Dead Line Circus - Interativa
11 Qual é o seu desejo?
Notas iniciais
“Não seja inocente, pessoas mentem e sorrisos enganam, os humanos nunca tiram suas máscaras por completo.”
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Na cozinha de Ivan, o cozinheiro com cabelos cor de neve cortava alguns legumes com habilidade, ora ou outra olhando incomodado para sua companhia que ajudava demasiadamente perto demais. Magnus havia entrado e começado a ajuda-lo sem pedir permissão ou ao menos lhe dirigir um cumprimento. Ivan não se sentia muito bem na presença do mordomo, tinha uma péssima primeira impressão a respeito dele, talvez por que na primeira vez que o viu ele tinha entrado em seu quarto e só se retirado quando o deixou estirado em uma poça do próprio sangue. Apesar de acordar na enfermaria sem nenhum arranhão, tinha certeza de que não foi sonho e que o mordomo realmente esteve em seu quarto.
Magnus cortava os alimentos quase na mesma velocidade de Ivan, parecia ter alguma experiência com culinária.
— Pensei que os mordomos apenas servissem a comida... – Ivan solta o comentário no ar tentando quebrar a tensão, pensando depois se realmente foi uma boa ideia começar uma conversa.
O mordomo continua cortando, fazendo o som da faca contra a tábua ser o único barulho no ambiente, e só respondendo depois de dois minutos:
— Prefiro garantir a segurança do que vou servir.
Por algum motivo, Ivan se lembrou do comentário de Ivie sobre o cozinheiro poder envenenar a comida, pensou se aquela situação já teria acontecido antes. Naquele circo sem regras? Provavelmente sim.
Já tinham feito 22 pratos, faltavam apenas doze. Magnus era bem rápido e preciso, e Ivan não ficava para trás. Dentro de uma hora terminaram tudo e tão logo a tarefa foi concluída, o mordomo se retirou da cozinha para sua próxima tarefa. Ivan não pode deixar de soltar o suspiro de alivio que estava segurando, só percebendo naquele momento que tinha ficado tenso durante todo o seu trabalho. O Doutor entrou logo depois de Magnus sair. Pegou um prato na despensa e despejou um pouco de água na peça. Ivan o observou se servir estranhando a preferência do médico, por que será que ele não comia?
O médico se retirou tão silenciosamente quanto entrou, caminhando até o refeitório e sentando-se na ponta de uma mesa. O cozinheiro observou ele usar uma colher para recolher o liquido e levá-lo até a boca, sorvia como se estivesse comendo uma sopa comum.
“É cada um mais estranho que o outro.”— Pensa o cozinheiro observando o médico.
Aos poucos os artistas e empregados foram chegando, em grupos ou sozinhos, todos se reuniram ao redor das mesas. Alguns chegaram exaustos, como foi o caso dos acrobatas, parecia que correram uma maratona devido à suas expressões. Outros chegaram ainda muito ocupados, como foi o caso dos mágicos, que vieram embaralhando um jogo de cartas várias vezes tentando terminar o mais rápido possível. As pessoas da Caixa de Brinquedos chegaram animados, vinham discutindo o que parecia ser uma conversa casual e descompromissada.
Ivan organizou todas as refeições em fileiras e algumas em círculos para facilitar na hora de se servir, separou todas em ordem de cor, sabor e ingredientes. Das comidas cruas para as mais quentes, dos frios aos picantes, e por aí vai. Enquanto a maioria se servia e outras já iam se sentando, o russo puxou um pequeno caderno de anotações e começou a rabiscar algumas palavras nele. Queria tomar notas o quanto antes.
Em uma mesa, Arman olhava feio para o prato de Sheng, batendo o indicador contra a mesa em um gesto pensativo e impaciente. O chinês escolheu uma simples tigela de arroz branco, que comia serenamente com seus hashis. As hibridas (uma a esquerda e outra a direita dele) devoravam pequenas montanhas de carne crua. Isis escolheu bifes suculentos e bem vermelhos, a leoa os rasgava entre os dentes como um bárbaro dos tempos nórdicos; Satsuki por sua vez serviu-se de um atum do tamanho de um braço humano, deixando para trás apenas a espinha do peixe. Comparado com as duas, Sheng serviu-se de um prato bem... leve. O que deixava Arman muito insatisfeito.
— Não pode perder para elas – Arman fala pegando um pedaço da própria comida e depositando no prato de Sheng, que agradece com um movimento de cabeça levemente surpreso. – Você é muito magro, precisa ganhar músculos logo.
O chinês pega o pedaço que Arman lhe deu e o observa com as sobrancelhas franzidas, parecia um tipo de rolinho roxo mergulhado em um molho amarelado com recheio viscoso e esverdeado. Não reconhecia nem mesmo um único ingrediente que fosse daquele prato. O que era aquilo?
— Vai te deixar forte, tem um alto valor nutritivo – Arman afirma voltando para sua refeição.
Sheng agradece novamente com um movimento de cabeça e leva a comida aos lábios, entortando a boca quando sente o gosto e levando uma mão ao rosto para não cuspir fora. Era muito amargo, extremamente, dissolvia na boca espalhando aquele gosto horrível por todo o seu paladar. O rosto de Sheng chegou a ficar esverdeado enquanto tentava engolir aquele prato não identificado.
Aegeon observava Sheng em sua luta de sabores rindo ironicamente. Ficou curioso com relação ao gosto da comida que Arman apreciava.
— Que injusto, eu também quero um pedaço – o loirinho fala pegando um rolinho do prato do acrobata sem pedir permissão.
