?

– Uma para o passado, uma para o presente e uma para o futuro. Lerei elas na ordem.

– E se eu escolher errado?

– Será a carta certa no momento que tocar seus dedos.

Amelie olha para a carta separada das demais sem disfarçar sua curiosidade. Porém volta a se concentrar nas fileiras e pega três cartas separadamente. Quando vira as cartas para o seu lado percebe que fora a moldura elas estavam totalmente em branco. Amelie vê a cartomante recolher as demais de volta para o baralho e coloca suas cartas escolhidas na mesa esperando a mulher decifrar para ela. Seryu termina de arrumar seu baralho e guarda a carta separada no topo antes de se concentrar nas escolhidas pela garota.

– Pronta?

Amelie assente com a cabeça.

– Primeiro o passado – Seryu vira a primeira carta de Amelie para cima e uma figura vai surgindo na carta branca: A silhueta de um homem ajoelhado com uma menina abraçada a sua cintura encolhida pelo medo da tempestade. Ele estendia sua mão para outra mão negra que saia do escuro, como se aceitasse algum tipo de acordo. – Um desejo que não devia ser realizado é o começo desconhecido de sua história, antes mesmo de você nascer ela já tinha começado a trazer as consequências – Lentamente a mão do homem vai abaixando de encontro à mão negra e quando elas se tocam a menina e tudo ao redor desaparecem da figura.

Amelie arqueia uma sobrancelha sem entender. Aquele não era seu passado. Como de praxe havia mesmo pego a carta errada, que maravilha!

Seryu vira a carta para baixo e em vez da estampa havia a figura de uma mulher coberta por um véu que descia até seus pés. Vagarosamente a mulher vai desaparecendo e um par de olhos roxos se abre no céu da carta. Os olhos desconhecidos olham pra esquerda e pra direita procurando a mulher e então olham pra baixo onde várias outras silhuetas com véu aparecem em seu campo de visão.

Amelie não pergunta nada, apenas inclina-se mais pra perto da carta para prestar mais atenção, não entendia o que estava acontecendo, mas tinha ficado intrigada com aquela história, parecia um conto de fadas. Quando os olhos roxos se fecham, pares de estrelas coloridas se abrem no céu procurando por eles, as várias estrelas viam as figuras ocultas pelo véu, mas não conseguiam encontrar o dono dos olhos roxos.

– Seu presente tem mais caminhos estranhos que seu começo – Seryu vira a segunda carta de Amelie para cima e uma figura surge dentro dela: Uma representação da própria Amelie cercada de mãos tentando chamar sua atenção. Era uma situação insuportavelmente familiar.

Amelie concorda com a cabeça.

Seryu passa sua mão por cima da carta como se fosse tirar o pó dela e o desenho muda. A mini-Amelie está no final de uma floresta observando um circo ao lado de um mini-garoto. Nesse momento Amelie olha desconfiada para a cartomante. Era exatamente o que tinha acontecido alguns minutos atrás.

Seryu vira a carta de ponta cabeça e a Amelie da carta está com seus olhos pegando fogo, ela esfrega seus olhos enquanto caminha e então esbarra em um homem alto. Lentamente o homem dentro da carta se vira para ela e a mini-Amelie vê que os olhos dele também pegavam fogo. Assustada ela sai correndo.

A garota olha para a cartomante ainda mais desconfiada do que estava no início. Onde ela estava querendo chegar? Isso ainda não tinha acontecido.

– Você vai cometer o mesmo erro do começo de sua história – Seryu diz enquanto olhava a carta decepcionada.

Amelie volta a olhar para a segunda carta e vê sua bonequinha pegando um convite dourado de um homem desconhecido. Ela foi convidada pra que?

– A ultima carta é o seu futuro – A mulher lança um olhar para a terceira e ultima carta da fileira.

