Dead Line Circus - Interativa
12 Dance com seus instintos
Não importa o quão insignificante um encontro ou um incidente seja, ele sempre terá uma influência. Não importa o quão curto tenha sido o tempo, a ligação não desaparecerá.
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Logo que amanheceu Callisto já estava de pé. O homem de ondulados cabelos negros e olhos dourados caminhava com um pirulito na boca cantando uma melodia com os lábios fechados. Empurrava um carrinho cheio de cestas de comida com animação apesar das pesadas olheiras embaixo de seus olhos, consequência de uma noite bem longa e ruim.
Empurra o carrinho até a base de uma escada de madeira, que levava ao terraço de uma sala com porta de polvo, e coloca as cestas de comida do carrinho em uma plataforma móvel que transportava os produtos até lá em cima. Deposita elas uma a uma e quando todas as cestas já estão na plataforma, ele sobe a escada e puxa a corda que a manejava, transportando as refeições de maneira rápida e prática. O local a que se dirigiu era o teto do aquário, aberto e extenso como um lago, tirando um corredor único do lado esquerdo que servia para os humanos atravessarem sem precisarem mergulhar, que era onde Callisto e as cestas estavam.
O homem puxa um caderninho de anotações do bolso da camisa e muda o pirulito para o outro lado da boca. Uma lista com o título “Tarefas” encontrava-se logo na primeira página.
– Número 1: Alimentar os peixes. – Callisto lê em voz alta já sabendo tudo que estava escrito ali. Magnus lhe deu a lista que a uma rápida leitura pareciam tarefas bem simples, mas depois de encontrar o aquário enorme e vê-lo pelo corredor da porta de polvo, Callisto começou a questionar se elas seriam mesmo tão fáceis quanto pareciam. – Vamos começar.
Ele pega uma bolota de carne do tamanho de uma bola de basquete da cesta de comida e vai até a margem do aquário. Iria jogar a bola na água, mas uma mulher de pele e cabelos esverdeados já estava esperando na superfície. Apenas sua parte superior estava para fora da água, mostrando seus seios descobertos e sua pele verde vidro. Em vez de jogar, Callisto esticou seu braço oferecendo para ela, seria rude de sua parte não tratar uma dama com educação. A mulher mergulhou na água e se aproximou dele nadando com velocidade, perto da borda ela mergulha mais fundo e toma impulso para cima, pegando a comida com as mãos e se inclinando para trás num novo mergulho, mostrando sua cauda de serpente marinha.
Várias outras cabeças começam a emergir na superfície, muitas humanas, outras nem tanto. Uma mulher de pele amarela com dois rabos de cavalo e corpo de cavalo marinho, por exemplo, uma garota com dreeds marrons e corpo cheio de nadadeiras com pontas que lembravam espinhos (bem similar a um peixe leão); um homem de cabelos azuis com tentáculos; um menino que parecia um peixinho dourado; e além das humanas, algumas cabeças que não se encaixavam bem no ambiente. A cabeça de elefante com corpo de baleia, por exemplo, ou então a girafa azul que parecia uma raia, a enguia com cabeça de beija-flor... muitas cabeças foram aparecendo em intervalos irregulares.
Callisto entregava a comida de maneira gentil aos animais, ou talvez meio-animais. Quando entregava a comida de uma garota que devia ser uma água viva muito tímida (pois estava muito afastada) acabou se inclinando tanto que perdeu o equilíbrio e quase caiu. Se não fosse uma mão feminina ter agarrado a barra de sua camisa e o puxado para trás ele teria mergulhado de cabeça na boca de um tubarão meio Baiacu que tinha se aproximado.
– Tsc. Não fique tão distraído.
O homem olha para trás e encontra uma garota de cabelos castanhos e um olho enfaixado por bandagens sentada no chão. Evanecer havia caído quando usou seu próprio peso para puxá-lo para trás. Em vez de agradecer pela ajuda ou se desculpar por ter sido desastrado, o moreno fez uma pergunta que Evanecer não estava esperando:
– Quem é Rick?
Um pingente com formato de cruz e o nome “Rick” arranhado no metal tinha escapado de seu esconderijo entre as vestes da garota, que tratou logo de escondê-lo com as mãos. Os olhos dourados de Callisto tinham o hábito de se prender a mínimos detalhes, mesmo em uma situação como aquela, em que quase caiu em um tanque cheio de criaturas marinhas, ele não pôde evitar de prestar atenção ao nome que havia sido gravado à mão no pingente escondido da garota.
– Isso é um assunto meu. – Evanecer fala constrangida.
– Namorado?
– Não.
– Irmão?
–Não.
– Primo?
– Não, nada a ver.
– Pai?
– Não. Ei! Quer parar com isso?
– Melhor amigo?
–....
– Melhor amigo. – Ele conclui. – Legal você guardar uma lembrança dos amigos. Como ele era?
– Você é uma criança ou o que? Não tenho por que te dizer, curioso.
– Ele era gentil? Engraçado? Brinca-...
Evanecer pega uma cesta vazia e acerta na cabeça de Callisto, interrompendo sua fala.
– Para de tentar adivinhar. Que coisa!
Callisto passa a mão na cabeça com uma expressão emburrada.
– Se eu for adivinhando uma hora eu acerto. É o principio básico das deduções. – O homem diz fazendo uma careta infantil.
Evanecer se controla para não rir, seria melhor ter deixado ele cair, ela conclui.
– Aliás, o que está fazendo aqui em cima?
Evanecer olha para ele e percebe que a atmosfera descontraída evaporou-se. Callisto agora estava com um olhar sério e concentrado, similar a um tigre perto de dar o bote.