O grego comeu o alimento não identificado sem cerimônia, abrindo um sorriso e fazendo um V com os dedos na direção de Sheng. Este observou o gesto e viu quando o sorriso do loiro transformou-se em uma careta, e o sinal com os dedos desfez-se para ser levado urgentemente em direção à boca. Parecia que Aegeon iria vomitar.
— Que merda é essa? – Aegeon fala tentando engolir aquilo – Vômito de vermes? Sobras de um ritual vôo-doo?
— Comida – Arman responde.
O loiro cospe o alimento fora e se vira para Arman.
— UMA OVA QUE É COMIDA. O QUE FOI QUE VOCÊ ME FEZ COMER?
O acrobata franze as sobrancelhas e olha para Aegeon com um olhar assassino.
— Você está mesmo gritando comigo?
— Com quem acha que estou falando? Minha mãe?
Arman pousa seu garfo no prato e se levanta com calma e seriedade. O maior pega a orelha de Aegeon e o arrasta para fora do refeitório.
— Que idiota – Isis comenta mordendo um bife tentando rasgá-lo do osso principal.
— E barulhento – Satsuki opina lambendo os dedos.
Sheng come toda sua tigela de arroz rapidamente tentando amenizar o gosto azedo daquele rolinho diabólico. Um homem de olhos dourados se senta no lugar que Arman desocupou e lhe entrega uma bala de morango fazendo-a deslizar pela mesa.
— Se eu fosse você comia um doce – Callisto lhe sorri.
Fazia quanto tempo que não comia um doce? Meses? Anos? Nem se lembrava mais do gosto. O chinês desembrulhou a bala e a inseriu entre os lábios, sentindo o gosto adocicado de morango.
— O-Obrigado – ele agradece timidamente.
— Não há de quê.
Satsuki fareja o ar e sente um cheiro estranho vindo da direção de Callisto. Observa o prato que ele escolheu com curiosidade e se inclina sobre a mesa para se aproximar da refeição.
— O que é isso que você escolheu nyah?
O moreno cora com a aproximação da mulher semi-nua e desvia o olhar para responder.
— Não faço a mínima ideia, mas tinha um gosto bom então peguei.
O moreno tinha escolhido o que parecia uma sopa caramelada com balinhas coloridas flutuando por cima. A felina mete o dedo na sopa e prova aquela mistura.
— Ahgr, é muito doce.
— Eu sei, – o homem abre um sorriso infantil – foi por isso que peguei, pulei o almoço e fui direto para a sobremesa. Um dos meus sonhos de infância.
— Isso não vai te fazer bem.
Uma garota de longos cabelos negros com tiara imitando uma coroa negra senta-se ao lado de Callisto o alertando, junto a ela vem Alma, a pequena pierrot, que concorda balançando a cabeça.
— Por que não? É tão gostoso – ele reclama como uma criança.
— Tirando você, só tem mais uma pessoa que pegou isso – Isadora explica.
Alma aponta para o único que pegou aquele prato também: V e D. Os pierrots siameses saboreavam aquela sopa doce e curiosa alternando sobre quem servia quem, V brincava com a comida enquanto D o ignorava.
Callisto arregala os olhos como um menino que quebrou o vaso favorito de sua mãe, Alma disfarça um riso da expressão que ele faz.
— Eu acho que vou... dar uma saidinha – Callisto diz se levantando.
— Descanse em paz – Isadora brinca erguendo uma mão num gesto de respeito aos mortos.
O homem sai de mansinho com seu prato e vai se sentar do lado do Doutor, que parecia isolado dos demais. Ele inicia uma conversa aos sussurros com o médico que apenas Isis e Satsuki conseguem ouvir devido à audição aguçada que possuíam. Seja o que for que eles conversavam fez as duas soltarem risinhos contidos sobre o assunto.
Em outra mesa, Tzvetana, a malabarista de facas que acompanhava Cain, conversava com Ênia, a bailarina de Magnus, ambas falando sobre um evento que a loira tinha visto acontecer.
— É sério, nós nos metemos em uma bela cilada. Eu vi com meus próprios olhos. Aquela ali... – Tzvetana aponta para Arisu em outra mesa – tentou sair do circo várias vezes, ela atravessava pela entrada e sumia, quando aparecia de novo estava correndo de volta pra cá. Muito bizarro. Eu fiz uns testezinhos e percebi que não só na entrada, mas em todos os limites do circo acontece isso. Você sai e volta mesmo tentando se afastar, como se entrasse numa porta giratória. Não tem rotas de fuga e nem jeito de sair. O que me faz pensar: Se não dá pra sair daqui, onde estão as pessoas que estavam aqui antes de nós?
— Fala dos antigos artistas? – Ênia pergunta.
— Sim. Cain me contou que estamos substituindo pessoas que foram embora. Só que ele deve ter mentido. Não tem jeito de ir embora, eu mesma vi.
— E a pergunta que você faz é: Onde elas estão?
— Exato. Você sabe alguma coisa? – a loira pergunta.
— Não.
Ênia pensou no labirinto de Magnus, aquele lugar subterrâneo cheio de passagens secretas e lugares que ela não devia entrar, era um forte candidato a esconderijo de coisas que não deviam ser achadas. Mas não tinha nenhuma prova ou suspeita de existirem outras pessoas além de si lá embaixo, não podia contar algo sem fundamento para ela então preferiu mentir.
— Imaginei. Talvez se a gente perguntar para o Michael, ele pode ajudar. Falo por experiência que ele é do tipo que gosta de salvar donzelas indefesas e pessoas desesperadas – Tzna diz dando uma risada.
