Notas iniciais
(@ロ@) Me desculpem pela demora.

“Nenhum caminho é longo demais quando um amigo nos acompanha.”

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Com uma sacola de roupas intimas e as pernas cansadas de tanto andar, Adeline senta-se em cima de uma lata de lixo e faz a cara mais emburrada que consegue. Ela era a mais nova, por que devia ficar procurando a mais velha às cegas pela cidade?

— Quando eu te achar, Naomi, você vai ganhar umas boas palmadas – Adeline diz para o nada.

Não precisa esperar muito tempo, por que logo vê a mais velha entrando em uma livraria, acompanhada de um homem de cabelos azuis e um violino nas costas. Não conseguiu acreditar na audácia da mais velha, enquanto Adeline estava a procurando feito louca ela estava aproveitando tranquilamente a companhia de um cara?

A garota atravessa a rua e entra na livraria. Naomi estava conversando com o homem sobre um livro que tinha pego, eles discutiam amigavelmente até Adeline puxar o braço da mais velha exigindo sua atenção.

— Adeline, eu estava te procurando – Naomi diz.

— EU estava te procurando. Onde você se enfiou?

— Você não vai acreditar. Eu vi uma joaninha linda e quis muito tirar uma foto dela, mas enquanto esperava ela ficar parada acabei me vendo fora da loja.

— E esse cara?

— Eu já vou chegar lá. Eu estava perseguindo a joaninha e quando finalmente consegui tirar uma foto dela, ele acabou saindo junto. – Naomi aponta para o homem de cabelos azuis – parece que eu não devia ter tirado uma foto dele por ali então... meio que ele queria apagá-la.

— Tudo bem, ele apagou a foto, e daí? Por que vocês estão juntos?

Naomi olha para os lados querendo fugir da pergunta.

— Você deixou ele apagar, né? – Adeline olha para a irmã desconfiada.

O homem trás um livro cheio de fotos de insetos e entrega para Naomi.

— Aqui tem várias joaninhas, de todas as cores que quiser. Pode apagar agora? – ele pergunta.

— Você fez a foto de refém? – Adeline pergunta abismada.

— Não me olha assim. Ficou linda.

Adeline pega o celular da irmã e entrega para o homem. Ele não perde tempo em ir para a galeria e depois excluí-la da lixeira para ninguém recuperar.

— Peço desculpas pela minha irmã – Adeline tenta fazer sua melhor cara de arrependimento.

— Tudo bem, foi descuido meu. Só não posso deixar essa foto cair nas mãos dos jornalistas, tenho uma reputação a zelar.

— Eu entendo, acredite – Adeline o tranquiliza. – Musico, não é? É complicado.

— Obrigado. Eu só espero-...

Florian interrompe a própria fala ao avistar um quadro perto dos livros, ele arqueia uma sobrancelha e se dirige para a foto. Adeline fica curiosa e também vai olhar. A foto antiga mostrava uma mulher acompanhada de três outras pessoas em um circo. Alguém tinha escrito embaixo da foto os nomes deles: Michael, Kumiko, Pierre e Erich.

Adeline conhecia dois deles. Michael estava contornando a cintura da mulher com um sorriso alegre, e a tal de Kumiko foi pega rindo e tentando se escorar em uma espada maior do que ela, a mesma mão que segurava a espada também segurava uma máscara de cachorro. Ao lado dela havia um palhaço fazendo uma careta com metade da cabeça raspada e Erich com uma expressão pouco acostumada a fotografias.

— Eu compro – Florian diz pegando rapidamente o porta-retrato e se dirigindo ao caixa.

Adeline arranca das mãos dele e tenta manter fora de seu alcance quando o homem tenta pegá-lo de novo.

— Eu compro – ela diz tentando se desvencilhar dele e ir até o caixa.

— Eu vi primeiro, não parece justo você levá-lo.

— Pra mim tem valor sentimental.

— Pra mim também.

Com Florian puxando de um lado e Adeline do outro, o dono da loja resolveu intervir tirando o porta-retrato das mãos dos dois.

— Ei, ei. Assim vão rasgar a foto – o dono reclama zangado. – Eu não vou vender isso aqui. Não é meu. Se querem tanto então tirem uma foto com o celular.

Não precisou falar duas vezes, os dois sacaram os celulares e o flash foi sincronizado quando tiraram uma foto da foto antiga.

— Onde conseguiu isso? – Florian pergunta.

— É da minha avó. Essa aqui – o dono aponta para Kumiko. – Por isso não posso vender.

— Ela ainda está viva? – Adeline pergunta.

— Claro.

— Onde mora? – Adeline e Florian perguntam juntos entrando no bloco de notas do celular para anotar o endereço.

