Dead Line Circus - Interativa
7 Um velho inimigo é encontrado
Notas iniciais
Kerteminde. Dinamarca.
O sol de punha no horizonte quando duas figuras surgiram misteriosamente na cidade. Um homem loiro e uma criança de cabelos loiro-acinzentados. Os dois caminhavam pelas ruas como se estivessem em um passeio, a criança olhando tudo ao seu redor com entusiasmo e o homem segurando sua pequena mão para ela não se perder.
– Que tal experimentarmos um café gelado? – Ele sugere à criança ao avistar uma cafeteria.
– Vai colocar gelo no seu café!? – Oliver pergunta descrente.
– Não, ele já é feito gelado.
– Deve ser muito ruim-... – Oliver se auto-interrompe ao perceber uma coisa. – É uma brincadeira, né? Já entendi, não existe café gelado Mik-nii-chan. Não pode me enganar com isso.
– Tem certeza?
– Tenho – O menino afirma com confiança.
Os dois entram na cafeteria e enquanto Oliver se sentava no banco estofado em frente a uma mesa, Michael fazia os pedidos. A mesa que Oliver escolheu ficava afastada das demais, em um canto perto da janela, os bancos eram estofados com almofadas verdes e a mesa era retangular de madeira. O loiro se senta em frente ao menino quando termina de fazer o pedido e esperam a bebida ficar pronta.
– Não foi justo você ter saído sem mim lá em Paris – Oliver comenta emburrado.
– Você estava dormindo, eu não queria te acordar.
– Mas deveria! Graças a isso eu não pude ver nada, nem os doces franceses, nem os bichos franceses e nem a poeira da rua francesa. Nadinha! Se um soldado dorme no campo de batalha, ele nunca mais verá a luz do sol.
– Dessa vez eu vou manter você acordado então.
– Isso mesmo, mantenha.
Um garçom serve duas taças para os clientes e coloca dois canudos compridos ao lado delas. A taça de Oliver era de vidro, com um líquido grosso em tom achocolatado dentro. No fundo da taça havia o que parecia ser chocolate derretido e em cima glacê com raspas de chocolate. O menino encarava aquele líquido surpreso, o garçom tinha se enganado? Olhou para Michael e viu a expressão calma que ele possuía enquanto colocava o canudo dentro do copo e sugava o líquido por ele.
– Isso não é chocolate? – O garoto perguntou incerto.
– Não, é café.
– É chocolate! – ele afirma convicto.
– É café!
Oliver fica bem confuso com a bebida, mas decide colocar o canudinho no copo e tomar. De qualquer forma ele gostava de chocolate. Ao sugar o primeiro gole sentiu gosto de café. Um café bem doce e cremoso, com gosto achocolatado no meio, mas definitivamente sendo café. O que era aquilo?
Michael ria internamente do garoto pela expressão infantil que ele estava fazendo, igual uma criança que encontra um bicho fofo e estranho pela primeira vez. Um fascínio por algo que todo mundo já conhece.
– Não disse que era café?
– D-deve ser mágica. Isso definitivamente parece ser chocolate, mas tem gosto de café, é o café mais gostoso que já provei – Oliver afirma com os olhos brilhando. – Se o mago souber fazer esse truque eu vou gostar dele ainda mais.
– Aproveite, não é sempre que se sai do circo.
– Hu-hum – ele afirma já bebendo. – Preciso mostrar isso para o Magnus quando voltarmos.
– Isso não é necessário, não perca seu tempo com ele – O loiro desvia os olhos com aparente mal humor. – Concentre-se no que veio fazer aqui.
– Quem a gente vai procurar? – Oliver indaga tomando seu café gelado.
– Uma mulher que parece uma boneca.
– Qual o nome dela?
– Eu não sei, ainda vamos conhecê-la. Provavelmente ela ainda está em seu estúdio.
– Então como sabe como ela é?
– Se-gre-do – Ele pisca um olho terminando sua bebida.
Michael se levanta e paga a conta dos cafés, acompanhando Oliver para fora da cafeteria em direção as ruas dinamarquesas. O garoto caminhava de mãos dadas com o mais velho e absorvia com os olhos tudo o que via. Lojas exibiam vestidos e roupas da moda em suas vitrines, sapatos em exposição, casais e crianças passeavam pelas ruas e parecia que a cidade tinha uma relativa paz pairando por ali. O menino ficou um bom tempo observando as crianças brincarem, parecia um tipo de jogo em que uma pessoa tinha que pegar a outra, mas era apenas um toque leve, e quando tocada essa outra criança corria atrás dos outros com um sorriso. Oliver demorou um bom tempo observando-as, sem entender o que estavam fazendo ao certo. Estavam brincando sem que ninguém saísse morto no fim, nenhum machucado ou arranhão, era a primeira vez que via algo como aquilo. E o mais impressionante era que nenhuma delas estava armada.
– Mik-nii, o que eles estão fazendo?
– Brincando de pega-pega.
– Mas por que quando a vítima foi pega ninguém matou ela?
– Está passando tempo demais comigo e com Cain, Oliver. Aqui fora as coisas são bem diferentes.