— Não foi essa a impressão que eu tive, ele parecia mais um homem contido e rodeado de segredos dolorosos – Ênia opina.
Tzvetana tenta se lembrar de quando o encontrou pela primeira vez, para compará-lo com a descrição de Ênia. A primeira coisa que se lembra era do calor que sentiu quando ele a retirou da neve e a envolveu em seus braços. Tinha acordado naquele quarto aquecido e brincado com ele, primeiro veio a confusão sobre sua paternidade duvidosa e em seguida a surpresa quando incrementou o visual do guarda-roupa do loiro. Foi divertido, parecia até que estava em casa. Dava a impressão dele ser algum tio perdido que se encontrou com sua sobrinha. Também tinha levado ela para ver o espetáculo de Cain, era um sujeito meio tímido, mas alegre.
Ênia, por sua vez, reproduziu seu primeiro encontro com ele em sua mente. Foi depois de sua dança, ele lhe apareceu com um buquê de rosas e lhe convidou para um passeio. Já dentro do barco, ela percebeu tarde demais que aquilo era um sequestro e ele lhe deu a opção de: Venha comigo ou morra. Cada passo foi muito bem calculado, Ênia só foi perceber o perigo quando já tinha entrado nele. Uma avaliação minuciosa indicou traços emocionalmente estáveis de um psicopata, ele estava apenas sendo educado enquanto a acompanhava para um destino que seria certamente cruel, mas de certa forma também parecia sofrer por algum assunto que estava fora de sua compreensão.
Vendo espaço vago perto das duas, Rebecca Anne Andrews, a nova domadora, senta-se ao lado de Ênia com seu prato. Ela corta um pedaço de seu Foie Gras, e lança o primeiro assunto que passa pela sua mente, tentando puxar um assunto.
— Vocês sabiam que o Michael morreu?
Não só Tzvetana e Ênia, como quase todos no refeitório ficam mudos com a novidade. Rebecca cora constrangida por ter virado o centro das atenções de uma hora para a outra.
— Eu falei tão alto assim? – ela pergunta vermelha como uma pimenta, com a voz baixa para as duas.
— É brincadeira, né? – Tzvetana pergunta desorientada.
Rebecca aquiesce sem saber como responder. Tzna move a cabeça na direção de Cain esperando alguma confirmação em seu rosto. O loiro logo nota que sua aluna o encarava fixamente com ansiedade, só de zoação ele leva uma mão aos lábios e lhe manda um beijinho no ar piscando um olho em seguida. Isso faz o sangue da russa ferver de irritação.
Ênia olha em volta e percebe que, de fato, ele não estava ali. Levando em conta as pessoas que estavam na reunião e as que ela conhecia, faltavam três pessoas no refeitório: Magnus, que ela tinha visto sair no momento que chegou ao refeitório; Oliver, o menino que seguia o loiro pra qualquer lugar, e é claro, o próprio Michael, assunto destaque da discussão.
Alma também percebeu a falta dessas três pessoas, pois se levantou assustada e saiu correndo do refeitório procurar Oliver. Imaginou que a ausência do mordomo e do menino implicava que eles estavam juntos. Oliver ainda era uma criança, não conseguiria se defender do mordomo cruel e sádico que tão facilmente tinha quebrado sua mão.
Palmas animadas são o único som que quebra a tensão do ambiente, V aplaudia como uma criança ao ouvir a novidade.
— Viva! Viva! Nós vamos brincar de pega-pega mais cedo.
— Tenha respeito aos mortos – D fala tampando a boca de sua outra cabeça.
Cain ri do pedido de D ao irmão, fazendo Ivie ficar tensa. “Respeito aos mortos” era uma coisa que ele considerava engraçada.
— Cain, você não encontrou o corpo dele depois de morto, encontrou? – a ruiva pergunta preocupada.
O loiro de olhos violeta não responde com palavras, apenas parece se lembrar de alguma coisa com um sorriso malicioso.
— Necrófilo – acusa Madame Sondhein tentando manter uma expressão séria, mas sendo traída por seu sorriso pervertido ao imaginar dois homens juntos em um romance no cemitério.
— O intervalo acabou – Ivie declara olhando para os membros da Caixa de Brinquedos.
Estes terminam rapidamente suas refeições e seguem a ruiva para fora do refeitório.
— E esta é a nossa primeira refeição em família – Cain comenta para o nada pensativo. – Nossos novos integrantes precisam urgentemente de um pouco de diversão.
Madame Sondhein e Cain trocam um olhar significativo onde pareciam ter pensado a mesma coisa. Eles sorriem como cúmplices.
— Pode deixar comigo, eu cuido do resto – Sondhein diz com um sorriso.
~ ❖ ~
Ao fim da refeição Johanne voltou para seu ateliê terminar o vestido de Bernardo, o garoto com curvas femininas. Seus ajudantes a receberam no momento que ela entrou, apesar de não vê-los, ela podia sentir a presença deles e escutar o barulho que faziam. Quando andavam produziam um som de folhas secas sendo amassadas, Johanne tentou conversar com eles para saber os seus nomes, mas como Michael lhe disse era inútil, eles eram incapazes de falar.
Mas não eram burros como ele afirmou, sempre que pedia determinado tecido eles traziam sem demora, só eram um pouco tímidos quando ela queria tocá-los e eles fugiam de seu alcance.
