Dead Line Circus - Interativa

6 Dance antes que tudo chegue ao fim


Notas iniciais
Demorei? Não, não respondam! Minha mãe tem conversado com as amigas dela, e após uma conversa sobre os 'perigos da internet' ela decidiu ficar de olho em mim. Eu realmente não conseguia escrever nada com ela olhando do meu ladinho. Foi meio tenso mexer na internet, nem no facebook consegui entrar T^T. Mas eu pude escrever nos intervalos dela *eu like a ninja*. Por isso o capitulo demorou muito mais do que os outros. Mas agora que ela enjoou do nosso "tempo mãe e filha" eu vou poder voltar a ativa. Fiz um capitulo bem grandão para recompensa-los, então me perdoem pela demora.

"Cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos."

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Michael, Wei Sheng, Isis Sadat e Alma Chaos. Os três estavam, respectivamente, sentados na plateia observando um espetáculo escolhido por Wei. Os assentos em que estavam eram trançados em palha e estofados com almofadas de algodão. Eram altos, de forma que os pés dos ocupantes não alcançassem o chão, mas ao mesmo tempo não alto o bastante para que eles não conseguissem de sentar. O local do espetáculo lembrava muito uma selva. As paredes eram revestidas por bambus, o teto estava coberto por hera e plantas de variadas espécies cresciam pelo chão. Mas ao mesmo tempo que elas cresciam, voltavam a se encolher momentos depois. Eram plantas tanto frutíferas, quanto florais. Estendiam seus galhos e caules para cima, chegando perto dos visitantes e então, depois de um momento, voltavam a se recolher para a terra. Pareciam ter consciência própria.

Isis estava incomodada por todas aquelas plantas se movendo ao seu redor, estendendo frutos e flores do nada em sua direção, seus instintos não gostavam da amabilidade delas. Alma, muito pelo contrário, estava curiosa pelo evento. As plantas que se moviam estendiam várias coisas em sua direção, mas uma vez que ela não pegava, os caules voltavam a se recolher para a terra cabisbaixos, sumindo como se voltassem a ser sementes. Curiosa com isso, ela decidiu colher um lírio que lhe era estendido.

A planta desapareceu no momento em que teve a flor colhida. Alma conferiu se ela tinha voltado para o chão, mas não encontrou nenhum sinal por ali. Cinco outros caules com lírios se abriram ao seu redor, onde ela colheu todos. Em pouco tempo já estava sendo atolada por flores em seu colo.

Michael olhava entediado para as plantas, pegando uma maçã vez ou outra que lhe era estendida, e mais entediado ainda para o espetáculo. Wei olhava para tudo com um rosto calmo e contemplativo, parecia entediado como Michael, mas seus olhos brilhavam em direção ao show. O que se passava por fora, claramente não acontecia por dentro do garoto. Ele estava encantado.

A apresentação em si era um show com animais. Mas obviamente não era um show comum.

Ao fundo do palco, em um canto entre duas paredes, existia uma banda que fazia o acompanhamento musical para o espetáculo. Nenhuma novidade, exceto talvez, pelo fato de serem os animais tocando os instrumentos. Uma raposa de pêlo avermelhado, em pé sobre as duas patas, tocava um violão celo; uma pantera negra tocava um saxofone; um urso estava sentado na bateria; o teclado possuía oito grilos pulando pelas teclas de marfim, emitindo notas melodiosas com timbres doces; na guitarra, um gorila de moicano; e por ultimo, um tucano tocava um pandeiro com os pés.

O ritmo da banda era usado como pano de fundo para os verdadeiros astros da atração. Pandas multicoloridos dirigiam motos em círculos, executando manobras sobre ou sob as mesmas. Ficando de pé sobre elas, fazendo-as girar sobre apenas uma roda e até mesmo pulando junto a elas como bolas fofas de quicar. Pássaros voavam de maneira sincronizada pelo ar, ora em X, ora em círculos e outras vezes imitando o movimentos das ondas do mar.