Amelie também olha para ela. Antes de pegá-la, porém, volta a olhar para as duas primeiras cartas indecisa. Era a primeira vez que outra pessoa lhe contava algo sobre fantasmas e ironicamente a cartomante havia mostrado um presente bem realista como prova de seus dons. Amelie sabia quando alguém mentia e por mais louco que fosse, Seryu não estava mentindo para ela naquele momento, apesar da carta do passado não lhe fazer sentido.

– Você também vê eles? Os fantasmas que eu vejo? – Amelie pergunta com um tom sereno.

Seryu nega com a cabeça.

– Acredita em mim? – Pergunta para confirmar.

– Você pensa em fantasmas como pessoas mortas, mas essa não é a única definição da palavra. O que você vê não são espíritos.

– Então o que são?

Seryu abre um sorriso misterioso e olha pra ela com sarcasmo no olhar.

– No futuro você vai descobrir.

Amelie olha para a terceira carta. Aquele era o futuro, a resposta estava ali. Receosa ela aproxima sua mão da ultima carta e vagarosamente a vira. A mini-Amelie morria embaixo de uma estrela com carinha feliz.

– Não é um futuro agradável – A garota comenta.

– Nunca é. Raro são as pessoas com finais e começos felizes.

Amelie coça seus olhos novamente e se levanta da cadeira.

– Qual a probabilidade de sua previsão estar certa? – Amelie pergunta enquanto ajeitava a cadeira de volta no lugar.

– Bem alta – A cartomante diz calmamente.

Realmente não era um numero animador.

– Alguma chance do futuro mudar se eu fizer algo diferente? Nos filmes com máquina do tempo isso acontece.

– Isso vai depender de você – Ela diz.

Sentindo que não havia mais nada a ser dito Amelie se despede agradecendo pela consulta e sai do Lua Minguante. Logo que ela sai outra pessoa já entra animada, pelo visto a cartomante devia ser famosa.

Ela vê um vendedor de algodão doce e vai até ele comprar uma das nuvens açucaradas. Curiosamente o vendedor era um boneco de porcelana que se movia sozinho, olhando ao redor ela percebeu que a maioria dos que vendiam guloseimas eram bonecos. As crianças seguravam o riso ao fazerem o pedido para eles e os adultos sorriam curiosos pensando se tratarem de robôs, tentando ver atrás deles onde havia a tomada.

Seus olhos ardem novamente e ela os esfrega com as costas do braço, tomando o cuidado para não deixar o algodão doce cair. Ela esbarra em uma pessoa e já se desculpa antes mesmo de ver quem era. Quando levanta a cabeça encontra um homem com olhos e cabelos roxos. Ele usava um tapa-olho negro e tinha uma expressão mal humorada. Era exatamente como a cartomante tinha previsto, os olhos dele não estavam pegando fogo, mas era impossível não reconhecer aquelas íris arroxeadas logo depois de ter sido alertada sobre elas.

– Por quanto tempo você vai ficar parada aí? – Arman pergunta vendo que ela não saía de seu caminho.

Imediatamente Amelie se lembra da imagem da mini-Amelie morta embaixo de uma estrela. Ela dá passagem para Arman voltando a ficar com uma expressão serena de indiferença e calmamente ela deixa a cena andando sem pressa alguma pra qualquer lugar. Definitivamente ela não correria.

~ ❖ ~

A respiração de Johanne estava acelerada, ela ouvia o som de algum objeto pesado ser arrastado pelo chão e tinha medo do que ele poderia ser dessa vez. A mordaça em sua boca a impedia de gritar, ela restringia sua língua e só a deixava ainda mais apavorada por não poder ao menos tentar dialogar com seu carrasco. Se nem a esperança de implorar lhe era permitida, o que ela poderia fazer?

– Você já ouviu falar no burro espanhol? – Magnus pergunta para Ênia.

– Ele é mencionado em três livros que eu li – ela faz uma pausa tentando recuperar as informações que lembrava. – Apenas menções, nenhum descrevia sua utilização.

