Notas iniciais
NÃO ME MATEM! Eu sei que demorei (muito, demorei muito) mas essas provas, trabalhos e lições tem vindo aos montes desde a volta às aulas. Estive bem ocupada, acho que a maioria também esteve. Mas não se preocupem que eu não abandonei a fic. Primeiro queria agradecer ao RandomReader, a MaryLoves e ao Lord Mitzogh por terem feito uma recomendação. Sério, eu AMEI! Vocês leitores me deixam a beira de um ataque sempre que vejo algo assim. Me sinto foda quando leio elas. Segundo, GOMENASAI! Eu sei que a demora foi terrivel, gomenasai, gomenasai.

"De quem é a culpa?"

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Um pequeno animal de pêlo acinzentado corria o quanto podia por corredores subterrâneos que emitiam uma luz fraca em lâmpadas a gás embutidas nas paredes. Seus olhinhos ônix visavam uma porta no final do caminho, seu recado devia ser dado urgentemente.

– As informações eram verdadeiras – Ele anuncia mal passando pelo portal e continuando seu trajeto até chegar próximo de uma cortina escura com desenhos arabescos, onde para respeitosamente. – Um enviado do circo está capturando pessoas e levando para o abismo. A híbrida foi um dos alvos como você esperava.

Uma brisa passa levemente pela cortina provocando pequenas ondas pelo tecido escuro, a pessoa que estava atrás dela moveu-se minimamente com a novidade.

– Não consegui convencer Satsuki Izuhira a fugir – O pequeno roedor diz frustrado abaixando a cabeça. – Ele levou ela.

Isso já era esperado.

A pessoa atrás da cortina gira uma agulha metálica entre os dedos com um semblante pensativo. A híbrida foi uma isca, sabia que cedo ou tarde alguém viria atrás dela, só foi preciso confirmar se a caçada era mesmo verdadeira.

Sim, era verdade. O mestre que ninguém nunca viu enviou um procurador para fora do circo atrás de novas aquisições, pobres criaturas.

– E-ele também enviou-lhe uma mensagem – O ratinho diz temeroso da reação. – Disse que não será tão gentil como foi da ultima vez. O que isso quer dizer?

A figura atrás da cortina para de girar a agulha entre os dedos ao ouvir a novidade.

– Seria um desafio?

– O que? – O ratinho pergunta, não ouviu a frase dita em voz tão baixa pelo homem – Devo alertar os prováveis alvos a fugirem? Ainda deve dar tempo se formos rápidos.

É inevitável. Uma vez que sejam alvos o procurador não os deixaria fugir. Fuga não era uma opção.

A agulha volta a girar entre os dedos da figura.

– Não, essas crianças já estão condenadas. Mas há uma coisa que eu quero testar.

O ratinho se afasta um passo da cortina negra. Teste? O que poderia ser?

– Quero que faça uma coisa para mim.

~ ❖ ~

Galatsi. Grécia.

Na extensa e bem construída mansão Parthenios, uma música tocava bem alto vindo de uma vitrola no coração da casa. O ritmo assemelhava-se a uma música espanhola, com o som das castanholas batendo, os violinos vibrando com energia e o som de palmas fazendo coro aos passos dos sapatos. O som transportava os ouvintes a uma festa espanhola, com mulheres em vestidos vermelho-vinho batendo as castanholas e homens sapateando com rapidez produzindo sons com os saltos.

A mansão obedecia ao clássico padrão marmóreo das construções gregas. Cada detalhe era ricamente moldado. As estátuas gregas exibiam a perfeição de uma beleza celestial; imóveis, soberanas, frias, estendiam seus braços de pedra com uma expressão inalterável que o tempo nunca mudaria em suas faces. As colunas estendiam-se majestosamente dando apoio a casa imitando a construção de um templo. Os sofás, a mobília, as pinturas, tudo na casa remetia os tempos de glória da Grécia, tempos antigos em que a tradição e o refinamento eram tidos como leis. Bandejas de frutas frescas encontravam-se espalhadas em lugares estratégicos da mansão e o luxo estava presente em cada peça da refinada prataria disposta pela mesa.

Incensos aromáticos queimavam em apoios de prata e obedientes vultos cautelosos caminhavam rente as paredes executando suas tarefas domésticas enquanto fugiam da música e do alcance da visão de alguém que a apreciava.

Um garoto de não mais que treze anos encontrava-se no centro do coração da mansão. Dançando ao ritmo da música com rapidez e vigor, a sola de seus sapatos batendo no mármore do piso perfeitamente lustrado imitando o som das palmas que flutuavam até ele através da música. Ele ria com seus erros, dançava e girava em pura alegria, embalado pelo constante som do aparelho.

Um corpo humano pisoteado começava a entrar em decomposição no canto entre duas paredes daquela sala. Apesar da face ter ficado irreconhecível podia-se supor que era um corpo feminino, mas a identidade da morta não seria descoberta facilmente uma vez que seu rosto era irrecuperável. Sangue estava espalhado por todo seu mísero cadáver, que depois de três dias começara a ficar com um cheiro muito ruim.

Uma empregada com o rosto abatido e profundas olheiras embaixo dos olhos pegava o telefone pela milésima vez e discava o número que tinha decorado após discá-lo durante tantas vezes seguidas. Seu cabelo castanho estava preso em um coque desarrumado e seu avental que antes ela mantinha sempre liso e perfeito estava amassado de tanto ela o torcer de nervosismo.

– Quando a polícia virá aqui? – Ela pergunta à voz do outro lado do telefone, com a voz apática de quem já fez essa pergunta várias vezes e que agora já parecia ensaiada.

– De novo? Você realmente liga bastante para nós – A voz do outro lado tentou soar animada fazendo uma piada para amenizar o clima, aos ouvidos da empregada a voz soou falsa. – Estamos providenciando o pessoal. Temos que conseguir um mandado de busca, reunir provas, conseguir a aceitação do tribunal, a democracia é muito rígida sobre as leis. Isso pode levar algumas horas-...

– Já faz três dias.

– Ou dias, para esse processo ser concluído. Talvez até anos são necessários. Nós cuidaremos de seu caso.

– Se vocês pelo menos vierem aqui encontrarão o corpo na sala, eu tenho testemunhas do crime, tenho provas, sei quem assassinou a madame, venham prender o culpado.

– Como eu disse, esse é um processo demorado. Pode demorar dias ou anos para ser concluído, nós cuidaremos-...

Antes do policial terminar sua fala a empregada já afastou o aparelho do ouvido entediada e o jardineiro, que tinha entrado no espaço a pouco tempo, depositou o telefone no gancho por ela, encerrando a ligação.

– Não adianta Eva, a família Parthenios tem influência até na policia, é inútil ligar para eles.