Cavalos utilizando pedras preciosas nos acessórios de seu corpo trotavam igualmente pelo lugar. Híbridos de humanos e lagartos estavam cavalgando em suas costas. Cães de caça e lobos uivavam em um mesmo ritmo, coexistindo sem atacarem uns aos outros até a morte. O espetáculo sincronizado continuou assim até parecer recuar aos poucos para as bordas do palco, como se estivessem abrindo caminho. E então surgem três magníficos elefantes, todos com jóias indianas e panos de veludo sobre o corpo. À frente deles, dois leões imperam pelo caminho como reis diante dos súditos.

Ao ver os felinos no espetáculo os olhos de Isis brilham, inclinando-se mais para frente para ver melhor. Michael colocou o braço em frente a ela por segurança. Sair atacando os animais seria bem ruim.

Os leões pulam sobre grandes bolas coloridas e saem rolando elas, orgulhosos perante os outros animais. Enquanto isso os elefantes indianos são suspensos por tecidos acrobáticos semelhantes aos de Arman, mas vermelhos dessa vez, e atirados em direção a plateia.

Ao ver as grandes massas de peso caindo em direção a eles, os visitantes se encolhem, dando rápidos gritos de surpresa com a ameaça. Michel permanece o mesmo, olhando seus três convidados encolhidos como bolas de lã nos assentos.

O elefante cai em pé sobre eles, parecendo flutuar sobre as cabeças dos espantados e anda por cima de todos. Muitos associaram a um milagre o elefante estar flutuando, quando na verdade existia uma rede de finos e quase invisíveis fios de aranha pairando sobre eles. Obviamente não eram fios comuns.

A tromba do mamífero circunda o corpo de Sheng e o levanta de seu assento. O chinês se espanta, mas não se move com medo de cair. Outras três pessoas aleatórias são sequestradas pelos animais enormes e trazidas para o palco. Os elefantes as atiram para o alto e voltam a pegá-las com suas trombas antes de caírem. Uma das pessoas gritava, a outra ria e Sheng apenas sorria em silêncio, divertindo-se com a inesperada brincadeira.

Piruetas, danças, bambolês e música. O espetáculo era bem animado e alegre. Um clima leve de despreocupação e alegria pairava no ar e dominava por completo os visitantes, exceto Michael que parecia não compartilhar aquele sentimento. Alma em meio ao seu cobertor de flores batia palmas acompanhando o ritmo do urso. Isis tentava escapar da barreira que Michael fazia para entrar no palco e Sheng flutuava em meio a magia e a cor do show.

Um homem, o único realmente humano no espetáculo, localizava-se no centro da arena com uma baqueta nas mãos. Aos menores movimentos dele, os animais pareciam mudar o ritmo e suas posições. Ele regia o show como uma maestro rege sua orquestra. Possuía um casaco negro com detalhes de um xadrez monocromático, presente tanto em suas roupas quanto em seu quepe. A pele clara, levemente morena, ostentava olhos esmeralda e longos cabelos verdes caindo pelas costas.

Ao final da música o espetáculo encerrou-se. E os escolhidos pelos grandes elefantes saíram correndo em animação de volta para suas famílias. Exceto Sheng que fez uma reverência em direção ao maestro, agradecendo por ter participado e então se dirigindo ao grupo.

– Está com fome? – Michael pergunta enquanto comia um cacho de uvas.

– Não. – Sheng responde ao se aproximar, mas ao abrir a boca para emitir essa simples palavra, teve uma uva inserida entre seus lábios.

– Está mentindo – Ele diz fazendo o garoto engolir a fruta. – Abra.

Wei obedece e abre a boca, ganhando mais cinco bolotas da fruta para comer.

– Venham, eu vou lhe mostrar os seus quartos – Ele diz se retirando. – Não me façam esperar!

Os três o seguem apressados, notando a visível mudança de humor do loiro. Mas a entrada se fecha com hera no momento que eles se aproximam. Michael encara aquela parede de plantas notavelmente irritado.

– Não vai se despedir? – O maestro do espetáculo pergunta, aproximando-se do grupo com dois leões ao seu lado.