Magnus coloca Johanne em cima de um banco de madeira triangular (com a ponta do triângulo virada para cima) e separa suas pernas para ela sentar-se no instrumento. Com as mãos presas por algemas nas costas ela tenta se contorcer para seus pés alcançarem o chão, mas só piora a situação. Ela não via a altura do instrumento, de modo que não tinha como saber que um metro a separava do chão, seu próprio peso agia contra ela naquele momento.

– É parecido com a Serra, porém mais devagar e sem exigir tanto esforço de sua parte – Magnus explica enquanto pegava uma bola de ferro ligada a uma algema. – O peso e a gravidade fazem o trabalho por você.

Quando o mordomo ia prender o peso ao tornozelo de Johanne Ênia o impede, comprimindo seus lábios ao perceber a própria insegurança do que fazia.

– Ela... – Ênia tenta começar pensando em como continuaria – Pode deixar ela pra mim? Quero aprender na prática.

– Você quer prosseguir?

– Já entendi como funciona, não é tão difícil se você pensar mais a frente. Os pesos vão rasgá-la ao meio como aconteceu com a Serra não é? Mas o propósito é deixar o sangue escorrer até ela morrer pela hemorragia ou ficar fraca o bastante para não se mover mais sozinha. Então o Doutor a cura e faço tudo outra vez. Posso prosseguir sozinha a partir daqui.

Magnus sorri e finge entregar o peso para Ênia, mas quando ela vai pegá-lo o homem o prende ao tornozelo da costureira com um único movimento. A perna de Johanne pende empurrando-a mais para baixo e fazendo-a sentir a ponta do banco abrir passagem entre sua pele cada vez mais sensível. Um gemido abafado escapa por baixo da mordaça e ela tenta prender a respiração para contrair os próprios músculos e impedir que aquele peso a rasgasse ao meio.

– Se quer tomar uma iniciativa você não se importará se eu ficar com a chave – Magnus diz.

– Não, de maneira nenhuma.

– Pois bem.

O mordomo se dirige até a mesa com seus instrumentos e os analisa. Magnus pega um instrumento que lembrava uma flor de quatro pontas e o fecha fazendo o objeto adquirir o formato de uma pêra*.

– Conhece esse? – Ele pergunta para Ênia que move a cabeça negando.

Ele vai até a cadeira de Arisu e a circunda deixando a garota de cabelos brancos como algodão tensa. Seus olhos escarlates encaravam o mordomo cheios de pavor e foi com um incomodo alivio que ela viu ele se afastar dela para ir até Callisto. Chegava a ser estranho, sentir alivio por outra pessoa ser torturada em seu lugar.

O mordomo tirou a faixa de pano da boca de Callisto desfazendo o nó sem qualquer indicio de pressa. Callisto o encarou desconfiado tentando se segurar firmemente a cadeira. O francês não disse nada quando teve o pano removido da boca, só continuou a encará-lo tentando a todo custo manter a calma.

– Abra a boca – Magnus mandou.

Callisto olhou dele para o objeto que o mordomo segurava e apertou os lábios com força para eles não abrirem, subitamente ciente do local que aquele instrumento agia.

– Vai mesmo brincar disso? – Magnus pressiona a mandíbula de Callisto que apesar da dor faz mais força ainda para manter a boca fechada. Porém não consegue resistir por muito tempo e quando sua mandíbula estala ele acaba abrindo a boca e recebe o instrumento em seu interior.

Callisto tenta empurrá-lo com a língua, mas o mordomo segurava bem firme do outro lado. Magnus abre um mínimo sorriso ao perceber o pânico dele.

– Eu falei que arrancaria sua língua da próxima vez, mas... – O sorriso do mordomo cresce – tive ideias melhores.