– Mas a madame... a madame... a própria mãe.

– Eu sei. E o jovem Parthenios também.

– E o tio e o pai... – A mulher torce o avental entre os dedos – Queria pelo menos preparar um funeral decente.

– Não toque nos corpos, você vai ser a próxima se fizer isso.

– E essa música! – Ela cobre os ouvidos irritada. – Ele está comemorando a três dias, está dançando na frente da madame. Faça essa música parar! Eu não consigo dormir.

– Falando mal pelas minhas costas?

O garoto de cabelos dourados, que dançava na sala a alguns minutos atrás, surge pela porta da cozinha com um sorriso ingênuo nos lábios. Seus olhos eram azul celeste e encaravam a empregada com um misto de curiosidade e alegria.

– Eu posso te ajudar a dormir, só não vou conseguir te acordar depois – Ele diz esboçando malícia em seu sorriso e seus olhos tornando-se perversos de uma hora para outra.

A empregada se afasta dois passos com a cabeça abaixada, torcendo o avental entre os dedos.

– Estou com fome Eva. Me traga algo bem gostoso. Se eu não gostar vou fazer meus cães caçarem você como se fosse uma lebre para o jantar – Ele diz erguendo a cabeça com uma expressão arrogante na face.

Silenciosamente ela assente com a cabeça e se retira do espaço. Correndo com milhares das receitas favoritas do garoto passando por sua cabeça.

– E quanto a você... – Ele aponta para o jardineiro – Tulipas. Tulipas vermelhas! Quero que encha a mansão com milhares de tulipas.

O garoto gira seu próprio corpo com os braços abertos indicando a amplitude do lugar para o jardineiro enfeitar com as flores.

– Não está na época – O mais velho informou, mas logo se lembrou de acrescentar algo no final – Meu senhor.

Era inverno, embora não nevasse as árvores já perderam suas folhas, a grama começava a secar, se preparando para a neve, e não havia uma única flor ou mesmo uma folha no jardim.

– Então faça elas florescerem. É o seu trabalho como jardineiro.

– Isso é impossível – Ele murmura sem acreditar. – Não posso fazê-las florescer antes do tempo.

O loiro ergue sua mão até o rosto do jardineiro e a pousa delicadamente em sua bochecha para segurar seu rosto.

– Tulipas vermelhas – O garoto repete. – Ou as tulipas ou você, o que prefere usar para colorir esse museu que eu chamo de casa?

Em todo o país, não haveria um lugar em que existisse uma tulipa aberta. O jardineiro sabia que aquele seria seu fim.

Mas inesperadamente um barulho que ninguém previa aquele dia, ecoou por toda a mansão. Do jardim, da cozinha e dos campos era possível ouvir aquele som mecânico. Tanto o garoto quanto o jardineiro viraram devagar e com muita cautela a cabeça em direção à porta. Teriam imaginado aquilo? A campainha, que durante muito tempo nunca tinha tocado, tinha realmente emitido som? Desde o seu antecessor, que havia prometido concertá-la um dia, não houve uma época desde a instalação que ela tivesse realmente funcionado.

– Uma visita – O loirinho constatou surpreso, retirando sua mão do rosto do maior e caminhando em direção a entrada.

Abriu a porta de madeira ricamente trabalhada e percebeu que não havia ninguém do outro lado. Deve ter sido sua imaginação. Ele tornou a fechar a porta e caminhar de volta para o jardineiro, mas então outro som. A campainha tocara novamente.

Correndo ele abriu a porta o mais rápido que pôde e olhou lá para fora. Nada. Nenhuma ave ou folha. Sorrindo como um lunático ele fechou a porta novamente e ficou parado no mesmo lugar encarando ela. Esperando. Como imaginava a campainha tocou novamente, e de novo, e de novo, estava tocando a cada meio segundo causando um som irritante e infernal, mas ele não abria a porta.

– Senhor – O jardineiro o chamou, incitando-o a abrir a porta enquanto tentava abafar o som tampando os ouvidos.

O loirinho disse algo para o maior que não foi ouvido devido ao som ensurdecedor e tão logo terminou sua frase abriu a porta e correu para fora como se fosse atacar alguém do outro lado. Tão logo ele saiu a porta se fechou sozinha e o som parou por completo. Um silêncio sepulcral e extremamente anormal caiu em todo o território depois daquilo.

Com o coração batendo o maior foi até a porta e a abriu. Não havia ninguém do outro lado, nem a pessoa que estava tocando a campainha e, principalmente, nem o garoto de cabelos loiros que havia saído meio minuto atrás.

– Parece divertido – Uma voz doce, demasiado infantil, repete a fala do loiro desaparecido que não foi ouvida devido ao som da campainha.

Dentro da mansão, olhando o jardineiro com olhos amáveis, havia uma criança de olhos acinzentados. Segurava as mãos atrás das costas como um pequeno soldado, sorrindo como só as crianças conseguem fazer.

– Você... quem... o que?

Sem ter nenhuma pergunta respondida, ele vê o menino desaparecer em frente aos seus olhos, como um fantasma que não é deste mundo e nem do outro. Segurando uma cruz de madeira que trazia no pingente de um colar, o maior corre até a cozinha atrás da empregada. Eva não acreditaria no que tinha para contar.

Quando chega lá encontra Evangeline em frente ao fogão, segurando uma tulipa vermelha e observando um pudim caramelado como se ele tivesse todas as respostas do mundo. A cozinha estava desarrumada, isso não era de seu feitio. As cadeiras de madeira levemente afastadas da mesa como se alguém tivesse acabado de se levantar, biscoitos de aveia e mel comidos pela metade em um prato infantil e o pudim caramelado tinha uma ponta faltando, provavelmente alguém provou uma colher da sobremesa. O jardineiro tinha várias perguntas a fazer, mas a primeira que conseguiu formular soou tão estranha e fora do padrão que nem ele acreditou no que disse:

– Onde conseguiu essa tulipa vermelha?

– Um anjo que me deu – Ela respondeu, sem nem acreditar na própria resposta. – Onde está o jovem Parthenios?

~ ❖ ~

O novo dono da família Parthenios sentia a escuridão lhe envolver. Tinha acabado de sair pela porta de sua casa e em vez de encontrar a varanda ou o visitante que tinha vindo lhe perturbar, acabou caindo em um buraco escuro que tinha se aberto no chão quando saiu. Não conseguia ver ou sentir nada naquele breu, mas sabia que estava sentado. A pose em que seu corpo permanecia... com certeza estava sentado em alguma coisa.

– Relaxe, nós só vamos dar uma volta.

