Dead Line Circus - Interativa
14 Sua sanidade me diverte
“E os que foram vistos dançando foram julgados insanos pelos que não conseguiam ouvir a música.”
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Oliver e Johanne passeavam pela noite estrelada, esta ultima admirando o brilho das estrelas através dos olhos de sua aranha de estimação, eram tão lindas. Nunca pensou que um dia voltaria a enxergar, mesmo que seus olhos não tivessem voltado ela ainda considerava os olhos de Arachme como sendo seus. Andava perto de Oliver para não perdê-lo de vista e este, alheio às maravilhas que ela via pela primeira vez, cantava uma música infantil enquanto seus pensamentos vagavam pelo espaço e ele enforcava seu coelho de pelúcia com tapa-olho, o qual tinha ganhado de Michael quando foram buscar Johanne.
Brinque comigo....
ou cortarei seus braços....
Brinque comigo....
ou cortarei sua cabeça....
Brinque comigo
antes que eu te jogue num abismo.
Se você não brincar comigo...
Vou perseguir você até a morte.
Então brinque comigo...
E voltava a repetir a música. Johanne não ligava para a letra, Oliver ainda era uma criança. Um pouquinho diferente das outras, mas uma criança que não tinha fugido dela, e só a isso a fazia gostar dele.
– Pois bem, vamos procurar a sua mãe. – Ela diz.
Oliver para de andar no minuto que ela toca no assunto.
Johanne olha para ele arqueando uma sobrancelha, do nada ele tinha ficado quieto.
– Ouviu isso? – Ele fala mudando de assunto.
Oliver se afasta de Johanne e se dirige até a Caixa de Brinquedos, onde o som de um choro baixinho era emitido. Dentro de uma caixa rodeada por flores fluorescentes e bonecas faladeiras, uma garota de cabelos da cor do trigo e olhos azul bebê se escondia e cravava as unhas nos próprios braços enquanto chorava baixinho.
– Arisu? – Oliver pergunta se inclinando para observá-la melhor.
– VÁ EMBORA! SAI DAQUI! – Ela responde gritando.
Ele se afasta com o susto da mudança de tom.
– Você sabia? Ela está pensando coisas de adulto. – Uma boneca ruiva fofoca para outra enquanto flutuava no ar.
– Sério? Ela parecia tão feminina, quem diria que era só mais uma pervertida? – Uma boneca loira responde fazendo seu vestidinho rodar com elegância.
– Ela quer fazer aquilo com alguém, deve estar no cio. Hahahaha. – Um boneco de palha comenta com as duas enquanto dá gargalhadas, sendo acompanhado pelas bonecas.
– Será que ela tem namorado? Ele vai ficar decepcionado com essa cabecinha podre.
As bonecas ficam mais curiosas e agitadas com essa pergunta.
– Quem é? Quem é? – A boneca ruiva, a loira e o boneco perguntam em uníssono. – Quem é seu precioso amado?
– Calem a boca. – Arisu pede puxando as raízes de seus cabelos enquanto tenta afastar as lágrimas, ela não se lembrava de nada por conta da amnésia.
Oliver observa as bonecas fofoqueiras rindo enquanto flutuavam ao redor da caixa, elas eram especialistas em enlouquecer as pessoas. Johanne pega elas e as atira para o outro lado.
– Parecem vivas, são bem esquisitas. – Ela fala como uma desculpa por ter atirado-as longe.
– Arisu, você não lembra de nada mesmo? Nadica de nada? – Ele fala tornando a se aproximar, de alguma forma tinha ficado intrigado.
– Não é minha culpa, não deve ter sido minha culpa. Eu não sei. – Ela olha pra ele com os olhos embaçados. – Michael prometeu que traria minhas memórias de volta se eu viesse pra cá, e onde ele está? Morto em algum canto por aí.
Oliver arregala minimamente os olhos com a mudança de assunto.
– O que você disse para o Mik-nii-chan quando ele te encontrou?
– Como assim?
– Ele te perguntou alguma coisa? Me conte tudo o que ele te disse, qualquer coisa está bom. – Ele pede querendo ter qualquer recordação de coisas que ele viveu em seus ultimos dias.
– Eu não sei... faz tempo...
– Se esforce! – Ele se irrita.