O menino volta a olhar para as crianças sem entender o por que daquilo. Afinal, se a vítima continuasse viva de que valeria o esforço para pegá-la? Olhando na direção delas o garoto encontra um objeto atrás de uma vitrine à dezoito metros de onde eles estavam. A sensação de ter encontrado aquilo é quase a mesma de um gavião que encontrou um rato do campo. Corre até lá sem soltar sua mão do loiro, arrastando Michael em direção a loja sem se importar dele acompanhar o seu ritmo ou não. Atrás da vitrine encontrava-se um bichinho de pelúcia.
O brinquedo era um coelho de pêlo acinzentado com um tapa-olho em seu olho esquerdo e uma gravata borboleta, ambos negros, tinha um olho de botão no lado direito e parecia ser feito de um tecido bem macio. O menino olhava para o brinquedo com os olhos brilhando, ficaria bem claro para qualquer um que ele queria muito aquilo. Com um suspiro, Michael entra na loja arrastando o garoto que não desgrudava seus olhos do boneco.
O interior era bem deteriorado, as paredes acumulavam teias de aranha e vigas de madeira apareciam cheias de mofo. As coisas pareciam desajeitadas no lugar e pilhas de tecidos se amontoavam pelas mesas e pelos cantos. Uma música de ninar soava pelo cômodo vindo de uma porta que ficava aos fundos, apesar do lugar parecer abandonado parecia que havia alguém ali.
Michael pega o coelho da vitrine e se dirige até a porta, abrindo-a e encontrando um ambiente muito mais bagunçado do que a loja. Pilhas de tecidos estavam esparramadas, poeira acumulando, carretéis de linhas estavam enfileirados em zigue-zague e uma silhueta feminina estava sentada em frente a uma máquina de costura cantando uma canção de ninar.
– Ahn... Com licença.... – Michael se pronuncia, com Oliver se escondendo atrás de si.
A mulher para de cantar e também interrompe o trajeto do tecido no meio da costura, fica em silêncio prestando atenção.
– Gostaria de comprar esse coelho – Michael informa levantando o coelho para ela ver.
A mulher se vira em direção a eles e é então que os dois tem uma visão completa de seu rosto.
– Ela não tem olhos... – Oliver observa.
A mulher possuía um corpo muito magro e pálido, seus dois olhos foram substituídos por um par de botões negros, da mesma cor que seus longos cabelos pretos. As mãos eram pontudas e afiadas, com unhas que lembravam agulhas em cada dedo. Ela abre um sorriso torto para eles quando se vira, o que faz o menino se esconder ainda mais atrás do maior.
– Bem-vindos – ela cumprimenta. – Quem são vocês?
– Meu nome é Michael e este comigo se chama Oliver – o mais velho responde casualmente.
– É um prazer, meu nome é Johanne Norgaard.
Michael aproxima-se da mulher e pega uma de suas mãos de agulhas, depositando um singelo beijo nas costas da mão dela em cumprimento.
– O prazer é meu milady – Ele cumprimenta cordialmente. – Por que me parece que seus negócios não andam bem? – ele fala observando o estado da loja.
– A maioria sai correndo antes de fazer o pedido e meu marido Neil não consegue mais sair para atendê-los para mim – ela fala virando sua cabeça em direção à uma poltrona do canto da sala.
O corpo de um homem costurado se encontrava estirado na poltrona. Botões estavam costurados em seus olhos de onde escorria sangue seco, a boca estava torta em seu rosto e pequenas linhas eram vistas sobressaindo a pele ao redor do olho. Arranhões eram bem visíveis em seu rosto, como se lâminas tivessem dançado por sua pele.
– Eu tentei ajudar, mas não consegui.
– Sinto muito pelo seu marido – Michael presta condolências.
– Obrigada. Aliás, o que vocês queriam mesmo?
– Um coelho de pelúcia. Mas deixando isso de lado, como você ficou desse jeito? Por que tem botões nos seus olhos?
– Ah, isso? Minha mãe costurou eles em mim – ela responde com um sorriso. – Quer que eu costure um par em você?
– Passo. Gosto dos meus olhos.
– Você não estava brincando quando disse que ela parecia uma boneca – Oliver diz.
– Uma criança? – Johanne pergunta ao ouvir a voz – Vem cá, querido.
Oliver olha imediatamente para Michael esperando alguma permissão e o loiro apenas acena com a cabeça dizendo para ele prosseguir. O menino aproxima-se da mulher e quando as mãos dela o sentem, ergue-o e o coloca sentado em cima de sua mesa de costura.
– Não costumo receber crianças, quantos anos você tem?
– Nove.
– Ora, é um garotinho bem corajoso hein?
– Claro, eu tenho o melhor irmão do mundo.
– O que isso tem haver com coragem?
– É uma realização conseguir ficar perto de Mik-nii-chan e sobreviver em casa.
– Ehh – Johanne nem prestou ao certo atenção no que o menino disse, tinha se concentrado mais em ouvir a sua voz.
– Oliver, que tal você fazer o convite? – Michael insinua estendendo o envelope marrom que recebeu de Erich ao menino.
– Posso?
– Se quiser.
– Johanne, posso te sequestrar para um emprego?
– Como é? – A mulher quase ri com a pergunta.
– Quero que você venha com a gente.
– Pra onde querido?
– Pra Dead Line Circus. Minha casa. Você vem? A gente perdeu nossa antiga costureira, então estamos em falta delas. Com certeza vai ter trabalho pra você lá.
– Péssima ideia meu anjo. Vão levar um susto quando me verem entrar lá, não tenho a mais comum das aparências.