O lugar em que estava sentado começou a se mover para frente, refletores como os usados no cinema se acenderam sobre sua cabeça e então o loirinho conseguiu visualizar onde estava. Uma montanha russa. Mas não era uma qualquer, tinha alguma coisa errada com ela, parecia abandonada. A pista tinha alguns ligamentos faltando e rachaduras, ela parecia tremer sob o peso do carinho de ferro, que por algum motivo não tinha cintos e nem barras de segurança.

Ele sentiu medo de cair? Não. O garoto sorriu como um maníaco e se segurou no banco, gritando com um sorriso quando o carrinho caía do alto de uma subida. Os pregos se soltavam, a madeira cedia, mas ele não estava nem aí.

"Acho que isso é o que se pode chamar de última volta" – Ele pensou com ironia.

Um menino com quepe de policial, mais novo do que si próprio estava no acento de trás.

– Oi – Ele lhe cumprimenta acenando com sua mão.

– Olá – O garoto retribui com a mesma animação infantil, como se ambos não estivessem em um veiculo perigoso que poderia resultar na morte deles.

– Está com medo?

– Não – O garoto sorri com escárnio. – Estou me divertindo muito. Só me divirto quando estou perto da morte, isso não é nosso instinto natural?

O menino não responde sua pergunta retórica, apenas se inclina para frente e deita a cabeça em cima dos braços que tinha apoiado no carrinho.

– Você pensa como os VIPs. Nii-chan está feliz – O menino olha para frente inclinando os lábios para cima em um sorriso contido.

Michael estava no meio da pista, com um olhar sarcástico em seu rosto. O garoto olha para frente constatando o homem circense que estava na linha de perigo. Só faltava uns vinte metros para o carrinho atropelá-lo.

– Seu nome? – Michael pergunta sem se mover ou sair da pista.

– Não brinca, ele vai fazer um questionário? Aegeon Parthenios – O garoto responde vendo a distância se diminuir com ansiedade até atropelá-lo.

– Está entediado Aegeon?

– Não nesse momento.

Um sorriso brota dos lábios do garoto. Por um momento lembrou-se das caçadas que fazia com o irmão, um antigo hobbie inglês que seu pai lhe aplicou como modo terapêutico, será que o velhote teria se arrependido da escolha?

– Você nasceu no lugar errado. Uma vida em família, paz e conforto não combina com você.

– E o que combina comigo? Nem me conhece – Aegeon diz adquirindo uma expressão séria, a conversa estava fluindo para um lado não muito bom.

– Dor, sangue, desespero... – Michael responde – Você combina com o caos.

– Não chamo isso de conhecer.

– É o suficiente. Você também não me conhece.

– E nem a mim – Oliver completa.

– Mas isso não é importante. Podemos passar uma vida inteira ao lado de uma pessoa sem conhecê-la realmente. O que eu quero saber sobre você é apenas uma coisa: Se, e apenas se, você pudesse fazer uma escolha, entre uma vida longa e feliz e uma vida curta e divertida, qual você escolheria?

Aegeon ri. Tampa a boca com uma das mãos para esconder a risada mas não consegue se conter.

– Que pergunta ridícula – Ele diz em meio aos risos – Eu escolheria uma vida muito, muito longa e extremamente divertida, cheia de espinhos, morte e um pouquinho de insanidade. Eu não dou a mínima para o bom senso, só quero surtar para sempre.

– Boa resposta – O loiro sorri com malícia.

– Aaaaprovado! – Oliver dá um tapa na bochecha de Aegeon colando uma figurinha com a ação empolgada.

Um raio. Mais especificamente um trovão. Essa é a figurinha que o grego ganha, acompanhada de uma marca avermelhada com cinco dedinhos em sua pele. O carrinho da montanha russa vira fumaça a poucos centímetros de atropelar Michael, desaparecendo por completo.

Sozinho no caminho instável da montanha russa sem fim, Michael se sente observado e reflete em voz alta sobre o novo membro:

– O que os VIPs dirão quando verem um dos seus no palco? – Um sorriso perverso, igual o de uma criança que fez uma brincadeira prestes a ser descoberta, brota no canto de sua boca.

~ ❖ ~

Em um quarto dourado, Ellie sentava-se na beira de sua cama com uma companhia. A ruiva com cabelos alaranjados como o pôr-do-sol penteava uma garota com cabelos pálidos que encontrou desacordada e exausta à sombra de uma árvore.

– Você tem que ser mais cuidadosa sabia? – A ruiva aplica uma bronca na menor – Ficar dormindo por aí, exposta desse jeito, em um lugar cheio de lobos como esse? Está pedindo por perigo.

– Lobos? – Ela pergunta escondendo o interesse.

– Sim, homens são lobos. Fingem que são mansos para você chegar perto e quando sua garganta está próxima o bastante... NHOC. Te comem sem pensar duas vezes.

– Lobos... – A garota reflete.

Ellie penteava a garota como uma menina penteando sua boneca. Como tudo no quarto era brilhante e dourado, a escova é claro também tinha esse toque. O cabo era rígido, de um material que a ruiva não conseguiu reconhecer, coberto pela cor dourada; as costas da escova tinham o desenho de uma flor de lótus e os dentes na frente eram negros como carvão. O cabelo branco da garota passava sem nenhum problema pelos dentes da escova, a cada passada parecia ficar mais brilhante sob a luz forte dos vários abajures e luminárias do quarto. Ellie já estava se perguntando se ficaria brilhando como uma estrela no final. A pele pálida da garota também se assemelhava a de uma boneca.

– Qual seu nome? – A ruiva perguntou. – Acabei te trazendo sem nem perguntar, desculpe.

– Arisu.

A menor disse de um jeito tão estranho que Ellie conseguiu ouvir uma mentira na voz. Aquele não era seu nome, parecia que ainda estava se habituando ao som das letras, tentando gravar a palavra na memória. Alguma coisa havia acontecido para ela não dizer seu nome. Mas Ellie decidiu não perguntar pelo resto, sentiu que a albina tinha ficado tensa com o rumo que a conversa tomou, ela não queria ouvir perguntas, seria melhor não forçar a barra. Iria descobrir as coisas do seu jeito.

A ruiva afastou o cabelo pálido das costas de Arisu e encostou os lábios em um dos ombros dela, assoprando forte contra a pele provocando vibrações que causavam cócegas pelo corpo. Arisu riu na hora, incapaz de se afastar pelos braços da maior estarem segurando sua cintura.

– NÃO! NÃO! PÁRA! ISSO FAZ CÓCEGAS!

– Essa é a intenção – Ellie afirma usando seus dedos para fazerem cosquinhas na cintura da menor. – Se ficar séria muito tempo vai criar rugas antes da hora.

– TÁ! TÁ! PÁRA COM ISSO! – A garota não podia parar de rir.