– Eu... Eu... Eu estava na estação de trem... — Ela fala tentando se lembrar. – Então ele chegou do nada puxando assunto... e eu estava perdida naquele dia, tinha vários trens pra vários lugares e eu não sabia pra onde ir, e ele... ele fazia várias perguntas, e eu não sabia respondê-las...
– Que tipo de perguntas?
– Quem eu era, do que me lembrava...
– Quando ele descobriu que você tinha perdido a memória?
– Ahn? Quando? – Ela se força a se lembrar. – Não sei, ele pediu pra ver meu pulso, depois perguntou qual era a ultima coisa que eu lembrava, ou o contrário, eu não sei.
– Seu... pulso? – Oliver olha para as mãos dela.
Havia uma marca em um de seus pulsos que ele não tinha reparado antes, era um círculo negro com escritas em volta, parecia uma mordida de alguma coisa com boca redonda. O menino estava começando a ligar os fatos.
– E o que você respondeu? Qual a ultima coisa que você lembra?
– Essas flores têm um cheiro meio estranho. – Johanne comenta percebendo o perfume das plantas ao redor de Arisu.
– Estar num beco cheia de arranhões. – Arisu responde.
– Antes disso!
– Foi a mesma coisa que ele perguntou. Antes disso, apenas um candelabro com chamas vermelhas.
Oliver abre um pequeno sorriso de vitória, se abaixando para esconder seu rosto nas bordas da caixa. Estava rindo internamente.
– Arisu... Você é a mecânica do circo não é? Fica mexendo nas máquinas...
– O mago e o mordomo estão me ensinando, mas ainda não consigo sozinha.
– O mordomo... – Ele sussurra para si mesmo.
– Ei Oliver, melhor se afastar dessas florzinhas. – Johanne diz o puxando para perto dela em um gesto protetor. – Estou me sentindo meio estranha... Acho que são tóxicas.
– Arisu quer passear com a gente? – Ele convida.
– Não.
– Nós vamos até o candelabro de fogo vermelho, quem sabe você não se lembra de alguma coisa?
– Nós vamos? – A costureira pergunta.
– Vocês vão? – Arisu pergunta. – Espera, aquele candelabro está aqui? Foi aqui que eu perdi minhas memórias?
– Quem sabe? Por que você acha que ele te trouxe pra cá? Mas caso você se lembre de alguma coisa, pode ter certeza que eu vou cobrar esse favor.
– Eu não tenho dinheiro...
– Pra que eu ia querer isso? – Ele faz uma expressão entediada.
Revirando os olhos e tornando a enforcar o seu coelho, Oliver sai marchando para dentro da Caixa de Brinquedos, sendo seguido pela costureira que balançava a cabeça tentando se manter concentrada e Arisu, que vai atrás deles logo depois, com o rosto corado e a cabeça latejando.
Bonecas flutuantes observavam a marcha de três pessoas rindo com suas companheiras enquanto apreciavam um chá imaginário, bolas do tamanho de três homens rolavam por aí sem ninguém as empurrando, caixas de música fechadas pareciam inchar e respirar quando eles se aproximavam e o caminho que seguiam, listrado de preto e vermelho, causava tonturas ao parecer se mexer em frente à seus olhos. Havia várias escadas em espirais e flores do tamanho de árvores, estas ultimas com vários olhos em seu miolo e a habilidade de se curvar e rastejar para fora de seus lugares.
Quando chegam a uma das escadas em espiral, os cabelos de Johanne sobem para cima no momento que ela pisa em um degrau.
– O que é isso? – Ela afofa o cabelo que agora parecia a chama de uma vela.
– Ué, o cabelo de vocês não segue a gravidade quando ficam de ponta cabeça?
– A gravidade? – Johanne olha para o teto, mas encontra o chão em que estava caminhando a pouco tempo atrás. Com essa percepção ela se agarra aos degraus com medo de cair.
– Quando foi que... Não, por que tem uma escada no teto? – Arisu pergunta também se agarrando aos degraus.
– Nem tentem usar a lógica aqui dentro, esse é o palco de um louco. – O menino responde subindo os degraus sem se importar com o estado de seus fios loiro acinzentados.
Arisu e Johanne o seguem, mas bem mais lentamente, por ainda se agarrarem aos degraus da escada, engatinhando em vez de andarem.