– M-..... – Oliver tem a boca tampada por Michael, que impede ele de continuar.
– Tenho certeza que ninguém vai estranhar sua aparência. Em pouco tempo irão se acostumar, e se não se acostumarem coloco olhinhos de botão igual aos seus para não haver diferença.
– Que maldade. Mas me diga, pra onde vão as roupas que eu fizer?
– Para os artistas. Pessoas do mundo todo irão vê-los vestirem as suas criações e eu recebi uma recomendação muito boa sobre você, então imagino que fará um bom trabalho.
– Quem me recomendaria?
– A pessoa em questão decidiu permanecer anônima.
– Que mistério. Mas tenho que admitir que os negócios não andam muito bem, conseguir um trabalho definitivo desse jeito é mais do que bem vindo. Posso levar meu bichinho de estimação?
– Você tem um bichinho? – Oliver se anima pensando tratar de um cãozinho ou um gatinho.
Sim, ela tinha. Uma viúva-negra sobe no ombro da costureira, ela era quase do tamanho de uma mão fechada, com pigmentos avermelhados em suas estrutura negra. A aranha é acariciada por um dedo indicador da mulher, o que fez o menino perder as esperanças de encontrar um animal adorável.
– S-Se quiser....
– Então negócio fechado.
Johanne estende sua mão repleta de agulhas para Michael apertar e quando ele segura a mão da mulher algumas pontas do metal perfuram sua pele. Oliver olha preocupado para aquele aperto, mas pela expressão serena do mais velho parecia que não estava doendo, ele mentia muito bem.
– Posso escolher? – O menino pergunta.
– A vontade.
Oliver recebe o envelope de adesivos e olha um por um, selecionando um adesivo que Michael aprova depois de escolhido. O acinzentado se inclina para Johanne e cola uma borboleta azul presa em uma teia de aranha no pescoço dela, e os três somem do local.
~ ❖ ~
Johanne não podia ver o lugar em que ia ficar, mas se pudesse ver encontraria uma sala maior do que uma casa à sua frente. O teto era arredondado e as paredes madrepérola, a sala possuía o chão todo aveludado como se fosse feito de uma anêmona gigante e a impressão que se tinha era de se estar no interior de uma concha marítima, daquelas que guardam uma pérola em seu interior, mas em vez da jóia redonda, encontrava-se vários armários com tecidos exóticos e coloridos, máquinas de costura, carretéis de linhas, bancos estofados em tom coral e uma cortina semelhante a algas na entrada do lugar.
– Este será o seu Ateliê.
– O chão parece ser feito de almofadas... – A costureira observa dando um pulinho e sentindo o chão afundar alguns milímetros embaixo de seus pés.
– Bem, seus ajudantes não conseguiriam ficar em solo comum por muito tempo...
– Terei ajudantes? Onde eles estão?
– Ahn... bem... dormindo. – Michael tenta encontrar as palavras certas para desviar do assunto. – Farão tudo o que você mandar e exatamente como você disser, mas não espere conseguir manter uma conversa com eles. Não conseguem pensar, nem articular palavras e também não conseguem fazer nada que não seja expresso claramente em ordens. São meio burros. Peço paciência de sua parte.
– Tudo bem, eu nem imaginava que teria gente me ajudando, fico grata pela estadia.
– Ainda bem. Em breve eu virei até você anunciar os pedidos, enquanto isso acredito que você pode ir se habituando ao espaço.
– Obrigada, eu vou sim.
– Ótimo, então eu já vou indo.
– Nos veremos em breve – Oliver se despede.
Michael e Oliver saem do ateliê da nova costureira. De fora a entrada era semelhante a uma caverna, pois em vez de existir uma porta, havia uma entrada entre rochas montanhosas escondida por algas. O lugar da entrada ficava entre o espaço do doutor e um quarto que permanecia vazio desde que Michael começou a sua busca, nem parecia que o espaço amplo e largo existia do outro lado.
– Johanne tem tanta sorte de ser cega – Oliver comenta abraçando o coelho de pelúcia.
– Eu estava pensando a mesma coisa.
– Eu não achei que ela literalmente parecia uma boneca. Acha que os monstros vão obedecê-la?
– Eu tenho certeza que sim. Pode ficar tranquilo.
Michael retira a recomendação que Erich havia lhe entregado (um envelope marrom) de um dos bolsos e abre-o. Dentro havia apenas o nome "Johanne Norgaard" impresso em uma folha branca junto com uma bolinha de metal do tamanho de uma bola de gude que aparentava não ter funcionalidade nenhuma.
– Eu não gosto dela.... – Oliver diz observando a bolinha de metal.
– Você não precisa gostar, é só aturar. Se bem que eu gosto dela, é uma grande amiga minha.
– Joga isso fora.
– Não, não. Vou entregar para a Johanne mais tarde, é pra ela não pra mim.
Oliver pega o envelope marrom e o rasga em pedacinhos, enquanto Michael guardava o papel e a bolinha de metal em um bolso.
~ ❖ ~
Tóquio. Japão.
Uma garota caminhava sobre os telhados da cidade cantarolando uma música infantil sem abrir os lábios. Ela dava passos bem largos, fazendo isso com os braços abertos como se estivesse se equilibrando. Quando um telhado acabava ela simplesmente pulava para outro, mas quando não havia um por perto ela pulava em direção ao chão. Não tinha medo de quebrar algum membro pois sempre caía em pé.