Pronto, o estresse tinha passado. Agora Arisu estava mais relaxada. Ellie liberta a garota com um sorriso simpático no rosto. Deixar uma boa primeira impressão era essencial, não conseguiria muita coisa arranjando inimigos, mesmo os que parecessem inofensivos como a exposta e desacordada garota de cabelos brancos. Graças a essa "brincadeirinha" agora sabia onde eram os pontos sensíveis do corpo dela e também que não era tão inocente como parecia. Arisu tinha as mãos muito limpas e macias, mãos de quem nunca pegou em um instrumento de trabalho pesado, devia vir de uma família rica. As pontas do cabelo denunciavam que ela esteve dormindo em lugares sujos por pelo menos três dias, algo aconteceu. Os olhos azuis de boneca de porcelana mostravam certa ingenuidade vazia, ela tinha se esquecido de algo importante. Falar sobre coisas pessoais, mesmo as mais banais como o nome, a deixavam em alerta, o que reforçava o esquecimento de alguma coisa. A garota estava sendo cautelosa com alguma coisa com certeza. E com isso, Ellie conseguiu algumas pequenas informações sobre a menina.

– Seremos amigas certo Arisu?

– Tanto faz – Ela responde dando de ombros mais relaxada pela brincadeira.

Ivie observava as duas pela fresta da porta entreaberta. Estava planejando ir ao seu quarto para se trocar, mas não conseguiu entrar ao ver uma cena como essa.

– Uma amizade falsa é tão linda – Comenta consigo mesma.

Retira-se da porta sem nem mesmo entrar. Arman iria receber o último membro, estava torcendo para que fosse um híbrido. Um meio-coruja seria incrível, ficaria observando-o com aqueles olhos arregalados sem deixá-lo ter paz; ou uma meio-tigresa, para completar o trio de felinas e infernizá-lo, não, seria melhor um centauro, ele sofreria muito tentando fazer aquelas quatro patas e a traseira gigante se agarrarem as barras e aos tecidos para fazer acrobacia.

Ivie ria sozinha no meio da rua, como uma vilã que fez seu plano diabólico.

– Se ela está feliz, eu estou feliz – Cain comenta observando a amiga rindo sozinha no meio da rua, estranhando o comportamento mas não dando a mínima para ele.

A ruiva corre até o palco de Arman, ansiosa por vê-lo irritado, e quando chega lá realmente o vê muito irritado, mas por outro motivo. As duas felinas encontravam-se em lados opostos das plataformas aéreas. Serpenteavam suas caudas observando surpresas o que tinha acontecido lá embaixo. As roupas de treino que Arman provavelmente lhes dera estavam mais curtas que o normal, elas tinham rasgado o tecido com certeza. Wei vestia um kimono próprio para os treinos, estava afastado do desastre olhando-o com seriedade. E Arman, com uma veia saltando da testa, estava furioso com a ridícula interrupção que seu velho amigo lhe trouxe desta vez.

Um carrinho, seguido de sete outros carrinhos enfileirados de uma montanha russa, tinha estacionado bem no meio do palco saindo de sabe-se-lá onde. No primeiro assento um garoto loiro estava sentado com as pernas cruzadas igual um lorde e um olhar arrogante no rosto.

– Eu tenho tanta presença assim? – Ele pergunta retoricamente notando todos os olhares concentrados em si.

– Parabéns, seu elenco está completo Armanzinho – Oliver comemora do assento de trás.

Satsuki cobre a boca deixando um riso escapar. "Armanzinho" não combinava nem um pouco.

– Este é Aegeon Parthenios. O último membro para completar o seu grupo – Michael completa calmamente.

Ivie ficou um pouco decepcionada ao ver que ele não tinha quatro patas e nem uma grande bunda de cavalo. Anotou mentalmente que teria que ensinar pegadinhas as felinas mais tarde.

– Claro, – a veia ainda saltava na testa de Arman – e que tal me explicar que DROGA É ESSA?

O arroxeado apontava furioso para o carrinho que arrebentava sua parede e ocupava metade do chão em que estavam.

– Como pode ver, é um carrinho de montanha-russa – Michael explica da forma mais inocente possível, como se o amigo fosse uma criança com raciocínio lento.

Isso só serviu para deixar Arman ainda mais irritado, fazendo-o cerrar o punho e dar um passo em direção a Michael.

– Arman, eu te procurei em todos os lugares – Ivie abraça o homem de cabelos arroxeados por trás com aparente animação forçada – Eu não consigo achar meu brinco, me ajude a procurá-lo.

– Agora não Ivie.

– Prefere me deixar vagando sozinha, tão perto do horário noturno? – Os olhos dela ficam marejados – Que cruel, eu estou com medo do escuro.

Arman suspira tentando controlar sua irritação. Nunca foi bom em lidar com mulheres chorando, simplesmente não aguentava ouvir elas berrando incomodando-o até conseguir o que queriam mais cedo ou mais tarde.

– Vamos procurar antes que escureça, certo?

Com um sorriso Ivie abraça o braço de Arman e o arrasta dali. Antes de sair pisca um olho com um sorriso cúmplice na direção de Michael e este lhe devolve um 'ok' com um gesto de mão. Virando-se para os demais ele dá uma notícia que deixa todos muito felizes.

– Hora do intervalo.

~ ❖ ~

Patras. Grécia.

Uma garota de longos cabelos negros que caiam por suas costas como uma cortina noturna andava num skate verde cheio de adesivos e customizações. Ela usava uma roupa cheia de acessórios num estilo rock'n roll. A saia de pregas era xadrez vermelho e preto com uma fileira de cruzes na barra e dois cintos a segurando no lugar. Sua blusa era cinzenta com desenhos de borboletas e uma blusa-colete por cima de tecido negro. Usava luvas góticas, braceletes, gargantilha e uma tiara semelhante a uma coroa negra. Estava ouvindo Knockin' On Heaven's Door de Guns N' Roses em seus headphones enquanto andava no skate e mascava um chiclete de morango. Sua gata, Biruta, a seguia a pé. Uma felina cinzenta de vívidos olhos dourados da raça Russian Blue, era tão leal quanto um cão, sua dona a havia "customizado" com um laço de cetim vermelho cujo miolo era uma caveirinha, preso em volta do pescoço e com o laço virado para trás da cabeça.

A garota e a felina se dirigiam para o cais da cidade e tão logo chegaram lá ela saltou do skate o recolhendo no mesmo instante com um movimento do pé, sentando-se na borda da plataforma de madeira e puxando um caderno de dentro da mochila incrivelmente bagunçada que trazia nas costas.

– Pois bem Biruta, é agora. Vamos pensar em um monstro terrível para meu protagonista combater, que aparência grotesca podemos dar a ele?