Este dia, no entanto, eles pareciam agitados e Johanne soube logo o porque: havia alguém ali dentro. Escondendo suas mãos atrás das costas para usá-las como armas se a presença se mostrasse agressiva, ela caminha pelo aposento calmamente, aguçando os ouvidos para escutar algum som.
— Quem está aí?
— Não se lembra de mim Johanne?
Uma voz infantil perto de sua mesa se anuncia. Por reconhecer a voz ela fica mais relaxada.
— Oliver? O que está fazendo aqui?
— Vim tentar um acordo. Pensei que você seria perfeita para me ajudar.
Uma pressão em sua barriga faz Johanne perceber que o menino a abraçava pela cintura. A costureira fica muito surpresa, nenhuma criança nunca a abraçou antes, pelo contrario, fugiam dela gritando. A mulher fica sem saber o que fazer, devia abraçá-lo de volta? Não é como se tivesse alguma experiência com abraços, nem se lembrava da ultima vez que ficou tão perto de alguém antes.
Um peso em sua cabeça faz ela abaixar o rosto, sentia as mãos do menino lhe segurando a face e então pousando as palmas em cima de seus olhos. Não que fizesse muita diferença se ele lhe cobrisse os olhos, ela não podia ver nada mesmo.
— O que você faria pela pessoa que te desse novos olhos? – Oliver pergunta e pelo som Johanne tem certeza que o menino não estava brincando. O que não daria para ver a expressão que ele estava fazendo?
— Isso é impossível querido.
— O que você faria? – ele repete.
— Qualquer coisa, claro – a costureira responde dando de ombros, como se fosse a coisa mais natural a se fazer.
Quando ele se afasta, uma forte e estranha luz esverdeada atinge sua visão.
— Ai! – Johanne leva as mãos aos seus olhos de botão tentando cobri-los da luz repentina, mas ela permanece em sua visão, expandindo-se até cobrir tudo o que ela vê.
— Infelizmente, eu não posso fazê-la ver novamente, mas sei contornar a situação, sabia que sou um menino esperto? – a voz de Oliver chega aos seus ouvidos.
A primeira coisa que Johanne vê é a si mesma. Uma Johanne pálida com longos cabelos negros, olhos de botão e expressão assustada. Tudo banhado por uma luz esverdeada levemente cinzenta.
— Eu... Como eu...?
A costureira arqueia uma sobrancelha confusa, levanta os braços e os passa em frente ao rosto, devia estar vendo suas mãos, mas em vez disso enxergava a outra Johanne abanando os braços em frente ao corpo exatamente como ela fazia. Estava se vendo fora de seu corpo, como se fosse uma terceira pessoa. De repente, o rosto de um menino gigante com olhos cinzentos entra na sua frente e sua visão corre para longe dele deslizando por um chão de madeira e se escondendo atrás de vasos de plantas enormes. Mas Johanne estava parada, seus pés estavam presos ao chão, não estava se movendo, como seus olhos estavam correndo por aí? Uma mão gigante a captura, mas Johanne não sente nada lhe tocar.
— Agradeça aos VIPs – Oliver fala ficando em frente a um espelho.
O menino de olhos de cristal observa o próprio reflexo e Johanne vê que ele segurava uma aranha. E ela era a aranha. Encarava a si mesma e era uma aranha, mas ao mesmo tempo conseguia ver seu corpo verdadeiro ao fundo, a Johanne de verdade.
— O que está acontecendo? – Johanne pergunta confusa.
— É uma conexão. Liguei seus olhos de botão aos olhos da sua aranha de estimação. O VIP que te recomendou achou um jeitinho de te devolver a visão antes de irmos te pegar, eu recuperei o objeto que ele fez pra você na ultima vez que vi o Mik-nii-chan.
Oliver se lembra de quando encontrou o corpo de seu ídolo jogado em meio aos outros destroços como se fosse lixo. Quando tinham instalado Johanne em seu ateliê, Michael lhe mostrara um envelope pardo com uma bolinha de metal em seu interior, ia entregá-la a costureira assim que terminasse de buscar os outros, por que esse era o tipo de pessoa que ele era, queria ajudá-la a se adaptar à nova visão com tempo e paciência, como tudo deveria ser. Oliver tinha pego a bolinha do casaco dele antes de ser retirado à força pelo Doutor.
— Como isso é possível? É incrível.
— Eu não sei explicar direito, é muito complicado – o menino ajeita seu quepe para disfarçar o embaraço.
Johanne via a outra Johanne sorrir que nem boba através dos olhos da aranha e o reflexo do espelho. Estava encantada em ter sua visão de volta, embora nunca fosse imaginar que seria daquele jeito.
— Sabe, já que você faria “qualquer coisa” para quem lhe devolvesse a visão, eu já sei como você pode retribuir o favor.
— Como? – Johanne pergunta ainda sorrindo, nem estava mais prestando muita atenção ao que Oliver dizia, depois de anos sem nunca ver nada estava fascinada com tudo à sua volta.
O menino sai da frente do espelho e Johanne fica encarando um tecido carmesim, impossibilitando dela ver sua expressão.
— Tenho um pequeno favorzinho a pedir.
~ ❖ ~
Em um quarto decorado com vários naipes de cartas e padrões de tabuleiro de xadrez, Ciaran estava em frente à uma tela onde utilizava as tintas dispostas em uma paleta para pintar um quadro. O que passava para o quadrado era sua fonte de inspiração: Liadan. Apesar da modelo não estar ali, lembrava-se de cada traço de seu rosto angelical tão bem quanto a própria mão. Fazia cada traço o mais rigorosamente possível, odiaria estragar a imagem da irmã por causa de uma linha mais grossa que a outra.