Isis salta em direção aos leões no momento em que os vê e fica brincando com eles. Os leões a perseguem e então saltam para trás quando ela avança na direção deles, as caudas dos três balançavam como serpentes, sinalizando que era uma brincadeira. Se não fossem tão perigosos pareceriam gatinhos domesticados.

– Perdoe minha grosseria – Michael diz com um falso sorriso forçado. – Não achei que seria necessário.

– Entendo. Também peço desculpas pela minha falta de modos – o maestro diz forçando um sorriso também. – Isto chegou para você hoje. Magnos queria lhe entregar pessoalmente, mas a presença dele foi solicitada para resolver um problema – ele diz estendendo um envelope marrom.

– Problema? – Michael arqueia uma sobrancelha desconfiado enquanto pega o envelope.

O homem de cabelos esverdeados lhe lança um olhar de cúmplice, com um sorriso no canto dos lábios. O loiro entende imediatamente e decide não fazer mais perguntas. Contentando-se em pegar o envelope.

– Não vai me apresentar a eles? – O maestro pergunta olhando para Michael com olhos pidões.

– C-Claro... – Ele volta o olhar para Alma e Sheng. – Este é o nosso domador. O nome dele é Erich.

– É um prazer – Sheng curva-se com as mãos juntas em reverência.

Alma observa o modo como ele o cumprimenta estranhando o gesto e percebendo que estava parada sem fazer nada, rapidamente se curva como Sheng, embora com menos elegância.

– Wei Sheng, Alma Chaos e aquela com Carrasco e Ditador é Isis Sadat. – Michael apresenta.

– Eu sei. Arman me contou – O domador explica. – Ele parecia mal-humorado. Me pergunto se ele vai conseguir conviver com os novatos...

– Já foi bem difícil aproximá-lo de Cain e Ivie, mas não foi impossível. Uma hora ele se acostuma.

Erich disfarça uma risada. Conhecia bem Arman e sabia que seria difícil.

– Isis, venha conhecer seu quarto – Michael anuncia esperando ela se afastar dos leões.

A hibrida se despede puxando a orelha dos dois e corre em direção ao grupo. O lugar em que eles se dirigem é um corredor bem extenso, com várias portas iguais por sua extensão. Todas portas brancas com a maçaneta de ferro e um X vermelho colado na altura dos olhos.

Olhando para cima, Alma não conseguiu enxergar o teto, um breu o cobria impedindo de ver o seu fim, as pessoas que passavam por ali se sentiam como formigas devido a grandeza do lugar. Bonequinhos em uma grande casa de brinquedos.

Aquele lugar foi um dos primeiros feitos exclusivamente pelo mestre do circo, para abrigar os inúmeros acrobatas que ele conseguiu, mas com o tempo os quartos foram se esvaziando, restando alguns poucos realmente ocupados por ali. Isis se sentia diminuta. A extensão do lugar a fazia enxergar o quanto era pequena ali e o fato de não conseguir ver o teto só piorava isso, tinha a sensação de estar sendo observada por algo escondido naquele breu.

– Este é o da Isis – Erich informou abrindo uma porta e retirando o X vermelho dela.

Tapetes em todos os lugares. No chão, no teto, nas paredes, não havia um pedacinho que não estivesse coberto. Tecidos com figuras que lembravam épocas felizes e selvagens, eles davam mais cor e vida ao aposento. Vários montes de almofadas estavam espalhados por ali. Pequeninas montanhas de almofadas verdes, vermelhas, douradas, azuis, amarelas, brancas, cinzas, todas as cores possíveis. Um espelho largo estava fixado no teto de vidro e um menor na parede esquerda. Bolas de lã, ratos de brinquedo, torres atapetadas e bolinhas de quicar. Isis se lançou em um dos montes de almofadas alegrissima, mergulhando na fofura e brincando com uma bola de lã que encontrou ali no meio, esquecendo todos os problemas momentâneos.

– O que aconteceu aqui? – Michael pergunta olhando o quarto, praticamente feito sob medida para Isis.

– O mestre arrumou tudo – Erich responde com orgulho.