Passados dez minutos, elas chegam ao fim da escada, porém seus cabelos não voltam ao normal.
– Eu venho aqui escondido às vezes, é o único lugar que tem crianças pra mim poder brincar. Mas elas são tímidas, não saem muito pra fora, por isso eu que venho aqui dentro.
Ele caminha por um corredor de pedra junto com elas, havia vários castiçais apagados nas paredes e por fim encontra quem estava procurando.
– Menina sem nome! – Ele acena.
Uma garota de escorridos cabelos grisalhos e olhos dourados na cor âmbar, andava pelo teto com uma expressão vazia, pelo jeito como seu vestido, que parecia uma camisola de hospital, e seu cabelo estavam seguindo a direção de seu corpo, ela devia estar no verdadeiro chão enquanto eles ainda estavam no verdadeiro teto.
Sem que ela respondesse ou mudasse a expressão, ele se aproxima dela, sendo seguido por Johanne e Arisu.
– Queremos ver a sala do Exilado, você leva a gente até lá? Por favorzinho?
Duas lanças são apontadas para as costas de Johanne e Arisu. Havia mais duas garotas idênticas à primeira naquele corredor, com expressões tão indiferentes quanto esta.
A menina em frente à Oliver entorta a cabeça e parece se concentrar em algum som em especifico, pois fica em silêncio observando o chão enquanto tentava ouvi-lo.
– Ele disse pra ela ir sozinha.
Arisu arregala os olhos. Ele quem? Por que sozinha?
– Disse sim. – A segunda concorda.
– Disse. – A terceira afirma.
Oliver faz um bico infantil.
– Mas eu quero ver também.
– Não pode. – As três afirmam ao mesmo tempo.
Cutucando Arisu com o cabo da lança, a terceira menina faz ela cair do teto, subitamente fazendo o efeito da gravidade inversa passar e o cabelo da garota voltar ao normal.
– Então não tem jeito. Siga elas Arisu, a gente se vê por aí.
– E quem são elas? – Arisu pergunta sendo levantada pelos braços e arrastada corredor adentro.
– Meninas. – Oliver responde dando de ombros antes dela desaparecer em uma curva.
Arisu é arrastada pela dupla que seguia a primeira garota, não estava gostando daquilo mas precisava ter suas memórias de volta.
Mais garotas foram se juntando ao grupo, conforme passavam pelos corredores uma ou duas iam reforçando a segurança. Já havia cerca de dez meninas exatamente iguais ao seu redor, pareciam todas clones da mesma pessoa.
No final do ultimo corredor, havia um grande e imponente candelabro de ossos humanos com chamas vermelhas que queimavam a cera das velas. Quase podia jurar ter visto uma mão passar em frente a seus olhos quando viu aquele candelabro.
Arisu havia se contido até ali, seu corpo queimava e ansiava por contato humano, mas ao ver as chamas do candelabro, tudo evaporou-se. O fogo queimava vermelho vivo nas chamas igualmente distribuídas das velas, tão quente, tão vermelho, tão vivo.
Seus olhos azuis foram absorvendo as chamas vermelhas, queimando o céu azul que seus olhos transmitiam para um novo reflexo vermelho sangue de um campo de guerra, e conforme sua cor ia mudando, sua cabeça parecia estar sendo rasgada ao meio.
Via o rosto de sua mãe, tão jovem e gentil, e lembrava-se do abraço de seu pai. Os banquetes que seu pai dava na mansão, quando usava seu vestido favorito para dançar com seus primos, seu coelho branco de estimação que vivia fugindo para o jardim, a árvore que adorava escalar, o momento em que tinha entrado no circo pela primeira vez junto com eles, tudo voltou para dentro de sua cabeça como uma bomba lançada para explodir, e por fim se lembrou do que tinha acontecido quando perdeu a memória.
Eles estavam ali dentro, amarrados no meio de outras pessoas. Havia um público mascarado estranho que ria deles e os artistas que conheceu durante o dia tinham mudado de atitude. Ela se lembrava bem de quando forçaram algumas pessoas a se equilibrar em cima de bolas coloridas enquanto os convidados atiravam neles ou quando os jogavam em brinquedos esquisitos que raramente alguém conseguia sair. Foi horrível, um a um as pessoas foram morrendo em sua frente.