Naquela noite a lua estava com um brilho pálido, iluminando fracamente a cidade com sua luz. Havia vários pontos escuros cujos postes não alcançavam, mas isso não importava para ela, a garota conseguia enxergar mesmo na noite mais escura.
Ela salta do telhado em que estava e continua seu caminho a pé, só teria que andar mais alguns passos até seu objetivo.
Um jardim amplo com variados tipos de árvores e plantas se abre a sua frente, era conhecido como parque para a maioria, mas pra ela sempre foi um jardim. Árvores com flores de cerejeira circulavam todo o local, com suas pétalas rosadas exalando um cheiro agradável e colorindo o ambiente com sutileza e graça. Caminhos de pedras serpenteavam pela grama formando curvinhas como as ondas de uma lagarta e ao redor deles encontravam-se variados tipos de flor. Buquês de Hortências, Girassóis, Margaridas, Lírios, Rosas vermelhas, Orquídeas, Flores de Lótus e muitas outras mais estavam espalhadas ou em conjuntos por ali. A grama era verdinha e de aparência limpa, como um belo cobertor sobre a terra.
A garota escolhe uma árvore de cerejeira que estava rodeada por buquês de hortências azuis para se deitar. Encosta-se ao tronco esticando os braços e as pernas em um último alongamento antes de embarcar para uma soneca. A lua estava tão bonita aquela noite, iluminando tudo com seus raios prateados, talvez se ficasse acordada só mais um pouquinho para olhá-la....
O vento que bate nos galhos floridos arrasta consigo leves pingos de plumas rosadas, algumas até pousam sobre a figura deitada entre as hortênsias.
"Que cheiro bom" – ela pensa fechando os olhos.
– Com licença, você poderia fugir por favor?
Uma voz fininha lhe desperta de seus devaneios. Abrindo os seus olhos e olhando em volta viu que não havia ninguém, apenas as árvores, o vento, as flores e os ratos. Ora, um rato!
A garota avista o animal de pêlo cinzento a alguns centímetros de seu corpo, completamente parado e em pé. Observa-o, lambendo os beiços em seguida com malícia. Se coloca em posição de caça com movimentos bem leves e calculados para não espantá-lo e desce vagarosamente sua mão esquerda na direção da minúscula criaturinha.
– Boa noite. Você poderia fugir por favor?
A poucos centímetros de suas garras ela pára a trajetória, com olhos abismados e sobrancelhas arqueadas ela ouve uma voz fininha sair do animal. Que raios era aquilo?
– Eh?
– Fuja para o mais longe que puder.
Ela pega o roedor em suas garras e começa a virá-lo de vários ângulos procurando o alto-falante ou a entrada de som do aparelho.
– Violência não é permitida – O ratinho avisa.
– Nyan?
– Você poderia fugir por favor? Você poderia fugir por favor? Você poderia fugir por favor?
Achando que deu defeito ela o joga de qualquer jeito com aparente tédio em um arbusto de camélias próximo. Era a primeira vez que tinha visto um rato falante, mas tanto faz, deu defeito muito rápido.
Um grupo de homens passa correndo pelo seu calmo e aconchegante jardim naquele momento. Quatro deles estavam um pouco mais atrás do que o primeiro que corria sozinho na frente, parecia uma perseguição. O primeiro vem correndo em sua direção, provavelmente estava tentando alcançar a delegacia que ficava do outro lado, mas no meio de seu trajeto tropeça em uma das pernas estiradas da garota e cai rolando no chão.
Ao ser acertada em uma das pernas, ela recolhe o membro para perto do corpo, com os lábios crispados de irritação.
– Pegamos ele – Um dos membros do grupo perseguidor exclama, fazendo os outros rirem alto e gritarem de alegria e animação.
Bem irritada com a quebra de sua tranquilidade, ela se levanta de seu cantinho de repouso, saindo da sombra da árvore que estava lhe ocultando da visão daqueles homens.
Uma híbrida se revela.
A garota tinha a pele bem branca, acompanhada de seus longos e sedosos cabelos platinados; possuía orelhas felinas no topo da cabeça e olhos dourados que pareciam brilhar ameaçadoramente com o escuro e a luz se misturando no jardim. Ela não estava usando roupas, apenas uma lingerie negra de rendas carmim com um lacinho roxo na parte superior. Suas pernas eram bem torneadas e ela andava com tanta leveza quanto de um gato. Estava praticamente semi-nua, com apenas seus longos cabelos brancos que iam até o joelho cobrindo suas costas, o que não valia muita coisa já que o principal mesmo estava descoberto na frente.
Corados com a garota só de lingerie e fartos seios a mostra, eles param sem saber como prosseguir. Ninguém desviou o olhar, ficaram com os olhos pregados no corpo da gata e alguns até limparam disfarçadamente a baba que se formava no canto da boca. Não era todo dia que se via uma garota bonita andar só de roupas íntimas pela rua. Ela sorri revelando as presas branquinhas como leite e eles nem percebem o perigo.
