Dead Line Circus - Interativa
5 Não confie em ninguém
Notas iniciais
"Nunca confie em ninguém. As pessoas são ótimas mentirosas."
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Asyut. Cidade entre Cairo e Luxor. Egito.
Uma figura encapuzada escondia-se nas sombras da cidade. Ela agarrava-se firmemente a sua capa negra enquanto caminhava com cautela. Movia-se de forma evasiva e cuidadosa, tentando não chamar a atenção para si. Estava fugindo por incríveis três dias, mas conforme o tempo passava a segurança da cidade ficava redobrada.
Não esperava que a mulher com quem convivia fosse sentir sua ausência tão depressa, Orítia colocou todas as unidades de patrulha da polícia e de seus próprios guarda-costas atrás da fugitiva. E quanto mais o tempo passava e mais resultados infrutíferos recebia, mais ela pressionava seus subordinados a encontrarem a garota.
A fugitiva mantinha-se coberta, apesar de não gostar disso. Se qualquer pessoa a visse informaria imediatamente as unidades policiais, por isso ela nunca ficava mais de uma noite no mesmo lugar e nunca confiava em ninguém.
Um barulho de passos calculados a deixa em alerta. O som dos pés marchando indicava que não eram cidadãos comuns. Ao longe podia ouvir uma sirene tocar se aproximando de onde ela estava. Como eram idiotas. Se ela fosse um assassino todo esse barulho só iria alertá-la da posição em que as autoridades estavam, dando tempo para ela escapar. Policiais de verdade não deveriam patrulhar em silêncio? Pegando o inimigo de surpresa, em vez de avisá-lo que estavam chegando com seus barulhos altos e suas luzes brilhantes? A burrice de alguns pelo menos a mantinha viva.
A garota com a capa salta sobre caixotes de madeira em direção ao terraço de uma casa. Ela põe-se a seguir o caminho furtivamente, em busca de um lugar para se esconder da patrulha.
Um galpão abandonado é perfeito. Havia um a apenas alguns metros e parecia que ninguém ia lá há anos. As portas estavam trancadas, mas havia um buraco na janela que poderia permitir sua passagem lá para dentro. A garota se esgueirou pelos caixotes, buscando apoio até onde não tinha e conseguiu entrar no lugar. O galpão tinha cheiro de carne podre. Pelas redes de pesca e pelas máquinas enferrujadas devia ter sido usado para armazenar peixes, sardinhas e talvez até condimentos. Ela tinha um nariz sensível, o que fazia aquele cheiro triplicar sua potência, mas não tinha muitas opções no momento. Sabia que se fosse pega iria ser castigada e seus castigos não eram algo que se restringia apenas a ficar sem seu brinquedo favorito ou isolada em um cantinho. Os pêlos de seu braço se arrepiavam só de pensar no que aconteceria. Tinha que sair da cidade, mas não tinha passaporte e nem documentos, se entrasse escondida em algum navio cargueiro e de alguma forma conseguisse chegar em outro lugar, a falta dos documentos não iria ajudar muito a melhorar sua situação.
A garota, então, encontra um amontoado de redes de pesca em um canto. Não era muito, mas parecia melhor do que dormir no chão de areia. Estava cansada, ficar fugindo era exaustivo e a fome não lhe rendia muitas energias. Afofou o lugar antes de se ajeitar, aninhando-se no meio das redes como um gatinho e usando sua capa como cobertor. Caindo no sono sem precisar fazer muito esforço.
As patrulhas procuraram por ela a noite toda, checando cada lugar e cada pessoa que parecesse suspeita, mas para a sorte da fugitiva tinha sido mais um dia infrutífero para eles. Reforços chegavam a cada dia, os novatos eram arrogantes e numerosos, coisa que a polícia local achou muito desnecessária. No entanto, como estavam sendo pagos, tinham de trabalhar com eles. Quanto antes ela fosse encontrada, antes eles iriam embora. E tinham certeza: Ela seria capturada!
~ ❖ ~
Um filete de luz atravessou pela janela e atingiu os olhos da adormecida fugitiva, que se cobriu com a capa tentando ganhar mais alguns minutos de descanso. Já era de manhã e sua barriga roncava anunciando que estava na hora de comer alguma coisa. Depois de três dias só fugindo, tinha mesmo que colocar alguma coisa no estômago. Vestiu sua capa e saiu sorrateiramente do galpão em busca de comida. Se conseguisse se misturar com as pessoas talvez pudesse furtar algum alimento das barracas da feira. Estava com tanta fome que poderia comer um leão inteiro, pena que eles eram muito bem guardados nos zoológicos.
Ao sair de seu esconderijo se dirigiu para o mercado matinal e se sentiu muito exposta no meio de tanta gente que transitava pelas barracas, mas seu estomago falava mais alto.
Ao tentar surrupiar um naco de carne teve sua presença exposta pelo açougueiro, que começou a gritar "Ladra!" e atrair atenção desnecessária da polícia. Em pouco tempo já havia guardas em seu encalço, de onde tinha saído tantos assim do nada? Precisou correr com empenho para conseguir alguma vantagem, sorte que era rápida. Mas inesperadamente acabava se encontrando em vários becos sem saída, onde tinha que dar a volta para conseguir ir por outro lado.
Pessoas fortes se juntaram aos policiais, enchendo de gente à sua procura, agora já sabiam que não era uma ladra qualquer. A garota passou por talvez seis ou oito quadras com o chão de areia e ainda assim tinha gente em seu encalço. Como a estavam seguindo?
Ao olhar para trás notou que tinha deixado pegadas na areia. Isso explicava o bastante, mas ela não tinha tempo para ficar apagando as pegadas conforme corria. O jeito era ir por cima. Conseguiu escalar as paredes de uma casa e chegar ao telhado, correndo de telha em telha em seguida. Já devia ter andado sobre dez ou doze casas quando tropeçou na barra de sua capa e caiu. Rolou pelas telhas como uma bola e caiu em cima de um homem que passava casualmente por ali.
O jeito que caiu nos braços dele pareceu uma cena saída de filmes estrangeiros. Se ele não fosse forte, provavelmente os dois teriam ido ao chão. Pela cor de sua pele com certeza era de outro país e suas roupas estranhas só reforçavam essa ideia.
— De onde você saiu? — ele pergunta. — Está finalmente chovendo mulheres?