O dono estranhou o interesse repentino dos clientes, mas não viu problemas em dar o endereço da avó. Ela tinha deixado o país a muito tempo e morava em algum lugar do Japão, fazia anos que não a via, mas o endereço não devia ter mudado. O homem ainda os alertou de que a avó era um pouco estranha e tinha gostos peculiares até para os dias atuais.

Depois de anotar tudo Florian se dirigiu para Naomi, que estava entretida observando as fotos do livro, e beijou as costas da mão dela.

— Obrigado – ele diz.

— Pelo que? – Naomi cora com o ato repentino.

— Se não fosse por você, eu não teria vindo até aqui.

— Não foi intencional – Naomi diz.

— Eu sei, mas agradeço assim mesmo.

Dito isso ele deixa a livraria, deixando Naomi entretida com seu livro e Adeline pesquisando pelas prateleiras mais livros que sejam de seu interesse.

Florian atravessa alguns quarteirões e logo dá de cara com uma fileira de ratinhos impedindo sua passagem. Ele nunca gostou de ratos, mas quando vê fica cercado pelos bichinhos em um circulo quase perfeito ao seu redor.

— Ele de novo?

~ ❖ ~

Com varias presilhas de estrelas em seu cabelo e uma roupa que lembrava a de um soldadinho de chumbo, Will ajeitava seus óculos enquanto ajudava Ênia a amarrar as sapatilhas de balé.

Ivie havia colocado quatro pedrinhas brilhantes na bochecha pálida de Ênia e duas presilhas de lírios brancos em seu cabelo, grandes o bastante para lembrarem coques. O vestido de balé que havia escolhido era preto, armado e cheio de babados, com um cinto que exibia um casal de lírios semelhantes as presilhas.

Como Ênia havia chegado atrasada a Caixa de Brinquedos, Ivie não teve tempo de maquiá-la, ficando com um bico emburrado toda vez que olhava o trabalho inacabado.

— Com o mordomo ou não, pelo menos me avise se você for se atrasar. Ser trocada por ele me dá mais raiva do que pisar em uma mina terrestre – Ivie diz cruzando os braços. – É irritante, você é uma artista, não uma empregada, devia ficar mais tempo comigo do que com o mordomo.

— Desculpe – Ênia diz.

— E você ainda chegou aqui suja de sangue, o que é que vocês estavam fazendo afinal?

Ênia permanece em silencio.

— Deixa pra lá. Não quer dizer, então não diz. Não vou ficar feliz sabendo mesmo – Ivie suspira. – De qualquer forma, está na hora do show. Você já sabe o que fazer, Will já sabe o que fazer, e a mulher cobra...

Ivie olha para Saga que se admirava na frente de um espelho em suas roupas ciganas.

— Bom... ela provavelmente sabe o que fazer – Ivie completa sua frase.

Um som parece chamar a atenção da ruiva e ela imediatamente dá uma ultima ajeitada em seu cabelo.

— Em suas posições! – Ivie diz com um toque de urgência na voz.

Correndo cada um pro seu lado eles se preparam para entrar. Ivie segura uma faixa e a enrola envolta do pulso, pisa firme em uma plataforma e solta o ar em seus pulmões para se acalmar.

— Um, dois-...

No três, ela se lança no ar e faz um arco com o próprio corpo, aparecendo em frente a um publico rodeada de labaredas de fogo com um sorriso largo e brilhante.

— Bem vindos – a malabarista de fogo diz enquanto e se engancha em um lustre com velas acesas – Bem vindos a minha modesta Caixa de Brinquedos.

Uma música animada começa a tocar e duas portas se abrem simultaneamente, das quais saem Will e Ênia, seguidos por uma fileira de marionetes que os imitavam. Os dois realizam suas próprias danças com as fileiras de marionetes atrás deles como se fossem brinquedos.

Ênia saltitava pelo chão com graça e leveza. As doze bailarinas que a seguiam imitavam seus movimentos em perfeita sincronia.

Will incorporava um soldado marchando e realmente se sentia um comandante com a fileira de marionetes o imitando. Enquanto Ênia esboçava fragilidade, Will assemelhava-se a um brinquedo quebrado. Em partes da dança, ele virava o corpo para trás e abaixava o tronco até tocar as mãos no chão, quando as marionetes o imitavam, passavam a impressão dele ter quebrado a própria coluna.

O publico olhava para as marionetes e para Will como se os brinquedos ilustrassem o que acontecia por baixo de sua pele. Quanto mais ousado Will ficava em seus movimentos, mais preocupado era o rosto do publico, temendo que ele quebrasse um osso durante a apresentação.

Quando uma flauta começa a tocar em meio a música, Saga aparece com as cobras rodeando seu corpo. Sua cintura rebolava como uma serpente e as cobras deslizavam por seus membros feitos cipós, os sinos de sua roupa tilintavam como um chocalho e ela exibia um sorriso nada tímido nos lábios. Parecia uma vilã.