Ele vai torcendo uma chave no instrumento e aos poucos a fruta vai abrindo como uma flor. As pétalas de metal forçavam o interior de Callisto ao limite e até quando este foi atingido Magnus não parou de torcer a chave. Os cantos de sua boca se esticaram até ao ponto de rasgarem e o osso de sua mandíbula deslocou-se da parte de cima fazendo um som seco de algo que é quebrado.

Ênia olhou aquilo intrigada, pelo tamanho pequeno não sabia que faria tanto estrago.

Os olhos dourados de Callisto ficaram úmidos, mas ele tentou a todo custo reprimir as lágrimas. Sua língua pendia do buraco aberto como se ele fosse um cão.

Magnus usou dois dedos para medir a distancia da abertura e deu um sorriso pouco satisfeito com o resultado.

– De novo – Ele diz.

O Doutor pegou a mandíbula de Callisto e a encaixou de volta no lugar, repousando a língua atrás dos dentes para ela não pender durante seu trabalho. Só demorou dez segundos para ele concertar o osso quebrado, mas Magnus não permitiu que ele terminasse de cicatrizar os cantos da boca.

Quando o mordomo se aproximou novamente os olhos de Callisto se arregalaram e ele tentou ao máximo se afastar do maior, embora fosse impossível já que ele estava preso. Callisto apertou firmemente os próprios lábios, não se importando com a dor, e ficou virando a cabeça para dificultar a inserção daquele objeto de novo.

Ênia observou aquilo com um olhar impassível, comparado a Ivan cuja raiva transbordava em suas ações, Callisto parecia mais querer fugir do que atacar. Ele era como ela, alguém que aprendia rápido e sabia agir com prudência. Se Magnus queria impor medo a ele, já tinha conseguido.

– Sua reputação o precede, ele já está com medo de você – Ela segura o braço de Magnus com delicadeza, não forte o bastante para impedi-lo de realizar qualquer ação, apenas um toque o suficiente para que ele lhe escutasse. – Callisto é inteligente o bastante para evitar cruzar o seu caminho de novo, já pode parar agora.

Magnus volta o olhar para Ênia com um semblante sério e suspira em desaprovação.

Callisto ficou aliviado pela intervenção da garota e ao soltar o ar preso em seu pulmão o som chamou de volta a atenção de Magnus. Quando os olhos de prata voltaram a olhar para ele Callisto amaldiçoou a si próprio e todo o ar que respirava.

– Os seres humanos não são os mais racionais do universo quando se trata de comportamento – Magnus aperta o pescoço de Callisto com uma mão e com a outra ele pousa a ponta de uma faca no peito de Callisto, bem em cima do coração. – O que está fazendo Callisto?

Ênia nem tinha visto ele pegar a faca. Ela olha em volta procurando a pêra e a encontra aos seus pés, ele devia ter pousado-a no chão no momento que Callisto soltou o ar. Era mais rápido e sutil em seus movimentos do que ela esperava.

– O que está fazendo? – Ele repete sem tirar olhos gélidos do olhar fixo de Callisto.

– Nada. Do que está falando?

A ponta da faca vai entrando em sua pele vagarosamente, por algum motivo seu coração acelera e Callisto prende a respiração para retardar o avanço da lâmina, mas seu coração teimoso pulava no peito como se buscasse o encontro predestinado com a morte mais cedo do que seu dono queria.

– O que está fazendo? – A voz profunda de Magnus ressoa e Callisto é envolto por aqueles olhos frios sentindo que havia um significado oculto naquela pergunta. A faca ia cortando o caminho até seu coração, a presença de Magnus era grande e opressora, Callisto estava indefeso na frente de um ceifador sinistro incapaz até de respirar. De fato, o que ele estava fazendo?

Quando a ponta encosta no coração a faca retrocede e no meio do caminho de volta até a saída abre um rasgo maior caindo até o final da cintura. O francês grita com a dor e sente seu sangue começar a escorrer da abertura.