A fugitiva tenta sair dos braços do estranho, não viu o rosto dele por causa do capuz mas também não importava, estava com pressa. Tinha que fugir.
Os policiais se aproximavam deles a passos largos, novamente o som pesado de marcha de sapatos os denunciava. Ela tenta se desvencilhar dos braços do estrangeiro, mas quanto mais de debatia, mais forte ele a apertava. Seria um policial? Um dos guarda costas de Orítia?
Subitamente os braços dele se afrouxam e parecem ficar mais magros conforme a soltava, o homem estava exalando um cheiro diferente. Estranhando esse evento ela finalmente olha para seu rosto.
Os olhos do homem estavam desaparecendo, dando lugar a buracos negros sem as órbitas. Sua pele estava ressecando, ficando com a cor da areia e em seguida apodrecendo para o marrom escuro. A pele estava tão fina que conseguia ver os músculos secando e dando lugar aos ossos do rosto. Larvas estavam surgindo de dentro para fora e o que sobrou da carne apodrecia em questão de segundos. Lentamente, ele começa a cair no chão, pousando cuidadosamente a garota (intencionalmente ou não) na areia. Em pouco tempo ele já era um cadáver completo, com o tempo acelerado em talvez vários meses ou anos.
Estava olhando tão chocada para aquilo que nem notou outra pessoa atrás do estrangeiro. Ouviu as botas dessa pessoa andarem despreocupadamente em frente, ignorando a fugitiva e o cadáver e virando a esquina na rua, para o grupo de policiais e guarda costas perseguidores. A garota até pensou em avisar para ele não ir por ali, mas ele já tinha virado a esquina. Ouviu muito bem gritos e sons de tiros vindos daquele lado, fosse quem fosse estava morto agora.
Depois de alguns minutos se recuperando do choque, levantou-se cautelosamente e se dirigiu à esquina. Estava tudo muito quieto. O som dos passos em marcha tinham cessado e sua intuição dizia que algo estava muito errado. Olhou a rua bem rente a parede de uma casa e viu mais cadáveres em estado igual aquele que tinha lhe segurado um minuto atrás.
Se dirigiu em direção a eles olhando com receio para cada um. Alguns deles estavam com uniformes e distintivos policiais, outros usavam roupas casuais e alguns até mesmo estavam com as roupas em frangalhos. Pelas formas e tamanhos parecia que havia gordos, magros, homens, mulheres, idosos e alguns cadáveres bem pequenos que ou eram de anões ou eram de crianças. Até mesmo o que parecia ser um bebê, que outro cadáver segurava, tinha se tornado daquela mesma matéria.
Um homem estrangeiro segurava uma sacola cheia de alimentos da feira e observava a garota com seus olhos atentos. Ela segura sua capa com força, ajeitando-a em seu corpo, o que parece desagradar ao estranho, que se dirige a ela em seguida e com um rápido movimento arranca a capa de seu corpo.
O que se escondia por debaixo do manto escuro era uma garota de aproximadamente dezesseis anos. Tinha a pele morena, cabelos ruivos desgrenhados e selvagens. Seus olhos eram dourados, bem brilhantes e primordiais, olhos de animal, mas um deles possuía cicatrizes do que pareciam ser garras, o que o fazia manter-se fechado. Suas mãos eram um pouco grandes, cobertas por garras de leoa. Tinha orelhas felinas no alto da cabeça e uma cauda ruivo acastanhado. Possuía uma beleza selvagem, considerada exótica e atraente. Suas partes animais só pareciam chamar ainda mais a atenção para seu corpo. Estava usando roupas bem curtas. Um simples top de couro com cadarços na frente e um short branco que quase não cobria nada. Seu olho dourado encarava o estranho com visível hostilidade, as garras prontas para atacar ao menor movimento.
Ele observava a garota com um olhar avaliativo, cada parte de seu corpo parecia ganhar uma atenção especial. Quando termina sua observação, sorri em aprovação e estende sua mão para ela. Como resposta ganha um rosnado feroz, a desconfiança ganhando mais espaço ali.
— Verdade, eu quase me esqueci.
Ele recolhe sua mão e a veste com a luva que tinha retirado. Voltando a estendê-la em seguida.
— Estou aqui para ajudá-la, está tudo bem.
A garota não acredita nem um pouco. Revelando discretamente suas garras e se preparando para o bote.
O som das sirenes policiais ao longe a deixa em alerta, suas orelhas em pé ouvindo como radares, instintivamente ela vira a cabeça na direção do som e quando faz isso, sua visão escurece. Tudo ao seu redor fica negro e ela sente o corpo amolecer. Quando se dá conta está caindo, só sentindo alguém a segurar antes da queda.
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Boas horas se passam com a garota leoa desacordada. Michael a levou para o apartamento que tinha alugado naquele país. As paredes eram todas feitas de mármore, com colunas que iam até o teto repletas de desenhos arabescos. O chão era coberto com tapetes afofados. Os móveis do lugar eram artigos de luxo, feitos de madeira e materiais importados de outros países. Mas a cama em que a garota estava era de materiais egípcios direto daquela região, inclusive o cobertor. Até que não era ruim.
Michael estava sentado ao lado da cama onde ela dormia. Tinha acabado de desinfetar e enfaixar seus ferimentos. Ao contrario de Tzvetana e Alma que pareciam um anjinhos quando dormiam, essa garota passava um ar selvagem muito convidativo, atraente até. Se fosse qualquer outro homem ela provavelmente não acordaria intocada ou usando roupas de algum tipo. Deu leves tapinhas em seu próprio rosto para afastar esse pensamento. Pegou um livro que tinha comprado e começou a ler para se concentrar em alguma coisa.
Alguns minutos se passam e ela acorda. Espreguiçando-se com os olhos fechados como todos os animais costumam fazer. E ao abri-los e constatar o lugar em que se encontrava, com a companhia que se encontrava, ela salta da cama em alerta. Fez uma rápida recapitulação dos últimos momentos em que esteve desperta e se lembrou imediatamente que aquela presença significava perigo.
— Bom dia pra você também. Tenho uma coisa para você — ele diz se dirigindo a uma gaveta e retirando um objeto de lá.