Seus pais morreram juntos, derretidos dentro do estomago de uma planta. Ela foi a única que conseguiu fugir, isso por que usou o corpo de sua mãe para conseguir ganhar tempo. Quase morreu em sua fuga mas conseguiu fugir. Até ter sido atacada por uma nuvem e esquecer quem ela era ou o que tinha passado.
Arisu gritou como nunca havia gritado antes. O grito reverberou pelas paredes para os outros corredores despertando coisas que até aquele momento estavam dormindo. Por que tinha voltado? Justo quando finalmente tinha fugido! Tudo o que aconteceu durante sua fuga... Em vão!
O sorriso gentil de Michael aparece em sua mente, de quando o viu pela primeira vez naquela estação de trem. Queria matá-lo, queria que ele voltasse à vida só pra poder matá-lo de novo. Por que não tinha se lembrado dele? Por que inocentemente o acompanhou de volta ao inferno em que tinha acabado de sair?
As meninas de expressões vazias observavam Arisu em seu acesso de gritos, esperando ela terminar o que estava fazendo.
– A sala do exilado fica logo ali. – Uma das meninas diz esperando que ela parasse.
Seguindo à direita do candelabro vermelho, havia uma sala com maçaneta de bronze e uma porta com o símbolo de duas caveiras, cada uma olhando para um lado diferente. Era dali que tinha escapado, se entrasse lá novamente nunca mais iria sair.
– Não!
Arisu se levanta e empurra algumas meninas que estavam atrás dela bloqueando o seu caminho. Não há resistência, as meninas apáticas não correm atrás dela ou tentam a agarrar, simplesmente caem quando são empurradas e ficam imóveis quando atingem o chão, elas nunca haviam aprendido o que era resistir a alguma coisa.
A albina sai correndo, abrindo seu caminho à força pelos corredores que lembrava de cabeça, e por fim consegue sair daquele lugar. Oliver e Johanne não estavam lhe esperando, mas naquele momento ela não estava pensando neles.
– Ah, você voltou. E parece perturbada. – A boneca ruiva torna a aparecer com seus companheiros flutuantes. – Finalmente se lembrou de nós?
Arisu olha pra ela com um olhar assassino.
– Foi bom viver na ignorância? – O boneco de palha se aproxima da garota. – Você estava rindo e fazendo tudo que lhe mandavam. Por que quis ter memórias ruins de volta? Você podia ter sido mais feliz se esquecesse tudo.
– Está arrependida? – A boneca ruiva se aproxima do rosto dela com um sorriso sarcástico de quem se considera superior.
Arisu pega a boneca flutuante e choca a cabeça dela contra o chão, quebrando seu rostinho de porcelana.
– Eu vou matá-los. Todos eles! – A ira de uma fera selvagem queimava em seus olhos vermelhos.
– Quem? Quem? – A boneca loira se aproxima. – Quem é seu inimigo?
Arisu ri, lágrimas escorriam por seus olhos, mas ela continuava a rir de um jeito insano.
– Todos os que pisaram em minha família. Principalmente aquele Mestre que ordenou nossa ruína! Eu vou matar aquele demônio!
As bonecas exibem dentes afiados enquanto riem como loucas, sangue começa a escorrer das bordas das caixas de música enquanto sons estridentes eram tocados por elas. Oliver sorria observando tudo de fora da Caixa de Brinquedos, atrás dele Johanne também ria enquanto lutava com os animais de Erich, suas agulhas agora banhadas de vermelho, mas mais interessante que a reação de Oliver ou a luta de Johanne, foi o sorriso misterioso que uma sombra abriu ao ouvir o desafio lançado. A sombra que havia devolvido as memórias de Arisu e que a observou enquanto gritava de agonia, abriu um sorriso maldoso enquanto aceitava a proposta de guerra.
~ ❖ ~
Estava difícil raciocinar. Ciaran procurava por qualquer coisa que fizesse luz no camarim de V e D, mas aquelas flores que forravam o chão o distraiam muito de seu objetivo, agradecia a elas por iluminarem um pouco o lugar, facilitando sua procura, mas seu perfume enlouquecedor roubava-lhe a sanidade.
Seus olhos já haviam se habituado ao escuro, havia permanecido em total escuridão por um tempo para eles se habituarem, conseguia distinguir silhuetas e movimentações, mas Liadan tinha medo do escuro, por isso precisava de luz para espantar o seu pavor.