– Só estava passando.
– Sei... – Callisto adquire um olhar desconfiado. – Em cima de um tanque pra criaturas marinhas?
– É... – Evanecer fica indecisa. – Fiquei com vontade.
Claro, por que é muito lógico ficar com vontade de subir em cima de um tanque sem qualquer motivo aparente.
– Não me convenceu. – Ele apóia uma mão no rosto fingindo desinteresse.
A garota começa a ficar nervosa, tinha que inventar uma desculpa rápida para se livrar daquela situação vergonhosa. Forçou seu cérebro a pensar rápido, precisava de uma desculpa concreta, sem furos e que não deixasse dúvidas de suas intenções.
– Eu vi um sorvete montado num unicórnio passando por aqui e resolvi seguir ele.
Ela bate em sua própria cabeça mentalmente. Que raio de desculpa foi aquela?
– SÉRIO?
Callisto praticamente pula em Evanecer, segurando seus ombros com uma expressão de enorme animação contida.
– P-Pra que lado?
– Hein?
– O sorvete mutante! Pra que lado ele foi?
– Ahn... Por ali. – A garota aponta para uma direção qualquer.
Callisto saca uma colher do bolso decidido.
– Ei, pra onde você vai? – Evanecer pergunta.
– Caçar a sobremesa. Eu já comi uma sopa de fígado com dois quilos de açúcar, um sorvete mutante não pode me fazer mal. – Callisto fala descendo a escada sem nem pisar nos degraus e correndo desenfreado pelo circo. Callisto amava doces, mais do que uma criança com diabetes.
Evanecer fica sozinha, abismada.
– Ele acreditou mesmo? – Pergunta para o nada.
Balança a cabeça tentando se livrar de sua confusão dos últimos segundos e voltar ao foco. Desenfaixa seu olho direito e aproxima-se da beirada, mergulhando apenas sua cabeça na água do aquário. Abre os olhos enquanto está submersa e se concentra em enxergar o mais longe que puder.
Dentro de uma estrutura mediana feita de pedra, com o formato de uma banheira para passarinhos submersa na água, um ponto brilhante de luz avermelhada estava guardado por uma bolha de ar e fortemente vigiado pelas dezenas de criaturas marinhas que estavam presas no aquário.
Evanecer a observa durante um bom tempo, até não aguentar mais prender a respiração e se retirar para recuperar o fôlego.
– Não dá pra pegar.
Ela suspira frustrada e se levanta, retirando-se dali. Tinha que contar pra sua amiga a descoberta e fazê-la desistir da ideia, mas antes tinha que encontrar Callisto e desfazer o mal entendido, se sentiria péssima se ele ficasse o dia inteiro procurando uma coisa que inventou.
~ ❖ ~
Pessoas deformadas, desfiguradas e de espécies não-humanas rodeavam acomodadas em algum canto a nova integrante do Jardim. Empoleiradas ou encolhidas, as aberrações estavam curiosas em ver a nova aquisição fora de época.
Liadan estava em pé, andando tropeçadamente em linha reta. O homem sem rosto estava atrás de si, pronto para segurá-la se a irlandesa caísse para trás, e as irmãs Um e Dois mantinham seus braços abertos em frente à garota, dando passinhos para trás quando ela avançava um, prontas para pegá-la se ela caísse para frente. Liadan estava aprendendo a andar novamente, por ter ficado sem se mover durante muito tempo e ter voltado daquele jeito precisava reabilitar suas pernas para se moverem normalmente de novo.
No pouco tempo em que teve para pensar, percebeu três coisas: Primeiro, estava no que parecia um tipo de circo muito estranho. Segundo, já fazia um ano desde que tinha visto Ciaran pela ultima vez enquanto estava viva, e terceiro, Ciaran fez alguma coisa com alguém que a trouxe de volta à vida. Liadan tinha morrido, essa era a única certeza que tinha, e como não era burra, sabia que esse milagre não seria de graça, a questão era: em que Ciaran se meteu para tê-la de volta?
Não podia suportar a ideia de que seu querido irmão sofresse por sua causa, nunca desejou-lhe mal, e não queria ser um fardo para ele suportar.
1 e 2 incentivavam ela a continuar a andar, passo a passo ela praticava e as aberrações torciam por seu êxito.
– Liadan!
Um chamado irrompe pelas portas junto a um garoto de cabelos platinados. Ele caminha com cautela enquanto seu olhar sério vasculha ao redor, à procura da confirmação de que não tinha sonhado com a volta de sua irmã.
O Jardim de Monstros era o mais belo jardim que tinha visto, apesar de não ser uma beleza lírica de poemas românticos e sim uma beleza lúgubre de artistas góticos. A grama não era composta por capim, em vez dele um tapete roxeo se estendia pelo chão. Era feito de diminutas e delicadas florzinhas roxas com pétalas macias ao toque. Ciaran podia andar descalço se quisesse pois teria a certeza de que era como andar sobre um tapete felpudo. Algumas árvores incomuns se erguiam por entre as flores, espalhadas, distantes e diferentes das demais.