A garota puxa um lápis que (por milagre) encontrou dentro da mochila e pousa a ponta no papel. Estava escrevendo um livro de aventuras, gostava de fazer um rascunho ao ar livre primeiro para então passá-lo para o computador, e com o sol quase se pondo naquele mar magnifico com certeza teria inspiração.

Quarenta e cinco minutos se passam e a ponta do lápis permanecia no mesmo lugar sem ter escrito nada.

– Droga, onde a inspiração vai quando eu preciso dela? – Fala fechando o livro com o lápis no meio, emburrada. – Alguma ideia Biruta?

Só então percebeu que Biruta não estava mais do seu lado, e fora do mundo de concentração total que entra para escrever pôde finalmente ouvir os chiados da gata alguns metros atrás de si. A felina perseguia alguma coisa que se movia rapidamente pelo chão e com medo de perdê-la de vista a garota se põe a seguir a gata.

Andaram pelo cais, pela rua da padaria, pela praça, pelo estacionamento e a gata ainda percorria o mesmo ponto. Já tinham entrado na avenida dos ricos quando a gata enfim perde de vista sua presa.

– Você é inacreditável Biruta – A dona reclama, exausta da corrida, sentando-se em um banco próximo delas. – Tudo isso para uma caçada e nem consegue pegar o lanchinho?

Ela pende a cabeça para trás recuperando o fôlego. O céu estava ficando avermelhado, o sol já devia estar se pondo naquela hora, não teria mais luz para continuar a história. Biruta receberia o pedaço menor do jantar dessa vez.

Enquanto pensava em castigos para sua gata sentiu uma agulhada na planta do pé. Não foi uma dor muito forte, apenas uma pontada que lhe pegou de surpresa e por reflexo ela chutou o que quer que tivesse lhe espetado. Para sua surpresa encontrou um ratinho acinzentado quando chutou o objeto. Ele tinha olhos ônix e segurava uma agulha prateada entre as patinhas superiores como se fosse um ser humano. Caíra sentado com a agulha entre as patinhas, segurando a ponta apontada para cima e o objeto próximo do peito como se fosse uma arma. Pela subida e descida do peito dele a garota notou que tinha levado um susto. Encarando os minúsculos olhinhos negros do animal, teve a sensação que ele só faltava falar tamanha a semelhança com os hábitos humanos que possuía. Será que era adestrado?

Infelizmente sua gata deu um bote certeiro no pescoço do roedor, fincando suas presas na morte iminente do animalzinho. Sua dona observou a cena sem se abalar, já tinha visto ela fazer aquilo várias vezes, mas era a primeira vez que tinha se interessado pelo rato.

– Vamos garota, já está quase na hora – Disse indiferente, já que não tinha tempo para perder com reflexões tolas.

Ao ouvir o chamado de sua dona, a felina agarrou o animal entre os dentes e a seguiu com a máxima elegância e refinamento de que um gato se dispunha.

Quando já estavam bem longe, uma ratinha branca sai de seu esconderijo (embaixo de uma embalagem de pizza) e se dirige até o local em que o outro roedor estava. A agulha tinha caído no chão com a ponta manchada de um líquido verde coberto por outro vermelho. Recolhe a agulha e coloca uma minúscula florzinha no lugar, em homenagem ao companheiro, se retirando com a agulha recuperada de volta para casa.

A garota caminhava pelas ruas procurando por um lugar com uma grande concentração de pessoas, na avenida dos ricos quase ninguém caminhava pela ruas já que permaneciam em suas casas de luxo com tudo do bom e do melhor, e algumas ficavam até vazias, sendo usadas apenas como casas de veraneio. Teve que andar durante um bom tempo até chegar numa vila onde várias pessoas transitavam pelas ruas antes do anoitecer.

– Vamos descolar nosso jantar – Disse mostrando animação.

A garota se dirigiu até um bar que havia ali perto, o "Dionísio", que recebia uma média de vinte clientes por noite e cumprimentou a dona atrás do balcão. Correu até uma porta que ficava nos fundos e pegou sua mala para preparar o palco. Trabalhava como impressionista por ali temporariamente, pelo menos até conseguir um lugar melhor. Agatha tinha sido muito gentil em lhe ceder o palco, antigamente havia cantores que se apresentavam ali, mas com o tempo ninguém mais ia estrear em um lugar tão pequeno, preferiam ir direto para lugares grandes. A dona do bar era uma mulher "poderosa", apesar de ser gentil e acolhedora, expulsava os bêbados tal qual um Hércules na hora de fechar o espaço. As pessoas da vila apelidaram-na de "Mama", pois cuidava de todos como uma mãe potente e alegre.

Havia doze clientes aquela noite, pouco, se comparado as noites anteriores, mas a garota ia se apresentar mesmo que tivesse só um expectador, precisava do dinheiro.

A garota entra no palco acenando para a platéia, Biruta logo atrás. Pára em frente a uma mesinha e estende um pano negro sobre ela. Joga medianas bolinhas de gude verde, que são oferecidas por sua gata, em cima do pano e então o amarra com as bolinhas lá dentro. Biruta lhe empurra um jarro de água transparente com cuidado para não derramar e a impressionista coloca o pano com as bolinhas dentro do jarro. Biruta dá sete voltas ao redor do objeto e então a garota retira o pano do jarro, abrindo-o sobre a mesa e mostrando uma coruja verde que sai de dentro do tecido. A coruja também sofreu uma "customização" da dona, além de todas as suas penas serem verdes fluorescentes ela tinha uma estrela verde forte pintada ao redor do olho direito.

A coruja alça voo e sobrevoa as mesas dos clientes do bar, mostrando a todos que ela era real, e após completar o percurso pousa no ombro de sua dona que a transfere para o punho e faz a ave desaparecer com um simples sopro. Retira a tiara de coroa negra da cabeça e exibe as bolinhas de gude enfileiradas. Com várias palmas da platéia, ela encerra o seu número jogando as bolinhas no chão uma a uma e quando a última cai um grande livro aparece. Livro este no qual ela desaparece entrando dentro de suas páginas e o qual é fechado pelas hábeis patinhas da felina, que o pega com os dentes e o tira do palco.

– Bom trabalho Corujinha – Agatha lhe parabeniza após o termino do show, quando estavam a sós no camarim que mais era um porão.

Corujinha foi o apelido que a maioria lhe dera, tanto por causa de seu número quanto pelo fato dela ter os olhos atentos como os das corujas.

A platéia tinha adorado como sempre, mas a morena não estava satisfeita com seu progresso, queria poder apresentar mais truques, era sempre o mesmo, e embora ninguém nunca conseguisse desvendar o truque não importava quantas vezes assistisse ela queria poder saber fazer mais coisas.

– Obrigada senhora.

– Aqui seu pagamento – Ela deposita algumas notas na mesa. – Espero que venha novamente amanhã, com certeza deve vir mais gente.