O loiro joga o objeto no chão próximo a garota, que quando o vê dilata suas pupilas. Uma bola de lã. Ela salta sobre a bola fofinha e macia e começa a brincar com ela igual a um gatinho, esquecendo de toda a tensão e o perigo da situação em que estava. Ele segura leves risos ao ver a expressão fofa que ela fazia enquanto brincava. Michael dirige-se até a cozinha do apartamento e retira uma garrafa da geladeira, junto a um prato fundo que coloca na mesa. A leoa sente um cheiro familiar pelo apartamento e sem exitar dirige-se até a cozinha para sua confirmação. Leite!
— Não esta envenenado. Se é o que você está se perguntando — ele diz pegando uma colher e provando o leite ele mesmo para tranquiliza-la.
Ela dirige-se até a mesa e senta-se em frente ao prato. Sorvendo o líquido com a língua igual a um felino.
— Que fofinha. Eu tive um gato uma vez. Chamei ele de Sr. Bigodes caça-cabeças. Foram boas duas horas de convivência — ele suspira em seguida. — Durou menos do que eu tinha esperado. Esqueci de pôr as luvas perto dele.
Ela termina de beber em pouco tempo, ele até se espanta.
— Você deve estar mesmo faminta, não? Melhor te dar algo mais consistente — ele fala dirigindo-se até a sacola de compras e colocando-a na mesa.
Retira dois grandes bifes do meio dos outros alimentos, a garota leoa chegou a ficar com água na boca ao observar os grandes pedaços de carne nas mãos do estrangeiro. Pegou eles com as presas e arrastou até o prato.
— Espera aí! Ainda estão crus. Tenho que esquentar antes.
Ela não liga para o que ele diz, continua a devorar a carne, rasgando ela entre os dentes. Podia ser a fome falando ou o fato dela amar comer carne, mas aqueles bifes eram os mais suculentos que tinha provado.
Ao ver que ela ia comer tudo sozinha, decidiu ir para a sala ver alguma coisa enquanto ela terminava. Sentou-se no sofá grandão com o livro que estava lendo mais cedo. Era uma história bem antiga. O livro tinha a capa de couro e estava levemente surrado nas pontas, as páginas ficando amareladas. Tinha pago um preço relativamente baixo por ele. E se não fosse o fato de ter uma dedicatória escrito a mão por alguém, não teria ligado muito para aquele livro tão velho e antigo. Mas a história que possuía era uma das suas favoritas.
A dedicatória dizia: "Sempre tem alguém pior do que você. Já entendi a lição, podemos ir pra próxima agora? De sua amiga, Ivie".
A ruiva de cabelos desgrenhados salta sobre seus ombros e aterrissa em seu colo. Fica sentada em cima de suas pernas como uma criança orgulhosa, olhando em silêncio para as páginas amareladas do livro que ele segurava.
— Ahn... deseja alguma coisa? — Michael pergunta.
— Que livro é esse? — ela pergunta se pronunciando pela primeira vez.
— Você fala — ele exclama surpreso. — É o Flautista de Hamelin.
— Fala sobre o que? — ela pergunta olhando a ilustração de um homem com trajes multicoloridos acompanhado de uma horda de crianças.
— É sobre um homem que é enganado por barões e se vinga levando todas as crianças da cidade com sua flauta mágica. Você quer ler? Se quiser eu te empresto.
— Não sei ler — ela diz enrijecendo os ombros.
— Quer que eu te ensine? — ele pergunta sorrindo.
— Quem é você? — ela fala virando seu rosto para ele e o encarando. Seu olho dourado curioso.
— Meu nome é Michael. E você? Qual seu nome?
— Isis Sadat.
— É um prazer conhecê-la.
— Hunf — ela vira a cabeça de volta para o livro — O que está escrito aqui?
— "Daremos-lhe uma moeda de ouro por cada cabeça de rato que você apanhar, livre-nos dessa peste" — ele lê.
— E aqui?
— "Com sua flauta encantada, ele enfeitiçou todos os ratos. O homem avançava de rua em rua sem se voltar para trás, absorto na sua música. E os ratos, atrás, correndo, dançando, arrastando-se uns aos outros. Quando, enfim, o flautista chegou a poucos passos do rio Weser, ficou parado, mas a enorme multidão que o seguia, não. Era um espetáculo extraordinário ver aquela quantidade enorme de ratos a mergulharem no rio para se afogarem. A corrente do Weser fervilhava de patas, de rabos, de bigodes, de dorsos. Em poucos minutos, em Hamelin não havia nem um daqueles invasores!".
— Aqui — ela aponta para o livro.
— "Você não nos apresentou as cabeças dos ratos. Já que você não possuí as cabeças como prova, não poderemos lhe pagar por tal serviço. Será que foi você mesmo que se livrou da peste? Poderia ser qualquer um com uma flauta! Saia de Hamelin flautista encantado, não lhe pagaremos por se livrar de tão simples praga."
— Caloteiros — ela segura uma risada interna.
— "Enfurecido, o homem deixou a cidade, mas retornou várias semanas depois e, enquanto os habitantes estavam escondidos na igreja, tocou novamente sua flauta, atraindo desta vez as crianças de Hamelin. Cento e trinta meninos e meninas seguiram-no para fora da cidade, onde foram enfeitiçados e pularam no rio Weser para se afogarem. Apenas três crianças conseguiram sobreviver: uma cega, que não conseguiu seguir o flautista e se perdeu no caminho; uma surda, que não conseguiu ouvir a flauta, e uma deficiente, que usava muletas e caiu no caminho. "
— Estou gostando dessa história.
— É a minha favorita. A flauta dele tinha um som muito belo na época.
Isis vira a cabeça pega de surpresa. Olha no fundo dos olhos azuis do loiro procurando rastros de uma mentira.
— Como assim? A história é real?
— Não — ele fala se lembrando da presença de Isis, tornando-se cauteloso. — É apenas uma historinha infantil — diz fazendo carinho em sua cabeça.
Isis ronrona ao sentir seus fios ruivos sendo acariciados. Fechando os olhos e movendo-se mais para perto, na tentativa de sentir mais. Fica uns bons cinco minutos apreciando, até se lembrar da situação em que se encontra e afastar-se de Michael rosnando de forma agressiva.
— Tudo bem. Tudo bem. — ele fala levantando as mãos em rendição amigável, mas ao se lembrar do por que estava ali adquire uma expressão mais séria em seguida — Você sabe que uma hora eles irão te encontrar se continuar aqui não é? Pra onde pretende ir?