Perto de uma criatura com oito braços, havia uma bela árvore em que os frutos cresciam e nunca caiam, mas de alguma forma também nunca enchiam a árvore. As folhas eram de uma cor incomum que ninguém conseguia distinguir, algumas vezes estavam verdes e outras, azuis. Seus frutos vermelhos tinham o cheiro mais doce que qualquer flor dali e pareciam extremamente apetitosos. Já outra árvore, desta vez marrom e desprovida de folhas, era maior que qualquer outra, seus galhos nus erguiam-se soberanos por entre as outras árvores e de seu tronco escorria água. A água era tão pura e cristalina que cintilava mesmo quando não havia luz. Outra árvore ainda, com o tronco cheio de engrenagens, sustentava folhas vermelho sangue. De um de seus galhos pendia uma forca e havia uma única flor prateada, com fios cujas pontas eram rubis que saiam do miolo, desabrochando em cima do ponto de suícidio.
O Jardim seria perfeito se não houvessem mãos saindo da terra, cujos dedos estavam cheios de fitinhas brancas amarradas em formato de lacinhos. Se não houvessem lápides com esculturas góticas esculpidas em pedra em praticamente todos os lugares, se não houvessem tantas plantas que pareciam venenosas ou carnívoras lembrando bocas e garras, e principalmente se não houvessem monstros vagando por ele completamente livres de suas correntes.
Ciaran não reconhecia nenhuma daquelas plantas e não se incomodava em tentar descobrir, estava alheio a beleza do jardim naquele momento.
Ao avistá-lo procurando por ela, Liadan tropeça e é pega pelas irmãs siamesas, seu pescoço torto estala chamando a atenção do albino que corre até ela.
– Liadan.
Ele segura seu rosto entre as mãos e massageia seu pescoço com delicadeza ao pensar na dor que ela poderia estar sentindo.
– Tudo bem, seu irmão está aqui. Não se esforce demasiado, suas ações me preocupam visto que não desejo lhe perder outra vez.
Liadan tenta pronunciar o nome de seu irmão, mas de sua boca só saiam roucos sons de animal, era deplorável.
– Perdoe-me por não estar contigo na noite que se passou, tanta coisa poderia ter lhe acontecido nesse meio tempo que não consigo me perdoar. – Ele se vira para as gêmeas. – Agradeço-lhes por terem-na mantido segura apesar de terem a levado de mim, sou-lhes grato por terem a tratado bem. – E volta para Liadan. – Sinto muito pelo que a fiz passar, poderia me perdoar minha doce Liadan?
A albina tenta falar, qualquer coisa, qualquer palavra, queria conversar com seu irmão como antes, mas sua boca não lhe obedece, voltando a emitir grunhidos bestiais indistinguíveis como palavras. Ela o abraça sem conseguir encontrar outra forma de se expressar, escondendo as lágrimas que ameaçavam rolar por seus olhos.
Um observador casual olhava-os de cima de um galho com olhos afiados. Girava uma faca entre os dedos de uma mão sem perder um movimento que fosse do reencontro.
– Concentrado? Está mais sério que de costume. – Arman fala se sentando ao lado do observador.
Cain olha para Arman indiferente a presença dele ali, voltando a olhar para os irmãos.
– Parece até uma das vitimas de Michael que voltou à vida. – Ele fala observando a irmã.
– É um pouco repulsivo. – Arman concorda.
– Mas faz o meu tipo. – Cain fica pensativo. – Só não suporto ver essa relação de irmãos unidos entre eles. Me dá náuseas.
O acrobata e o atirador de facas tinham uma relação que era quase próxima à amizade, estavam juntos desde a chegada de Ivie que os uniu em um trio. O arroxeado não podia dizer que “conhecia” Cain como a palma da mão, mas estava junto a ele à tanto tempo que se acostumou a notar quando algo o incomodava.
Arman observa o rosto de Cain e nota um sentimento irreprimível estampado em sua face. Fazia muito tempo que não via aquela expressão. Que sentimento era mesmo? Ciúme? Não, não era ciúme. Inveja, talvez?
– Cain, está sentindo inveja deles?
A faca que girava entre os dedos de Cain vai parar na coxa do acrobata. A expressão que o loiro fazia era bestial naquele momento, os olhos afiados faziam Arman ter a impressão que poderiam lhe cortar se olhasse muito para eles. Cain estava muito, muito, irritado. A habilidade de mudar seu humor em apenas um segundo não era novidade, o loiro sempre foi instável. Ficava sempre balançando em uma linha fina demais, ora caindo pra um lado, ora se inclinando para outro.
– Não se ATREVA a me dizer isso. – O loiro fala pegando o colarinho de Arman com uma mão e o puxando para perto obrigando-o a encará-lo.
Cain cerrava as sobrancelhas e comprimia os lábios. Havia muita coisa que queria dizer, mas era uma história longa que não queria contar. Ele se calava quando havia muita coisa a falar, por que não havia ninguém que queria ouvir.
Arman sabia que por algum motivo o loiro odiava irmãos. Muitas de suas vitimas eram irmãos que se davam bem, fazia-os se voltarem um contra o outro e os torturava com muito prazer e satisfação. Independente de que tipo de irmãos fossem ele o detestava, Arman não sabia se ele tinha algum irmão mas ele já dava trabalho suficiente odiando o dos outros. Era um assunto delicado que Cain reagia de forma violenta e imprevista.
– Fique longe de mim. – Arman avisa sério.
O arroxeado também tinha seus problemas, e a proximidade de Cain o incomodava deixando-o zangado. O loiro o solta bufando, sabia que era um ponto importante manter distancia dos outros para o acrobata.
– Chega, vou sair daqui. Esses dois vão me fazer enlouquecer antes do horário que eu quero. – Ele salta da árvore e pousa no chão macio. – Madame Sondhein e eu vamos fazer uma festa, você está convidado se quiser aparecer.
Em um instante ele recupera o bom humor, antecipando a celebração noturna.