O Mago dispensou seus alunos mais cedo que o esperado, depois da refeição, ele tinha apresentado a cada aluno um truque bem simples e tradicional: fazer um lenço desaparecer. Na mesma hora em que ele terminou, Isadora disse que conhecia aquele truque, dando um passo a frente para revelá-lo. Ciaran também o conhecia, era a primeira coisa sobre mágica que qualquer criança aprendia. O lenço na verdade ficava dentro de um dedo falso, o problema foi que Isadora não conseguiu encontrar o tal dedo falso. Evanecer também tentou encontrá-lo, olhando inclusive para dentro das mangas do artista, mas não havia nada lá. Como tarefa de casa, eles teriam que descobrir como o truque era feito.
Ciaran pensou durante um bom tempo, achando melhor começar a pintar como um exercício para sua concentração. Era um hobbie que gostava, tinha inclinação a gostar de atividades artísticas. Inicialmente pensou em fazer uma paisagem, mas acabou percebendo que estava fazendo o rosto de sua irmã no meio do caminho, seus dedos sabiam de cor cada traço tão familiar, foi sem querer, mas já que começou tinha que acabar.
Quando termina o quadro, afasta-se da tela para ter uma boa visão e desaba na poltrona quando sente seu corpo ficar subitamente cansado. Lá estava ela, sorrindo timidamente sem demonstrar muita expressão em seu rosto. Devia ser masoquista, pois continuava a desenhá-la mesmo sabendo que ela nunca mais voltaria. Leva uma mão aos olhos para tampá-los da luz do quadro, ficando exausto e abatido como nos primeiros dias de sua morte.
Ótimo, agora não conseguiria pensar em mais nada. Cansado, ele fecha os olhos e se inclina mais em direção à poltrona. Dormiria um pouco para acalmar seu raciocínio, assim que acordasse iria se concentrar no truque e cobrir aquele quadro.
Em pouco tempo cai no sono, sonhando com tempos pacíficos em que era feliz.
Estava de volta à sua casa, Liadan estava deitada em seu colo, tinha um livro pousado no peito enquanto tirava uma soneca com o irmão como travesseiro. Estavam no canto favorito da menina, ela sempre ia para lá quando tinha visitas em casa, era muito reservada e anti-social, parecia um animalzinho acuado, um lado que Ciaran achava fofo. Pelo livro pousado no peito, ela devia estar lendo antes de dormir. Liadan era uma leitora assídua, gostava de conhecer tudo o que os livros pudessem transmitir.
O irmão alisa seus cabelos, esparramados feito cascatas por seu colo, muito delicadamente para não acordá-la, mas não adianta muito pois logo ela abre seus olhos, encontrando diretamente com os olhos do irmão. A garota de cabelos perolados tinha nascido com uma demência que rendeu vários problemas financeiros para sua família, o tratamento foi muito caro, mas uma vez terminado não deixou sequelas. Por conviver com a doença durante um bom tempo, ela acabou tendo apenas uma dificuldade de conseguir se expressar, mas mesmo sem falar ou demonstrar, Ciaran sempre parecia saber o que ela sentia.
— O sol perde seu brilho quando não está te iluminando minha doce irmã. Você é como uma estrela aos meus olhos.
A menina estica uma mão para tocar o rosto de Ciaran e este fecha os olhos esperando por seu toque, mas um som fora do esperado o faz reabri-los de novo. O cenário muda, agora está em um lugar com paredes blindadas e estranhas forcas amarradas ao teto, uma vibração no chão indica que ele está dentro de um carro em movimento e ao constatar onde está, entra em desespero descomunal. Ele olha para seu colo e sua irmã tinha desaparecido. Olha em volta procurando Liadan com olhos assustados e um solavanco do carro faz ela atravessar seu campo de visão. Liadan é jogada em uma das forcas ao mesmo tempo que as portas do vagão do carro se abrem e ela cai para fora do veiculo. A menina enforcada tem seu pescoço quebrado e é arrastada pelo automóvel por uns dez metros. O asfalto a esfola enquanto ela fica batendo no solo e seu sangue forma um rastro vermelho pela rua. Paralisado de pavor ele gritava por dentro, mas seu sonho o tornava incapaz de se mover. Clamava pelo nome dela, mas nem mesmo abrir sua boca conseguia.
Uma escuridão densa e sombria chega pelas suas costas, atravessa seu corpo e apaga todo o cenário de seu pesadelo. Ciaran não sente mais o chão, nem o vento, nem o carro, ele mergulha em um mar escuro e denso, flutuando em meio a uma substância que lembra-lhe piche por causa de sua densidade grossa. Não sente vontade de resistir e nem lutar contra a escuridão que lhe engole. Há tanta dor em seu coração que nada mais importa, já nem sabe se está com os olhos abertos ou fechados, visto que não vê nenhum fio de luz naquele plano.
Uma voz vibra em sua cabeça causando ondas de arrepio por seu corpo.
— Você está feliz?
A voz era poderosa, levemente arranhada e rouca, cada letra o assustava e ao mesmo tempo o fascinava. Era um som muito envolvente e sedutor, a mais bela e sombria voz que ele já ouviu. Ciaran sente o que parecem ser braços o envolvendo, ou então ondas formadas pela escuridão. Estava sendo engolido ou aprisionado em um abraço que algo dentro dele alertava ser perigoso, mas sua mente parecia estar em transe, pois em vez de fugir, ele se entrega à sensação.