– Ele sabia que espécie de hibrido eu ia trazer antes mesmo de encontrá-la?

– O que você acha? É impossível esconder algo dele. O mestre tem se movido muito ultimamente.

– Você viu ele?

Uma sombra melancólica transpassa o rosto do domador, lembrando-se de algo recente.

– Não, Magnos não deixou. Mas um dia eu vou conseguir.

O chinês observa os dois conversando com olhos inquisidores. Mestre?

O loiro então percebe o alvo de sua atenção.

– Este é o seu quarto Sheng – Michael conduz o chinês até uma das portas excessivamente animado, quase o arrastando até ali, tentando desviar a atenção dele do assunto.

Uma grande cama de casal, que mesmo sem ser tocada sabia-se que era macia, encontrava-se no centro coberta por um edredom preto e branco. Uma pintura chinesa de um dragão madrepérola incendiando uma aldeia encontrava-se em cima dela. As paredes do quarto eram cor de areia, com imagens de uma floresta de bambus pintadas por sua extensão. Uma mesinha oriental encontrava-se no centro de um espaço mais a leste, com um bule de chá e xícaras de porcelana em cima. Um armário abrigava vários livros e pergaminhos e havia uma cômoda, enfeitada apenas com uma flor de lótus de cristal e um galho com flores de cerejeira em que um bilhete escrito "Bem-vindo" estava preso.

– Não posso aceitar. Por favor me coloque em um quarto mais simples.

Tanto Michael quanto Erich já haviam desaparecido, deixando Sheng sozinho com o quarto de luxo sem poder se manifestar. Alma entra no quarto admirando-o por seu estilo oriental. Vendo que Sheng procurava distraído pelos dois, pegou uma mascara hannya que havia pousada na mesa e vestiu-a, aproximando-se sorrateiramente dele. Ela não podia falar "Buu!" para lhe dar um susto, pois era muda, então ficou parada esperando ele se virar.

Sheng desistiu de procurá-los alguns minutos depois, haviam simplesmente evaporado no ar, decidiu voltar ao que seria oficialmente seu quarto e encontrou um rosto assustador lá dentro. Levou um susto quando viu os dentes tortos e o olhar feroz da máscara, não se lembrava de ter feito alguma coisa para encontrar uma hannya tão depressa. Mas era só Alma, que retirava a máscara do rosto e ria silenciosamente dele. Não conseguiu não rir junto. Não por que tinha levado um susto, mas por que definitivamente aquela máscara, usada para representar uma mulher vingativa e invejosa, não combinava com a pequena e inocente Alma.

~ ❖ ~

Veneza. Itália.

Em um dos muitos teatros da bela cidade alagada, um espetáculo estava acontecendo. Jornais circulavam dando criticas sobre o evento e suas opiniões pessoais sobre os artistas, pois o espetáculo estava em uma turnê e não ia ficar lá para sempre. Havia vários lugares na platéia, cadeiras baratas por sinal, mas a casa estava cheia. Algumas pessoas até mesmo ficavam de pé para poderem ter o prazer de desfrutar da bela arte.

Uma apresentação de balé se desenrolava no palco. Os passinhos nas pontas do pé acompanhavam o ritmo dos violinos enquanto os vestidos brancos flutuavam como nuvens a cada passo. Vários anjos cobertos com vestidos de névoa dançavam sincronizadamente pelo palco ao ritmo da música.

Uma bailarina loira interpretava o papel de Odette, a bela princesa transformada em cisne branco. Movia-se com cautela, calculando cada passo, encenando os sentimentos da personagem com sua dança. O coro de bailarinas dançava ao seu redor realçando sua beleza e graça. A pele branca como leite, coberta por um vestido de plumas brancas, os cabelos dourados refletindo a luz e com várias outras bailarinas desleixadas ao seu redor davam a impressão dela ser um anjo perfeito refletido pela luz do palco. Seu nome era Lacie, a filha do ilustre Juiz Villenan. Nunca teve nada que lhe fosse negado na vida, seu caminho para a fama era sempre sem obstáculos e de acesso rápido, quem lhe contestasse ou ousasse difamar sua imagem ia pra trás das grades pelo seu querido pai.