Já Ivie era como uma chama viva, o fogo a rodeava por onde quer que ela passasse e a ruiva tentava interagir com tudo. Dançando junto com Ênia, provocando Will e Saga ou voltando para seu “ninho” de labaredas. Ela fazia malabarismo com bolas em chamas como se não fosse nada e ora ou outra soltava uma rajada de fogo como um dragão. Durante o espetáculo suas bolas de fogo iam mudando de cor, ficando com chamas cor de rosa, azul, verde ou brancas.

Um garoto com olhos exageradamente azuis na platéia fitava a apresentação de Ivie como se estivesse hipnotizado pelas chamas. Se não fosse pelos outros convidados o segurarem, Elion teria pulado para dentro do ninho de fogo querendo brincar também.

A “peça” em si parecia uma apresentação do conto do Soldadinho de Chumbo, Will encenava com perfeição um brinquedo quebrado e Ênia conseguiu transmitir uma atmosfera perfeita de beleza e fragilidade, tanto que encantou não só o soldadinho como também o publico. Quando a bailarina foi engolida pelas chamas num abraço mortal de Ivie, o publico ficou chocado com a morte da bonequinha, tentando inutilmente conter as lagrimas que eles nem sabiam por que teimavam em sair.

No final da apresentação, Ênia e Will deslizaram até a saída da Caixa de Brinquedos e cada um de um lado da porta começaram a entregar rosas para o publico que saía. Ambos expressaram seu desgosto em terem tão poucas flores para entregar a um publico tão grande, porém Ivie riu deles quanto pediram por mais rosas.

— Vocês querem mais? É a coisa mais engraçada que já ouvi – Ivie ria.

— Onde vocês guardam as rosas? – Ênia pergunta.

— Você pode colhê-las se quiser. No labirinto do mordomo tem várias, você já deveria saber disso – Ivie diz com um tom maldoso.

— Eu posssso t-t-e ajudar a co-l-l-...

— Colher – Ênia termina por ele. – Não. Eu posso fazer isso sozinha, vá descansar.

Depois de ter visto Johanne ser capturada tão facilmente, Ênia não queria arriscar tão cedo outra ida ao labirinto, ainda mais com pessoas a esperando numa sala de torturas.

— Eu acho uma ótima ideia. – Ivie sorri – Will, você vai junto. Ajude ela a não se atrasar para o horário dos VIPs.

— E-essa noite vai t-ter t-t-t-tamb-bem?

— Todas as noites, com exceção do dia da viúva. O feriado é pra descansar.

— Podemos mesmo pegar as rosas? – Ênia fica desconfiada. Se ela tivesse um jardim de rosas não ia querer pessoas arrancando suas flores, e o próprio labirinto já tinha uma sala de tortura a espera dos desavisados.

— Sinceramente? Não existe regra nenhuma sobre isso. Já tivemos problemas com o numero algumas vezes, mas nada que não desse pra resolver, a política é sempre “quanto mais melhor”. Normalmente quem colhe é o Doutor, mas como ele é só um sempre chega com pouquinho.

— Por q-que voc-c-ce não aj-juda?

Ivie olha pra Will com raiva, como se ele tivesse dito a coisa mais revoltante do mundo.

— Eu não vou entrar lá! Nunca. Vocês são ignorantes o bastante pra não se incomodarem, mas quem se lembra, quem vive aqui, NUNCA iria querer entrar no domínio daquele cara. Aquele mordomo... Uhr, que raiva. Não quero desencorajar ninguém, mas tem riscos que não valem a pena cometer.

Ênia fixa seus olhos no rosto de Ivie sem acreditar no que ela dizia. Johanne havia dito que viu Ivie no meio de monstros e meninas doentes, ela e a costureira estavam no labirinto. Dizer que nunca entraria naquele lugar quando já havia feito isso parecia hipocrisia. Ênia queria perguntar o que a ruiva estava fazendo lá, mas preferiu ficar em silencio.

— Eu sei que quem não arrisca não petisca, – Ivie murmura para si mesma – mas se formos comparar...

A malabarista semicerra os olhos para um obstáculo invisível. Irritada por pensar demais, Ivie pega a mão de Saga e a arrasta pelo caminho. Ênia e Will trocam um olhar e decidem por sair da Caixa de Brinquedos.

Os caminhos do circo estavam abarrotados de pessoas, de todas as idades, classes e tamanhos. Ênia tentou despistar Will pelo caminho, mas sua figura de bailarina negra era muito chamativa para alguém perder de vista. Quando chegaram a Casa de Chás, a garota encontrou um ambiente muito deslocado com a imagem que ela tinha do mordomo. As mesas estavam cheias de famílias que saboreavam as tortas e sobremesas, assim como casais alegres que compartilhavam uma bebida quente, e Magnus sorria com tranquilidade, parecendo muito acostumado com o lugar.

