Dead Line Circus - Interativa
13 Morte ou prazer?
Notas iniciais
“Águas calmas não fazem bons marinheiros.”
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Quando a chama se apaga, seu coração treme. Tinha uma espada vindo em sua direção naquele escuro e ela teria uma mira perfeita. Suas mãos se afundam no chão numa tentativa de ser engolido pela terra e sair dali. Ele era Aegeon Parthenios, o único que sabia viver a vida em todo o seu esplendor. Não era? Não podia acabar assim.
Quando ouve a lâmina cortar o vento, joga os braços em frente ao rosto por puro reflexo. Escuta um grunhido por parte da moça logo em seguida e o som da espada atingindo o chão. O que aconteceu?
Não havia tempo para pensar, devia correr.
Aegeon se levanta, colocando uma mão no corte feito em sua costela e sai correndo em disparada pra qualquer direção. Não podia enxergar nada mesmo, fazia diferença pra onde ia?
A verdade é que Aegeon, quando fincou suas mãos no solo, tinha pego um punhado de terra entre os dedos e quando moveu os braços para proteger seu corpo, tinha acidentalmente lançado a areia no rosto de Marierose, cuja máscara havia sido removida pelo acesso de raiva do garoto. Infelizes coincidências que o permitiram sobreviver.
Aegeon corria, tropeçando por ter que andar rápido com aquele ferimento, mas ainda assim correndo. Dentro de pouco tempo, ele ganha uma distância considerável. Onde estava? Não sabia. Para apenas por um momento para respirar e naquele pequeno minuto alguém vem correndo em sua direção, trombando com ele e caindo no chão.
— Quem está aí? – uma voz feminina se faz ouvir.
Aegeon reconhece a voz.
— O acrobata loiro mais lindo que já pisou nesse palco.
— Aegeon?
— E aí Tzvetana? Admitiu na hora que eu sou lindo de morrer.
— Te reconheci pela sua voz. Ei, você não viu o Cain por aí?
— Eu não consigo ver nem meus próprios pés, imagina então o Cain? Aliás, quem era Cain mesmo?
— O malabarista de facas. Você devia prestar mais atenção!
— Foi mal. Se eu vir alguém fazendo malabarismos com armas eu vou chamá-lo de Cain e dizer que você o está procurando.
— Deixa pra lá, já achei você – ela diz lançando um olhar cúmplice para ele. – Vem, vamos procurar umas armas pra nos defendermos – Tzna diz se levantando.
Aegeon se levanta também, ainda com a mão no corte em sua cintura. Que bom que ela não podia vê-lo, odiaria se mostrar fraco na frente de uma garota.
Os dois caminham lado a lado, com o loiro olhando preocupado ao redor com receio da mulher com a espada aparecer de repente.
Corta, corta. Um som de tesouras se ouve. Tzvetana o escuta e corre na direção do som.
Uma lamparina a óleo estava acesa e pousada em um caixote, iluminando a silhueta dupla e fundida de dois pierrots. Tzvetana os conhecia bem, já tinham feito várias piadas para ela, eram caras legais.
— V, D, que alivio.
O rosto com marca de lágrima vira-se pra ela e a loira se assusta. Pela primeira vez desde que o viu, D estava sorrindo.
O irmão logo se vira para eles também, V e D sorriam perversamente com os olhos arregalados e os sorrisos tão largos que lembravam um gato de Cheshire. Eles viram seu corpo para ficar de frente com os dois e a dupla logo vê que havia um corpo nu com os olhos furados, a cabeça raspada e um sorriso largo costurado em sua face atrás deles. Não só o rosto, como também o corpo, os braços tinham sido amarrados em volta do tronco como se usassem uma camisa de força e na base de cada dedo das mãos haviam costuras como se alguém tivesse arrancado os dedos e costurado de novo.
— Ei, vamos brincar? – os pierrots perguntam ao mesmo tempo.
Aegeon dá um pequeno passo para trás, como reflexo para aumentar sua distancia de segurança e esse mínimo movimento impulsiona os pierrots na direção dos dois. Tzvetana grita e sai correndo, sendo seguida lado a lado por Aegeon e perseguida pelos pierrots.
V levava nas mãos uma agulha e carretel de linha, enquanto D se armava de uma tesoura de poda. Os braços deles estavam esticados na direção do casal, correndo com velocidade atrás deles sem tirar o sorriso do rosto e a expressão ensandecida.
Conforme corriam, Aegeon perdia a velocidade. Estava ferido e a dor aumentava o fazendo perder a velocidade.
D lança sua tesoura de poda nas pernas dele e Aegeon cai gritando de dor, dois pares de braços o agarram grudando-o contra seu corpo duplo e sentando com ele firmemente preso em seu abraço. O loiro vê as faces dos gêmeos a uma mão de distancia da sua e treme de medo. Era diferente das vezes em que ele encarou a morte de perto, não era como as vezes em que matava um animal quando ia caçar com o pai, ou quando jogou seu irmão mais velho da janela e o viu ser empalado pelas grades do portão, nem quando atacou sua mãe e dançou durante três dias seguidos em frente ao seu corpo. Não, essa morte o enchia de pavor em vez de excitação.
Engolindo o orgulho, Aegeon grita o nome de Tzvetana libertando um braço para pedir ajuda, mas ela já havia sumido na escuridão. Ele observa o caminho vazio e escuro que se estendia à sua frente com um estranho sentimento de vazio em seu coração.