— Eu não sei. Vou até onde der.
— Quer que eu te tire daqui? Vivo em um lugar que seria perfeito para você.
Isis não diz nada, o que o impele a continuar.
— Existem pessoas lá que são parecidas com você. Humanos metade animal — o homem diz com um sorriso provocador.
Certamente isso a deixa interessada. Isis presta mais atenção.
— Dead Line Circus. É de lá que eu venho. É especial de todos os ângulos possíveis. Tem criaturas que ultrapassam sua imaginação e números inimagináveis de espetáculos — ele fala como se estivesse recitando uma propaganda — Adoraria ter você lá.
A cauda de Isis se movimenta. Isso era interessante.
— Tem mesmo pessoas como eu nesse lugar?
— Sim. Não muitas, mas estão lá.
— Como saberei se posso confiar em você?
— Não pode. Eu não sou de confiança. Mas se quiser confirmar sobre isso, o único jeito é ir até lá e ver pessoalmente.
Com certeza não estava confiando no loiro estrangeiro. Mas se ele estava disposto a levá-la daquela cidade e como não havia muitas opções de fuga para ela no momento, decidiu aceitar. Se fosse uma armadilha era só fugir e matá-lo quando a chance aparecesse.
— Se estiver mentindo vou comer você.
— Não tenho um gosto muito bom. — ele diz retirando um adesivo de estrelinha com carinha feliz de um envelope.
Isis se aproxima e o abraça pelas costas. Entrelaçando suas pernas no corpo dele e segurando seu pescoço com os braços.
— Me leve até lá.
— Como quiser, majestade — ele fala colando o adesivo em sua testa.
~ ❖ ~
Isis estava farejando uma garota estendida no chão. Ela tinha longos cabelos loiros apagados caindo em cascatas por suas costas e usava um vestido de babados floral. Estava deitada no chão com uma expressão exausta e cansada.
— O que é isso?
— É o resultado de uma longa noite infrutífera — ele fala observando a entrada do circo e Arisu com uma expressão sarcástica. — Venha, vou lhe apresentar nosso zoológico.
Isis o segue contendo sua animação. Os dois entram em um longo corredor monocromático. O chão era quadriculado em preto e branco como um jogo de xadrez e ao longo dele existiam engradados exibindo animais um tanto incomuns.
Na cela número um, existia um leão com asas nas costas, ele era magnifico, possuía um olhar feroz e quando erguia suas asas era capaz de voar com precisão e velocidade mortais dentro do cenário falso da jaula.
Na cela número três, tinha um lagarto vermelho com o que parecia ser uma flor na ponta da cauda, os olhos dele olhavam para todos os lados como um camaleão e a flor em sua cauda abria e fechava, apenas a espera de algo acontecer.
Na cela cinco, um cavalo branco com escamas verdes água em seu corpo e um chifre de alce na testa, possuía os cascos escondidos por sua pelagem e um olhar sábio sobre as pessoas que passavam por ali.
Na cela oito, um homem com dorso de escorpião que andava em círculos impaciente por sua cela, agressividade transbordando de seu olhar selvagem.
Ele não tinha mentido. Estava mesmo vendo híbridos de verdade.
Isis estava muito animada com tudo o que via e ouvia. E o melhor de tudo era que estava muito longe de seu país, longe de todos os problemas, poderia curtir sem preocupações. Mas uma coisa a incomodava.
— Michael — ela o chama — Eu vou ser trancada aqui nesse zoológico?
— Não. Tenho planos diferentes para você. Seria um desperdício só colocá-la em exibição.
— O que pretende fazer comigo?
— Não vou falar — ele adquire um tom teimoso e infantil ao dizer isso. — Por enquanto vou lhe deixar com um amigo meu e depois que eu terminar o meu trabalho extra eu te conto.
— Ahn? — ela salta sobre suas costas se prendendo ali. — Não é justo, eu quero saber. Conta, conta, conta!
Uma garota de cabelos castanhos e bandagens em um dos olhos surge da outra ponta do corredor em direção aos dois. Isis observa o aproximar daquela garota em silêncio.
— Olá Evanecer — ele a cumprimenta.
Isis se pergunta mentalmente de onde ele a conhece.
— Estou com sono. Mostre-me onde posso dormir — ela ordena.
— Verdade, esqueci de te dizer onde é seu quarto. Venha comigo.
Ele sai do zoológico acompanhando Evanecer e sendo acompanhado por Isis, que tinha se soltado dele e o seguia. Dirige-se até uma ala de quartos e abre uma porta castanho escura que ficava do lado de um sino de ventos. O cômodo possuía uma cama de casal e uma cama de solteiro de mogno, estrelas fluorescentes estavam penduradas no teto por finos fios de nylon, tinha um armário e um baú antigo, um tapete persa cobria o chão, alguns brinquedos estavam espalhados pela cama de solteiro e existia um conjunto de rosas secas em cima da cômoda.
— Você vai ficar com a cama de casal — ele diz depois que todos já entraram no quarto.
Evanecer se joga na cama grande abraçando o travesseiro branco com cheiro de jasmim. Estava tão cansada de ficar acordada a noite inteira que não demoraria muito para dormir.
O som de algo se partindo atrás deles a desperta. Cacos do que pareciam ser um jarro de vidro com flores dentro se encontra espalhado pelo chão aos pés de um menino. Uma criança de aproximadamente oito ou nove anos olhava espantado para a garota deitada na cama, as mãos paralisadas no vazio e os olhos fixados nela. Ele tinha cabelos loiros acinzentados, curtos e sedosos, seus olhos eram cinza azulados e sua pele era bem clara e de aparência marmórea. Estava usando um quepe negro com alguns detalhes em branco e acessórios dourados, junto a um casaco cinza e botas de combate pequenas. Suas expressão de choque e espanto transforma-se em raiva em questão de segundos.
— O que ela está fazendo aqui? — o menino pergunta.
— Não é assim que se fala com uma garota — Michael adverte-o a controlar o seu tom de voz.
— Mik-nii-chan — o garoto fala se dirigindo a Michael e puxando a ponta de seu casaco. — Tira ela daqui. Ela está deitada na cama da minha mãe.
— Oliver, você sabe muito bem que sua mãe não vai voltar — ele fala em um tom brando.