— Posso colher mais rosas no labirinto? – Ênia pergunta diretamente para Magnus, apenas para confirmar o que Ivie disse.

— Se colher agora amanhã elas já estarão murchas.

Como não houve nenhuma incredulidade no rosto do mordomo, Ênia imaginou que Ivie não estava mentindo sobre a parte das rosas, mas ainda não conseguia entender a ruiva, tampouco o mordomo.

— Vou entregá-las hoje. Serão só algumas, não vou demorar.

— Quanto mais melhor, não esqueça de tirar os espinhos – Magnus diz e entrega a ela uma tesoura de poda.

Ênia encara o rosto de Magnus atrás de alguma sombra do mordomo que ela conheceu na sala de tortura, mas não a encontrou, teria que tirar o seu chapéu, Magnus sabia se fazer de inocente muito bem.

Deixando de lado a habilidade do mordomo, ela seguiu para o labirinto junto com Will, passando pelos intermináveis corredores escuros e entradas secretas que escondiam tão bem o “domínio de Magnus”. Will gaguejava alguma coisa durante os corredores estreitos que Ênia não se importou em responder.

Uma vez na entrada do misterioso labirinto, Will sentiu um arrepio em sua pele. Parecia o tipo de lugar deserto que as pessoas iam para matar alguém sem serem incomodadas, o tipo de lugar que nunca se deve ir com um estranho e ali estava ele, sozinho, com uma garota e uma tesoura de poda.

— Eu não assumirei nenhuma responsabilidade se você sair de perto de mim e se perder – Ênia avisa. – Se fizer alguma gracinha, eu vou te deixar pra trás. Entendeu?

Will afirma com a cabeça.

A garota se dá por satisfeita e o guia pelos corredores do labirinto. Mesmo Ênia não conhecia todo o labirinto, o pouco que conhecia dele se devia as suas explorações, de forma que guiou Will pelos caminhos que mapeou em sua memória, até chegar a um espaço parecido com um jardim. Havia botões de rosas negras e brancas muito bem cuidados, além de uma mesinha e duas cadeiras por perto.

Ênia pegou a tesoura de poda e se dirigiu para o jardim. Como Will não tinha uma tesoura ele improvisou com um canivete, ajudando a bailarina a colher as rosas.

— Você é sem-m-mpre assim? – Will pergunta depois de um tempo.

— Assim como?

— Assim – ele olha pra ela como se quisesse englobar toda sua existência. – Racional. Calma. Não tem m-medo daqui?

— Não tenho medo de nada.

Will ri.

— Imaginei que fosse di-z-zer algo assim.

O garoto corta uma rosa com o caule mais curto que as outras e Ênia franze uma sobrancelha para o caule mal cortado, até reparar que dois dos dedos dele embaixo da luva não se moviam. Percebendo a direção do olhar dela, ele dá um suspiro em forma de riso e tira a luva, mostrando que faltavam dois de seus dedos naquela mão, até estalando os dedos restantes para ela ver que se moviam.

Ênia volta o olhar para a roseira e fica em silencio, o que faz ele estranhar a reação.

— Normalmente as pessoas p-p-perguntam: “O que aconteceu?”. Nem curio-o-osa você é?

Ênia olha uma vez para ele, mas permanece em silencio e dá de ombros.

— Necrosou. – Ele responde mesmo assim. – Frio intenso.

— Sinto muito.

— Você n-n-não sente. É perfeita demais para sentir por algo assim.

Ênia volta a ficar em silencio cortando as rosas, o que acaba deixando Will constrangido por esperar que ela rebatesse com alguma ironia. Já que Ênia não era muito de conversa, ele tentou ariscar um assunto mais racional.

— Esse circo é e-e-es-eE-E...

— Estranho – Ênia completa.

— Obrigado. Fomos jogados em um p-p-ais das m-maravilhas macabro, mas não sinto que estamos fora de l-l-lugar. Tenho consciência de que posso m-morrer a qualquer hora, mas continuo conversando com os outros como se fosse natural. De um ponto de vista lógico, isso n-não faz sentido.

Ênia não sentia medo, desde que chegara ao circo havia continuado sua rotina, treinado para o espetáculo e interagido com os demais membros mesmo sabendo que eles eram perigosos. Para ela isso era natural, uma vez que não se deixava levar por sentimentos, mas não para os demais.

Ela olha para Will surpresa com seu raciocínio e ele franze o cenho irritado.

— Eu sou gago. Não bu-b-b-bB...

— Burro.

— Obrigado – ele sorri com raiva de si mesmo.

— Vou acrescentar esse mistério a lista de perguntas que coleciono desde que cheguei.

— Você tem uma lista? – Will ri.

O contorcionista pega as rosas recém colhidas e senta-se na mesinha do jardim.

— Pronta p-pra tirar os espinhos? – ele pergunta para Ênia já iniciando a atividade.