– Passo. – Arman ergue uma mão recusando, enquanto com a outra tira a faca cravada em sua perna. – Estou bem assim.
– Você que sabe.
Cain sai do Jardim pela direção oposta a dos albinos. Ele olha uma ultima vez para eles com um olhar sombrio e um sorriso afiado antes de desaparecer pelas tendas.
~ ❖ ~
Callisto chupava um pirulito enquanto concertava um holofote de luz na Selva das Bestas. Supostamente ele tinha queimado na noite passada e agora Callisto tinha sido chamado.
Tão logo terminou seu trabalho com o aparelho, sentiu algo pontudo cutucar suas costas.
Alma carregava um livro com olhos pidões, empurrando-o na direção de Callisto para ele pegar.
– Ahn...
Callisto pega o livro que ela oferecia e dá uma rápida olhada sobre ele, olhando para ela em seguida com uma sobrancelha arqueada. Alma move a cabeça incentivando-o.
– Ah, tá. Você quer que eu leia. – Ele compreende.
Ele examina o livro. A capa era de couro negro, com tiras amarrando-a para selar as páginas. Folhas com tinta vermelha desfilaram por seus olhos sem lhe chamar a atenção. No começo de cada capitulo tinha o desenho de um crânio preso por ramos de plantas que também prendiam peças de xadrez. Cada página era marcada por um XX em vez de um número, o que era um modo de marcar bem diferente. A capa era inteiramente negra, exceto pelo crânio de uma coruja que estava fundido ao couro, e um buraco com formato de fechadura que ficava abaixo do crânio. Ele passa os dedos pelos ossos da coruja sem saber se era de verdade ou artificial, e também não entendeu o porque da fechadura se o livro estava aberto e não possuía trancas.
– Ok... – Ele dá uma pausa incerto folheando o livro. – Parece que é um livro de contos, mas não sei do que se trata.
Alma faz um bico.
–Mas já que você quer tanto, eu posso ler um ou dois.
Abrindo um sorriso ela se dirige até um sofá próximo e bate no estofamento indicando para ele se sentar ali. Callisto deixa suas ferramentas de lado e se joga no móvel, abrindo o livro aleatoriamente em alguma história.
– Vejamos.... – Como os contos não possuíam títulos, ele partiu para qualquer história. – Há muito, muito tempo, existiam muitos reinos diferentes. Cada reino tinha uma cor diferente e era habitado por bonecos de argila que pareciam ser iguais.
Os bonecos de argila tinham línguas de cores diferentes. O reino roxo era cheio de bonecos com língua roxa, o reino amarelo tinha bonecos com língua amarela, o verde tinha habitantes com língua verde e assim por diante. Para visitar um reino vizinho, eles passavam meses e até anos colorindo sua língua com a cor do reino que ia visitar. Por isso existiam bonecos com língua de duas cores, três e alguns até com línguas de arco-íris. Era divertido explorar, os bonequinhos eram sempre curiosos e corriam atrás de novidades nos reinos que eles não viviam.
No reino azul havia um bonequinho que de tão pobre que era não podia comprar a tinta para pintar sua língua. Uma vez por semana uma bonequinha de língua laranja passava em frente à sua casinha e ele não podia declarar seus sentimentos para ela por não ter a sua cor. Tão triste estava que todos os dias ia para o bosque ficar perto das laranjeiras só pra sentir que estava perto dela. Certa vez nesse bosque, uma lebre encontrou o bonequinho encolhido perto da árvore e perguntou se ele estava feliz. O bonequinho respondeu que não, no que a lebre perguntou o que ele queria para ter sua felicidade. Ele ia desejar tinta laranja para pintar sua língua, quando pensou um pouco mais profundamente que em algum lugar poderia ter alguém na mesma situação que ele, então pediu que todos tivessem a língua da mesma cor.
Em um instante todas as línguas escureceram, centenas de cores de misturaram e de repente todos tinham a mesma língua. Sem se lembrarem de terem tido outra cor se não aquela, ninguém percebeu a mudança, pois haviam se esquecido que existia cores diferentes para as línguas diferentes.
Alegre com sua boa ação, o bonequinho correu até a bonequinha para se declarar e foi rejeitado no mesmo momento. A verdade era que a bonequinha nem o conhecia, eles nunca tinham conversado antes por isso ela não fazia ideia de quem ele era. A lebre tornou a aparecer perguntando se agora ele estava feliz, e ele disse que não, pedindo para ter muito dinheiro e carisma. Num instante ele virou o bonequinho de argila mais rico do reino, e enviando vários presentes para a bonequinha foi conquistando-a aos poucos até se casarem. Tiveram três pequenos bonequinhos e com a família ele começou a fazer vários pedidos à lebre. Um presente de aniversário para o caçula, uma casa grande, boa saúde, uma vida boa para os pais, presentes para seus amigos, reparos, prosperidade, etc. Quanto mais ele desejava menos ele sentia. Ele tinha muitas coisas boas em sua casa e em sua vida, mas nunca sentia alegria por tê-las, sempre pedia por algo mais. Quando a lebre perguntava se ele estava feliz, ele não sentia nenhuma alegria e sempre achava que faltava alguma coisa, pedindo mais um desejo. Ele foi ficando fraco e vazio, até mesmo a tristeza e a raiva ele deixou de sentir, enquanto isso a lebre mudava de forma, primeiro ela tinha virado de um coelho para um gato, depois virou uma raposa, e agora era um lobo gigante de olhos vermelhos. Quanto mais vazio ficava, mais forte o lobo se tornava, quanto maior o seu desejo, mais poder ele ganhava. A ultima coisa que conseguia sentir era o desespero, ficava com medo de não saber o que estava acontecendo e de esquecer tudo de bom que havia lhe acontecido. E quando o lobo lhe fez aquela pergunta, se ele estava feliz, ele finalmente percebeu que não sabia por que ele estava realizando todos os seus desejos, desesperado com sua constatação ele disse que estava, estava muito feliz e que não precisava mais do lobo. O lobo riu tão alto que o chão tremeu. O bonequinho não entendeu aquela atitude e quando foi perguntar por que ele estava rindo foi comido pelo lobo. Tom Milliet. A estrela feliz mente.