Rápida, precisa e feroz, ela avança até os quatro homens como se deslizasse pela grama, rasgando a garganta deles, decepando-lhe os membros e fazendo o sangue jorrar vermelho e quente pelo gramado com apenas uma sequência de movimentos simples. Um deles ficou sem um braço e uma perna, outro sem a cabeça, o terceiro teve sua garganta dilacerada e afogava-se em seu próprio sangue, já o quarto, o último, perdeu tanto os braços quanto as pernas, até mesmo a cabeça tinha voado para longe, seu braço em que ele gravara o nome da irmã encontrava-se agora entre as presas da felina branca que olhava desdenhosa para os corpos.
Acabando com o grupo perseguidor ela vira-se para o fugitivo, avaliando-o com seu olhar brilhante e dourado enquanto ainda segurava o braço do desconhecido entre os lábios. Ele encontrava-se caído no chão, suas mãos estavam tremendo mas ele tinha um sorriso feliz e aliviado em seu rosto. Olhava para ela com tanta intensidade que era como se fosse uma criança vendo um herói.
– Obrigado.
A garota solta o membro de seus lábios e dirige-se até ele com seus passos silenciosos de felina e seu costumeiro sorriso tranquilo. Andava como uma modelo até seu novo fã e quando chega até ele aplica-lhe um chute potente no rosto, fazendo-o cair novamente no chão e pisando em sua cabeça logo em seguida.
– Shhh.... – Ela pede silêncio com um tom de ironia e malícia na voz.
O homem tenta encontrar um jeito de respirar, visto que sua cabeça estava atolada na grama, debatendo-se o quanto podia em busca de ar, sem entender o que estava acontecendo, mas ela não pára de pisoteá-lo, apenas quando se cansa daquela posição é que troca de pé sem permitir que ele suba. Cerca de cinco ou sete minutos depois o homem pára de se mexer, morto por asfixia.
Ela move suas orelhinhas brancas em várias direções tentando escutar alguma coisa e quando não encontra nenhum som, sorri alegre. Seu silêncio enfim estava de volta ou foi o que ela pensou até ouvir o som de palmas atrás de si.
– Nada mal – Diz o sujeito diminuindo gradativamente o ritmo das palmas.
– Podemos ficar com ela? – Um menino pergunta ao maior com um olhar carente.
De onde eles tinham saído? Ela tentou refletir por um momento, mas ao ouvir a voz da criança e o ver na escuridão, desistiu logo de pensar.
Como se a voz dele tivesse pressionado um interruptor, a garota avança até o menino o capturando em um abraço apertado e rolando com ele pelo chão. Senta-se na grama quando os giros perdem o movimento e prende o garoto entre seus braços e suas pernas, roçando seu rosto no dele como se abraçasse um boneco de pelúcia.
– Fofinho – Ela diz ronronando enquanto o abraçava.
O menino se via preso pela felina, que o abraçava como um filhote fofo sem se importar dos seus seios o asfixiarem, de suas garras arranhá-lo discretamente ou do fato dele ter ficado vermelho por estar tão próximo dela.
– MIK-NII-CHAN!!!!
Disfarçando leves risadas com uma mão ele olha para a lua como se estivesse numa cena dramática.
– Que inveja Oliver, você está mesmo aproveitando essa viajem – Ele fala com um tom lento e emotivo, mas estava rindo por dentro.
– Mik-nii, eu vou morrer sufocado!
– Neste sentido aí, é um belo jeito de morrer.
– MIK!!!
– Ok, ok.
Contendo sua animação, Michael retira um aparelho com o formato de uma caneta de seu bolso, mirando-o perto dos dois e apertando o botão de ligar na parte de trás. Um ponto de luz vermelha aparece no chão, ele era bem brilhante e chamativo, e quando a felina encontra aquele ponto curioso, salta sobre ele com as duas mãos juntas. Infelizmente não consegue capturar o brilhante ponto de luz, ele era rápido e fugiu de seu alcance, a fazendo persegui-lo como um animal persegue o reflexo de um espelho.
Oliver estava se divertindo vendo a garota perseguir o brilho, se ela fosse menor, se fosse um animal mesmo e se não tivesse tentado asfixia-lo um minuto atrás, adoraria brincar com ela. Michael também estava se divertindo, fazia tempo que não brincava com um animal, ou nesse caso um meio-animal.
A albina logo percebe que não conseguia capturar aquele brilho, então muda seus métodos para uma rota diferente. Avança até o homem que parecia controlar a luz e salta em cima dele, pegando o graveto que ele usava para controlá-la.
Ao fazê-lo cair no chão e capturar o graveto, senta-se em cima de seu colo e analisa o objeto tentando descobrir como funciona.
Rindo, ele aponta para um botão na parte de trás do aparelho e quando a garota aperta aquilo segurando-o com as duas mãos consegue projetar a luz na grama, direcionando-a logo para o rosto do loiro.
– Isso mesmo, boa menina – Ele lhe parabeniza afagando o topo de sua cabeça.
A garota ronrona igual um legitimo felino, sentindo seus fios brancos sendo acariciados de maneira tão terna e prazerosa.
– Mik-nii, caso tenha se esquecido, você está com uma garota só de roupas íntimas em cima de você.
– Eu sei. Estou tentando esquecer isso, não me lembre.
– Você não está pensando em coisas adultas está?
– Não me lembre sobre isso também. Estou me controlando para não pensar em nada, minha cabeça está cheia de vento nesse momento.
– Que inveja de você Mik-nii-chan, você está mesmo aproveitando essa viajem. – O menino imita o loiro repetindo algo que tinha ouvido ele falar antes.