Ênia se levanta com as rosas recém-colhidas e olha para ele decidindo se devia responder ou não. Ela senta-se em frente ao garoto e quando faz isso vê a figura de um presente surgir na bochecha dele, crescer de tamanho e cair na mesa quando se desprende de Will.

O garoto leva uma mão a bochecha estranhando aquela coisa ter saído dali. Vendo sua confusão, a bailarina imaginou que não adiantava perguntar sobre aquilo, mas ficou tentada a provocá-lo.

— Você é um homem cheio de surpresas.

Will não responde, fica olhando aquela caixa de presente com desconfiança e surpresa. Passado o choque, ele pega a caixa e a balança perto do ouvido, sem conseguir adivinhar o que tem dentro.

— Você quer abrir? – Ênia pergunta.

— Querer eu quero, mas não s-s-sei se devo. O que acha? É perigoso?

Ênia abre a boca para responder, porém um grito chega aos ouvidos dos dois assustando Will. Ênia reconheceu a voz de Callisto e preferiu não pensar muito sobre o que fez ele gritar assim.

— Agra-ri-ri-ri-hinihona-na-namamoruon-n-n-nmo-...

Ênia olhou para Will sem compreender o que ele dizia. O garoto gesticula com as mãos parecendo em desespero, mas as palavras só ficam ainda mais enroladas conforme ele parece acelerar o que diz para terminar logo.

— Hã? – Ênia arregala seus olhos para a língua incompreensível.

Ele repete ainda mais rápido brecando em algumas silabas, assustado como se tivesse sido pego fazendo algo errado. Ver ele dando defeito fez Ênia imaginar um robô dando curto circuito, um riso involuntário escapou de sua boca que ela tratou logo de tampar.

Não conseguindo se expressar e vendo que Ênia o ridicularizava, decidiu parar de falar. Will pegou a mão de Ênia, o presente e as flores e a obrigou a acompanhá-lo.

— S-se ouvir um grito como a-a-aquele, corra. – Will fala enquanto corria pelo corredor. – Cadê o seu senso de auto-preservação?

— Não estávamos em perigo.

— Como você sabe? Não dá pra ter c-c-certeza.

— Se eu soubesse que era isso que estava tentando dizer iria tranquiliza-lo. Seu defeito é bem inconveniente nesses momentos.

— Defeito? – Will arqueia a sobrancelha. – Eu não sou um brinquedo, s-s-sou uma pessoa. Ninguém é perfeito.

— É só o que todo mundo espera ser.

Will para de correr e olha para a bailarina com as sobrancelhas franzidas, como se ela tivesse acabado de lhe dar um enigma.

— Você deve se achar melhor que a m-m-maioria, não?

— Eu sou melhor que a média, se formos comparar.

— Ah não, você é daquele “tipo” – ele leva uma mão a testa arrependido. – O tipo que p-p-pensa que está num g-g-grupo diferente. Ênia, somos parte da mesma merda de vida. – ele faz uma expressão rígida e aponta para a própria boca – Defeito. – em seguida aponta para o coração de Ênia – Defeito. – então sorri com sarcasmo. – Não somos tão diferentes, n-não é?

A bailarina aperta um pouco as flores recém-colhidas levemente incomodada. Não valia a pena discutir, ela era diferente dele até os ossos.

— Eu conheço meus defeitos, não preciso que você diga isso.

— Quem decide o que é d-d-defeito e o que não é são as outras pessoas. Eu posso dizer isso – Will abre um sorriso vitorioso que logo se torna uma linha dura quando ele fica sério. – Por hoje já deu. Não quero discutir. Temos que tirar os es-es-espinhos dessas rosas e nos p-p-preparar para essa noite –ele olha o presente. – Além de descobrir pra que serve esse bônus inesperado.

— Está encarando isso como se fosse a caixa de pandora.

— É meu instinto. Tenho uma natureza c-c-covarde.

Ele se vira e continua a caminhar, apesar de estar curioso sobre quem tinha dado aquele grito e o porque, não estava disposto a correr o risco de ir ajudar a vitima em um território desconhecido, seu senso de auto-preservação era mais forte. Além disso, não queria abusar da hospitalidade de Magnus.

~ ❖ ~

Sentada em frente a uma penteadeira cheia de cremes e perfumes, uma garota ajeitava seu cabelo loiro trançando as madeixas em uma tiara. Ela pega a escova macia e alisa mais uma vez as mechas soltas para não deixar nenhum fio fora do lugar. Observa como ficou no espelho e não estando satisfeita ela desfaz todo o penteado e começa tudo de novo.

Faz isso três vezes. Quando finalmente fica satisfeita, ela corre os dedos por uma coleção de fitas de cetim e então faz um laço no cabelo com uma fita azul-marinho, para combinar com sua saia.