A tesoura de D adentra sua boca e corta os dois lados de sua bochecha, fazendo o sangue quente escorrer pelo seu pescoço. Ele grita, mas V logo trata de costurar os seus lábios.
— Te deixo escolher a cor do próximo. Prefere preto ou vermelho? – V pergunta mostrando dois carretéis de linha.
Enquanto esperava por uma resposta, D ia cortando a pele de Aegeon. Cortou os dedos do pé, os dedos da mão, abriu os seus pulsos, perfurou sua barriga, etc. Aegeon, sem conseguir gritar, se debatia como um peixe, tentando inutilmente escapar daquele abraço.
— Então eu mesmo escolho pra você – V diz pegando o carretel vermelho e costurando tudo o que D abria.
Enquanto um cortava de um lado, o outro costurava do outro. Sangue e linhas se espalhavam pela pele branca do menino, até ele ficar parecido com um boneco de pano costurado por uma criança de quatro anos. Até seus cabelos tinham sido cortados, e os tufos sendo costurados por cima das raízes anteriores.
Os pierrots o jogam em cima de um caixote colocando-o sentado como um boneco sorridente e saído do hospício. D beija sua pálpebra esquerda e V beija a sua direita, ambas com as costuras em vermelho, e saem aos pulinhos como duas crianças.
O peito de Aegeon ainda subia e descia com a respiração entrecortada, ele ainda estava vivo. Lágrimas vermelhas escorrem por seus olhos fechados e só quarenta minutos depois ele ouve o som de passos se aproximando dele.
Atrás das pálpebras ele vê o preto mudar para vermelho, sinal de que a pessoa estava com alguma lanterna. Escuta o cão de uma arma ser engatado e então um tiro certeiro no meio da testa finalmente o trás alivio.
Um VIP com máscara de caveira mexicana abaixa sua arma depois do tiro e se aproxima do corpo. Acaricia de leve a cabeça raspada e toscamente costurada do menino com um toque quase maternal.
— Já pode dormir agora. Esse mundo não tem mais nada a oferecer pra você – Caveira das flores mortas diz num sussurro, desejando que ele pudesse ter ouvido.
~ ❖ ~
Em meio à gritos, pedidos de socorro e o som de tiros que se ouviam à distancia, Satsuki caminhava em cima de tendas cobertas pela escuridão. As orelhinhas se moviam como radares, captando tudo o que acontecia naquela noite, e ela abanava a cauda quando escutava algo que gostava.
— Como são animados, nyan. Parece até que estão brincando de pega-pega mesmo – ela comenta consigo mesma com seu tom de voz agudo e infantil.
Fecha uma das mãos em concha e passa por suas orelhas para ajeitar os fios arrepiados, lambendo as costas dela como um felino faria.
— Vai demorar tanto pra isso acabar... Acho que vou brincar com alguma coisa até lá – ela chega na ponta da tenda onde estava e olha para frente. – Nya-...nyani-...nyanê. – ela aponta para três tendas diferentes à sua frente – Eu-escolhi-você~♥
Ela respira o ar fresco da noite uma ultima vez e salta de onde estava, entrando na Caixa de Brinquedos.
Um homem desesperado tentava colocar balas em sua espingarda enquanto suas mãos tremiam e deixavam as coisas caírem apenas para atrasar o seu recarregamento, ele tentava se acalmar, mas não conseguia, suas mãos não colaboravam para sua sobrevivência. Devia ter uns 30 ou 40 anos, pelas roupas simples e a aparência que lembrava um pai de família, foi facilmente identificado como um Comum, provavelmente um dos que estavam amarrados e amordaçados no baile.
Enquanto seu coração martelava em seus ouvidos, ele tentava prestar muita atenção se algum som de passos se aproximava de onde ele estava. Não conseguia enxergar nada por causa do escuro, então tinha que confiar em seus ouvidos, embora sua imaginação o fizesse imaginar coisas ao mínimo estalo.
Ele não ouviu nada e nem viu alguma coisa, mas sentiu uma “presença” de repente que o fez virar a cabeça e encontrar olhos brilhantes encarando-o no escuro. Olhos felinos e amarelados que brilhavam feito neon.
— Um gato... – ele constata baixinho ainda muito assustado. Mexe o cano da espingarda e faz barulhos tentando afugentá-lo – Shh, shh...
Os olhos se aproximam em vez de irem embora e risinhos perversos são ouvidos. Com o desespero subindo por seu peito e a confirmação de que devia ser humano, ele atira no intruso, caindo para trás devido ao coice da arma, e continua atirando mesmo depois de ter caído, perseguindo os olhos que deslizavam pelo escuro.
Risinhos, risinhos, risinhos, até os olhos se apagarem. Ele se levanta apontando a arma em volta de si. Matou? Ele matou? Ou não matou? Continua mirando a arma para a escuridão sem saber onde devia mirar. Um silêncio perturbador se instala e até o vento parece ter parado, ele está sozinho com sua própria respiração e batimentos cardíacos.
— Buu!!
Algo pula em cima dele e com o susto ele grita atirando para o alto. É arranhado repetitivamente por alguma coisa que parecia imitar uma onça afiando as garras em suas costas enquanto ronronava como se estivesse brincando.