Quando finalmente encontra uma lamparina, acende-a para testá-la. Uma máscara cheia de labaredas vermelhas é a primeira coisa que vê.
Com a surpresa ele se afasta para trás pegando seu baralho de cartas por instinto. VIP sem dúvida, tinha confundido-a com um móvel por sua imobilidade, mas com a luz pode ver que era um ser humano. A garota estava parada, armada com um revólver, como não atacava ou se aproximava Ciaran achou melhor não atacá-la primeiro, se fosse inimiga já teria se movido antes, enquanto o albino procurava pela lamparina.
– Desculpe. Eu te assustei? – A ruiva pergunta com um tom doce e fofo.
– Não, eu que peço-lhe meu perdão. Confundi-a com a mobília, o que causou meu espanto ao avistar uma donzela no lugar. Sinto muito.
– Tudo bem, acontece. – Ela diz voltando a ficar em silêncio e encará-lo.
Ciaran pega a lamparina e ilumina um pouco o lugar, pegando um cobertor e uma garrafa de água também, Liadan devia estar sentindo frio.
– Há quanto tempo a dama está a me observar de seu ponto?
– Desde o baile. Estou te seguindo a algum tempo. – Ela fala se aproximando. – Aqui eles me chamam de Dama Escarlate, mas gostaria que você me chamasse de Ana.
– Ana... – Ele repete testando o nome no ar, o que faz Anastasia abrir um sorriso e sentir seu coração bater mais forte. – Irei lembrar-me de ti. Eu sou Ciaran Ó Reagan, vulgo Demônio de Espadas em minha terra natal. Chame-me do jeito que preferir.
– Você tem um jeito de falar bem cavalheiresco. Tanto sua aparência quanto o modo de agir me lembram uma pessoa muito querida para mim. Você é um fantasma criado para esse evento Ciaran?
– Uma pergunta deveras filosófica. Fantasmas saberiam que são fantasmas? Recordo-me de ter sonhado em estar ante a presença de tal entidade, mas os sonhos, se é que são sonhos, algumas vezes conseguem ser mais realísticos que a vida em si, nesse momento, estaria eu sonhando com esse jogo e com essa conversa? Teria eu morrido em algum momento e estar sonhando com essa realidade onde minha irmã volta para mim? Ou estamos todos presos no sonho de outra pessoa que criou essa realidade em seus sonhos e não existimos de fato em lugar algum além de sua imaginação? Você pode provar que existe Ana? Nem sei o que dizer. Há decerto uma resposta adequada, eu é que a não consigo encontrar. – Ele responde finalizando com um sorriso cortês.
A Dama Escarlate sorri com o coração batendo a mil, se efeito das flores ou do discurso de Ciaran, quem saberia dizer? Como não era de se conter quando queria uma coisa ela se aproxima do albino e beija-lhe os lábios, depositando seus braços ao redor de seu pescoço.
Ciaran aprofunda o beijo, depositando a lamparina, a garrafa de água e o cobertor em uma mesa e enlaçando a cintura dela com seus braços. Devia ser efeito das flores.
Atrás de uma janela na parte superior do Palco dos Pierrots, Liadan observava aquela cena sem entender o que via. Lágrimas ameaçavam rolar por seus olhos, e ela ainda permanecia confusa. Tenta chamar por Ciaran, mas sua voz não saía. Era tão frustrante, por mais que chamasse ele nunca a ouviria, sua voz não passava de guinchos distorcidos, incapazes de falar uma única palavra, mas pior que isso, era estar chorando ao vê-lo seguir em frente sem ela. Aquela era a confirmação do que temia, Ciaran podia seguir em frente sozinho. Ele era belo e inteligente, cavalheiro e cortês, era muito popular com as garotas. Liadan por outro lado só seria um peso morto em sua vida, quem iria desejá-la naquela forma pós-morte? Liadan que não conseguia conversar, que não era mais bela, que não conseguia fazer nada sozinha agora que estava daquele jeito?
Ela olha para seu anel claddagh, o símbolo da promessa de que eles ficariam juntos para sempre. Agora sentia raiva daquilo, foi por causa daquela promessa que tudo estava desse jeito. Aquilo tornava-a um estorvo para Ciaran, ele que sempre cumpriu suas promessas nunca a deixaria, mas e a cena que se desenrolava à sua frente? Agora que ela não era mais bela, seus valores morais tinham mudado?