Como sempre usava o mínimo possível de maquiagem. Apenas um brilho labial de cor coral e um delineador para dar destaque aos olhos, nada muito artificial.

Depois de terminar de se arrumar ela abre uma caixinha metálica cheia de pílulas com tarjas pretas e engole uma, bebendo um gole de água para ajudá-la a descer pela garganta.

Ambrosie Schneider deposita o copo na mesinha e limpa a boca educadamente com um lenço. Terminado o ritual matinal, ela se olha mais uma vez no espelho para ter certeza de que tudo estava perfeito e ajeita sua esvoaçante saia azul marinho atrás de algum amassado. Gira uma vez em frente ao espelho e vê o movimento das madeixas de seu cabelo muito satisfeita por não embaraçarem e nem arrepiarem.

Ambrosie pega sua bolsinha de mão cheia de brilho e coloca um batom dentro dela, só por precaução, sorrindo para o cartão VIP escondido.

Um motorista a esperava e abre a porta da limusine quando Ambrosie se aproxima.

— Para a sede do hospital, por favor – ela diz antes que o motorista terminasse de se sentar em seu lugar.

O carro preto desliza pelas ruas e Ambrosie mergulha em seus próprios pensamentos com um sorriso perfeito esculpido em sua face, podia visualizar a si própria abrindo a sala de reuniões e encontrando o pai lhe esperando com um buque de rosas vermelhas, por que é claro que nenhuma outra flor seria mais apropriada para ela. Ele pegaria sua mão e a rodopiaria ate o momento que seguraria sua cintura e aproximaria seu rosto do dela. Suas fantasias correram loucas durante todo o percurso.

O motorista estaciona o carro e dá a volta para abrir a porta da senhorita Schneider, ela põe um pé para fora e apóia-se na mão que o motorista lhe estende ao sair do carro.

— Não sei quando volto, fique de prontidão para o caso de irmos embora mais cedo – ela diz.

— Como quiser, senhorita.

— Obrigada.

Ambrosie abandona o motorista e se dirige para o hospital. Por onde passava, as pessoas que frequentavam o lugar a cumprimentavam, no que ela respondia com um educado “bom dia”. Ambrosie se dirige direto para o elevador, apertando o botão do 12º andar. Enquanto ele subia ela repassava em sua cabeça a cena que viveria ao encontrar o pai, claro que era só um sonho surreal que ela sabia que não ia acontecer, mas não deixava de ficar ansiosa pelo dia que sua fantasias se tornariam realidade. Uma vez que chega ao andar que queria ela se dirige para a sala de reuniões e abre uma pequena fresta da porta para espiar lá dentro.

Um homem falava ao celular enquanto andava pela sala conversando com alguém do outro lado da linha, os olhos prateados de Ambrosie Schneider vagam de uma ponta a outra e não encontram mais ninguém dentro da sala, o que a faz abrir um sorriso interno. Ficar sozinha em um lugar privado com ele não era má ideia.

Quando o homem termina a ligação e senta-se exausto no sofá, a garota adentra o aposento com uma graciosidade silenciosa. Uma vez atrás dele ela tampa seus olhos com suas mãos macias e sussurra em seu ouvido:

— Adivinha quem é?

Inicialmente pego de surpresa, ele logo ergue uma mão tremula para dar uma batidinha no braço dela, um pedido mudo para ela desfazer o contato.

Ambrosie obedece e o liberta, circundando o sofá e sentando-se no colo do homem, deixando sua cabeça descansar no ombro dele.

Ele tinha grandes olheiras embaixo dos olhos e suas mãos estavam tremulas pelo estresse e a falta de cuidados consigo mesmo, mas isso só deixava Ambrosie ainda mais feliz, por que essa obediência impedia ele de passar o tempo com quem não devia, ou seja, todos que não fossem Ambrosie.

— Você está cheio de trabalho ultimamente, que tal voltar pra casa hoje? – ela sugere com um timbre gentil. – Podiamos assistir um filme enquanto eu faço uma massagem em você.

— Eu vou pensar no assunto – o homem promete.

Ele se atolava de trabalho justamente para não voltar pra casa. Sempre que ficava sozinho com ela sentia o ar a sua volta ficar mais denso, como se de repente estivesse pisando em ovos com os olhos de Ambrosie cravados em si.

A garota pega alguns papeis da mão dele e os folheia desinteressada.

— Quantos papeis, não tem fim nunca... se me der a metade eu termino tudo hoje de tarde, o resto pode ficar pra semana que vem. Já que não tem nada urgente você pode tirar uma folga.

— São emergências Ambrosie, é priori-...

— Deixe isso comigo e venha descansar em seu quarto de verdade – ela faz biquinho e dirige um olhar manhoso. – Por mim.

— Ambrosie...

— Você não me ama mais?