As ondas o envolvem como um manto e ele se lembra de como perdeu sua luz, sua doce Liadan, e também pensa sobre como está perdido sem ela, quase como se fosse induzido a lembrar disso. Pensa em tantas coisas ao mesmo tempo, mesclando o passado, presente e futuro que nem consegue mais se concentrar em só uma.
— Você está feliz? – a voz repete.
Uma incalculável tristeza o preenche e parece que seu coração é apertado por um espremedor de limões, era sufocante.
— Não... – ele responde num suspiro pesado e doloroso.
A voz parece sair de sua cabeça e se materializar em seu ouvido esquerdo, como se tivesse adquirido lábios, talvez ela até tenha um corpo escondido naquela escuridão, talvez tenha um corpo o abraçando e o prendendo por trás, mas não consegue distinguir nada naquele mar sem formas.
— Qual é o seu desejo?
Aquela voz era a definição de "tentação", quantas pessoas já não deviam ter caído por causa daquela voz?
Ciaran pensa e só lhe vem uma coisa na cabeça, seus pensamentos parecem ficar mais leves quando visualiza o rosto dela.
— Diga-me o que trará sua felicidade e eu darei a você – a voz incentiva-o. – Diga-me em palavras o seu desejo.
— Eu... desejo... – cada célula do corpo de Ciaran gritava sobre o perigo, pareciam desesperadas para fugirem dali e o afastarem da presença, mas ele não as ouviu, ele deixou-se levar pela voz – que Liadan volte à vida...
Um sorriso tão grande que pareceu ser dado pelo mar que o cercava foi sentido pelo rapaz de cabelos prateados, em escala tão forte que o deixou assustado.
— Eu atenderei o seu desejo.
Algo encosta os lábios de Ciaran, a principio ele pensou que fosse uma pedra de gelo, mas depois percebeu que eram lábios, lábios tão frios que pareciam esculpidos em gelo.
Quando eles se separam, o albino pressiona um lábio no outro para ter certeza que eles ainda estavam ali. Era uma sensação estranhamente prazerosa.
— Tomarei o que você tem e te darei o que você quer. Este será nosso trato.
Uma mão, ou lança, ou algo que o irlandês não consegue identificar, atravessa seu corpo produzindo um forte golpe de dor enquanto arranca vagarosamente algo do meio do seu peito. O coração ficava do lado esquerdo, o pulmão do direito, embora a área acertada ficasse muito próxima do coração, tinha certeza que não foi isso que a escuridão arrancou. Um órgão que nunca sentiu, um que não existia ali, mas que era infinitamente mais precioso do que qualquer outro que tivesse.
Uma vez que o órgão foi separado de seu corpo, a gravidade parece voltar às suas leis naturais, pois começa a cair para baixo em um abismo feito da mesma escuridão que o envolvia, mas com a presença da forma sombria e maligna se afastando conforme caia.
Acorda puxando o ar, desorientado sobre estar se afogando ou parado de respirar enquanto dormia. O quarto estava escuro, devia ser noite, ainda estava deitado na poltrona à qual tinha ido tirar um cochilo. Suspira aliviado por ter sido apenas um pesadelo estranho, porém escuta um grunhido dentro de seu quarto e vê a perna de um móvel ser puxada ou então afastada por alguma coisa no chão.
O homem de cabelos platinados arqueia uma sobrancelha e tateia sua cômoda atrás de uma vela. Quando a encontra acende-a com um fósforo e a mira na direção que veio som. Uma cobra não poderia ter assustado-o mais do que o que achou: um monstro.
Uma figura estranha cujo corpo começava a apodrecer tateava o chão desorientada, gemendo sem conseguir articular palavras. O pescoço estava torto para a direita, obviamente quebrado, uma cascata de cabelos brancos sem brilho caia pelos ombros da criatura e os olhos dela pareciam tentar enxergar o local do ângulo em que o pescoço caia. Usava trapos rasgados e sujos de terra do que devia ter sido um vestido branco, suas mãos tremiam enquanto tateava em volta procurando qualquer coisa para se apoiar e ficar de pé. Estava confusa, assustada e perdida, sem saber o que tinha acontecido ou onde estava.
A luz da vela faz um anel brilhar no dedo da criatura, era um anel claddagh, idêntico ao que sua irmã tinha, com cada um dos símbolos e tudo o mais. Ciaran fixou os olhos naquele anel sem acreditar no que estava vendo. Não podia ser real, certo? Era apenas uma alucinação, não?
Receosamente, ele se aproxima do zumbi. Logo nota que era uma figura feminina por causa das curvas, e olhando bem de perto, era praticamente uma versão zumbi macabra de Liadan. Quando o vê, a coisa se agita mais ainda, tentando alcançá-lo. Não expressa nenhuma emoção em seu rosto, mas o albino sabe que ela está feliz, ele sempre sabe o que ela sente.
— Liadan... – ele afirma sem acreditar no que vê – O que seu irmão tolo fez com você?
Ciaran se abaixa e abraça a zumbi, segurando sua cabeça torta com delicadeza enquanto enterra seu rosto no ombro dela. Ela se encolhe com o contato, observando pela primeira vez sua imagem no reflexo de um espelho que estava em seu campo de visão. Seus olhos arregalam-se com a figura, o que tinha acontecido com ela?
Tenta perguntar para Ciaran, mas emite apenas grunhidos roucos e secos, incapaz de até mesmo pronunciar o nome dele. Uma lágrima escorre pelo canto de seus olhos e ela não sabe dizer por que estava chorando. O que estava acontecendo?