Magnus entrega o instrumento para Ênia e se coloca atrás de Callisto tampando suas orelhas com as duas mãos. Magnus massageia atrás da orelha de Callisto com os polegares e Ênia duvida fortemente que aquilo fosse algum tipo de carinho.

Magnus para quando parece encontrar alguma coisa na orelha esquerda e usando o polegar para marcar o lugar ele estica o outro braço até uma caixa de agulhas e aquece uma delas na chama de uma vela. Ênia vê a fina agulha mudar do tom prateado para um vermelho carmesim.

– O que é isso? – Ela pergunta sem aguentar a curiosidade.

O médico do circo suspira e se levanta de seu lugar. Magnus olha para ele e parece encontrar alguma coisa na expressão do médico que o faz ignorá-lo ou permitir silenciosamente sua retirada. O Doutor sai da sala sem se despedir de nenhum dos dois e caminha pelos corredores enquanto olhava para o teto com ar sério.

– Onde ele foi? – Ênia pergunta sem entender a súbita mudança de atitude.

– Em vez de se preocupar com o Doutor, tente aprender alguma coisa do que você vê aqui.

Ênia ia argumentar de que a saída do médico dificultava as coisas quando o mordomo enfiou a agulha por debaixo de seu polegar rumo ao interior da cabeça de Callisto.

O francês sentiu muito bem a agulhada, doeu, mas bem menos comparado a ter sua boca destroçada a força. Ele esperou que Magnus fizesse algo mais, porém o mordomo se deu por satisfeito e se afastou de Callisto.

“Não pode ser só isso” – Callisto pensou preocupado com a agulha dentro de sua cabeça. Será que ela tinha sido mergulhada em algum veneno?

Ênia também imaginou a possibilidade de veneno, aquela agulha era suspeita, não parecia do feitio de Magnus terminar de forma tão simples. Não depois de ter serrado um homem ao meio.

Arisu tinha sido ignorada até ali, porém até ela já sabia que tinha chegado sua vez. Seu peito subia e descia com a respiração descompassada, ela não se surpreendeu quando o mordomo parou a sua frente.

– Já se habituou com a dor em seu ombro? – Ele pergunta.

Arisu se retrai na cadeira.

Magnus olha para Ênia e lhe estende sua mão. A bailarina pousa a faca que ele tinha lhe entregado nela, porém ele segura tanto a faca quanto a mão que a entregava, trazendo-a para perto de Arisu e pousando-a em cima de sua coxa.

– Corte os nervos – Ele diz.

Magnus guia a mão de Ênia a perfurar a carne macia de Arisu e após os gritos da garota de cabelos platinados ele guia a faca a se retirar de dentro dela.

– Todos eles – Magnus finaliza soltando a mão de Ênia e indo buscar alguma coisa.

– Os nervos-...

– Procure-os – Ele diz.

Ênia olha para as pernas dela franzindo as sobrancelhas indecisa. Por sorte ela já tinha lido sobre o corpo humano uma vez, sabia o nome de cada artéria, veia e nervo que existia em seu interior, eram semelhantes às raízes de uma árvore que se espalhavam procurando uma saída. O problema é que estavam tão emaranhados e próximos uns dos outros que era difícil cortar um sem esbarrar em outro e ela nunca havia feito isso antes. Tinha a figura em 2D gravada na memória, mas as coxas de Arisu eram bem diferentes de uma ilustração no papel. Magnus provavelmente queria que ela falhasse o máximo possível para prolongar o sofrimento da garota de cabelos platinados, ele não havia feito o mesmo com o prego? O objetivo era estender o sofrimento, mas Ênia ainda não era capaz de fazer aquilo com a mesma tranquilidade que ele.

– Feche os olhos – Ela pede para a prisioneira.

Arisu obedeceu, fechando seus olhos escarlates com força para se preparar pro impacto.