— SAIA! SAIA! ME DEIXE EM PAZ! EU NÃO FIZ NADA!
Depois de dez ou doze passadas, os arranhões enfim cessam abruptamente e ele escuta que a criatura deu um pulo para o lado, afastando-se dele dois passinhos para trás.
Ele chora, de dor ou de felicidade por aquilo ter parado, nem ele sabia mais. É então que uma chuva cai em cima de seu corpo e ele se assusta devido ao contato com a água repentina, água com um cheiro estranho e ao mesmo tempo muito familiar. Um sopro de fogo chega iluminando sua visão com uma nuvem de labaredas. Havia um lança-chamas nas mãos de um homem mascarado e de repente seu corpo está pegando fogo.
Satsuki observa aquele homem gritando enquanto bate em si mesmo tentando apagar o fogo, levando as mãos à cabeça e rolando no chão em agonia. Ele grita tão alto e desesperadamente que ela tem que tampar suas orelhinhas devido ao barulho alto.
“Nyaan. Grite com mais refinamento.”— Ela pensa emburrada.
Com ele rolando e gritando feito uma bola de chamas, ela se aproxima uma vez dele e bate com uma mão em seu corpo fazendo-o mudar de direção, então corre para o lado que ele está indo e bate de novo, rolando-o para outro lado. Brinca com ele como se fosse uma bola de lã, rolando de um lado para outro.
Satsuki abana sua cauda peluda totalmente entretida com a brincadeira, tanto que até se esquece do homem com lança-chamas que se aproximava dela. Quando sente algo apertar o seu pescoço, fica sufocada e se debate tentando arranhá-lo, dentro de três minutos ele a solta e ela salta para longe dele chiando em alerta.
Usava uma máscara então era um VIP. Era uma máscara dourada completamente plana e reta, não tinha rosto apenas um piso cercado por cercas de arame farpado, nem mesmo buracos para os olhos ela tinha. Era feita de um material que permitia enxergar pela parte de dentro, mas não pela de fora. Os cabelos dourados somados à máscara davam a impressão do rosto dele ser um sol aprisionado em arame farpado.
“Nobre do amanhecer”. Era assim que o chamavam.
Satsuki ainda chiava em alerta, vendo ele colocar um galão de gasolina no chão ao seu lado. O VIP conseguia vê-la graças à fogueira ambulante que gritava em agonia ao lado da gata.
— O que é isso? Está tentando me seduzir? – ele fala se referindo ao fato dela andar apenas de lingerie.
— Nyan? Eu nem vi que você estava aqui.
— Escutei o som de tiros por perto e vim queimar quem ganhou. Você não devia ter pulado de cima dele, eu queria queimar os dois juntos – ele faz um muxoxo. – Bem, agora vai ser um desperdício. Tem uma gata de roupas intimas na minha frente e estou querendo vê-la pegar fogo de outro jeito.
Os olhos de Satsuki se expandem e ela abre um sorriso malicioso. Levanta-se ereta, pega o homem queimado por um dos pulsos e caminha até o VIP com uma mão na cintura.
— Meu corpo já é naturalmente quente, por isso não suporto roupas que cobrem demais – Já perto dele, ela põe a mão atrás de sua nuca e o puxa para perto. – E quer saber? Eu só faço o que quero com quem eu quero.
— É mesmo? – ele escora o lança chamas em uma perna e usa uma mão para tampar puxar uma das orelhas da felina, enquanto com a outra levanta uma parte de sua máscara – Então não preciso me segurar perto de sua arrogância.
O homem beija a felina sem que ela veja o seu rosto. Quando ele aprofunda o beijo, ela morde seu lábio inferior e suas presas abrem um filete de sangue nele, fazendo-o quebrar o contato.
— Não gosta de sentir dor? – ela provoca com um sorriso debochado – Eu não sou de estimação, não afio minhas garras por arrogância.
Ela se afasta e ele recoloca sua máscara, certificando-se de que ela não veja seu rosto. Satsuki separa um braço do homem queimado e joga-o para o Nobre do Amanhecer, o homem finalmente tinha parado de gritar, inclinando-se para o resto do corpo e rasgando os músculos queimados com suas presas, Satsuki se apodera de sua carne.
— O resto é meu.
Ele solta um riso. A gata estava literalmente comendo alguém na frente dele, sem se importar de ter plateia ou um convidado armado observando.
— Hum, estou curioso com a sensação de ser comido vivo. Quando acabar seu churrasco de carne inferior, vamos brincar mais um pouco?
A neko move as orelhinhas.
— O que tem em mente nyan?
— Já ouviu a frase “Quem não tem cão, caça com gato”? Quero que seja minha cadela temporária, adoraria aumentar meu número de presas.
Ela gira o pescoço mostrando uma expressão entediada.
— Vai ter que me recompensar no final.
~ ❖ ~
Uma VIP de 14 anos entrava animadamente em Fantasia, o território do Mago. Tinha cabelos castanhos e uma máscara de ursinho pardo, a máscara lembrava uma versão mais fofa e infantil do animal normalmente considerado perigoso. Trajava um leve vestido de verão verde-água cuja saia ia até um pouco acima dos joelhos. Usava uma gargantilha negra rendada, com um pingente feito de uma pedra azul escura com pontos brilhantes que lembravam um céu estrelado, com constelações, galáxias e estrelas solitárias.