A porta do quarto se abre com um rangido e uma pessoa passa por sua entrada, na verdade, duas pessoas. Um corpo com duas cabeças femininas entra no quarto e se dirige até os irmãos reencontrados. Uma cabeça tem lisos e compridos cabelos esverdeados, a outra tem longos cabelos ondulados da cor de algodão-doce. Ambas com a pele branca de papel e várias costuras e remendos por seu corpo. São as aberrações Um e Dois que os observam.
Elas param em frente aos irlandeses e cada uma os separa com um braço. Ciaran arqueia uma sobrancelha confuso com a presença delas ali. Liadan é pega no colo pelas aberrações como um bebê recém-nascido, perguntando-se quem eram elas. As siamesas suspendem a nova aberração com pescoço torto no ar e dão meia volta para sair do quarto. Ciaran as impede, segura o ombro de uma delas e as prende no mesmo lugar.
— Sinto lhes informar, mas creio que essa pessoa pertença a mim – ele possui uma expressão séria, mas não esquece de ser cortês com uma garota, mesmo que ela possua duas cabeças.
A cabeça de cabelos verdes se vira para Ciaran com olhos confusos e infantis, o mesmo faz a cabeça com ondulados cabelos rosa. Elas olham uma para a outra e depois voltam o olhar para ele, inclinando as cabeças para o lado que nem crianças.
— Devolvam-me, senhoritas, por favor – Ciaran estende os braços para facilitar a compreensão delas, porém nem ele sabia o que estava fazendo – Já é noite, a lua está alta no céu, passa da hora em que devemos nos recolher.
Seryu, a cartomante, surge na porta batendo levemente na madeira e entrando sem esperar pela permissão.
— Nisso eu concordo, está na hora de dormirmos.
Com a chegada da mulher, as duas se retiram do quarto levando a nova aberração com elas, Ciaran dá um passo para frente na intenção de segui-las, mas é barrado pela mão da cartomante, que pressiona seu peito impedindo educadamente seu caminho.
— Está sendo levada para um lugar mais adequado. Você já fez o bastante por hoje, volte para cama.
— Não vou abandoná-la de novo. – logo após colocar em palavras, ele percebe o novo sentimento repentino que guiaria suas ações dali em diante. – Liadan está aqui, tem vida pulsando por seu corpo novamente, não tenho duvidas de que é ela, Liadan precisa de mim.
— Volte para cama.
Seryu joga um pó no ar que existe entre ela e o albino. No instante em que ele respira seu corpo amolece e ele desfalece em seus braços. A mulher o coloca de volta na cama e sai do quarto em silêncio. Sabia que ele iria atrás da irmã a qualquer custo, mesmo que tivesse de usar violência para isso, portanto, tentar conversar seria inútil. Com o pó que preparou a partir de uma planta sonífera, ele só acordaria na manhã seguinte, quando Liadan já estivesse inserida no Jardim de Monstros, estava apenas tentando evitar uma confusão noturna. Afinal, naquela noite, as Bestas estavam soltas procurando sua vitima.
~ ❖ ~
Esgueirando-se pelas sombras, Ellie Romanov segurava fortemente um livro contra o peito. Mantinha cautela para não ser descoberta, pois se a encontrassem com certeza seria morta. O livro que carregava era um achado que roubou de Ivie, a malabarista de fogo. Por vezes tinha visto ela folhear aquele livro junto de Cain e Arman, eles formavam um trio meio estranho que, na opinião de Ellie, parecia mais de amantes ou primos bem chegados. Se fossem amigos, deviam ser inseparáveis de longa data, por que se conheciam como a palma da própria mão.
Sua intenção inicial não era roubar o livro, apenas queria ver o que ele guardava, mas depois de decifrar as primeiras páginas tinha que adquiri-lo. Se Ivie a encontrasse, tinha certeza que poderia convencê-la de que não tinha roubado, que encontrou outra pessoa roubando e só pegou de volta, não queria se gabar, mas era boa com atuações. Depois só tinha que encontrar outra pessoa para levar a culpa, Arisu ou talvez Alma, as duas pareciam curiosas, Ivie provavelmente iria acreditar. O problema era que a ruiva lhe disse que o livro não pertencia a ela, só estava guardando a pedido de Magnus e o mordomo em si era o problema.
Através de expressões faciais, gestos pequenos ou mesmo o movimento da pupila dos olhos, Ellie era capaz de dizer tudo sobre uma determinada pessoa. Já pensaram por vezes que ela podia ler mentes, pois conseguia adivinhar tudo o que alguém estava pensando ou sentindo no momento. Infelizmente, Magnus era como um cadeado sem chave para ela, extremamente fechado, quando achava que tinha entendido alguma coisa acontecia algo que a fazia recomeçar a construir o perfil dele do zero. Isso a irritava. A única certeza que tinha era que o mordomo tinha uma lealdade beirando o psicoticismo para com o tal "Mestre". O resto não fazia mais nenhuma ideia. Ele com certeza a mataria sem piscar os olhos nenhuma vez se a encontrasse naquele momento segurando o livro dele. Por isso tinha que ser rápida.
Correndo pelo escuro, fugindo das luzes das lanternas das barracas, Ellie estava perto de seu objetivo, faltava muito pouco para chegar ao esconderijo que tinha encontrado e armado antes de iniciar seu crime, mas um barulho de galhos se partindo a assusta. Não só um, mas vários galhos ao mesmo tempo, prolongando-se em intervalos irregulares.