– Oliver, vou te colocar de castigo assim que voltarmos.
– Ehh???
Michael continua a fazer carinho na felina, imaginando-a como um felino perfeitamente normal e tentando não olhar para baixo.
– Qual o seu nome? – Michael pergunta.
– Satsuki. Izuriha Satsuki.
– Mesmo? É um nome adorável. Eu sou Michael e aquele é Oliver.
– Estrangeiros como eu imaginei – Ela fala adquirindo um tom sério. – O que vocês querem aqui?
– Você.
Um minuto de silêncio. Satsuki encarava Michael que se mostrava relaxado diante da situação e Oliver encarava os dois pronto para agir ao menor sinal de violência. Ambos esperando alguma reação.
– Ah, então é isso nyah – A garota fala de modo animado, quando na verdade não tinha entendido porcaria nenhuma.
– Nesse caso você quer vir conosco? – Oliver pergunta achando que ela já tinha entendido a situação.
– Nyan! – Ela fala alegre.
– Quer fugir daqui comigo? – Michael pergunta com um timbre sedutor.
– Nyah – Satsuki inclina a cabeça ainda com o sorriso, lembrando-se vagamente de ter ouvido algo sobre uma fuga antes.
– Te darei um lugar cheio de brinquedos se for uma boa menina – Ele fala segurando o queixo da felina e limpando uma gota avermelhada que escorria discretamente pelo canto dos lábios dela com seu polegar.
Satsuki lhe lança um olhar malicioso, sua cauda branca se move levemente com um pensamento que passou por sua cabeça.
– E se eu não quiser? – Ela pergunta aproximando seu rosto do dele e mordiscando sua orelha.
– Mik.
– Eu não fiz nada Oliver – Michael fala levantando as mãos em rendição.
– Mik – Oliver desvia os olhos em uma direção parecendo apontar para alguma coisa, coisa esta que o loiro já havia percebido.
– Eu escolho – Oliver afirma estendendo a mão com pressa.
O loiro entrega o envelope de adesivos à Oliver, que após procurar pelas figuras armazenadas ali, seleciona uma e se dirige até Satsuki para colá-la.
– Sa-chan, vamos pra sua nova casa?
E sem esperar resposta, o loirinho cola o adesivo no ombro da albina. Tinha escolhido a figura de uma árvore seca e levemente torta para a direita, com um corvo de um olho só observando algo lá embaixo. Tão logo a figura encostou a pele dela, os dois desapareceram no ar.
Antes de segui-los, Michael põe-se ereto com um semblante sério a observar um arbusto de camélias próximo dali.
– Diga a seu dono que eu sugiro que ele não se intrometa em nossos assuntos – Ele alerta com seriedade. – Não serei tão gentil como fui da ultima vez.
Dito isso ele desaparece, seguindo os dois que foram mais a frente.
– Era para fugir deles, não com eles.
O ratinho de pêlo acinzentado reflete em voz alta o ocorrido escondido entre as folhagens do arbusto, precisava informar o que aconteceu imediatamente.
~ ❖ ~
Cain, Ivie e Arman estavam esperando por eles. Quando os três vêem a garota de lingerie próxima de Michael fazem um sinal de "joinha" com o polegar direito e estampam um olhar malicioso no rosto.
– Bom trabalho Michael, você subiu no meu conceito – fala Cain admirando a nova companheira.
– Essa é pra você Arman.
O arroxeado franze uma sobrancelha ao ouvir a novidade. Seus olhos a avaliam e logo ele percebe que teria mais trabalho.
– Que novidade boa, sinto vontade de chorar de felicidade.
– Não está irritado?
– Imagina – Arman se aproxima dele e pousa sua mão no ombro do mesmo. – Estou tão feliz que poderia quebrar cada ossinho do seu corpo. Eu amo tanto híbridos, você já sabe o quanto eu gosto deles.
– É eu sei, sua voz está carregada de felicidade – Michael ironiza. – É melhor você cuidar bem dela, eu não a escolhi por acaso.
– E eu tenho outra alternativa? Termine logo o seu trabalho para mim começar o meu.
– Arman está mal-humorado como sempre, daqui a pouco vou ficar de mal-humor também – Ivie reclama com um biquinho.
– Uma leoa, uma gata, daqui a pouco vai ser um jacaré. Por que eu tenho que aceitar meio animais? – Arman murmura irritado.
– Satsuki, você vai ficar aos cuidados dele, quer que eu te mostre o palco? – Oliver pergunta se fazendo presente.
– Ehh? Eu não quero ficar com ele.
"É recíproco" – Arman pensa.
– Ignore-o e se divirta, tenho certeza que você vai gostar do lugar em que vai ficar – Michael lhe diz amavelmente.
"Mentiroso" – Satsuki pensa.
– Me acompanhe logo garota, talvez sua presença consiga dar um jeito em outra híbrida que arranjei – Arman diz já se pondo a caminhar.
Satsuki segue Arman a contra gosto até seu objetivo. Cortaria a garganta dele ao primeiro sinal de perigo. Bem, cortaria de qualquer jeito já que não foi muito com a cara dele.
~ ❖ ~
Okinawa. Japão.