— Vai sim! Não faz nem uma semana que ela sumiu.
— Oliver...
— Ela não pode, eu não vou deixar. Vá embora!
— Oliver, chega!
O garoto o liberta de seus braços e levanta seu rosto assustado para ele.
— Não chore. Homens tem que ser fortes, certo? — Michael fala limpando uma lágrima das bochechas do menino, que nem tinha percebido que estava chorando, adquirindo uma pose autoritária — Este assunto está fora de discussão. Ela fica.
O garoto cerra os dentes, engolindo o choro. Se Michael estava dizendo ele tinha que obedecer, nunca viu Michael chorar nenhuma vez sequer e nunca viu ele desobedecer a uma ordem direta. O menino imita a pose do maior, como sempre via o mais velho fazer nessas situações e finge uma expressão serena. Muitos dos hábitos que Oliver possuía eram inspirados nas ações do loiro. Oliver copiava Michael querendo ser como ele no futuro. Não era raro ver ele brincando se soldado nas horas vagas ou tentando imitar o tom de voz de Michael em suas falas.
— Como quiser — Oliver diz adquirindo um tom calmo e se retirando do quarto.
Olha com certa frieza para Evanecer antes de sair e quando já está a certa distância, começa a correr para o mais longe possível.
— Mik-nii-chan.... — Evanecer diz com sarcasmo em cada palavra. — Era seu irmãozinho?
— Não exatamente. Não somos ligados pelo sangue, mas cuido dele desde que era um recém-nascido.
— Onde está a mãe dele?
— Ela morreu. Acho que faz três ou quatro dias.
— Credo, isso é jeito de falar com um menino que acabou de perder a mãe? — Evanecer fica admirada com a frieza do homem.
— Eu achei ele fofo — Isis comenta para aliviar a tensão que estava ganhando espaço no momento.
— Acho que devo apresentá-la a meu amigo agora — Michael fala voltando seu olhar para a ruiva. — Ele é levemente anti-social e bem mal-humorado, por isso espero que você tenha paciência com ele.
— Quem é?
O loiro sorri misteriosamente e sai do quarto sem responder a pergunta. Quando Isis passa pela porta seguindo o loiro, Evanecer relaxa plenamente na cama. Sente dó do menino, mas esse sentimento é sobreposto pelo cansaço e como ela tinha imaginado, adormece sem precisar esperar muito.
~ ❖ ~
— Vá embora — a voz ressoa imperativa.
O lugar em que eles estavam era escuro, iluminado fracamente por luzes azuis fluorescentes que se moviam no teto. Vários assentos encontravam-se na platéia, todos virados em direção ao palco, que se encontrava vazio. A grande atração não estava no chão, mas sim no teto.
Grandes aros de metal encontravam-se pendurados por uma fina linha de cor avermelhada, as linhas que lembravam fios de nylon seguravam a estrutura pesada sem se partir, o que faziam os mais atentos perguntarem-se do que era feita. Além dos aros de metal (que por sinal eram vários), ainda existiam longos tecidos aéreos azuis que desciam do teto até o chão. Os tecidos se dividiam em pares de dois e se misturavam aos aros dispostos pelo palco. Junto a esses dois instrumentos, ainda existiam barras de trapézio listradas em azul e vermelho. Um homem de cabelos roxeos se lançava das barras de trapézio para os aros, onde segurava a estrutura metálica e executava movimentos giratórios dentro do círculo e fora dele. Estava usando uma camiseta negra e calças de moletom castanhas. Apenas uma roupa para treinos. E ele se dirigia de um aro para outro mantendo os olhos fechados.
— Você nem sabe quem é — o loiro diz sentado em um dos assentos ao lado da garota leoa.
— Quem é? — o acrobata pergunta sem abrir os olhos ou interromper seu treino.
— Michael.
— Certo. Vá embora — ele diz indiferente.
— Trouxe uma pessoa para você.
— Não estou interessado.
— Melhor descer e conhecer logo sua aprendiz. Quer que eu chame Magnos aqui?
O acrobata de cabelos arroxeados desce por um dos tecidos de cabeça para baixo, executando um giro no final e caindo em pé. Ele se dirige até os dois na plateia mal humorado e para em frente a ruiva avaliando seu corpo adolescente. Seu olho arroxeado não permite que nenhuma parte escape de sua inspeção. Olhando desde as mãos de leoa até as presas escondidas discretamente atrás dos lábios.
— Não — ele fala olhando para Michael.
— Tão rápido assim? — um tom zombeteiro escorre de cada palavra.
— Não vou cuidar de uma hibrida. Essa é minha decisão final. Olhe só essas garras, vão rasgar os panos na hora em que tocá-los e a cauda vai atrapalhar o equilíbrio. É muito inconveniente.
— Arman, ela tem o potencial.
— Mesmo sendo você me dizendo isso estou sujeito a recusar. Não vou aceitar qualquer um em meu espaço.
— E eu não estou te entregando qualquer um.
— Tenho certeza que não. Você sempre faz tudo parecer coincidência, mas eu já vi você agindo de verdade.
— Isis parece ter gostado de sua apresentação.
Arman arqueia uma sobrancelha confuso com a mudança de assunto e move sua face em direção ao assento da garota. Ela não está lá. Ao olhar para o palco, vê a garota se pendurando em um dos tecidos aéreos e o usando como balanço. Ela se movia para frente e para trás igual uma criança com seu brinquedo novo.
— Ei! Largue já isso aí!
Arman corre em direção a hibrida que começa a escalar o tecido para fugir dele. Ela muda-se para uma barra de trapézio quando chega ao topo e o movimento faz a barra de mover igual um balanço. Se caísse daquela altura quebraria a cabeça, mas o movimento do vento em seus cabelos e o fato de estar em pleno ar despertava uma nova sensação na garota. Um medo de cair, misturado a uma grande e misteriosa excitação. Por ter seus sentidos aguçados sentia com mais intensidade o desejo daquela sensação não ter fim. Sua respiração estava acelerada e sentia o coração bater forte no peito. Sempre gostou de lugares altos, mas era a primeira vez que se sentia assim.
— Michael! — Arman o chama para ajudá-lo, até notar que o loiro desapareceu. Teria que cuidar daquela garota de um jeito ou de outro. E ainda por cima sozinho.
~ ❖ ~
Pequim. China.