Diante disso ele se cala. Novamente aquela atmosfera densa, como se pisasse em ovos. Apesar da cadencia mimada e suave de sua voz, o Sr. Schneider ficava assustado as vezes.

— Claro que amo, querida. Mas...

Antes que ele continuasse, ela pousa dois dedos em cima da boca dele, abrindo um sorriso perverso.

— Nada de bom vem depois do “mas”. Então temos um trato, eu vou proteger os negócios da família e depois vamos assistir um filme juntos, com direito a massagem.

Dito isso Ambrosie se levanta e caminha até a escrivaninha de seu pai, onde uma pilha de papeis a aguardava.

Anthony observa o seu trajeto com um olhar cansado, sentindo que ela estava determinada a contornar qualquer desculpa que ele inventasse, de novo. Sua filha podia ser muito teimosa quando o assunto era ele.

— Então eu vou na frente. Vou tirar um cochilo.

— Pode deixar – ela diz com um sorriso.

Tão logo o pai sai do escritório ela pega a papelada pela mesa e lê cada folha rapidamente. Com pressa ela vai passando os dados para o computador e analisando os resultados. O numero de remédios que chegavam para tratar das zonas mais pobres era grande e as pesquisas para as novas doenças demoravam para ter resultados.

Papel após papel era analisado e depois separado em uma pasta. Ambrosie estava com pressa, mas isso não queria dizer que não estava prestando atenção. Afinal, se fizesse um trabalho bem feito talvez ganhasse uma recompensa depois. Só de imaginá-lo chamando-a de “meu amor” já fazia a garota se arrepiar em expectativa.

Quando ela chegou nas estatísticas, não conseguiu deixar de amassar um pouco a folha quando viu os gráficos. Como os negócios eram da área da saúde, os hospitais e as farmácias eram companheiros nas ações, porém um dos problemas que lhe davam dor de cabeça tinha nome e se chamava Johan Earnshaw. Ambrosie nunca o conheceu pessoalmente, mas já viu fotos dele e matérias nos jornais, o “bondoso” anjo da medicina era uma constante preocupação para seus negócios. Seu pai já havia marcado varias reuniões e telefonado pra ele varias vezes, mas o austríaco não parecia interessado nas propostas.

Os Shneider já financiavam pesquisas de novos cientistas e colaboravam com soluções alternativas para tratamentos de algumas doenças, seus projetos filantrópicos para o bem da nação eram famosos e Ambrosie queria expandir para a área farmacêutica, mas havia esse incomodo inimigo que havia conseguido uma reputação maior e dificultava seus negócios. Johan Earnsaw dominava a indústria de medicamentos e tinha os melhores e mais promissores cientistas do seu lado, aquela carinha serena e angelical era bem astuta para os negócios, o que fazia Ambrosie querer picá-lo em pedaços, colocá-lo em sacos de lixo e jogar no Atlântico.

A garota pesquisou sobre ele no computador e deu de cara com uma matéria sobre suas novas pesquisas e uma foto dele ao lado. Ficou encarando aquele homem que parecia não perceber a presença do fotografo e foi traçando um plano em sua mente. Ela mordeu uma das unhas indecisa, mas foi só pensar em Anthony que sua indecisão foi embora. Digitou um email para seu agente e o enviou sem pensar duas vezes.

Terminando todo o serviço ela saiu do escritório animada para encontrar o pai e sentindo aquela pressa inicial voltar. Porém quando ia em direção ao elevador teve a barra de sua saia agarrada por uma criança que fez seu corpo paralisar com o choque. A menininha usava um vestido cor de rosa e tinha uma expressão envergonhada e incerta no rosto.

— Moça, você sabe onde fica o ambulatório?

Os olhos de Ambrosie arregalaram ao verem a criança e ficou bem claro sua aversão pela proximidade da baixinha. As mãos de Ambrosie começavam a tremer e ela firmou suas pernas no chão como se uma tempestade estivesse vindo levá-la.

— Você...

— Eu? – a menina olha pra ela inocentemente.

Em um surto de agressividade, Ambrosie empurra a menina em direção a escada, onde ela cai e bate a cabeça em um dos degraus. O som de algo se quebrando soa muito doce aos ouvidos da adolescente, que fica olhando ela batendo nos degraus com um tique nervoso em suas mãos e um sorriso torto ameaçando se formar.

Ela olha em volta e corre até o banheiro, onde lava as mãos freneticamente como se tivesse tocado em algo nojento e não conseguisse tirar a sensação das mãos. Murmurava alguma coisa com os olhos arregalados e arranhava as próprias mãos até ficarem vermelhas. Ambrosie odiava crianças.

Enquanto amaldiçoava a menina, ela de repente se lembrou que seu pai estava a esperando.

— O que estou fazendo? Estou com pressa.