– Ele é tão cruel, não acha? – Cain sussurra em seu ouvido.
O malabarista envolve a zumbi em seus braços e a puxa para mais perto de si, fazendo-a sentar-se em seu colo. Era ele quem a havia tirado do Jardim de Monstros e trazido-a até ali para apreciar o show.
– O que você acha? Já viu seu querido irmãozinho quando ele não está perto de você?
Não. Ciaran era o melhor irmão do mundo na sua frente, nunca tinha o visto agir de outro jeito se não aquele. Ele... não estaria atuando na sua frente, estaria?
– Pobre Liadan. Dependendo de alguém tão imprevisível. O que você faria se ele te abandonasse hoje mesmo? Você precisa dele, mas ele não precisa de você. Quer apostar quanto que ele não vai te contar nada do que está acontecendo aqui? Seu irmãozinho cruel e mentiroso.
Liadan mostra seu anel para Cain, irritada por ele estar lhe falando aquelas coisas de seu irmão, disse-lhe que ele não era assim, eles tinham feito uma promessa, mas as palavras não saíram de forma reconhecível.
– O que seria isso? Algum tipo de promessa? – Ele fala tirando delicadamente o anel de seu dedo e exibindo-o na frente dela. – É só um objeto. Promessas são quebradas com facilidade e você não morre só por quebrá-las. Ciaran vai abandoná-la. Se não hoje, talvez amanhã. Ele vai seguir a vida dele e você vai ficar pra trás. Um triste destino o teu, não é?
Liadan olha para o anel e atrás dele o beijo de seu irmão. Cain estava certo, o abandono era inevitável, não queria prender seu irmão, não queria ser um fardo para ele de jeito nenhum, mas ao mesmo tempo, não queria que ele lhe abandonasse, Ciaran podia ter tudo o que quisesse mas ela só tinha ele. Não era justo. Por que ela era a única a se preocupar? Por que ela tinha que enfrentar aquele dilema quanto o próprio Ciaran não enfrentava?
– Você o odeia? – Cain sussurra em seu ouvido a abraçando por trás.
Liadan afirma com a cabeça, incapaz de conter as lágrimas.
– Então vamos lhe dar uma lição. – Ele pousa uma faca nas mãos da garota. – Mate-o e depois o ressuscite. Então ele será igual a você. Final feliz para os dois.
Ela nega com a cabeça, assustada com o rumo que a conversa tomou. Ela nunca poderia matá-lo, Ciaran não merecia passar pelo o que ela estava passando.
– Não precisa ser agora, você tem bastante tempo para pensar. Seu irmão ainda vai lhe contar muitas mentiras, e você ainda vai ser deixada de lado gradualmente. Sofra mais um pouquinho já que você quer tanto. Quando ele for embora você pode vir até mim se quiser. Eu gosto mais de você do jeitinho que você está.
Liadan olha para ele, querendo ver seu rosto enquanto dizia aquilo. Cain não estava mentindo, realmente a preferia do jeito que estava em vez de querê-la viva. Ele tinha uma estranha fascinação por pessoas mortas, gostava mais delas frias e imóveis do que quando estavam vivas. Era um mistério tentar entender como funcionava a mente de Cain.
Ele ri se divertindo.
– Que foi? É verdade. Posso não ser um cavalheiro, mas sou honesto em minha maldade.
Ele solta a garota e se levanta.
– Ele vai abaixar a guarda quando estiver perto de você. Não vai ser difícil matá-lo, a lâmina está envenenada, um arranhãozinho e até mesmo você conseguiria parar o coração dele. Mostre a seu irmãozinho como se sente de verdade com sua atual condição.
A garota olha para a lâmina, vendo seu reflexo horrível e monstruoso espelhado nela.
– “Ciaran, o que eu devo fazer?” – Ela pensa observando Cain ir embora com um grande sorriso em seus lábios.
Dentro do Palco dos Pierrots, Ciaran se separava da ruiva dando o beijo por encerrado. Ela tenta se aproximar de novo mas ele a impede.
– Desculpe, mas você não é o meu tipo. – Ele diz e se afasta, pegando a lamparina, o cobertor e a garrafa.