— Venha logo irmã. Não seja medrosa.
Uma garota mais alta, com máscara de urso semelhante e um simples vestido branco, entra logo atrás da pequena.
—Não me pressione Ade-
A pequena dispara um flash de luz vindo de sua máquina fotográfica cegando momentaneamente a irmã. Elas não deviam usar seus nomes verdadeiros ali dentro, coisa que a mais velha constantemente se esquecia.
—Desculpe, desculpe. Você fica me superestimando Sombra das estrelas – a mais velha diz com um tom entre o cansado e entediado.
— He, he, preciso de uma assistente para minhas investigações sherlockianas. Certo, Watson?
A mais velha suspira em discordância.
— Vamos, vamos. Temos que conseguir muuuuitas fotos.
Relutantemente a mais velha a segue, ficando atrás da menor como um animal acuado. Como era a mais velha era sua responsabilidade sempre cuidar da caçula, no entanto sempre se metia em enrascadas quando tinha que acompanhá-la. Sombra das Estrelas não parava quieta, ela não gostava de mistérios, por isso tinha que solucioná-los, e nada do que ela dissesse a menor a fazia mudar de ideia. Teve que ser corajosa pela irmã, mas era pior do que ela em lidar com encrencas.
— Você ao menos sabe onde nós estamos?
— Com quem acha que está falando mocinha?
A mais velha suspira aliviada. Que bom que não estava perdida.
— Eu não faço a mínima ideia, é isso que torna tudo tão divertido – a mais nova completa.
A maior geme em desaprovação.
— Ursa Maior e Sombra das Estrelas? O que estão fazendo aqui?
A pequena usa o flash para iluminar o ambiente e encontra Erich, o domador de cabelos verdes, que semicerra os olhos com a luz.
— Ah, que bom! Estamos na Selva das Bestas – Ursa Maior diz contente por ter se localizado.
— Não, o cenário é do Fantasia. Estamos no palco do Mago – Sombra das estrelas constata. – E você Erich? O que está fazendo aqui?
— Participando, é claro. Quando vi que estavam praticando canibalismo me senti inspirado a participar também.
— C-canibalismo? – as duas dizem juntas.
Ele sorri apesar delas não conseguirem ver.
— Vocês querem ser as nossas primeiras?
Uma multidão de olhos brilhantes avermelhados se abre na escuridão olhando para elas. As bestas de Erich. Ele não estava sozinho afinal.
A menor coloca a câmera no rosto e tira uma foto. Iluminando as dezenas de animais semi-mortos do domador. Feras com os ossos das costelas sobressaindo os músculos, pêlos desgrenhados e grosseiros, dentes arreganhados com saliva escorrendo pela boca, garras e os olhos avermelhados carregados de ira e selvageria.
— Corre!
A Ursa maior pega sua irmãzinha pela cintura e sai correndo do lugar com ela. Adeline, que foi pega ao contrário, continua a tirar fotos dos animais-zumbis enquanto sua irmã a carrega.
— Erich fica mais lindo a cada dia, não acha?
— Cale-se! – a mais velha diz irritada, sendo perseguida pelas feras.
Lobos, carneiros, cervos, crocodilos, zebras, muitos animais perseguem as duas, pelos olhos raivosos estava claro que não iam desistir da presa, mesmo os herbívoros pareciam ter o instinto assassino dos predadores. A pequena observava as patas corroídas por mofo e os músculos aparecendo onde a pele tinha caído e se perguntava como eles ainda conseguiam correr naquelas condições.
Erich aparece em meio à manada montado em um corcel negro que tinha mais ossos aparecendo do que pele. Parecia um Dullahan. Carrasco e Ditador, seus leões favoritos, o acompanhavam em sua corrida.
Que tristeza. A juba outrora cheia e reluzente dos leões agora estava escurecida e manchada de sangue seco, também parecia ter diminuído sua pelagem. Ao contrário dos outros que pareciam ter mais carne exposta do que pele, estes leões eram só pele e osso. Estavam excessivamente magros e fracos, a pele tinha manchas escuras e seus ossos apareciam com mais frequência. Pareciam ter sido assolados por alguma praga desconhecida que os corroía aos poucos. Era de dar pena, animais tão cheios e imponentes acabarem daquele jeito. Se não estivessem sendo perseguidas pelos dois para um lanchinho, a garota teria ficado com mais pena do que medo.
— Irmã, você sabe que ali tem animais mais rápidos que humanos, não sabe?
— E eu tenho outra opção além de correr? Pare de tirar fotos! Está os irritando mais ainda.
— Irmã bobinha, em uma corrida perderemos fácil, fácil.
— Tem uma ideia melhor?
— Tenho, vire à esquerda.
A maior obedece, se foi a pequena que as colocou naquilo ela que as tirasse.
— Agora direita. Isso continue. Na próxima esquina vire à direita e pule pra dentro da porta.
A mais velha obedece e bate de cara na madeira.
— Er.... Abra a porta e depois pule nela.
A pequena se levanta e a arrasta para dentro do lugar, trancando a porta em seguida. Já era, Ursa maior tinha desmaiado. Coloca ela sentada em um cantinho e dá uma boa olhada ao redor.
— Essa maldita escuridão está me irritando, quando é que meus olhos vão se acostumar? – Reclama consigo mesma.