Ênia se ajoelhou ao lado da cadeira e fechou seu olho verde-esmeralda. Ela precisou se concentrar bastante até que seu olho vermelho funcionasse, mostrando as raízes invisíveis que se escondiam por baixo da pele da garota. Magnus não devia saber, mas ela também tinha seus truques na manga. Ela era Ênia 2-0-7, aquele era seu número de criação. Depois de tantas tentativas e fracassos de seu criador o que ela faria se não pudesse executar nem mesmo aquela tarefa?

Arisu sente a faca perfurá-la novamente. E de novo, e de novo, e de novo. Abrindo buracos em suas pernas como um queijo suíço. Depois de alguns golpes ela parou se sentir o movimento das pernas, tentou mexer os dedos do pé, mas eles não lhe obedeceram. Quando estava prestes a abrir os olhos para ver o estrago que suas pernas tinham recebido em vez de olhar para Ênia seus olhos capturaram um gancho vindo em sua direção e se focaram nele. Magnus atravessou o gancho em seu ombro e o sangue respingou no rosto de Ênia que de tão concentrada nem tinha visto ele se aproximar.

Arisu gritou atrás da mordaça e sentiu seu corpo ser puxado para cima pelo gancho em seu ombro. Magnus travou uma roldana e se dirigiu até Arisu, desamarrando as cordas que a prendiam na cadeira.

– Vou lhe fazer uma pergunta, se responder com sinceridade, libertarei você – Magnus diz sem um pingo de emoção na voz enquanto tirava a mordaça de Arisu.

A prisioneira olha para Ênia.

A bailarina não soube interpretar o significado do olhar de Arisu. Era uma suplica? Um pedido de ajuda? Uma confirmação da proposta de Magnus?

– Por que eu trato Ênia diferente de você? – Ele verbaliza a pergunta sussurrando em seu ouvido, pegando Arisu desprevenida.

Nem Ênia sabia a resposta para aquela pergunta. Era o que ela se perguntava desde que tinha entrado no circo. Por que seu quarto era tão difícil de alguém encontrar? Por que o mordomo parecia fazer vista grossa para suas ações? Por que ele estava ensinando seus métodos de tortura a ela e apenas a ela?

Arisu passa a língua por seus lábios sentindo que eles estavam secos e rachados. A mordaça parecia ter sugado toda a água de sua boca. Ironicamente, seus olhos despejavam lágrimas em abundancia.

– Eu não sei – Ela diz com a voz falhando. Se era pra ser honesta, ela seria.

Uma sobrancelha do mordomo arqueia levemente e um sorriso fantasma transpassa seus lábios de forma gélida. Ênia sente um arrepio subir pela sua espinha e seus dedos tremem sem que ela entendesse o porquê.

– Gire a roldana – Ele diz.

De alguma forma suas pernas conseguiram se mover até a roldana, Ênia pegou a roda e girou, estranhando a própria obediência súbita. Arisu foi levantada pelo gancho e quanto mais a roda girava, mais alto ela era levantada.

A garota de madeixas brancas feito estrelas tentou se debater para livrar-se daquela dor enquanto gritava como nunca, mas suas pernas pendiam inertes feito trapos no ar. Vendo que ficava cada vez mais distante do chão ela decide olhar para cima para saber qual seria o seu destino e encontra o rosto de uma mulher de ferro.

A face metálica sorria e de seus olhos escorriam lágrimas de sangue seco. Seu interior se abriu revelando uma porção de espinhos de ferro e Arisu gritou mais alto ainda ao ser aprisionada dentro da Dama de Ferro*.

Magnus olhava para cima com uma expressão serena e satisfeita. Ênia podia ver que ele gostava disso, os gritos de Arisu ainda eram bem audíveis em seus ouvidos, mas Magnus ouvia-os como se fosse sua sinfonia favorita.