– Quem é Tom? – Isis pergunta debruçada no sofá.
A leoa que havia se aproximado perto do começo da história, não foi notada por nenhum dos dois até se pronunciar, dando um pequeno susto no homem e na menina que estavam concentrados na história.
Callisto dá de ombros depois de passado o susto.
– Essa história não faz o menor sentido. Não tem moral da história e o final ficou totalmente confuso.
– Virou critico? – Isis pergunta.
– Não, mas gosto de histórias boas. Quer ler uma?
– Eu não sei ler.
– Ok. Se quiser que eu te ensine é só me chamar.
Alma levanta um dedo para Callisto e indica o livro para ele continuar.
– Quer mais uma desse livro sem sentido?
Ela afirma com a cabeça.
– Tá legal, mas dessa vez você escolhe.
Alma folheia o livro procurando por uma história. Isis se coloca atrás dela observando as páginas passarem.
Quando encontra uma entrega o livro para o francês.
– Ok. Vamos começar: Há muito, muito tempo. Existia um menino com asas de anjo. Ele era um menino muito obediente e educado, ajudava sua mãe, seu pai, cuidava de seu irmão menor e auxiliava seus vizinhos e amigos. Quando voava pelos céus, todos paravam para olhar e diziam: “Vejam, vejam, as asas dele não são lindas?”. Com um sorriso orgulhoso ele acompanhava os pássaros e as vezes cantava com eles quando pousava em alguma árvore. Todos amavam muito aquele menino, e da mesma forma que o amavam também queriam que ele caísse. Todos tinham seus pés grudados ao chão, ver a leveza e liberdade do menininho enchia-os de tristeza pelos seus corpos comuns.
Ele nunca fez mal a ninguém, pelo contrário, sempre ajudava. Por isso não conseguia ver a maldade no coração das pessoas, tratando-os sempre igualmente.
Invejoso pelas asas que não tinha e o temperamento agradável demais, o melhor amigo do menino viajou até o reino próximo e contou ao rei que sua vila possuía uma arma que poderia matar pessoas pelos céus. Curioso com tal descrição o rei ambicioso mandou seus servos trazerem a tal arma e foi com muita surpresa que conheceu o menino de asas. Nenhum exército nunca teve um soldado que voava, e foi com grandes planos em mente que o transferiu para seu general. O bom e obediente menino aprendeu que existiam inimigos, e também descobriu que era seu dever proteger o reino dos inimigos que lhe queriam mal, ele gostava de ajudar, por isso era obediente.
Com apenas um mês de treinamento ele já foi jogado no campo de batalha. A criança com asas ia à frente abrindo caminho, enquanto os demais soldados matavam. Foi assim durante alguns anos, até ele matar alguém pela primeira vez.
Naquele momento, quando o sangue do inimigo manchou seu rosto, suas asas se desprenderam de seu corpo e caíram. Foi só então que ele percebeu que elas estavam podres, e suas cores antes claras e puras ficaram negras e cinzentas. Seus pés grudaram ao chão e ele não conseguiu mais voar. Confuso, ele perguntou ao rei o que tinha feito de errado, no que sem responder, o rei simplesmente o dispensou do serviço.
Ninguém lhe deu uma resposta, fingiram que ele não existia. O menino nunca tinha visto esse lado das pessoas para com ele, mesmo tendo-as protegido tanto agora que não era mais útil elas lhe negavam? Decidiu voltar para sua vila. Como não conseguia mais voar teve que voltar andando, tropeçando diversas vezes por não estar acostumado às suas pernas.
A aldeia em que tinha nascido, no entanto, não pertencia mais ao império, agora as terras eram de outro país. Conforme o rei ganhava terras de um lado, perdia do outro, sendo que sua vila era agora do inimigo.
Foi facilmente capturado. Metade de seus ossos foram quebrados e seu espírito corrompido de tal forma que seu corpo ficou tão pesado que se tornou impossível voltar a voar em algum futuro distante. Seu corpo foi jogado em uma vala cheia de sangue e lixo, porém ele ainda não havia morrido.
Um corvo que pousou próximo à seu rosto lamentou tal estado, perguntando se ele ficaria feliz de morrer ali. O menino tinha medo da morte, ele que sempre voou na luz tinha medo do escuro e a morte nunca o deixaria ver o sol de novo. O corvo perguntou-lhe seu desejo, e desesperado como estava, ele desejou que não queria morrer. O corvo sorriu e lhe concedeu seu desejo.
Reerguendo-se da vala todos que o tocavam morriam. Com um toque, a vida de alguém pulava para seu corpo e essa pessoa morria em seu lugar. O inimigo morreu, os viajantes que cruzavam seu caminho morreram, o rei morreu e todo o país morreu quando o menino voltou. Ele ficou sozinho. Caminhando, matando, caminhando, matando, o menino crescia bem devagar e cada vez com os pés mais grudados ao chão. O único que ele não podia matar era o corvo, que abriu seu caminho na escuridão e o fez esquecer como era a luz do sol. Michael. Embaixo da árvore do corvo.