No alto de uma montanha e em meio as árvores, havia uma simples casinha de madeira isolada de tudo o que fosse urbano por ali. Havia hera cobrindo uma das paredes e embaixo da janela havia uma jardineira cheia de flores silvestres. Da chaminé saia uma fumaça com cheiro doce e uma velhinha estava cortando uma massa adocicada que tinha estendido na pia. Seus cabelos grisalhos estavam presos em um coque e embora seu corpo fosse pequeno e ela parecesse bem velha, ainda tinha alguma força sobrando para abrir e cortar aquela massa. Estava preparando uma torta de maçãs, acompanhada do café que fervia na lareira.
Em uma das salas uma presença gélida estava com as pernas cruzadas no sofá, apenas esperando a senhora terminar o seu trabalho. Vultos serpenteantes andavam pelo chão e pelos móveis, alguns aproximavam-se da presença gélida e sussurravam coisas em seus ouvidos.
Ela apenas tamborilava os dedos no braço do sofá constatando a novidade.
– Tem certeza que não quer comer minha comida Saga-sama? – A idosa lhe pergunta da cozinha, aproximando-se da sala – Tenho certeza que você gostaria se provasse.
A mulher na sala vira sua cabeça com desdém para a figura da idosa. Ela já devia saber a resposta.
– Tá bem, tá bem, não digo mais nada.
A velha senhora serve um prato cheio de ratos em frente a garota e coloca outro prato com o mesmo alimento em cima da mesinha de centro para as cobras que serpenteavam pelo chão. Volta a cozinha e pega o bule de café que havia ficado pronto e serve uma xícara para sua companhia. Depois de muita luta foi que conseguiu fazer ela beber um pouco de café, a única bebida comum que ela se dignou a provar. O dia em que apresentou o café para Saga foi quase uma guerra para fazê-la beber, mas por sorte saiu vitoriosa do campo de batalha, convencendo a garota a tomar uma bebida comum.
– Deixe-me ao menos pentear seu cabelo, querida.
Com um pente especial, a senhora se coloca atrás da garota e penteia seus longos cabelos arroxeados com cuidado, pois as pontas deles eram cabeças de serpentes que poderiam lhe picar se sentissem dor. A garota pega a xícara de café e experimenta alguns pequenos goles entre seus lábios, apreciando o calor da bebida em seu corpo frio.
Saga tinha um corpo que poderia ser considerado muito sensual se não fosse pelas escamas que apareciam em algumas partes de seu corpo, seus cabelos começavam como fios formais mas conforme progrediam acabavam terminando em cobras venenosas e eram muito compridos, muito mesmo, iam até seus pés. Seus olhos eram rosa perolados e assemelhavam-se aos olhos de uma serpente. Estava usando um vestido negro com detalhes roxos que ficava bem justo em seu corpo e era muito curto, acompanhado de luvas que cobriam metade de seus braços e botas cano longo.
– Seus cabelos estão ficando mais brilhantes, você está se cuidando mais querida?
– Hunf – Ela sorri pousando a xícara no pires. – Saga já é perfeita vovó, não precisa de cuidados desses lixos.
– Desse jeito você nunca vai fazer amigos – Ela reclama preocupada.
– Não preciso desses vermes imundos, Saga já tem você e as suas cobras.
– Eu não vou ficar aqui pra sempre Saga, o tempo não é muito generoso com a gente.
– Nisso eu concordo perfeitamente – Uma voz diz.
O homem sentado no sofá em frente a elas bebericava uma xícara do líquido escuro enquanto um menino comia um pedaço da torta de maçã sentado do tapete em frente a mesinha.
– Você não mudou nadinha Michael – A idosa constata com tristeza sem estranhar a presença dele ali. – Não envelheceu nada em trinta e dois anos. Que horror, é muito constrangedor você me ver desse jeito.
– Você envelheceu mas ainda continua muito bonita Kumiko – Ele sorri com nostalgia. – Ainda se parece com aquela menina que nos perseguia por aí.
– E esse, quem é? Que eu me lembre você não tinha filhos – Ela dirige seu olhar para a criança.
– Este é Oliver, filho de uma artista do circo. É meu irmão mais novo de consideração.
– Vovó, você faz uma torta de maçã deliciosa! – O menino exclama alegre.
– Obrigada. Fico muito feliz em ouvir isso – Ela move sua cabeça para a garota. – Saga, eu sinto muito por isso.
– Pelo quê?
Um leve e potente choque surge da nuca da garota, é só uma faísca muito curta e rápida mas que foi o suficiente para escurecer a visão dela e fazê-la desmaiar. Saga cai desacordada no sofá e as cobras que transitavam pelo chão ficam irritadas pela traição de sua mestra, correndo em direção à idosa e dos dois estrangeiros, mas quando estão próximas de suas presas, as cobras se contorcem para trás em pura agonia, queimando de dentro para fora e só deixando para trás cinzas e seus ossos enegrecidos.
A idosa cobria o rosto com as mãos, escondendo algumas lágrimas que deslizavam por seu rosto. O loiro se aproximou dela e a abraçou com carinho, enquanto ela chorava entre seus braços.
– Tudo bem Kumiko, já passou.
– Michael – Ela diz em meio as lágrimas, tirando as mãos do rosto e prendendo ele em um abraço.
– Já passou – Ele repete para consolá-la.
– A vovó está estranha, por que ela está chorando? – Oliver pergunta – Não podemos fazer isso na frente de alguém, é fraqueza. Mik, diz isso pra ela. – Oliver reconsidera o que disse – Se bem que... o que fez ela chorar? Deve ser algo bem grave.