Um barulho de agulha arranhando chama a atenção dela e ao olhar para a vitrola Ênia percebe que a musica havia terminado. Magnus também percebeu isso e se dirigiu até a vitrola, tirando a agulha de cima do disco, sua expressão tinha voltado à seriedade de costume.

– A musica terminou, vamos – Ele diz.

Ênia acompanha Magnus para fora da sala e o vê trancar a porta antes de sair. O mordomo caminha pelos corredores como ela sempre via ele andar, não havia nenhuma mudança em seu comportamento que indicasse o que ele esteve fazendo até aquele momento. Ênia ficou encarando-o a procura de vestígios emocionais, era mesmo possível que ele já estivesse tão habituado que não sentisse mais nada ao executar uma atividade daquele tipo? De qualquer forma o médico poderia curá-los, então não devia mesmo haver motivos para preocupações.

– Eu irei chamar o Doutor – Ela diz.

– Por qual motivo?

“Por qual?” – Ela pensa sem demonstrar em seu rosto a surpresa da pergunta.

– Para impedir que eles morram? – Ela arrisca esperando a resposta dele.

– Não há necessidade.

Ênia pensa no rosto assustado de Arisu ao ser aprisionada na dama de ferro, Johanne estava lentamente sendo rasgada ao meio e Callisto tinha um corte do tamanho de um braço descendo sob seu coração, sem falar é claro da agulha suspeita.

A bailarina passa em frente a um espelho e vê o sangue da garota de cabelos platinados em seu rosto. Algum dia ver aquilo se tornaria agradável?

Notas finais
Pra quem já abriu a grade antes ou durante o capitulo e teve uma surpresa, vocês gostaram? Muitos disseram que os gifs demoravam pra carregar e apesar de bonitinho é melhor ser mais prático na hora de reconhecer os personagens do que travar uma luta com a lentidão do computador toda vez que for ler a fic. Juro que tentei achar um jeito de fazer os gifs carregarem mais rápido, é impossível. Até tentei bolar um jeito de colocar imagens primeiro e gifs depois, mas de um jeito ou de outro eles atrapalhavam. Desculpe pessoal, em nome da velocidade e da praticidade, eu optei pelas imagens. Se alguém não conseguir visualizar a nova grade ou achar algum problema me avisem para corrigir, estou aqui pra isso. http://mothrequiem.tumblr.com/ *dálias roxas: Não sei se alguém se interessa, mas na simbologia das flores as dálias roxas significam “Tenha piedade de mim”. Por isso, quando Cain viu as danadas logo após se mudarem ele interpretou como um mau presságio. *Burro espanhol: Apesar de ser usado em sessões sadomasoquistas hoje em dia, antigamente era um instrumento bem perverso. Como Ênia explicou os pesos nas pernas rasgavam a vitima ao meio de pouquinho em pouquinho, a agonia e a dor crescente são os principais ingredientes desse método. Imagem: http://assets.muitointeressante.com.br/uploads/pictures/64/content_pq_burroesp.jpg *Pêra: Um instrumento de tortura da Idade Média. Acho que vocês já entenderam como funciona né? Achei a cena bem explicativa, mas aqui vai uma imagem do instrumento, caso seja difícil de visualizá-lo mentalmente: https://historiablog.files.wordpress.com/2014/04/574653_340938109365143_1153467179_n.jpg *Dama de ferro: Outro instrumento da Idade Média, a igreja realmente criou bastante instrumentos de tortura nessa época. Acho que esse é o mais famoso, mas caso vocês não conheçam aqui vai mais uma imagem, ao menos do modelo mais comum: http://i1.wp.com/top10mais.org/wp-content/uploads/2014/04/maquinas-de-torturas-dama-de-ferro.jpg?resize=600%2C356 Pra quem não sabe, a dama de ferro não é um instrumento de execução. Os espinhos não atingem os órgãos vitais, eles apenas perfuram e deixam a vitima agonizando enquanto permanece viva lá dentro.