Terminada a história Callisto fica um momento em silêncio. A história estava mais aceitável embora não muito boa, mas o nome no final o incomodava. Claro, podia ser qualquer Michael, mas.... e se fosse aquele em que estava pensando? Era uma história contada exatamente como aconteceu ou foi escrita de um jeito que colorisse os eventos reais de modo que parecesse uma fábula? Pra começo de conversa, aquela história era real? E o que eram aquelas notas grifadas nas bordas das folhas? “A estrela feliz mente”, “Embaixo da árvore do corvo”. Não fazia sentido.
– Ei, esse nome. Não é o Michael que eu conheci é? – Isis pergunta.
Alma olha para o rosto de Callisto aguardando a resposta.
– Não, acho que não. Existem muitos Michaels por aí hoje em dia. – Ele diz e depois tenta mudar de assunto. – Onde conseguiu esse livro Alma?
A menina dá um sorrisinho e põe sua máscara de pierrot. Estende uma mão recolhendo o livro de volta e faz um gesto indicando para eles continuarem outro dia, saindo dali.
– O que deu nela? – Isis estreita os olhos desconfiada.
– Acho que quer continuar a leitura depois.
A felina observa a garota sair com olhos desconfiados.
– Sinto cheiro de coisa errada. Não confie muito nela.
Callisto ri relaxado no sofá. Sim, ele sabia, não podia confiar em ninguém ali dentro.
~ ❖ ~
Nikon ajeitava a coleira de Leopold enquanto este lia um livro que Madame Sondhein havia emprestado.
– Isso vai parecer estranho. Mas comecei a gostar de te ver acorrentado. – Nikon comenta com um sorriso malicioso.
Leo fecha o livro e inclinando o braço para trás bate de leve com a lombada na cabeça de Nick.
Os gêmeos Vasiliev usavam uma roupa escolhida por Madame Sondhein e costurada por Johanne. Consistia em um colete sem mangas feito de couro negro, que cobria apenas o peitoral e deixava os braços e a barriga de fora. Um zíper que atravessava o centro da peça permitia que fosse tirado rapidamente e sem complicações. Uma calça longa e justa também seguia o modelo de ser tirada facilmente. Como acessório, a mulher teve a ideia, junto a uma VIP albina, de usar uma coleira no pescoço dos dois. O toque final para bichinhos de estimação à procura de um dono sadomasoquista.
– Não vá para o lado negro da força. – Leopold fala segurando um sorriso. – Gosto de nossa relação do jeito que ela é.
–Hum.
Nikon envolve o peitoral de Leo o abraçando por trás. Mordendo levemente sua orelha e sussurrando em seguida:
– Assim?
O loiro sorri, virando sua cabeça para olhar o irmão.
–Melhor parar. Vai ativar o radar da madame. – Ele brinca.
– Se ficarmos bem quietinhos talvez ela não venha.
Nikon desliza sua mão para dentro do colete de Leo e arranha suavemente seu peito, dando um beijo no pescoço do irmão que suspira de satisfação baixinho.
– Sério, para. Ela vai vir.
– Não vai ser mais divertido assim? Sondhein não parece ser do tipo puritana devota. – Nick fala e depois pensa melhor. Desfaz o abraço com melancolia, indo se deitar de costas na cama e encarar o teto. – É meio estranho ser aceito desse jeito. Pensei que ficaríamos sozinhos quando soubessem sobre nós.
– Ela não sabe. – Leo interrompe. – Quando chegamos aqui não contamos nada. Ela só está forçando suas fantasias em nós dois.
– Fantasias certas que por acaso estou adorando.
Leo solta um sopro de riso. Vira-se na direção do irmão e o vê estendido na cama. Não sabia ao certo quando tinha começado, apenas amava cada pedacinho dele com um amor profundo e vasto. A pele lisa tal qual uma boneca que já tinha sido beijada em cada canto, o cabelo dourado que brilhava quando a luz batia nele, os olhos que refletiam a cor do céu, seu sorriso que fazia ele ter vontade de sorrir também quando via. Tudo. Amava tudo nele. Do ultimo fio de cabelo até as pontas dos dedos.
Lembrava-se que com doze ou treze anos eles entraram em uma relação, mas tinha certeza que o sentimento vinha desde antes. Sempre esteve ao lado dele, mas tinha se esquecido o momento exato em que aquele sentimento surgiu.
Leopold se levanta, dirigindo-se até a cama e deita ao lado de Nikon. Este move a cabeça e encontra o outro com um olhar que conhecia muito bem. Sorri e se coloca por cima do irmão, prendendo suas mãos acima da cabeça.
– Feche os olhos.
Quando Leo fecha, sente os lábios macios de seu irmão encostarem-se ao seu. Retribui o beijo, sentindo seu coração palpitar mais rápido. Suas línguas se entrelaçam, brincando e explorando a cavidade um do outro. Era quente e delicioso.
Parando para puxar ar eles sentem calor. Tal como Johanne disse, eram roupas fáceis de tirar e colocar.
– Se eu soubesse pintar um quadro... – Nikon se lamenta beijando e sugando um dos mamilos do loiro. Havia tirado apenas a parte superior, podendo encarar o peitoral nu do irmão.
– Você pintaria a si mesmo. Esqueceu que somos iguais?
Leopold estende o braço para Nick, que junta sua palma à dele. Iguais. Um o reflexo do outro.
Nikon assopra o mamilo que tinha beijado e o vento frio arrepia a espinha do irmão, fazendo ele apertar a mão de Nick involuntariamente.