– Não é nada não Oliver – Michael lhe responde casualmente.
O loiro estende sua mão até uma fotografia que estava em cima de um móvel e abaixa o porta retrato em direção a madeira, escondendo a foto que ele exibia.
– Nada não – Ele repete.
Oliver só conseguiu ter um rápido vislumbre da foto antes dele escondê-la e ela mostrava uma Kumiko mais nova acompanhada de três outras pessoas que ele não conseguiu ver, ela estava em um lugar muito colorido que ele podia jurar ser o circo e estava segurando uma lâmina maior que seu próprio corpo em uma das mãos.
Enquanto Oliver se distraiu olhando a misteriosa foto escondida, Michael recolhia a garota-cobra desmaiada segurando-a no colo e apoiando a cabeça dela em seu ombro. Com as mãos ocupadas, Oliver se adiantou em escolher o adesivo para colocar na garota-cobra enquanto ela estava desacordada. Colou um espelho de mão na palma dela e correu para pegar três cobras que Michael não havia matado para levar junto com eles.
Kumiko havia sido deitada no sofá parcialmente adormecida, pela ausência do cheiro de morte ela parecia ainda estar viva.
– Kumiko é sua amiga? – Ele pergunta para o loiro com curiosidade.
– Não – Ele fala devagar medindo bem o peso da palavra. – Ela é...
Antes de terminar de responder os dois desaparecem levando Saga e três cobras adormecidas consigo, deixando uma senhora desacordada e sozinha para trás, com cadáveres de dezenas de serpentes cobrindo o chão.
~ ❖ ~
Uma vitrola tocava uma música antiga em cima de um criado mudo no canto de uma sala. Magnus ouvia a sinfonia enquanto limpava um aparelho de metal do líquido vermelho que o manchava com um pano branco. Uma fileira de outros aparelhos de metal estavam dispostos e alinhados em cima da mesa em frente a ele e Magnus limpava distraidamente as lâminas do aparelho metálico em suas mãos.
– Tem um minuto? – Michael pergunta encostado na porta do cômodo.
– Não, eu estou ocupado.
– Serei breve, é importante.
O mordomo dirige seus olhos cristalinos para o loiro imóvel. Michael segurava um pacote de papel pardo e tinha uma expressão muito séria em seu rosto, as mãos dele tremiam levemente quando este olhava para algo atrás de Magnus e os olhos azuis dele ficavam desviando da cena o tempo todo.
Havia três garotas naquela sala, sentadas e amarradas no que parecia ser um um tipo de balanço com um lugar separado para cada uma. As três tinham os lábios rasgados até as orelhas e os olhos tinham sido arrancados, restando apenas buracos negros e ocos na cavidade vazia. Encontravam-se nuas nos balanços, com cortes profundos nas coxas e nos braços, e como se isso não bastasse a pele do tronco tinha sido aberta como quando se disseca um animal, esticada por fios e grampos presos nas argolas do balanços dando para se ver todo o seu interior. Elas gemiam bem baixinho, tentando ficar em silêncio para não despertarem a ira o mordomo, apesar da dor descomunal que estavam sentindo não se permitiam produzir nenhum som.
– São traidoras – Magnus responde a pergunta que Michael não fez. – Traíram o mestre do circo, então tive que resolver este assunto.
– Você nunca perdoa não é?
– Você já sabe a resposta.
Magnus coloca o aparelho já limpo em sua mesa e caminha até a porta em que Michael estava, passando pela entrada e se dirigindo até os corredores. Para quem não conhecesse aqueles corredores eram iguais a labirintos, onde só existia uma entrada e uma saída, mas Magnus os possuía decorados em sua cabeça.
– Consegui o próximo nome para você. Elas deixaram escapar o nome de uma pessoa em que eu fiquei muito interessado e descobri uma porção de coisas que me serão muito úteis futuramente.
– Como está a Ênia? Você fez algo com ela?
– Duvida de mim? Ela está bem viva, se é o que quer saber. E eu também encontrei aquele garoto que você deixou trancado em um quarto para mim não achar. Ivan, não é? Pessoalmente gostei mais quando ele se tornou violento. Chamei o doutor depois de minha visita.
– Você o machucou?
– Eu quase o matei, mas por sorte temos nosso bom doutor. Eu irei resolver pessoalmente o problema dele, afinal ele está sob minha guarda.
Quando os dois chegaram a casa de chás, Magnus e Michael se sentaram em uma mesa e o loiro entregou o pacote ao moreno. Dentro haviam cinco tipos diferentes de pacotes de chás, todos sendo os favoritos de Magnus, e este franziu uma sobrancelha com o presente inesperado.
– Suborno? Acha mesmo que vou aceitar? O que espera conseguir com isto? – Os olhos cristalinos encaram os azuis com seriedade. – Pra você tentar uma coisa dessas eu suponho que é um assunto realmente importante. Explique-se.
– Preciso que você me escute com calma e que não tente me torturar no final da conversa.
– Eu não irei prometer.
Com um suspiro, Michael apoia suas mãos em cima da mesa, tentando criar coragem para continuar. Os olhos de Magnus o encaravam com aparente indiferença, mas quando o loiro lhe disse o assunto da conversa, ele se mostrou bem mais interessado, afinal, tinha haver consigo mesmo.
– É sobre o exilado.
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