Apesar de sua beleza inegável e sua dança calculada, os olhos da platéia não estavam fixados em si, mas sim no cisne negro, Odille. A filha do mago que amaldiçoou a bela Odette e que enfeitiçava o príncipe se passando pela princesa. A bailarina que interpretava Odille chamava-se Ênia, o total oposto de Lacie. Ela era mais intensa em sua dança, mais marcante. Seus passos eram tão leves que pareciam nem tocar o chão, ela deslizava sobre o palco como se estivesse em cima do gelo. Dançando levemente, fortemente, intensamente, ela não cometia nenhum erro. Sua dança superava a de Lacie em vários sentidos. Os expectadores sentiam-se atraídos pelo cisne negro, em vez de se apiedarem do branco. A dança tão fria quanto o gelo e tão intensa quanto uma nevasca, essa era Ênia.

Ao fim da apresentação as bailarinas se dirigiram ao camarim, quando a platéia já tinha aplaudido e se retirado.

– Vocês viram? Todos só tinham olhos para mim. Nem sei o que vou fazer com todas as declarações de amor que eu receber. – Lacie se exibia para o coro de bailarinas fingindo estar envergonhada.

Os camarins eram sempre abarrotados de pessoas, mas Lacie tinha conseguido um espaço só para si mesma. Estava sentada em sua poltrona de veludo em frente a seu espelho iluminado, enquanto uma das meninas massageava seus ombros e a outra refazia sua maquiagem.

– Lacie é sempre incrível.

– Sua dança é perfeita. Claro, como o esperado.

– Lacie poderia se casar com um príncipe de verdade se quisesse.

O coro de bailarinas a adulavam. A garota precisava de muita atenção, quase tanto quanto uma diva, e quando não recebia descontava nos outros sua raiva e frustração.

– Ora não diga isso, eu não sou tão bonita assim – A garota dizia olhando de esguelha para elas continuarem.

– É sim! Super! Como um anjo.

– Uma deusa!

– Se estivéssemos na Grécia você seria confundida com a Afrodite. Garota sortuda, assim fico com inveja.

Lacie ria alto dos elogios, plenamente satisfeita pelo seu exito. Enquanto isso Ênia marcava um X em um mapa suspirando e seguia uma rota com a caneta vermelha até o próximo ponto. Novamente não encontrou nada em Veneza, a próxima apresentação seria na Romênia e ela tinha quase certeza de que não acharia nada.

Ênia observa seu rosto no espelho. Tinha olhos heterocromáticos (o esquerdo escarlate e o direito verde esmeralda), dona de curtos cabelos negros que iam até o pescoço e a pele clara de uma boneca. Não possuía a beleza angelical de Lacie mas estava satisfeita com sua aparência nebulosa.

– Eu não fui ótima Ênia? – Lacie diz elevando a voz.

O cisne negro dá de ombros indiferente. Não queria gastar seu tempo mimando a princesa.

– Vamos Odille, admita. Eu fui perfeita – A loira grita com orgulho.

– Você tropeçou no terceiro ato – Ênia fala com a voz calma e indiferente. – Também pisou no pé do príncipe no quinto. Se você ensaiasse não teria tido esses problemas.

– Como é? – Lacie faz uma careta seguida de um sorriso de escarnio no rosto com uma das sobrancelhas franzidas. – Você disse alguma coisa gancinho desengonçado? Aquele jornalista pode ter te dado uma critica boa, mas eu sou a estrela aqui.

– VISITA! – Um empregado grita anunciando as meninas.

Um homem de cabelos dourados e olhos azuis entra no camarim segurando um buquê de rosas vermelhas. As demais bailarinas coram ao verem ele entrar, mas ele estava fixo em seu objetivo. Lacie percebe que ele caminhava confiantemente em sua direção e se põe de pé com elegância para recebê-lo. Ela estende sua mão para ele beijá-la ficando levemente corada com a aproximação dele. Sorri satisfeita com o pretendente e já imaginava o que diria para seu pai com o pedido de casamento. Mas o visitante passa reto por ela, ignorando-a, e se dirige a Ênia um pouco mais adiante.