Antes de sair ele leva dois dedos à cabeça e se despede com um sorriso travesso. Sumindo na escuridão da noite. A Dama Escarlate cora de raiva e de vergonha. Direciona sua mão para seu revólver e então percebe que ele não estava mais lá. Sua arma tinha sumido. Levanta um pouco a barra do vestido e novamente percebe que sua arma reserva, uma segunda pistola, também tinha sumido. Ela foi.... assaltada?
~ ❖ ~
Isadora estava encolhida em um assento do Céu dos Acrobatas. Havia conseguido fugir de uma Johanne que parecia em transe enquanto atacava tudo o que chegava perto dela, e havia se escondido ali dentro quando viu animais mortos andando feito zumbis. Torcia para não a seguirem pelo seu cheiro, duvidava que ganharia deles em uma corrida.
Ela suspira. Não podia ficar ali pra sempre. O lugar era amplo, e localizava-se em um caminho muito movimentado, era só uma questão de tempo até alguém entrar. O que não daria para ter um relógio e ver quanto tempo faltava...
Como se o pensamento atraísse alguém, ouviu passos chegando perto da porta de entrada. Escorregou mais para o escuro e prendeu a respiração.
Um VIP cheio de relógios entra, acompanhado de uma mulher que tinha enfeites que lembravam corais e conchas marinhas emoldurando o cabelo loiro. Isadora não via seu rosto, mas pela postura e pelas curvas ela parecia ser muito bonita. O VIP com máscara de engrenagens consultava um relógio de bolso o tempo todo, andando apressado junto à mulher. Eles entram por uma porta e Isadora fica tensa ao ver uma luz ser acesa.
Eles voltariam com alguma lanterna em breve e com certeza a achariam ali.
Isadora escorrega do assento e se dirige até uma porta, abrindo só uma fresta para conferir se havia alguém passando ali perto. Não havia ninguém.
Isadora sai, com cautela para não fazer barulho, andando perto das paredes. O som de tiros por perto a deixa em alerta e ela muda sua trajetória original para longe do som, mas acaba encontrando um inimigo pior.
Sete corpos caídos ao longo de seu caminho, todos eles com os olhos abertos e o corpo magro como se tivessem sido sugados. Estavam mortos, tinha certeza pois não estavam respirando. Um VIP com máscara de corvo estava bem no centro da tragédia, rodeado pelos cadáveres, como uma bomba que cai e mata todos ao redor.
Isadora o viu. Sua máscara estava levantada para cima da testa e ele sorria com um filete de sangue escorrendo do canto de seus lábios, admirava uma borboleta vermelha que tinha pousado na ponta de seu dedo.
Carnificina noturna, era assim que o chamavam. Seu cabelo negro tinha um corte elegante e seus olhos eram castanho-avermelhados. Tinha um rosto muito belo, sedutor e misterioso, era um convite aberto para o perigo. Apesar do medo, a garota sentiu-se... atraída.
Um piscar de olhos. Foi só o que bastou para perdê-lo de vista. Moveu a cabeça procurando o elemento perigoso, como se o conhecimento de sua localização o torna-se menos letal e o encontrou quase que imediatamente em frente ao seu rosto, à um braço de distancia.
– É feio espiar. – Ele diz num tom brincalhão, mas de alguma forma calmo o bastante para ser levado a sério. – Quem é você?
– Isa-Isadora.
– “Agora ele tem um nome para a lápide, genial.” – Ela se repreende em pensamento.
O homem alisa o rosto da ilusionista com bastante cuidado, como se o mínimo de força pudesse quebrá-la. Aquele mero toque manda arrepios para a espinha dela.
– Não precisa ficar com medo.
Aquilo foi uma bofetada em seu orgulho. Se Isadora estava se deixando levar, já tinha acordado.
– E quem disse que estou com medo? – Afasta a mão dele com um leve toque como se fosse um inseto. Estava com medo, era verdade, mas não queria que ele pensasse aquilo. – Isso não é nada.
– As batidas de seu coração te entregam.
– E daí?
Tinha sete corpos atrás dele, o homem era maior e mais forte do que ela, pelo jeito que o encontrou, sozinho em meio aos cadáveres, não havia duvidas de que era ele o assassino. Isadora estava mentindo em relação ao medo, encarando um predador com uma coragem inútil, a questão era: Com que finalidade? O VIP pensa por um momento e apenas uma resposta lhe vem à mente.