Esconde o livro atrás das costas e prende a respiração enquanto se oculta na escuridão. Um silêncio se instala por três minutos, e depois dele o som dos galhos fica mais forte e vem correndo em sua direção. Ellie pensa em correr, mas antes de executar a ação se encontra com uma criatura esquelética, horrenda e magra. Da sua boca saiam crustáceos agitados que parecia até que alguém pegou um balde deles e os enfiou na garganta da criatura até ela engasgar. O crânio afilado com dentes de piranha chegou bem perto do seu rosto a farejando, não era parecida com nenhum animal que conhecesse. Que raios era aquilo?
A coisa andava meio corcunda, Ellie não duvidou de que aquilo também podia correr com as quatro patas. O bicho pareceu escutar alguma coisa, pois deu um mínimo movimento de reconhecimento antes de dar o bote na cabeça da ruiva.
Ellie ia gritar quando percebeu que uma daquelas coisas que saiam pela boca dele escorregou para dentro da sua e entalou sua garganta, impedindo que qualquer som fosse produzido. Os crustáceos agitados circulavam sua cabeça a puxando para dentro da boca do bicho, estava sendo engolida viva por aquela coisa nojenta e bizarra. Se debatia tentando se soltar, fincava suas unhas no rosto e no corpo do monstro, mas ele não sentia nada.
No meio de seu desespero, ela consegue ver um expectador assistindo sua morte do outro lado da trilha. Deixa o livro cair no chão e abana os braços desesperada pedindo ajuda. O expectador nem se move, prende os braços para trás relaxando o corpo e espera.
Quando a cabeça de Ellie chega na garganta da besta começa a ser triturada pelos órgãos internos que o monstro possuí. A besta usava os crustáceos como as presas que as aranhas usavam para trazer o alimento até a boca, embora elas só precisassem de dois, o bicho tinha bem mais do que isso.
A besta já tinha engolido praticamente o corpo inteiro da ruiva, estava terminando de comer os pés quando o expectador se aproxima do local, recolhendo o livro que ela deixou cair e dando um tapinha para limpá-lo da poeira. A criatura aproxima sua cabeça do estranho e seus crustáceos se agitam farejando-o, logo depois funga e dá meia volta saindo dali.
Com o livro debaixo do braço, a criança ajeita sua máscara de pierrot com um sorriso cínico escondido atrás dela. Alma Chaos se retira da cena do crime rindo ao pensar o quanto o orgulho cegou Ellie e não a fez perceber que crianças também podem manipular.
~ ❖ ~
Por volta das onze e meia da noite, um cartão VIP começou a emitir um brilho azulado em sua figura central. Ele era do tamanho de uma carta de baralho ou cartão de crédito, no centro possuía um circulo com padrões psicodélicos que formavam sucessivas lágrimas pela área circular. Uma moldura de borboletas em escala cinzenta criava contraste com o circulo colorido, analisando melhor percebia-se que as asas centrais eram na verdade de mariposa, e atrás destas, cinco ou seis asas de borboletas eram visíveis. Em vez de ter o corpo dos insetos, as asas arranjavam-se de modo que o circulo fosse seu miolo, adornando-o com elegância e beleza. A luz irradiava apenas do circulo, formando ondas brilhantes dentro da figura do cartão.
Seguido do primeiro, vários outros cartões VIPs começaram a brilhar ao redor do mundo. Para a detetive que rodava em uma cadeira giratória de seu escritório, para a garota que corria pela chuva enquanto ouvia o som dos trovões, para a mulher que folheava um livro sobre os assassinatos mais cruéis da história, para o homem que escrevia um livro enquanto ouvia música no volume máximo, para a garota que lia romances homossexuais e dava ocasionais gritinhos quando gostava de uma cena, para a modelo que usava um chicote num homem vendado e amarrado em um poste, para a garota de cabelos coloridos que pulava em sua cama e jogava suas roupas para o alto enquanto ria, para a garota que extraía o veneno das plantas de sua estufa e os armazenava em vidrinhos cuja tampa eram caveirinhas, para o garoto que analisava artefatos astecas e esculturas mexicanas do dia dos mortos, para os irmãos que dançavam uma polca finlandesa enquanto corpos abertos de seres humanos eram retirados do salão por seus empregados, e muitos, muitos outros VIPs, que se espalhavam pelo mundo.
Quando perceberam o circulo brilhante de seus cartões, em momentos diferentes para cada um, pegaram o objeto e o levaram até o rosto. A detetive foi a primeira a usá-lo, afinal, seu cartão estava embaixo de um microscópio e bem perto de seu alcance. Estava pesquisando sobre as misteriosas e minúsculas inscrições que estavam fundidas no material através das figuras.
— Já estava na hora.
Ela veste sua máscara. O objeto só cobria metade de seu rosto, ocultando tudo do lado direito, a outra metade era coberta por sua franja ondulada de cabelos azuis. A máscara era branca, decorada por espirais que imitavam os ramos de uma videira, variando tonalidades arco-íris do tom mais forte para o mais claro. Ela pega o cartão e o posiciona em frente ao olho, o círculo de asas de mariposas vira para o outro lado do cartão como uma moeda mudando de face, e igual uma pagina sendo virada para o outro lado, ela estava em Dead Line Circus. A garota estava pesquisando sobre como este processo acontecia, se era teletransporte de matéria em massa ou alteração de realidade dimensional. Quando usava-o parecia que virava a página de um livro e o seu redor mudava sem que ela sentisse seu corpo se mover.
Abaixa o cartão dando de cara com Magnus, que lhe oferece uma taça de champagne.
— Bem vinda de volta, Livro de Mnemosyne.
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