– Quem sabe? – Ela sorri animada.

– Olha, que tal um conselho? E se você fizesse outra coisa?

– Outro truque? Estou pensando mesmo nisso...

– Não, outra coisa. Você é bonita, poderia ganhar mais dinheiro se fizesse outra coisa além de mágica.

– Por exemplo...?

– Sei lá, talvez uma dança. Ou acompanhasse alguns cavalheiros solitários, talvez trabalhar como advogada, você é inteligente.

– Está querendo que eu me venda – Ela não pergunta, afirma o que entendeu. "Não trabalhe com o que você gosta, trabalhe com o que rende mais".

– Não, mas se você usasse umas roupas mais comportadas... Nunca vi você usar aquele vestido de bolinhas que eu te dei. E se você fosse um pouco mais quieta... ajudaria se você fingisse ser tímida e meiga.

– Quer que eu não seja eu – Ela constata.

– Você não lembra nem um pouco uma dama. Vai ser difícil encontrar um bom marido com você assim...

– Obrigada Mama – Ela interrompe. – Vou pensar no que me disse.

– Pense mesmo, eu só quero o seu bem.

Quando a adulta sai pela porta, a garota encara o espelho a sua frente. A expressão animada mucha para uma máscara de frieza ao analisar seu rosto. Todos, todos, todos eram sempre iguais.

A Russian Blue de estimação percebe logo a mudança de atmosfera da dona e trata logo de fechar a porta e puxar as cortinas para cobrir a janela. Era um animal inteligente, sua dona havia lhe ensinado tudo o que deveria saber e desde filhote tem acompanhado a parceira em suas reviravoltas.

A garota pegou uma caneta marca-texto vermelha e começou a desenhar uma figura no espelho em volta de seu reflexo.

"Refinada, delicada, meiga, educada, reprimida, quieta. Damas não vivem, elas só existem" – Pensa consigo mesma enquanto desenhava "O Grito" no espelho.

– Impressionante.

Uma voz. Quem estava ali? A garota se vira e percebe que não estava sozinha, nas sombras havia um homem. Alguém da platéia?

– Meu trabalho é impressionar. Quem é você?

– Michael, um artista de Dead Line Circus.

– Prazer. Isadora Abnara Starck. Caso seja um fã e queira saber meu nome completo.

A gata cinzenta começou a chiar quando o homem se levantou e aproximou-se de sua dona. As costas estavam arqueadas e as patas separadas em posição de defesa, exibia as garras e presas como alerta, claramente ficou em estado de raiva com a presença do estranho. Isadora não entendeu o comportamento da felina, ela era sempre tão dócil com as pessoas.

– Os gatos nunca gostaram muito de mim – Ele explica observando o comportamento da animal. – Embora eu goste deles, dessa vez vou dar um motivo para essa reação.

– Nem se atreva a tocar em minha gata.

– Não é nela que estou interessado – Michael dirige seu olhar para a garota. – É um desperdício de talento apresentar-se aqui. Sabe disso, não é?

– Isso não lhe diz respeito – Fala voltando o rosto para o espelho.

– Uma grande pena tentarem concertar algo que não está quebrado – Ele continua.

– Não é da sua conta – Ela se levanta com uma expressão séria, mas perfeitamente controlada.

– Quantas vezes tentaram te sufocar? Quantas vezes quiseram te esconder? Quantos tentaram realmente entender você pelo menos por alguns minutos? Seria uma tragédia ou uma comédia você devolver na mesma moeda?

Isadora fica calada, qual pergunta deveria responder primeiro? Ela queria responder?

– I-isso é problema meu – Cruza os braços com um forçado sorriso confiante.

– Você nunca vai florescer no meio de tantas ervas daninhas – Ele diz com um tom desapontado.

– O que você quer que eu faça? Que eu esqueça quem eu sou e vire uma cabeça de vento?

– Não, você é ótima do jeito que está. Eu só quero te exibir.

Exibir? Do que ele estaria falando? Não seria outra pessoa tentando fazer ela mudar?

– O que é você, um olheiro?

– Tudo por aqui é limitado. Não importa onde você vá, tudo o que conseguirá aprender são truques de mágica que não tem nada de especial, apenas enganações que podem ser feitas por qualquer um. Seria muito interessante se você aprendesse o que é a verdadeira mágica.

– Não existe mágica de verdade. Tudo são apenas truques.

– Será? – Um sorriso malicioso passa rapidamente pelo rosto dele – Então se eu lhe mostrar uma mágica, que todos tem certeza absoluta de não possuir ciência alguma, você conseguiria desvendar o truque?

– Talvez. Sua mágica verdadeira deve ser apenas um truque bem elaborado – Isadora diz confiante nas capacidades intelectuais.

– Quem sabe? Vamos fazer uma aposta. Se eu vencer e você comprovar que existe a "mágica verdadeira", você terá que ficar e aprender como se faz, irá ter um professor de verdade e futuramente irá se apresentar onde trabalho. Mas se eu perder e existir um truque, irei admitir que você está certa e te ensinarei alguns truques que você pode usar para apresentações futuras. Não parece, mas eu sei algumas coisas sobre mágicas de palco.

– Sua aposta me favorece tanto na derrota quanto na vitória. Não consigo ver o que perderia se você vencesse.

– Se você perder terá que trabalhar em Dead Line Circus minha cara.

– Ainda não vejo a desvantagem nisso – Ela sorri satisfeita. – Eu aceito sua aposta. Não vale voltar atrás hein Michael.

– Eu ia lhe dizer a mesma coisa.

Uma pequena mãozinha segura a mão de Isadora e é então que ela percebe uma terceira pessoa ali dentro. Um menino segurava sua mala com uma das mãos e Biruta com o braço, e quando ela se vira de volta para o homem para perguntar quem era aquela criança tem um adesivo colado em sua testa. Mais tarde quando se lembra-se desse momento, talvez quando contasse a história para seus netos, ela iria rir com a escolha que fizeram. A figura era um símbolo alquímico de um elemento, uma cruz sendo cortada por uma foice, o símbolo representante do chumbo.

~ ❖ ~

Nova York. Estados Unidos da América.

– Mik-nii-chan, você fez uma aposta injusta.

– Injusta Oliver? Em que sentido?

– Você sabia que ia vencer desde o começo, não foi nem uma aposta.

– Eu nem tinha reparado – Michael lança um olhar cúmplice para o menino.

– Devemos mesmo deixar ela sozinha?

– Isadora foi apenas assistir o show do mago, eu já comuniquei ele antes então acho que não haverá problema. No momento ela é apenas uma expectadora durante um show inocente de um mágico muito bom. Estaremos de volta antes do fim do espetáculo.