Ela enxuga as mãos e toma um de seus comprimidos. Caminha até o elevador com uma expressão animada e impaciente. O elevador desce calmamente e ela abre um pequeno sorriso sereno como se tivesse cumprido um dever.

Ela se despede dos guardas na portaria e entra na limousine. Enquanto o motorista dirigia ela alisava varias e varias vezes uma mecha do seu cabelo em um tique nervoso. Alguns minutos de direção e a garota pede para ele ir mais rápido. O homem acata o pedido e acelera o carro o máximo que o limite permitia.

Ambrosie nem espera ele estacionar quando chegam na mansão, tão logo ele desacelera ela já abre a porta e sai do veiculo. A garota vai direto para o quarto do mais velho, imaginando que se jogaria nos braços dele e Anthony a pegaria pela cintura e a ergueria até o alto, porém quando abriu a porta o quarto estava escuro e a cama desarrumada. Se dirigiu para a sala de jantar, para a galeria, a biblioteca e fez um tour pela própria casa, mas não encontrou seu pai.

— Onde ele está?

Se não tivesse tomado o remédio, aquela altura já estaria tremendo cheia de tiques nervosos e incontroláveis.

Logo ouviu a porta da frente se abrir e correu para lá, vendo o pai retornar com um olhar cansado.

— Onde você estava? – Ambrosie perguntou tentando disfarçar a surpresa.

— Saí pra tomar um pouco de ar fresco.

— Mentiroso.

— Não é mentira.

Anthony subiu as escadas e uma vez de frente para a filha, pegou uma das mechas dela e alisou com ar pensativo.

— Parece que já vi esse penteado antes...

— Sim, eu estou usando. Você gosta?

— É bonito.

O homem a deixou e continuou seu caminho até o quarto, onde deitou-se de volta na cama e fechou os olhos para dormir.

Ambrosie o seguiu e debruçou-se de frente para ele observando-o dormir. Estava tão perto que podia contar seus cílios e sentir sua respiração. Ela tirou uma minúscula folhinha do cabelo dele e através dela conseguiu deduzir que ele tinha ido ao cemitério, odiava ter que dividir a atenção dele com dois sacos de carne morta, era muito injusto.

— Como esse homem me provoca – Ambrosie diz pousando seus lábios em cima dos dele num beijo bem suave para não acordá-lo.

A garota vê a escuridão que havia lá fora e caminha para seu próprio quarto. Pega uma caixinha branca cheia de frufrus e fica observando o pedaço decepado da mão de sua irmãzinha. Ela abre e fecha a caixa como se quisesse prendê-la com mais força ali dentro, para ela não roubar mais a atenção de Anthony.

Ela pega uma camiseta dele e se dirige até o banheiro, onde despe sua própria roupa e veste a dele. Entra na água vestindo a camiseta e sentindo ela grudar encharcada a sua própria pele, deixando-a muito satisfeita com a segunda pele com o cheiro de Anthony. Toma seu banho envolta na blusa e brincando com o pedaço conservado de sua irmã.

Depois de se lavar e esfregar até o contorno das unhas, sem nunca tirar a camisa do pai, ela dá-se por satisfeita quando acha que o cheiro dele já impregnou seu corpo e se veste novamente, mas dessa vez com uma roupa preta de látex. Ambrosie abandona a peça de roupa molhada e veste um conjunto de látex negro que grudava em seu corpo e deixava algumas partes da pele a vista. Ela tira as lentes de contato revelando as iris escarlates e num único movimento arranca a peruca loira jogando-a para o alto. Revoltosos e desgrenhados cabelos platinados se revelam por trás da tão comportada e perfeita peruca e Ambrosie se admira no espelho passando as mãos pelas próprias coxas.

Ela pisa na peruca abandonada enquanto se dirige até o cartão com asas de mariposas. A VIP coloca o cartão em frente a um dos olhos e quando o disco gira para o outro lado é como se uma pagina fosse virada. Ambrosie Schneider fora dormir e alguém novo fora se divertir.

~ ❖ ~

Nas profundezas de uma mina abandonada, uma mulher descia por uma corda até chegar ao fundo do subsolo, onde várias lamparinas e lanternas iluminavam a escuridão. Arqueólogos e pesquisadores andavam de um lado para outro, ocupados em documentar a nova descoberta. Desdêmona só precisou correr os olhos uma vez pela caverna para saber por que estavam tão agitados.

Em uma das paredes havia a pintura de um cervo vermelho, tão vermelho quanto o sangue, varias mãos esqueléticas estendidas embaixo do cervo se erguiam desesperadas em sua direção. Os olhos de Desdêmona brilharam com a figura e ela se aproximou para vê-la melhor.

Observando a face do cervo, ela não conseguiu resistir e deslizou a ponta de seus dedos por aquela imagem misteriosa. Seus olhos esbanjavam uma adoração doentia.

— Finalmente as peças estão começando a se encaixar.