– Para você – Ele fala estendendo o buquê em direção a garota.

A bailarina recebe o presente levemente surpresa. Não costumava ganhar flores, ainda mais rosas vermelhas. Sente o perfume emanando das delicadas pétalas e aprecia aquele raro luxo.

– Foi uma bela apresentação, seria melhor se você tivesse aparecido mais.

Ênia move levemente a cabeça agradecendo. E Lacie, que estava paralisada com o choque de ter sido ignorada, recupera a consciência após alguns minutos e ao perceber que foi ultrapassada por uma garota do coro se dirige a eles com a marcha de um soldado indo para a guerra.

– Meu senhor... – Ela se dirige a Michael com a voz doce, que chegava a dar diabetes de tão doce que era. – Você deve ter se enganado, eu sou a Odette, a bailarina principal. Essas rosas não são para mim?

– Eu não me enganei, Lacie Villenan – Ele responde com um sorriso gentil no rosto. – Estou aqui pelo cisne negro, Ênia.

– Tem certeza? – Ela pergunta abraçando um de seus braços, fazendo seus seios roçarem discretamente o loiro para provocá-lo. Não iria dar o braço a torcer.

– Absoluta – Ele fala tentando se desvencilhar da diva. – Gostaria de dar um passeio lá fora Ênia?

O cisne negro afirma com um leve movimento de cabeça, percebendo que ele queria um lugar mais calmo para conversar. Levanta-se e aceita o braço que ele lhe estende, passando suas mãos em volta do braço estendido e saindo do camarim com uma pontada de orgulho por deixar Lacie para trás. Nem conhecia o homem, mas já lhe deu alguns pontos positivos por ter lhe presenteado com aquele momento de superioridade em frente à rival.

Os dois se dirigem até uma barca em um dos portos. O loiro paga o barqueiro, um homem gordinho com o rosto risonho e trajes de marinheiro, e senta-se na embarcação, estendendo sua mão para ajudar a bailarina a sentar-se. A barca parte flutuando pelas águas de Veneza, navegando calmamente e sem pressa pela cidade. O ar era fresco e o movimento da água transmitia uma calma profunda aos navegantes.

– Como sabia o meu nome? – A bailarina pergunta.

– Estava escrito no panfleto do elenco. Era o único que não possuía um sobrenome.

– Sabe que provocou a filha de um juiz não sabe?

Ele cobre a boca com uma das mãos escondendo um sorriso, algo na pergunta dela soou engraçado para o loiro. Ênia permaneceu calma, querendo entender a reação dele para algo tão sério.

– Juízes, assassinos, presidentes, no fim todos morrem e apodrecem como miseráveis comuns. Não passam de sacos de carne ambulante.

– É verdade – Ênia concorda sem exitar.

Sentimentalismo não era algo comum em seu dia a dia, pelas palavras dele notou que era uma versão bem melancólica de ver as pessoas, mas estava certa. No fim todos morrem, não importando quem seja e nem o que viveram, todos encontram o mesmo fim. Mas havia uma pessoa que Ênia desejava que desaparecesse mais depressa do que os outros, seu único desejo, o único sentimento que se permitiu sentir, aquela conversa só serviu para lembrá-la que precisava concluir seu plano.

Estranhando o silêncio que se instalou no momento ela olha para o loiro e percebe que ele estava mergulhado em seus próprios pensamentos, assim como ela estava, mas a expressão que ele estava fazendo era exageradamente fria. Ele estava fechando e abrindo sua mão direita enquanto olhava fixamente para o movimento delas, tinha os olhos distraídos mas ao mesmo tempo concentrados, como se tivesse lembrado de algo particularmente ruim e distante. Ênia lembrou-se de ter visto uma ilustração com aquela expressão em um livro. Na imagem havia um homem insano, que após matar todos os trabalhadores de um hotel, sentou-se em um sofá e ficou revivendo cada ato que cometeu em sua memória, a ilustração possuía olhos distantes e ao mesmo tempo concentrados. Ênia teve a impressão que sua companhia já matou alguém antes, não só uma mas talvez várias pessoas antes, aquela expressão era experiente, perigosa, ele não tinha medo de matar um igual.