Nas ruas de Pequim uma apresentação estava prestes a começar. Existia o que parecia ser uma feira de atrações ao ar livre. Tanto adultos quanto crianças apresentavam alguma coisa para as pessoas que passavam por aquela rua na tentativa de ganhar algumas moedas. Crianças fracas e magras ao ponto de serem só pele e ossos tentavam a todo custo fazerem alguém rir delas para receberem comida. Adultos tentavam truques perigosos para chamar a atenção de turistas e com isso algumas boas notas. Mas a miséria e a enganação se misturavam pela extensão daquelas ruas. Existiam tanto inexperientes, quanto profissionais falidos tentando sobreviverem. Alguns grupos até mesmo formavam parcerias para, enquanto um distraia os expectadores, os outros roubarem as carteiras. E em meio aquela cacofonia de sons e cores, existia um garoto chinês que tentava se apresentar.
Ele possuía olhos e cabelos castanhos. Trajava uma túnica chinesa vermelha com as barras em tons de sépia, as mangas eram tão compridas que cobriam até mesmo suas mãos e vestia calças largas também em sépia. Seus olhos orientais eram dois profundos lagos calmos e sem ondas. Possuía uma expressão de aparente calma eterna e uma sábia compreensão mistica em seus olhos.
Não havia muitas pessoas para assistir a sua apresentação, mas independente do número de observadores ele se dedicava no aprimoramento de seus movimentos e não admitia erros em si próprio.
Duas varas de bambus estavam fixadas no chão e ao subir em uma delas com visível rapidez e leveza, realizava contorções sem mesmo precisar se apoiar no chão. Seus movimentos lembravam os de uma garça, que graças as suas mangas compridas, pareciam asas graciosas ao invés de braços. Mudava de uma vara para outra sem que pudessem vê-lo tocar o instrumento, subia para o alto e então descia, parecia voar sem mesmo tocar no bambu. Realizava giros de cabeça para baixo e então tocava os pés em sua cabeça pelas costas. As vezes dava um salto para além do topo das varas e virava uma bola lá em cima, caindo como uma gota em direção ao chão mas conseguindo voar de volta para as varas poucos segundos antes do choque. Suas apresentações duravam vinte minutos, onde ele parava para descansar por cinco e então reiniciava uma nova depois do descanso.
Havia feito isso durante muito tempo, e sempre se cansava mais ainda a cada dia que passava, mas não tremia. Se seus braços tremessem não conseguiria realizar seus movimentos e não queria cometer erros em nenhum de seus números.
Aquele dia no entanto, havia algo que o incomodava na plateia. Em meio aos cabelos negros e castanhos tão comuns no dia a dia de seu país, existia alguém com cabelos dourados se destacando. Não precisava nem olhar para suas roupas ou seus olhos ocidentais para saber que era um estrangeiro. Só o cabelo dourado já era o bastante para se destacar. Se ele estivesse meramente passando por ali não teria se incomodado com sua presença, mas ele estava parado lhe observando com olhos inquisidores. Ao contrário dos demais espectadores, que possuíam poses relaxadas e confortáveis, alguns até mesmo sentados, o estrangeiro estava muito reto, rígido. Pela forma autoritária de apenas ficar em pé, como se fosse um carvalho cujo vento nunca iria curvar, ele lembrava um general ou soldado do exército. Mas foram seus olhos azuis escuros que estavam incomodando o garoto chinês. Pareciam fixos demais sobre seu corpo, não importava que movimento fazia, os olhos azuis não se desviavam ou perdiam seu foco. Era um olhar intruso, predador. Pareciam ver através dele, observar tudo o que ele poderia ocultar. Em um mero movimento que ele fazia normalmente, se pegou ficando corado, ao vê-lo observar com tanta atenção. Os meros vinte minutos pareciam horas com aqueles olhos. Isso era muito incômodo.
Ao final da apresentação, ele se curvou perante a plateia. Conseguiu receber apenas três moedas de cobre, não era o bastante nem mesmo para um pão. Enquanto a plateia se dispersava ele notou que o estrangeiro não estava mais lá. Olhou para os dois lados e não o encontrou. Sentiu-se imediatamente aliviado com a falta de sua presença. Agora iria descansar, apenas cinco minutos antes da próxima, não poderia perder muito tempo com apenas um descanso.
Dirigiu-se até uma parede que proporcionava uma grande sombra e sentou-se em frente a ela, encostando-se na parede. Fechou os olhos e soltou um lento suspiro, acalmando-se. É então que sente algo tocar em suas pernas. Ao abrir os olhos encontra uma caixa negra com o desenho de um dragão dourado pousada em seu colo.
— Você deve estar cansado. Melhor se alimentar para repor as energias.
O homem estrangeiro estava sentado do seu lado com seus olhos azuis o encarando. O chinês levou um susto, mas preferiu não demonstrar isso. Ao abrir a tampa da caixa percebeu que era um obentô* completo. A caixa era dividida em quadrados irregulares e cada espaço estava guardando um alimento. Camarão empanado, pedaços de salmão, sushi, rodelas de cenoura, temakis, sashimis, carne e seu tão adorado arroz chinês. Tudo muito bem feito e moldado com perfeição.
— Ficarei muito ofendido se você não comer.
Sabia por experiência que aquilo devia ter custado caro, era semelhante aos que ficavam em exposição em um restaurante o qual passava em frente, mas parecia mais complexo do que aqueles, e os que ficavam em exposição já possuíam um preço elevado.
— Eu não posso aceitar — o garoto chinês diz.
— É muito solitário comer sozinho, quer mesmo que eu jogue isso no lixo?
— Não — ele diz já pegando os hashis e se pondo a comer. Desperdiçar comida deveria ser um crime.
Era uma delicia. O arroz derretia na boca e podia sentir o tempero em cada acompanhamento. Não se lembrava de ter comido algo desse porte em sua vida inteira e aproveitava cada pedacinho como se fosse o ultimo que fosse comer.
— Algumas pessoas não conseguem entender a arte. Caem facilmente em truques baratos e não conseguem ver a habilidade de truques de verdade. Se alguém disser que algo é belo, então todos veem beleza e encantamento em algo medíocre. Ter um prodígio desconhecido por aqui me parece um grande desperdício de talento — o loiro comenta enquanto bebe um gole de água.
— Quem é você?