– Se é assim, então tudo bem – Oliver dá um pulinho removendo suas preocupações e se colocando de frente ao maior, andando de costas enquanto conversava frente a frente com ele. – Quem estamos procurando agora?

– Um imigrante canadense.

– Como ele é?

– Eu não sei.

– Você tem informações muito limitadas.

– E é assim que sempre damos um jeito nessas tarefas impossíveis.

– Como um batalhão de um homem só.

Oliver se vira novamente e passa a andar normalmente, satisfeito com a resposta. O menino tinha um grande gosto por soldados, consequência de todas as histórias que Michael lhe contara para entretê-lo antes de dormir. Se uma pessoa matasse alguém era um crime, mas nas guerras se matasse milhares de pessoas virava um herói. Ele nunca entendeu muito bem essa conduta do mundo exterior, mas as histórias que ouvia Michael lhe contar eram repletas de ação e suspense e isso ele gostava. Um homem tinha que lutar contra milhares, as vezes com uma única arma, a guerra era um jogo onde todos apostavam suas vidas e a de seus companheiros.

Foi graças a seu interesse pelo gênero que teve sua atenção roubada por um cartaz.

Primeiramente tinha sido atraído pelo cheiro de pipoca e então se encontrou com um poster enorme onde havia soldados armados lutando em um campo de batalha cheio de monstros, no canto do papel um número e uma letra pareciam anunciar algo importante: "3D".

Oliver não sabia o que era "3D", muito menos o nome do filme, mas o campo de batalha e os guerreiros lutando na imagem tinham prendido sua atenção.

– Quer fazer uma pausa? – Michael lhe perguntou.

– S-só um pouquinho.

O filme parecia falar sobre um enxame de monstros que dominou 3/4 da Terra devido a uma experiência de laboratório (filme fictício). A resistência dos humanos que tinham sobrevivido lutavam contra a extinção de sua espécie no meio dessa causa perdida. Muitos soldados morreram durante o filme, enquanto outros sacrificavam os companheiros para salvar a própria pele. No final, essa resistência conseguiu encontrar um meio de aniquilar os monstros, depois de muita luta e sacrifícios, tinha sido um final feliz para a humanidade. Oliver assistiu o filme inteiro fascinado pelas imagens, as vezes estendia os braços tentando sentir a explosão e as armas que atiravam contra si. Sabia que era uma ilusão, mas estava admirado com o progresso que o mundo exterior havia feito. No entanto não entendeu o final do filme, humanos criaram os monstros e humanos os destruíram. Parecia injusto os monstros perderem a guerra quando obviamente eles eram melhores e mais avançados.

Por ter se comportado, Michael lhe presenteou com vários doces que estavam sendo vendidos por crianças na porta do cinema. Meninos e meninas cegos ou com um braço e perna faltando vendiam doces para poderem sobreviver, Michael já imaginava muito bem o que acontecia com aquelas pessoas se não conseguissem o dinheiro no fim do dia, alguns deviam até ter nascido perfeitos mas seus donos podiam tê-los deformado para apelarem para o lado emocional das pessoas. Quando esteve na Índia isso era algo muito comum de se ver.

– Oliver, você acha esse mundo justo?

– Não, ele é injusto e cruel – Disse mordendo um pirulito de caramelo.

– De quem é a culpa?

O menino pensa por um momento. Do mundo? Não, não era do mundo. Das pessoas? Não, normalmente eram vítimas do sistema, se viam obrigadas a serem como são para seguirem em frente. Do sistema talvez? Não, não seria isso. De quem era a culpa?

– Seria... do sistema da sociedade? – Responde-perguntando receoso, não queria responder errado e se mostrar idiota para Michael.

– Você chegou perto. Como era de se esperar de meu meio-irmãozinho.

O menor estufa o peito orgulhoso, não tinha acertado mas chegou perto. Estava feliz consigo próprio.

Enquanto o menino divagava no próprio mundo, Michael olhava em volta procurando por alguém e encontrou essa pessoa pegando um bilhete da entrada do cinema. Ele era um garoto de aproximadamente dezessete anos, lisos cabelos negros e olhos azulados atrás das lentes de vidro do óculos. Apesar de ser facilmente confundido com o cenário comum no meio de tantas pessoas americanas, o garoto não era daquele país. Tinha um olhar duro, como uma rocha sólida e inquebrável, transbordava ódio reprimido, embora não fosse percebido ao certo em um ambiente tão monótono e calmo como aquele. Além de tudo, possuía gagueira desde criança, embora estivesse melhorando a desenvoltura de sua fala. Michael se aproximou sem rodeios, parando em frente ao garoto sem anuncio prévio e se pondo a analisá-lo de perto.

O menor estranhou a aproximação súbita do desconhecido, recuando um passo e colocando uma mão próxima ao corpo em um reflexo de defesa. Estava sendo analisado cuidadosamente, como um produto a venda em leilão por alguém que nunca viu na vida.

– O-o que?

– Muito bom. Você me lembra aqueles animais que quase não possuem ossos.

– Hã?

– Me pergunto com quem devo deixá-lo...

Quem era? Algum conhecido que tinha se esquecido? Um desconhecido que ouvira falar dele? Não se lembrava.

– V-você quer a-a-a-alguma coisa comi-i-i-igo?

– Sim, vim te fazer um convite. Quero que venha trabalhar em Dead Line Circus conosco.

Dead Line Circus? O nome lhe era familiar, onde tinha ouvido mesmo? O garoto se põe a pensar.

"Dead Line Circus... Dead Line Circus... Dead Line Circus... Onde eu ouvi isso?... Dead-Line-Circus... Ah, sim, Mary" – Ele se lembra.

– Eu já o-o-ou-uvi falar. O circo d-d-dos d-d-desejos não é?

– É uma forma de se ver.

– E es-s-s-ss-se lugar ex-x-xist-t-t-te mesmo? – O moreno cruza os braços pouco convencido – T-tive uma a-a-a-amiga que me c-c-contou vários boatos e hist-t-tórias fantástic-c-ca-cas desse lugar, tudo pareceu tão irreal e ab-b-bssssurd-do que duvido muito que seja v-v-verdade.

– É aquele velho ditado: "É preciso ver para crer".

– E você é d-de lá?

– Sim.

– Prove – Um sorriso de escárnio surge na face do mais jovem.

– Está pedindo a um membro para provar que realmente é de lá? É um pedido bem ousado.

– Um circo como es-s-sse, que desaparece da noite para o dia, é muito inte-e-e-eressante. S-se um lugar como esse existir, j-j-junto com o lendário don-n-no que realiza milagres a-a partir de seus desejos, eu nem exitaria e-e-em ir. Obviam-ment-te estou me perguntando por que esse convite repentino, m-mas se me provar que é de lá eu aceito na hora. T-também tenho um desejo para r-realizar.