– Tudo bem, almas gêmeas são mesmo iguais. – Ele diz com um sorriso malicioso.
~ ❖ ~
Máscaras, máscaras, máscaras. Em todos os lugares haviam máscaras. Homens, mulheres, crianças, só dava pra diferenciar pelo formato do corpo, embora alguns tivessem roupas que fossem difíceis de se distinguir o sexo.
Satsuki estava entediada enquanto andava pela corda bamba. Fizeram-na usar mais pano do que estava acostumada e graças a isso tinha sentido muito calor. Rasgou em pedaços o vestido que tinham lhe entregado e preferiu usar uma roupa que Ivie tinha. Se bem que não era exatamente uma roupa, apenas uma lingerie cheia de brilhantes e acessórios.
Conforme os minutos passavam via a Roleta das Lâminas recebendo mais e mais mascarados, todos surgindo do meio do ar num tipo de teletransporte. Cumprimentavam-se e então iam dançar. Lá do alto, a neko branca podia observar tudo.
O cenário foi arrumado para a ocasião, embora ela não entendesse direito que ocasião era aquela. Rodas de tortura, forcas, espadas e adagas nas paredes, algemas, espetos em brasa e por algum motivo, todas as portas abertas. Tinha até bonequinhas enforcadas nas paredes, umas com os olhos vendados e outras com expressões melancólicas. Todas as luzes do circo estavam acesas para a festa, a luz chegava a irritar um pouco seus olhos, mas ela ainda conseguia ver tudo.
Arisu estava com um vestido de lolita branco, cheio de laços e babados azuis, dançando com um homem que tinha uma máscara tribal e cabelo que pareciam pétalas de rosa. Metade da máscara era branca com três riscos negros e a outra metade era negra com três riscos brancos. Ele se atentava para ir devagar visto que ela parecia não ter experiência.
Isadora, a ilusionista, usava um vestido que parecia de um show heavy metal. Em cima era um corpete cheio de detalhes metálicos e embaixo era cheio de babados rasgados nas pontas até o chão. Ela tinha prendido o longo cabelo negro em um rabo de cavalo alto, e dançava com um homem que tinha uma máscara de lobo feita de ferro, cheia de contornos prateados e cabelos ruivo alaranjados.
Ênia, a bailarina, com um vestido feito de penas negras, e uma rosa vermelha no cabelo, dançava indiferentemente com um garoto com máscara de caveira. A máscara dele parecia ser um crânio de verdade, com rosas azuis desenhadas ao redor dos olhos, borboletas negras na bochecha e um sorriso cadavérico. Parecia saída de um festival de Dia dos Mortos no México.
Callisto dançava meio constrangido com uma mulher de tranças escuro-azuladas e máscara de cristais de gelo. Ela emanava uma aura sombria que o deixava desconfortável. Como se um baile de bilionários já não fosse o suficiente.
Isis, a leoa, conversava com um homem de máscara de corvo e duas mulheres ruivas, uma com máscara de chamas vermelhas que pareciam bem reais ao toque, e a outra com uma máscara que lembrava um rosto humano porém cheio de escamas furta-cor que tinham as cores de um pôr-do-sol.
Saga, Johanne e Alma, conversavam com (como eles se apresentaram) Livro de Mnemosyne, Lua azul, Nobre do amanhecer e Princesa da Lua. Pareciam discutir sobre como elas estavam se sentindo vivendo ali dentro.
Uma garota com máscara de gás e vestido estilo “País das maravilhas” dançava com Wei Sheng sem seguir o ritmo da música. Em vez de uma dança lenta ela fazia passos animados que ele foi obrigado a acompanhar, sem nem mesmo saber por que ela queria dançar assim.
Os gêmeos Vasiliev, que chegaram um pouco atrasados, agora dançavam em trio com uma garota que tinha cabelos coloridos e usava uma máscara de coelho steampunk. Alternavam sincronizadamente a dança já que dançar em trio era complicado.
Um estrondo interrompe os pensamentos de Satsuki fazendo ela dar um pulo e tampar as orelhinhas. Cain e Madame Sondhein apareceram embaixo de um holofote (por não estar prestando atenção neles, a felina não soube dizer se eles andaram normalmente ou tinham se teletransportado pra lá), fazendo uma reverência e em seguida se dirigindo ao público.
– Agora já podemos parar de enrolar. – Diz Sondhein animada. – Dead Line Circus tem novos membros, apesar de serem novos queremos que os tratem como tratam a nós veteranos.
– Eles vão durar se fizermos isso? – A ruiva com máscara de escamas pergunta rindo.
– Para animá-los e diverti-los, o Candelabro e a Roleta das Lâminas se uniu para fazer esse delicioso evento que chamamos de-... – A mulher continua ignorando a pergunta.
– Morte ou prazer? – Cain anuncia com um sorriso perverso estampado em seu rosto.
O malabarista atira uma faca no vazio e corta um fio transparente que ninguém tinha notado até então. Armas caem do teto penduradas por fios que as suspendem antes de atingirem o chão. Vão desde um garfo de cozinha até uma metralhadora. Machados, espadas, bestas, granadas. Os VIPs batem palmas ficando animados. Satsuki olha aflita para tudo aquilo, havia praticamente uma chuva de armas penduradas, não estava gostando nem um pouco daquilo.
– Basicamente, vamos brincar de pega-pega. Eu e Cain apenas demos nosso toque pessoal. – Sondhein continua.