— Meu nome é Michael. E você?
— Wei Sheng.
— Foi uma bela apresentação, Wei.
Michael, o estrangeiro ocidental, retira um grosso conjunto de notas de seu bolso, notas altas, e coloca o monte ao lado do garoto que olhava espantado para a absurda quantidade. Era o suficiente para comprar um restaurante inteiro ou um apartamento mediano na zona rica da cidade.
— Não posso aceitar, senhor. É muito para mim. — ele diz com a cabeça abaixada e o corpo curvado, as mãos estendidas devolvendo o dinheiro ao estrangeiro — Não quero ofender, mas realmente não posso.
— É claro que pode — ele diz sem pegar de volta, com um sorriso no rosto. — E de onde trago isso tem muito mais. Se vier comigo você pode receber o dobro. Você tem o dom de um artista circense, é um grave desperdício vê-lo se esforçando tão duro por tão pouco aqui. Venha comigo.
Sheng observa o estranho avaliando-o, e então olha para as outras pessoas que estavam se esforçando a sua volta. Crianças magras e esfomeadas que só desejavam um pedaço de pão, artistas desempregados que se colocavam em risco por causa de algumas moedas, deficientes que pediam esmolas para sobreviverem. Isso era muito injusto.
— Tem pessoas que precisam mais dessa oportunidade do que eu. Por que está escolhendo a mim?
— Porque é você que eu quero.
Sheng estreita os olhos, sem entender sua resposta tão vaga.
— Sabe, o dono do circo de onde venho pode realizar qualquer desejo que você quiser. Acredite, ele já realizou o meu. Digo isso por pura experiencia — uma sombra melancólica passa levemente por seus olhos, mas desaparece tão rápido quanto surgiu. — Você tem a opção de recusar, mas não vou escolher mais ninguém se não for você para essa vaga.
Sheng pensa a respeito. Era uma oportunidade rara que só apareceria uma vez em sua vida, teria o prazer de trabalhar com aquilo que gostava, ganhando mais por isso. De que iria adiantar continuar a sofrer pela fome nas ruas? Iria finalmente encontrar um lugar que o acolhesse e onde ele pudesse se dedicar ao seu aprimoramento. Não tinha nada a perder, não que ele tivesse alguma coisa que poderia perder, já que não tinha nada. Depois de muito pensar e medir os prós e contras, resolveu aceitar.
— Então, por favor... — ele se curva em uma reverencia, com as mãos escondidas embaixo das mangas. — Permita-me trabalhar com o senhor.
Um sorriso satisfeito se abre no rosto de Michael. Ele levanta a cabeça de Wei segurando-o pelo queixo e cola uma figurinha em sua bochecha. Um cata-vento colorido.
~ ❖ ~
Alma havia acordado a alguns minutos, encontrando duas pessoas desconhecidas em seu quarto. Uma delas possuía cabelos negros e olhos cristalinos. Usava o que parecia ser um terno negro com botões prateados. A outra estava sentada ao lado de sua cama. Era um homem com cabelos platinados bem brilhantes. Possuía olhos da cor do gelo e uma estranha marca vermelha no olho direito que ela não soube identificar. Estava usando um casaco de pele branco, com as bordas da touca felpudas. Tinha um olhar muito, muito frio em seu rosto. Mas uma beleza digna de admiração.
Ela move a cabeça procurando por alguém e esse movimento chama a atenção do homem de cabelos negros.
— Se está procurando por Michael, ele não está aqui. Saiu em uma viagem.
Ela abaixa a cabeça em concordância, levemente decepcionada.
— Alma? — o mordomo pergunta — Michael me disse que você é muda, é verdade?
Ela afirma com a cabeça.
— Posso confirmar? — ele pergunta segurando cavalheiramente sua mão.
Ela arqueia sua sobrancelha sem entender, mas antes que pudesse articular algo em resposta, sente muita dor. Magnos havia deslocado sua mão para trás, torcendo e quebrando seu pulso. O osso de seu braço estava perfurando a pele, completamente exposto para fora.
Alma tinha aberto os lábios em um grito silencioso, mantinha a boca aberta gritando sem emitir nenhum som, com algumas lágrimas rolando pelo canto de seus olhos, enquanto tentava se libertar das mãos dele.
— Parece que era verdade — ele diz claramente decepcionado. — Não vejo muita utilidade em você e honestamente me questiono o que ele viu em algo tão simples e defeituoso...
Ela ainda tentava se soltar, mas ele a segurava sem precisar fazer nenhum esforço. Entediado e decepcionado com o novo membro da família, ele abre sua mão a libertando e se dirige até a porta.
— Deixo ela aos seus cuidados doutor, já vi o que queria, não me impressionou — Magnos fala e se retira do quarto.
O médico de olhos frios estende seu braço em direção a garota com uma expressão apática. Ela se afasta dele olhando-o temerosa.
— Não estou aqui para te machucar.
Ele pega o pulso quebrado dela com as duas mãos envolvendo-o com seus dedos gentilmente. Alma sente um estranho formigamento no local onde ele a tocava e quando o homem fantasmagoricamente branco retira suas mãos não há mais nada em seu pulso. Nenhuma cicatriz, nenhum osso quebrado e nem mesmo uma gota de sangue para fora da pele. Estava intacta, como se nada tivesse acontecido, e ela não sentia mais dor. Alma olha espantada para sua mão e em seguida para o homem com olhos de gelo, mas ele não parecia impressionado com o que viu e nem com o que fez.
— Eu sou o médico daqui — ele diz calmamente sem alterar sua expressão apática. — Já cuidei de seus hematomas e sangramentos internos enquanto dormia. Se você se machucar de novo deve vir me procurar para tratar dos ferimentos.
Ele levanta-se da cadeira em que estava sentado e dirige-se até a porta do quarto. Saindo do cômodo sem se despedir ou dizer mais nada.