— Do jeito que você está correndo de um lado para outro eu diria que uns 20 minutos.
A menina ativa o flash.
Encontra uma garota de cabelos brancos e vestido de lolita com rendas negras. Usava uma máscara de vampiro, onde a face era branca como a lua e a boca se abria em lábios vermelhos, com as presas em destaque e dos olhos escorria sangue.
— Porcelana de sangue?
— Oi Sombra das Estrelas.
A albina segura as barras de seu vestido e faz uma reverencia, acompanhada de um balançar de cabeça tímido da menina com máscara de urso.
— Sua câmera me irrita, por que trouxe isto pra cá?
Hora da desculpa.
— Queria tirar uma foto minha com o Mago, de recordação sabe. Eu não sou muito boa desenhando, então queria ter alguma coisa pra admirar o rosto dele.
— O Mago? Que gosto horrível.
— Quem você escolheria se pudesse?
— Magnus é claro. Ele anda sempre com aquele ar sombrio de quem esconde muitos segredos e sua lealdade é inquestionável. Consegue imaginar como seria se você estivesse no lugar do mestre e toda aquela devoção fosse destinada para si? Seria incrível.
Isso! Um ponto para a ursinha por mudar de assunto.
— É, né? Ele também tem suas qualidades.
— Quero encontrar meu irmão, aposto que ele está com alguma mulher nesse momento. Você cuida dela pra mim? – Porcelana de Sangue abraça um dos braços da menor como se fossem velhas amigas.
Existia uma quarta pessoa ali dentro. A garota não tinha percebido isso pois estava concentrada na vampira e a outra estava tão quieta que parecia não querer ser notada. Os cachos de cabelos azulados eram indistinguíveis.
— Ah! Dela? Cuido sim.
— Valeu, eu te recompenso na próxima.
Porcelana de Sangue sai pela porta e a menor se aproxima da azulada.
— Posso te ver? – a azulada pede.
Mnemosyne tinha um problema de visão. Ela não era cega, mas sua visão era muito fraca, fazendo-a ter que verter a imagem das pessoas com suas mãos para dar formas definidas aos seus olhos. Ela sempre treinava-os através de desenhos para não precisar ter tanto contato com os outros, mas sua terapia ainda estava longe de acabar.
— Claro – a pequena se coloca na frente dela.
Livro de Mnemosyne alisa a máscara de sua companhia, passando para os cabelos, os ombros, os seios e a cintura.
— O que está fazendo aqui Livro de Mnemosyne?
— O mesmo que você, colhendo dados.
A menor gela.
— Não estou colhendo dados, estou fazendo recordações.
— Eu sou uma detetive, se quiser me enganar vai precisar fazer melhor.
A polícia? A morena começa a suar frio, se lembrando de todas as coisas que tinha feito desde que entrou e avaliando se algo poderia ser usado contra ela. Não, ela ainda não tinha matado ninguém, se limitou a assistir os shows, mas não a participar, estava segura?
— É uma brincadeira? Deveria tomar cuidado com o que fala, tem muita gente que te mataria só de desconfiar que fosse verdade.
— É verdade. Estou investigando os desaparecimentos.
— Então por que me contar isso? Não é muito sábio para uma policial. Eu poderia te matar agora mesmo.
— Você costuma ficar distante. É uma boa pessoa com o defeito de ser curiosa demais. Eu estou pensando em trocar informações com você.
— Pra investigarmos juntas e depois você me prender? Eu não nasci ontem, contrate seu pessoal.
— Nenhum deles conseguiu se tornar VIP. Mesmo que eu recomende e tente convencer Magnus a deixá-los entrar, eles são incompatíveis. Já tentei todos os ricos que conhecia, nenhum tinha as características permitidas.
— Por isso precisa de um rico que seja normal, já esteja aqui dentro e esteja disposto a ajudar? Não sou suicida, muito obrigada.
— Não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo, preciso de ajuda. Divido as informações que conseguir com você, caso aceitar.
Sombra das Estrelas fica interessada. Informações confidenciais da polícia que ainda não foram a público? Seu quebra-cabeça de enigmas circenses ficaria mais divertido se tivesse mais peças.
— Tentador. Me dê um tempo para pensar, tomar decisões no calor do momento é péssimo, mas caso eu aceite, também tenho minhas exigências.
— E quais seriam elas? – Mnemosyne fica desconfiada.
A ursinha dá um sorriso malicioso por trás da máscara. Puxa sua arma, uma pistola Beretta M92F carregada, e mira na testa da azulada.
— Quer mesmo saber?
~ ❖ ~
Tzvetana corria apavorada. Tinha abandonado um amigo? Tinha. Mas não havia nada que pudesse fazer. Ele foi pego em um abraço mortal e V e D eram muito mais fortes que ela. Dois homens em um só compartilhavam sua força. Se fosse pelo menos um podia dar um jeito de acertar a cabeça dele ou então chutá-lo para dar uma chance de Aegeon escapar, mas eram dois! Enquanto dava cabo de um podia ser atacada pelo outro, da mesma forma, enquanto Aegeon fugia de um podia ser preso pelo outro. Em vez de um resgate, só estaria pulando de cabeça na mesma armadilha, e ela não queria isso.