– É uma suicida?
– Não.
O homem a circula examinando-a. Arrogância, determinação e uma carência de senso comum. Ainda não havia provado uma assim.
– Então não importa.
Ele segura seu pescoço e Isadora se debate, gritando bem alto na esperança de alguém ouvir. A força dele era bem mais elevada que a sua, seu corpo é imobilizado em questão de segundos. Ia morrer, naquele exato minuto, tinha certeza disso.
“Finalmente.”
Sua visão escurece e dois segundos depois volta ao normal. Estava em frente a uma porta com o desenho de uma lua, segurando alguma coisa com sua mão direita. Quando olha percebe que era o pulso de Carnificina noturna, ele estava caído no chão todo estraçalhado e pelo rastro atrás dele parecia que ela arrastou seu corpo até ali.
Isadora o solta imediatamente, percebendo como suas mãos estavam sujas de sangue e seu vestido rasgado, viu ferimentos em seu corpo e com a percepção veio a dor. Onde tinha se ferido? Não se lembrava.
“Não entre em pânico, só estou tentando ajudar.”
A garota vira a cabeça em todas as direções, procurando o dono da voz, mas não havia mais ninguém ali. O som vinha de dentro de sua cabeça.
– Quem é...?
“Acho melhor não dizer o meu nome. Você pode repetir sem querer e isso seria perigoso para nós dois. Me considere o seu anjo da guarda.”
– Anjo da guarda?
“Não disse que você repetiria? Pelo menos não dá pra saber quem eu sou com essa resposta. Tome cuidado com o que você diz, alguém pode estar escutando.”
– Tudo bem... – Ela arqueia uma sobrancelha incerta.
“Você demorou mesmo para me chamar, já estava começando a ficar preocupado. Espero que não se importe mas eu vou possuir seu corpo de vez em quando. Só para... alguns assuntos pendentes.”
– Como é que é?
“Não preciso de sua permissão, eu vou te possuir mesmo que você não queira, só estou avisando por que seria bom ter sua cooperação.”
– Mas que papo é esse? Quem é você?
“Eu já não disse? Sou seu anjo da guarda. Esperando você entrar em desespero para assumir o seu lugar.”
– Isso lá é coisa que um anjo diria? O que você fez com meu corpo? Eu estou ferida!
“Bem, seu amigo era mais forte do que eu supus, mas não se preocupe, ele ainda está vivo. Inacreditavelmente vivo.”
– Desculpa, eu não estou entendendo nada por aqui. Será que dá pra você sair da minha cabeça?
“Não, eu vou sair quando eu quiser sair. Acho que você não entendeu bem sua posição. Você é o fantoche e eu o titereiro, você vai fazer o que eu quiser que você faça.”
– Vá pro inferno se você acha isso.
“Você está no inferno. Eu estou do lado de fora e não pretendo voltar tão cedo. Apenas me escute, eu estou sendo honesto com você, não deveria ganhar alguns pontos por isso?”
– Aprecio a honestidade, mas isso já beira o ridículo.
“Ora vamos, não seja teimosa.”
O som de uma flauta tocando uma canção celta invade seus ouvidos, Isadora quase podia visualizar pessoas alegres dançando em volta de uma fogueira em tempos muito remotos. Era uma musica hipnótica, a fazia ter vontade de dançar, e de repente se viu mesmo dançando. Parecia que não controlava seu corpo, era como se tivesse fios invisíveis prendendo seus membros a controlando feito uma marionete. Passos, giros, seu vestido dobrando-se aos seus movimentos, ela apaga novamente.
Isadora sorri finalizando a dança, adquirindo uma compostura diferente de seu habitual.
– Apresentações concluídas, tenho que continuar tocando.
Uma ratinha branca se aproxima correndo da garota quando a escuta falar aquilo, parando à sua frente e se levantando para ficar em pé, tentando chamar sua atenção. Isadora a pega e a coloca em seu ombro, fazendo carinho com um dedo em sua cabecinha pequena.
– Que bom, ao menos uma conseguiu entrar. – Ela diz com um tom gentil. – Vamos, quero ver quem está cuidando da minha Caixa de Brinquedos. Espero que tenham cuidado dela direitinho desde que eu fui exilado.
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