Alma levanta-se da cama curiosa sobre aquela figura, queria perguntar como ele tinha feito isso. Coloca o rosto para fora da porta e observa uma ponta do casaco dele virando uma esquina no caminho do circo. Põe-se a segui-lo para saber mais sobre quem ele é. Depois de perdê-lo de vista algumas vezes e encontra-lo outras, acredita vê-lo entrar por uma porta castanho avermelhada. Aproxima-se da porta e olha por uma fresta para ver o que tinha lá dentro. Estava escuro, mas pôde distinguir a silhueta de uma mulher saindo furtivamente do quarto. Ela estava usando um vestido muito longo que parecia ser caro, mas não conseguiu ver o rosto dela. Quando a mulher desapareceu, Alma entrou no quarto procurando pelo doutor. Não conseguiu encontrá-lo, mas avistou um homem adormecido na cama que parecia que a mulher tinha saído. Ele estava muito imóvel, não conseguia ver o seu corpo subir e descer com a respiração. Tocou a bochecha dele com seu indicador uma vez para ver se estava morto. Nada. Tocou uma segunda vez. Viu todo o quarto girar e quando percebeu estava deitada na cama nele.
— Te peguei.
O homem loiro estava por cima de seu corpo. Seus olhos violetas encaravam o rosto dela e os cabelos loiros caiam despenteados por sua cabeça. Ele era bonito, uma beleza incomoda quando se estava tão perto de seus olhos. Alma desviou os olhos de seu rosto e percebeu que ele estava sem a camiseta, usando apenas uma calça de moletom e exibindo o seu abdômen. Ficando levemente corada com a situação em que se encontrava.
— Ei, você não é a Lua. Quem é você? — ele pergunta observando-a, encarando surpreso um rosto que não esperava.
Ela articula os braços confusa sobre o que dizer no momento.
— Perdeu a fala em minha presença? Sinto-me honrado.
O homem de olhos violetas segura o queixo de Alma e aproxima seus lábios dos dela.
— CAIN!!!
A porta é aberta de supetão, relevando uma figura loira com mechas vermelhas e laranjas. A luz incomoda os olhos dele, que olha para a porta e em seguida volta a se deitar no seu lado da cama sonolento.
— Sultana — ele cumprimenta resmungando sonolento.
— Acorda. Você disse que ia me ensinar a atirar facas hoje — Tzvetana fala entrando no quarto sem pedir licença e se colocando ao lado da cama.
— Não tão cedo — ele diz com um resmungo. — Que roupas são essas? Me parecem familiares.
— Encontrei o guarda roupa do Michael. Ele tem bom gosto, só precisei mudar algumas coisinhas nas peças.
— Como você encontrou o quarto dele? — Cain pergunta sonolento sem realmente se importar.
— Fui perguntando para as pessoas até achar uma que soubesse onde era. Acorda logo!
Cain não dá ouvidos a ela, puxa o cobertor para cobrir sua cabeça. Tzvetana então sai do quarto e três minutos depois volta com um balde cheio de água. Joga todo o conteúdo no loiro adormecido e espera ele acordar. Alma observava tudo aquilo espantada, de Tzvetana, que pisca um olho para ela, à Cain, que se levanta vagarosamente embaixo do cobertor.
— Agora eu vou te matar.
Tzvetana sai correndo pela porta sendo perseguida de perto por um atirador de facas muito irritado e mal humorado. Alma salta da cama e sai correndo do quarto antes que algo mais acontecesse. Caminhando sem rumo, até ter um vislumbre dos cabelos dourados de seu salvador atrás de uma porta. Entra sem exitar e encontra uma cena estranha que não entende muito bem.
Michael estava sendo acompanhado por um garoto chinês de túnica vermelha, que olhava para tudo com uma calma reflexiva. Uma garota ruiva estava abraçada às costas do loiro, mãos que pareciam garras seguravam os ombros dele e ela tinha as pernas entrelaçadas em sua barriga. A ruiva rosnava ferozmente para um homem de cabelos roxeos muito irritado em frente aos três. Ela se aproxima do grupo cautelosa, tentando prestar atenção.
— Parece que você estava se divertindo Arman — Michael diz com um sorriso.
— Quer que eu te mate? — o acrobata pergunta com um tom frio cortante.
— Este é Wei Sheng. Ele me mostrou um espetáculo muito bom em Pequim. — Michael continua, ignorando a fala de Arman.
— É um prazer conhecê-lo senhor — Sheng diz fazendo uma reverência.
— Eu sei — ele fala avaliando o chinês com o olhar. — Você parece bem fraco, o que o faz pensar que vou te aceitar aqui?
— O fato de eu querê-lo aqui — Michael pronuncia-se.
Arman move seu olho violeta censurando o loiro e este encara o homem de cabelos arroxeados com hostilidade.
— Não tenho escolha não é? — Arman fala adivinhando os pensamentos dele, percebendo sua derrota iminente. — É melhor estarem prontos para treinarem até morrerem... aprendizes. — ele fala banhando em sarcasmo a última palavra.
Arman coloca as mãos nos bolsos e sai do local, levemente fatigado pelas últimas horas em que teve que lidar com Isis.
A pierrot aproxima-se de Michael fazendo sua presença ser notada e lhe dá um abraço. Sem dizer nenhuma palavra, estava falando "Bem vindo de volta" com seu gesto. Isis estreita seu olho dourado ao observar a garota.
— Olá Alma — ele a cumprimenta fazendo carinho no topo de sua cabeça com ternura.
A leoa ruiva morde o ombro de Michael com força, deixando suas presas perfurarem os músculos dele.
— Ai! Por que fez isso? Eu não menti pra você, menti?
— Só estou te marcando — ela diz o libertando de sua mordida.
— Pra que? — ele pergunta indignado.
Ela desvia seus olhos para o lado com teimosia, não iria contar. Alma e Sheng observam os dois confusos, mas sem se importarem de fato com o que estava acontecendo. O loiro retira a egípcia de suas costas e a coloca no chão.
— Neste momento eu quero mostrar o circo para nosso novo membro, Wei Sheng — ele diz — Você quer ficar aqui ou quer que eu te mostre o seu quarto antes?
— Quero ir com vocês — ela diz cruzando os braços, não iria aceitar um não como resposta, provavelmente iria arranhá-lo até ele dizer que ela poderia ir, se ele dissesse "Não".
O loiro dá um forte suspiro, imaginando pelo seu olhar selvagem o que ela estava pensando.
— Você se importa se ela acompanhar a gente Sheng? — Michael diz derrotado.
— Não. Eu não me importo. — ele fala indiferente.
Alma segura a mão enluvada de Michael, sinalizando que ia junto com eles exibindo um sorriso, ele tinha prometido que a levaria pra ver o circo quando tivesse tempo, não tinha?
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