Entra correndo na Roleta de Lâminas torcendo pra ainda restar alguma arma pendurada naquelas cordas. Nem todo mundo devia ter pego, ela por exemplo não pegou, então devia ter sobrado alguma. Com grande desilusão ela encontra os fios pendurados completamente nus, vazios. Deviam ter VIPs que pegaram mais de uma arma.
“Malditos bastardos gananciosos.”— ela xinga em pensamento.
Olha ao redor com mais atenção e encontra uma. Uma única arma solitária um pouco mais afastada, iluminada fracamente por um feixe de luz. Vai correndo para ela sem pensar duas vezes e seu pé é pego por uma armadilha de ursos escondido nas sombras. O aparelho de metal com dentes de ferro quebra o osso de seu tornozelo e ela grita de dor caindo ao chão.
— Era uma armadilha tão óbvia.
Um homem com máscara tribal, metade branca com três lágrimas negras e a outra metade negra com três lágrimas brancas, sai de seu esconderijo anotando alguma coisa em um livro. Tinha cabelos roxeos e ondulados que lembravam uma rosa de ponta cabeça, as raízes do cabelo eram mais escuras e iam clareando conforme chegavam nas pontas.
— Me tira daqui! Eu exijo que me liberte seu rico maluco.
— “Exige”? – ele entorta a cabeça para o lado.
Um riso atrás dele se ouve e Erich se revela com um sorriso dócil. Olhava para Tzvetana com indiferença mortal apesar do sorriso.
— Erich? Erich! Que alivio. Me ajuda, estou presa.
— Não sou cego Sultana, estou vendo a armadilha. Se quer sair daí vai ter que roer o próprio pé.
O VIP anota alguma coisa em seu livro.
— Do que está falando? Me ajuda! Eu nunca fui ruim com você.
— Apenas com minha família.
As bestas saem do escuro e se aproximam vagarosamente da loira, rosnando ansiosas pela vingança que aplicariam nela devido a seus momentos de abrir e torturar animais inocentes. Mesmo que ela não tivesse feito isso, se Erich quisesse que ela fosse atacada as feras atacariam, não precisavam de motivos para aliviar o stress em qualquer um que fosse inimigo de Erich.
— Não. Espera, por favor. Eu vou parar, me perdoa.
O domador lhe dá as costas com um sorriso satisfeito. As Bestas a circulam e a atacam enquanto ela grita e tenta se desvencilhar delas. Lobos mordem suas coxas e balançam a cabeça tentando arrancar o pedaço de carne do esqueleto, um dos leões morde sua cabeça colocando uma de suas pesadas patas no ombro dela para mantê-la no lugar, os demais animais alternam entre atacar com as presas ou as garras, deixando apenas um corpo destroçado no final.
Delator, um dos leões, esfrega sua cabeça nas pernas de Erich como um felino pedindo atenção e ganha um carinho atrás da orelha rasgada.
— Desculpe, te darei uma carne de melhor qualidade na próxima – o domador diz com um olhar triste.
~ ❖ ~
Debaixo da bancada da Casa de chás, Sheng se encolhia em um cantinho escuro soprando as pontas de seus dedos para se aquecer. Apesar da noite estar quente lá fora, por algum motivo a Casa de chás sempre permanecia em um constante frio, quase como um lugar mal assombrado por espíritos gelados, mas ele não iria sair dali.
O sino em cima da porta toca sinalizando que alguém entrou ali dentro e Sheng prende a respiração. Dois homens, um com máscara de gás e outro com máscara de caveira mexicana.
O de máscara de gás olha em volta e então caminha até uma das mesas e deixa um pacote lacrado em cima dela, o segundo contorna a bancada, segurando uma lanterna, e vai até um pequeno vaso asteca guardando algumas rosas para observá-lo melhor. Passa os dedos pelas figuras e símbolos únicos daquela escultura e retira as flores de seu interior, deitando-as no lugar onde o vaso estava, depositando um bolo de notas e levando o artefato consigo. Quando vai pegar a lanterna, a luz ilumina um vislumbre do chinês escondido e ele a redireciona para ele a fim de ter certeza de que havia mais alguém ali.
Sheng vê olhos vazios por trás da máscara de caveira, ausentes de qualquer emoção. A máscara era bela, tinha que admitir, branca feito a lua, no lugar dos lábios, uma linha de uma ponta do rosto à outra com desenhos de costuras ou talvez imitação de lábios rachados, ao redor dos olhos, havia pétalas de rosas azuis; borboletas negras voavam pela sua bochecha esquerda em um voo leve e vibrante, apesar da máscara parecer animada tinha um toque sombrio, talvez por que seu material parecia ser feito de ossos de verdade.
— Imperador – ele chama.
O outro atende ao chamado e se aproxima do que segurava a lanterna, percebendo o chinês escondido no cantinho. Ele caminha até lá e se abaixa na altura do oriental, analisando o rosto de Sheng.
— Parece que fomos descobertos. O que está fazendo aqui? – O homem da máscara de gás pergunta.
Uma mínima mudança em sua face fez Wei perguntar o mesmo.
— Eu vim entregar uma coisa ao Magnus – o maior se adianta. – Pensei que ele estaria aqui, mas pelo visto deve estar lá fora. – ele fala olhando para a porta pensativo e então voltando a olhar para o chinês – Qual seu nome?
— Wei Sheng.