Quem nesse mundo não tem?" – Michael pensa morbidamente.

Por um minuto, e um minuto apenas, o tempo pareceu parar na paisagem que afetava o redor do cinema. As pessoas congelaram em suas ações e até os pássaros interromperam seu voo. O garoto olhou em volta percebendo esse fato sem demonstrar muita reação.

– Só isso? U-u-uma ilusão e suborno para pe-d-d-destresss não prova-...

Antes de terminar sua pré-afirmação, os pedestres na calçada e os animais no céu passaram a se mover de maneira estranha e agressiva depois do pequeno minuto em que estiveram parados. Os pássaros que estavam voando se atiravam contra o chão quebrando seus pescoços e espirrando sangue, as pessoas pareciam estarem durante algum surto, pois tentavam quebrar o chão e as paredes com as próprias mãos desnudas, sem se importarem de quebrar algum osso ou causar danos aos outros a seu redor. Elas abriam buracos nas construções e puxavam o concreto igual a um pano ou massa que havia sido grudada ali, as que cavavam o chão retiravam a calçada tal qual um tapete difícil de sair e o moreno olhava aquilo como se todos tivessem enlouquecido, espantado e atordoado sem entender direito o que estava acontecendo.

Atrás das paredes e da rua, existia uma segunda parede com cores que lembravam um papel de presente. De seu lado esquerdo, homens arrancavam as paredes do cinema mostrando uma estampa azul claro com flores amarelas; do seu lado direito, mulheres depredavam um prédio revelando uma estampa negra com bolinhas laranjas; à sua frente um idoso e três criança rasgavam algo invisível no ar com os dentes mostrando um papel listrado de verde e branco; atrás de si a mesma coisa acontecia; no céu, nas nuvens, no chão, nas paredes, tudo era rasgado como se fizesse parte de um cenário falso pelas pessoas agressivas que pareciam saídas de algum sanatório.

Uma dessas pessoas chegou tão perto do garoto que num reflexo de pânico ele chutou ela para longe e foi então que viu que aquela pessoa era oca por dentro. Prestando mais atenção aos outros, notou que os que quebravam o braço ou as pernas também eram vazios por dentro, como manequins que estavam vivos. Olhou para Michael com uma pergunta no olhar que não conseguia formular em palavras.

O espaço que era revelado atrás do cenário pareceu encolher ao seu redor, era plano como um cubo e se encolhia bruscamente diminuindo o espaço em que estava. Cerca de nove ou dez minutos tinham se passado até ele sentir o espaço encostar em seu corpo. Apoiou as costas na parede listrada atrás de si e tentou fazer a da frente retroceder com os pés, estranhamente os manequins tinham sido engolidos para o lado de fora quando a parede se fechava sobre eles, só o moreno que sentiu a textura da parede se fechando ao seu redor.

Oliver tinha se colocado ao lado do loiro observando o cubo se fechar ao redor do garoto e também vendo ele se contorcer para caber no espaço que se encolhia cada vez mais. Estavam fora do cubo, observando.

Michael afaga o topo de sua cabeça e dirige seu olhar para o outro garoto em seguida.

– De quem você acha que é a culpa? – Ele pergunta com os olhos vagos lembrando-se de ter feito essa mesma pergunta ao menino.

Culpa? Culpa do que?

~ ❖ ~

Uma bela mulher de longos cabelos negros com uma mecha feita em trança apreciava seu chá de jasmim tranquilamente sentada em uma poltrona de luxo negra. Ela usava um vestido moderno que tinha um toque dos tempos antigos. Era cinza da cintura para baixo imitando uma saia lápis formal e branco plissado na parte de cima. Usava uma gargantilha com um lenço branco, também plissado, e uma pedra azul rodeada por um acessório prateado, que também estava presente no cabelo. Tinha olhos cristalinos e a pele clara. Estava com as pernas cruzadas exibindo as botas negras de cano longo que as cobria. Esbanjava beleza e sofisticação até mesmo se ficasse parada.

Ela ouve três batidas na porta de seu quarto e pousa a xícara no pires ao final da última batida. Descruza as pernas colocando o pires e a xícara em cima da mesinha de centro e caminha com elegância até a porta. Ao abri-la encontra uma caixa quadrada multicolorida na entrada com um cartão carmesim em cima. Pega a caixa e trás para dentro, depositando-a no chão em cima do tapete e pegando o envelope em cima dela.

Querida e adorável Seryu,

Como se sente nesse belo e perfeito dia? Estou quase terminando minha busca. Trouxe um presente para você, direto dos EUA, se ele ficar claustrofóbico não é minha culpa. Peço para que cuide bem do novo membro de nossa família, seu nome é.... qual é mesmo o nome dele? Esqueci de perguntar ^^'. Te desejo boa sorte, Oliver lhe manda um abraço.

Tenho certeza que você cuidará dele como tem cuidado da nossa adorável Saga, divirta-se mas sem exageros.

Confiando em você, Michael.

Ela lê a carta indiferente sem alterar sua expressão em nenhuma linha. Joga o papel dentro de uma gaveta sem interesse e se dirige até a caixa. Abre sua tampa e encontra um garoto todo contorcido ali dentro com uma figurinha de uma caixa aberta colado em suas costas. Ele sai da caixa no momento que não encontra mais resistência em uma das paredes e respira com dificuldade o ar do amplo quarto a sua volta.

– QUE DIABOS FOI AQUILO? – Ele pergunta irritado.

Seryu permanece calada fitando o moreno.

– Eu prec-c-iso de um médico, n-não, um psiquiatra. Não acr-r-edito no que eu vi, é absurdo demais – Ele para de falar olhando em volta. – Q-que lugar é esse?

– Dead Line Circus – Seryu responde. – Nome?

– Hã? O-O que? Meu nome? Will Gragret.

– Prazer – Ela diz friamente.

– O-o prazer é todo meu moça.

Notas finais
Eu sei que agora que tem a grade eu não preciso mais pôr as imagens, mas vou pôr assim mesmo porque sou teimosa. Aegeon Parthenios: http://data2.whicdn.com/images/71802297/large.jpg Isadora Abnara Starck: http://images2.layoutsparks.com/1/78153/anime-punk-girl-young.jpg Will Gragret: http://25.media.tumblr.com/aa1dc88d5f975aa15300a8324dac8c93/tumblr_mkveocICuH1r0rh6io1_500.jpg Seryu: http://www.team-e.co.jp/sp/anfla/zenshin_kakichoko.jpg Ps: Eu sou terrivel. A Lady Ami até publicou uma critica da minha fic em seu blog e eu faço os leitores esperarem assim -_-' http://t-fanfics.blogspot.com.br/2014/01/critica-de-fanfic-dead-line-circus.html