Despertando de seus devaneios ele olha para ela e lhe dirige um sorriso gentil para acalma-la. Ênia sentiu um leve e imperceptível arrepio. Já tinha lido antes, em algum lugar, que quanto mais doce e controlado for uma pessoa por fora, pior ela é por dentro. Aquela máscara de pessoa gentil e amável já deve ter enganado pessoas antes, mas por dentro ele devia ser pior do que aparentava e escondia mais do que realmente estava disposto a revelar. Ênia logo viu que estava em uma situação de risco, tinha que escapar sem que ele percebesse.

– "Tão fria quanto o gelo, a brisa da manhã parece brutal e desengonçada perto de seus movimentos tão suaves. O cisne negro se apresentou com impacto e distinção, mais bela e misteriosa que a tola Odette, a bailarina negra e escura como uma névoa encantou o publico com passos tão impactantes quando uma tempestade e ao mesmo tempo tão suaves quanto plumas." – Ele recita de memória o que tinha lido em um jornal – Fiquei curioso com essa descrição e vim ver pessoalmente – O loiro inclina o braço para fora do barco com calma para não cair e mergulha sua mão na água.

Como uma luz que é de repente apagada, todo o cenário de Veneza desaparece. Um infinito de escuridão e névoa se estende para todos os lados e a barca continua a flutuar em um mar escuro cujo fundo parecia não ter fim. O barqueiro em frente a eles estava coberto por mantos cinzentos que pareciam um acumulo de fumaça em volta da figura, seu rosto, outrora risonho e queimado pelo sol, tinha desaparecido na sombra do capuz. Ênia não conseguia ver nada, um espaço amplo e sem luz de abria sobre eles e apenas a luz do lampião na barca iluminava o ambiente, embora apenas o suficiente para ver o barco e o estranho, que retirava sua mão da água segurando uma rosa sem caule, tão vermelha que parecia mergulhada em sangue.

Michael segura a rosa entre os dedos e a prende atrás da orelha da garota, entre os fios de cabelos negros.

– Está linda – Ele diz segurando o queixo dela para avaliá-la melhor e soltando seu rosto em seguida. – Continue seguindo, Caronte.

A bailarina se lembrava desse nome. Caronte, o barqueiro do mundo dos mortos, encarregado de transportar as almas para o mundo inferior, onde seriam julgadas pelos seus atos em vida.

– Eu morri? – Ela pergunta para o loiro sorrindo calmamente.

– Você realmente deve ser alguma coisa, pra me fazer essa pergunta com uma expressão tão calma quanto essa – Ele sorri com ternura. – Não, você está viva. Estamos indo para o lugar que você estava procurando.

– Dead Line Circus?

– Sim. Tem uma coisa lá que você quer não é? Uma coisa que está procurando há muito tempo. Mas como eu sou muito bom... – Ele ri de si mesmo por dentro. – Não vou sequestrá-la sem te dar uma segunda alternativa. Vou deixar você fazer uma escolha Ênia. Se pular dessa barca vai morrer afogada e não vai precisar ir para o circo no final desse passeio, mas se você vier comigo, sem me culpar depois, eu te levo até lá viva e em segurança conforme o programado.

– Venha comigo ou morra? Não são boas opções. Realmente pensei que você era perigoso. Sabia que eu ia tentar fugir?

– Sim. Eu imaginei que você ia fazer isso, mas se você tentar agora vai fugir definitivamente desse mundo.

– Não posso morrer ainda, tem algo que preciso fazer.

– Eu sei. Qual é a sua resposta?

Ênia fica em silêncio pensando um pouco. A escolha era mais do que óbvia, sabia o que iria escolher, mas vendo de fora, estava se perguntando por que ele lhe deu a opção de morrer antes de chegar ao circo. Se iria simplesmente sequestra-la e leva-la até lá sem escapatória, por que lhe deu a opção de não chegar até lá?