– Escolham suas armas. Um tentará pegar o outro, o tempo limite é até o amanhecer, e como é de praxe: Não há regras. – Ele ri. – Como estamos falando do Candelabro e da Roleta, apenas uma perseguição não é o bastante para nós. Não, claro que não. Então, conseguimos permissão para usar uma certa coisinha que vocês com certeza irão apreciar.
– O que é? – A Rainha intocável pergunta séria, apesar de sua máscara de amazona cobrir sua expressão.
– Vai ser uma surpresa. – Cain responde.
A dona do Candelabro dirige-se até uma corda e a puxa para baixo, revelando pessoas amarradas que estavam sendo escondidas por uma cortina.
– Essas são suas presas, assim como todos que estão aqui. Agora, quem é a caça e quem é o caçador nessa brincadeira? – Ela diz provocando.
– N-Nós p-podemos a-a-atacar os VIPs? – Will gagueja.
– Claro que podem. – Cain diz como se fosse óbvio. – Se vocês conseguirem atacá-los. Não é um jeito de socializar divertido? Muitas amizades acontecem desse jeito.
– “Claro, em que mundo?” – Evanecer pensa.
– Eles vão mesmo tentar nos matar? Assim, de uma hora pra outra? – Ivan pergunta para Evanecer.
Ela não responde, não tinha certeza da resposta.
Uma música de boate começa a tocar, as hibridas tampam os ouvidos por não aguentarem barulhos altos. Sondheim não consegue evitar de mover discretamente os quadris junto a batida, já tinha dançado aquela música antes.
– Prontos? – Ela pergunta.
– Não! – Quase todos dizem ao mesmo tempo.
– 3....2....1....
– E a propósito, vamos brincar no escuro. – Cain interrompe dando um aviso de ultima hora.
Todas as luzes se apagam, até a das outras tendas. O circo mergulha num breu sem pedir permissão ou tempo. Um estrondo semelhante ao que tinham ouvido antes do discurso dá inicio à brincadeira e tiros são ouvidos na escuridão, junto a um grito e o som de coisas caindo e se quebrando.
– Corram! – Alguém grita no escuro.
Atrapalhados, as pessoas se espalham tropeçando nas coisas ou esbarrando em alguém. Som de lâminas, gatilhos e colisões são ouvidos. Satsuki, por conseguir enxergar no escuro, viu perfeitamente antes de sair correndo: Todos os VIPs pegaram uma arma.
~ ❖ ~
Marierose Forchhammer era conhecida como Rainha Intocável. Apesar dos longos cabelos loiros, seios fartos e quadril avantajado, tinha uma aura de guerreira que afastava as pessoas de si. Nunca deixou nenhum homem ou mulher lhe tocar. Sempre com sua expressão zangada ou séria demais, eles se distanciavam frente à sua presença. Sua máscara de amazona era simples em tudo, sem ornamentos, símbolos ou marcas. Uma amazona era mesmo apropriada para descrevê-la.
Conseguiu pegar uma cimitarra com cabo de couro na hora da confusão. Não tinha experiência com espadas, mas isso pouco importava. Na hora do desespero até uma pedra pode ser uma arma mortal.
Não conseguia enxergar nada por causa do escuro perturbador que tinha engolido o circo, não via nem as próprias pernas, imagine então uma pessoa chegando armada pra cima de si. Só podia confiar em seus outros sentidos, que pareciam se embaralhar frente à batida ensurdecedora de seu coração. O medo e a ansiedade a confundiam lhe gelando o sangue e dando alarmes falsos. Fazia um bom tempo que não se sentia assim, no momento estava dizendo a si mesma que processaria o desgraçado que teve essa ideia psicótica e absurda, tinha um sentimento de pavor em seu peito, mas quando chegasse em casa e aquilo tivesse terminado, provavelmente estaria rindo da situação em que se meteu relembrando cada coisa que fez e sentiu.
Ouviu passos correndo contra o chão à sua frente. Pelo barulho estavam vindo em linha reta até sua direção. Como não podia enxergar ao certo, estendeu sua cimitarra para o lado tentando cobrir um pedaço maior do caminho e esperou. Os passos se aproximaram, provavelmente a pessoa que corria também não conseguia vê-la, pois passou zunindo pela lâmina que quando encostou em seu corpo, obedeceu sua dona cortando a carne do oponente quando ela sentiu onde ele estava.
– Ai!
Ela ouviu o baque de um corpo cair.
– Quem é? Quem está aí? – Aegeon pergunta segurando o corte feito em sua costela com uma mão.
Passos de botas com salto são ouvidos aproximando-se do loiro. Ele sente um perfume feminino chamado Imperial Majesty, reconhecendo por sua mãe também ter usado-o em ocasiões especiais.
Ele não acreditava em fantasmas, por isso não queria ser morto com a duvida de ser ou não sua mãe. Levanta-se e ataca o rosto da mulher, sentindo a máscara em seus dedos e retirando-a. O cabo da cimitarra o joga para trás afastando-o com violência.
Aegeon acende um fósforo e mira a luz em sua oponente. Encontra uma mulher com um lindo porém sério rosto feminino. Tinha longos cabelos loiros com uma faixa azul para mantê-los no lugar e uma franja que caia em camadas por sua testa. Seus hipnotizantes olhos safíricos tinham a cor azul do mar, e seus lábios formavam uma linha reta que parecia nunca ter dado um sorriso. Trajava um vestido vermelho com detalhes em ouro, que era aberto na parte dos seios fazendo-os saltarem para fora cobertos apenas pelo sutiã.
–Sua caçadora. – Marierose responde levantando a espada.
O fósforo se apaga e tudo fica escuro novamente.
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