— É um belo nome, bem forte – ele diz amavelmente. – Eu sou o Imperador de Vidro, mas você pode me chamar de Johan se preferir.
Tanto Wei quanto o outro VIP arregalam minimamente os olhos ao ouvir seu nome.
— Está tudo bem dizer seu nome assim? – o da máscara de caveira mexicana pergunta.
— Tudo bem, esse é apenas meu primeiro nome, não disse meu sobrenome e nem mostrei meu rosto então não haverá problemas. Quantos Johans devem existir por aí, não é?
O outro parece pensar por um segundo.
— Sim... de fato – o segundo olha para Sheng percebendo que ainda não tinha se apresentado. – Você pode me chamar de Caveira das flores mortas – ele diz e dá uma pausa, desviando os olhos para outro lado – ou Narciso, se preferir.
Atrás da máscara, o Imperador de Vidro sorri orgulhoso.
— E você? Por que está aqui? Ainda não disse – ele fala se virando para Sheng.
O chinês pensa em que tipo de resposta deveria dar. Naquela situação, a verdade seria mais lógica do que qualquer mentira que pudesse inventar.
— Para me proteger.
O maior arqueia uma sobrancelha por trás da máscara, fazendo um gesto para ele continuar.
— Esse massacre tem um limite de tempo – o chinês explica. – Qualquer um que prestou atenção pode perceber. Cain e Sondhein disseram que o jogo terminaria ao amanhecer, então também pode ser considerado uma prova de resistência para os mais fracos. – ele faz uma pausa – De frente com outra pessoa armada eu não teria chance, não me orgulho disso, mas não sou forte o bastante para entrar em uma briga e vencer. Um jeito de sobreviver é se esconder e esperar até o nascer do sol. Pensei em vir até aqui pois a Casa de Chás de Magnus seria provavelmente o ultimo lugar que alguém iria querer entrar em uma noite como essa, por ser o mais perigoso é o mais evitado e mais seguro.
— Se acha isso por que não acendeu as luzes para se aquecer?
— O escuro ajuda a esconder. Como todas as luzes estão apagadas as pessoas vão se guiar para algum lugar com luz em busca de inimigos ou então de conseguir enxergar alguma coisa além da escuridão. A luz atrairia pessoas para cá e elas me encontrariam. Prefiro passar uma noite no escuro sentindo frio do que me esquentar na luz e ser morto por uma bala – os olhos dele se nublam com a ultima frase.
— Você pensou bastante nisso, gostei. Permita-me ajudá-lo em seu plano de sobrevivência.
Imperador de Vidro apaga a luz da lanterna e abre um espaço se sentando ao lado de Sheng. Um ruído se faz ouvir e o chinês sente ele pegar sua mão, bafejando nas pontas de seus dedos para aquecê-las e esfregando suas mãos entre ela para manter o calor. Se conseguia sentir seu hálito quente, isso só podia significar uma coisa: ele tirou a máscara de gás.
— Não é a toa que te chamam de Imperador de Vidro, há transparência em tudo o que você faz – Narciso reclama. – Você vai se arrepender.
— Vocês não estão me vendo, estão? Eu rio por ultimo.
— É um risco bem grande tirar sua máscara por qualquer razão. Um feixe de luz e é só o que alguém precisa pra acabar com sua reputação.
— Pegue as mãos dele Cavei... Narciso, veja com seus próprios olhos.
O mexicano revira os olhos azuis da cor do mar e se senta ao lado de Sheng, pegando sua mão esquerda e entrelaçando seus dedos entre os seus.
— Você... é bem magro – ele constata surpreso. – Há quanto tempo não come alguma coisa?
— Ultimamente estou comendo mais, desde que entrei aqui Arman me deixa comer várias coisas. Depois dos treinos ele me dá lanches e durante as refeições divide sua comida comigo – ele se lembra do rolinho roxo da ultima refeição. – Se é que aquilo é comida.
— Vê? Com esse corpo fraco ele iria ficar doente facilmente dormindo nesse frio. Nada como o calor humano para manter sua temperatura quente — Imperador de Vidro sorri — Além disso, estamos no lucro dividindo esse esconderijo, vamos sobreviver e se alguém aparecer temos a vantagem numérica.
Caveira das flores mortas afirma com a cabeça e vira sua face para o outro lado, não ajudou a esquentar mais depressa as mãos frias do chinês, mas manteve seus dedos entrelaçados aos dele, uma forma mais singela de ajuda.
— Você... não está pretendendo roubar esse vaso do Magnus, está? – Sheng pergunta se lembrando do vaso asteca que ele pegou.
— Não vou roubá-lo, só estou comprando adiantado. Eu deixei o dinheiro, quando encontrar o mordomo eu explico.
— Você é louco ou o que? – Imperador de Vidro ri.
— E existe alguém normal? – Narciso diz num sorriso atrás da máscara, fazendo um cumprimento com as mãos de Johan.
Sheng balança a cabeça suspirando, aquele garoto estava literalmente colocando um alvo no peito.
Dentro de dez ou quinze minutos, estranhas flores fluorescentes começam a brotar do meio da madeira do piso, se abrindo com velocidade anormal e fazendo suas pétalas brilharem no escuro.
Ao observá-las, Wei sentiu seu coração bater mais rápido, não de medo ou desespero, mas de excitação.
— O que é isso?
Narciso se aproxima de uma delas e sente seu perfume, era estranho, doce e ácido ao mesmo tempo, lembrava o de algum tipo de fruta cítrica. Imediatamente sente seu coração bater mais rápido.
— É venenosa? – Sheng fica preocupado.
— Não exatamente... – Johan responde desviando o olhar.
Narciso volta a se sentar em seu lugar e segura firmemente as próprias mãos, tudo em seu corpo parece tenso.
Sheng sente uma tontura em sua cabeça, graças ao ritmo de seu coração sua respiração começa a ficar descompassada. Por algum motivo estava sentindo seu corpo ficar quente e mais estranho ainda, estava ficando excitado. Sem saber por que, ele se lembra de quando fez aquela apresentação em Pequim e viu Michael lhe assistir com aqueles olhos fixos, só de lembrar ele já fica corado, aquele olhar era muito intrusivo. Sente seu membro começar a endurecer e constrangido cobre-o discretamente com as mangas de seu kimono. Estava começando a pensar em dois corpos quentes e entrelaçados em uma cama.
— Tem certeza que não é veneno? – ele repete com o rosto ficando vermelho.
— Sim, qual o problema?
Nem ele sabia. O que Sheng poderia dizer? Estava ficando excitado no meio de dois homens e sem saber por que seu membro estava duro e uma ânsia incontrolável e súbita por sexo estava crescendo em sua cabeça? Não poderia dizer uma coisa dessas.
— Como eu queria não saber o que acontece agora... – Imperador de Vidro se lamenta.
Sheng começa a sentir uma forte agonia em seu interior e sua tontura aumenta. Não estava mais conseguindo manter uma linha de raciocínio, seu cérebro ficava pulando para fantasias eróticas que ele não queria imaginar, pois só tornava a angustia pior. Sentia seu membro endurecendo mais ainda conforme o tempo passava, o que estava acontecendo com seu corpo? Aquilo era algum tipo de estimulante?
— Deixa, eu te ajudo.
Johan separa as mãos de Sheng e desce sua calça, abocanhando o membro ereto que se revelou. Sheng e Narciso coram fortemente com a ação inesperada, constrangidos diante do que estava acontecendo.
— Imperador? O-O-O que está fazendo? – Narciso pergunta gaguejando, vendo-o chupar o pênis de um homem na sua frente.
— Fazendo o que tem que fazer. Desculpa Sheng, seu plano era bom mas você tinha se esquecido dela, até eu me esqueci.
De tão constrangido que estava o oriental não conseguiu pronunciar nenhuma palavra, seu rosto estava igual um tomate, pior que um homem abocanhando seu pênis é você querer que ele não pare.
Narciso movia os olhos para todas as direções menos para a de Johan, envergonhado e indeciso sobre o que fazer. Graças ao escuro não podia ver nada, mas ainda conseguia ouvir os sons.
Johan levanta seu tronco e passa suas mãos atrás da nuca de Sheng, escorregando o kimono por suas costas.
— Se fosse só o Cain talvez seu plano desse certo, mas você se esqueceu da Madame. Ela não iria ficar só de enfeite durante o evento – Johan fala sentindo seu rosto corar. – Provavelmente deve ter centenas dessas flores desabrochando pelo circo, é a grande “surpresa” que ela estava falando. – ele beija a base do pescoço do chinês e vai descendo por sua pele, tendo dificuldade para manter seu raciocínio. – Eu... eu... já pesquisei plantas abim, não, assim! Elas têm um efeito de estimulante sexual bem forte... e... e... sua pele é tão lisa...
Narciso balança a cabeça tentando manter o raciocínio.
— Vamos nos afastar dessas flores, assim o efeito passa.
— Uma vez que você respira o efeito dura algumas horas, até você aliviar o estresse ou aumentar a adrenalina para a agonia passar – ele olha para a direção do mexicano e estende uma mão em sua direção – Você respirou bem fundo, não foi? As cobaias que se aliviaram imediatamente voltaram ao normal alguns minutos depois, as que ficaram sozinhas enlouqueceram e se tornaram agressivas, você não vai resistir muito tempo Caveira, é melhor se entregar. Vai se sentir melhor.
A tontura de Narciso aumenta, chegando a mesma sensação que Sheng sentia.
— Você se esqueceu de onde está? – Johan pergunta com uma voz gentil.
Onde estava? Dead Line Circus, o mundo vibrante que não seguia as regras. Ali ele não precisaria se conter, não precisaria ser educado, podia fazer o que quiser sem pagar os juros depois. De fato, por que estava se torturando?
Seus olhos vazios se viram para Johan, não conseguia vê-lo, mas podia imaginar um rosto gentil esperando sua decisão.
— Hipoteticamente, se eu não fizesse o mesmo que você o que aconteceria?
— Provavelmente? Hipoteticamente você se tornaria agressivo, ou copularia com a primeira pessoa que visse pela frente, viva ou morta. Lembra-se do nome desse evento?
— “Morte ou prazer?” – Sheng responde se lembrando.
— Preto no branco. Amor ou ódio, escolha uma opção ou as duas, sem escapatória.
— Como era de se esperar – Caveira das flores mortas aceita, olhando para as flores que brilhavam no escuro. – “Uma surpresa que com certeza iremos apreciar”. A madame Sondhein sabe mesmo como enlouquecer um homem.
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