– O que você faria? – Ela pergunta com uma calma fria, tão cortante quanto gelo.

Ele lhe sorri, como se a resposta fosse óbvia. Ênia sentiu um calor aconchegante emanar dele, uma certeza amável.

– Eu me afogaria no lago.

Ênia curva uma sobrancelha sem entender. Por que?

– Eu prefiro ir a Dead line Circus – Ela diz incerta.

– Eu sei. Já imaginava isso – Michael pega um adesivo de rosa vermelha com espinhos e cola na bochecha dela. – Eu também escolhi isso.

A barca em que os dois estavam parece entrar em um túnel colorido em espiral, um arco-iris de cores fortes vai preenchendo o lugar e a água passa a ficar mais clara dentro do túnel. O barqueiro que estava coberto por mortalhas de fumaça, de repente vira um jovem camponês com uma máscara de rei-bobo. Os dois param em um pedestal com uma grande porta oval escrito "Saída", bem às margens do rio.

Michael deixa o barco subindo no pedestal e estende sua mão para ajudar Ênia a deixar o barco. Ao atravessar a porta a garota se vê num espetáculo de cores sem fim no meio da noite. A lua brilhava alto no céu e iluminava o caminho, de modo que as lanternas acesas não eram muito necessárias, mas davam ao lugar um espirito alegre.

Ao dar o seu primeiro passo para fora, teve seu caminho bloqueado por um homem de olhos cristalinos e cabelos negros que trajava vestes de mordomo. Ele olhou para ela com uma calma indecifrável que por algum motivo despertou em Ênia um confuso sentimento de estar evidencia indesejável.

– Você...? Achei que estava ocupado – Michael diz ficando mais perto de Ênia assim que o avista.

– Terminei o que tinha que fazer – O mordomo dirige seu olhar para o loiro. – E você?

– Quase – a resposta de Michael é curta e vaga.

– Foi o que pensei. Com quem pretende deixar ela?

– Com Bertha.

– Receio que isso não vai ser possível. Bertha está... – ele olha para Ênia antes de falar, pensando bem no que vai dizer – ... doente. Ela vai ter que ficar comigo.

– Como é? – Instintivamente ele coloca sua mão no ombro de Ênia, para garantir que ela não fosse sumir.

– Algo contra? – Magnos olhava para Michael com um olhar sombrio.

– ....

– Isso não lhe diz respeito não é? – Um sorriso triunfante se abre nos lábios do mordomo.

– Não sei se posso deixá-la com você.

– Se ela for um estorvo a culpa não será sua. Bem, na verdade será, já que foi você que trouxe ela. Mas não irei fazer nada... – Ele segura os ombros de Ênia e a trás para perto de si com sutileza. – ... que não me for ordenado.

Michael olha para Ênia que se mostrava indiferente com o que estava acontecendo. De uma pessoa para outra qual seria a diferença? Não importava.

– Diga-me seu nome – Magnos dirige-se à garota.

– Ênia 2-0-7.

– Então me acompanhe Ênia 2-0-7, eu irei lhe mostrar o seu quarto – Ele diz pegando a mão da bailarina e a guiando, sem estranhar o fato de seu nome possuir números. – Enquanto ele vai fazer uma nova viagem, não é?

– É... – Michael diz incerto sobre como prosseguir.

Ênia se despede com um aceno de sua mão livre, enquanto acompanhava o mordomo que iria cuidar dela. Michael olhava aquela dupla se afastar preocupado, era o horário VIP e ela estava com a pior companhia possível para se ter naquele período, ela ia mesmo ficar bem?

Quando dá o primeiro passo para a direção deles uma pequena criaturinha se joga em sua direção e o abraça, mas a altura dela só chegava até em sua cintura.

– Mik-nii – Ele diz alegre.

– Oliver? De onde você saiu? – Ele pergunta surpreso tentando se desvencilhar do pequeno.

– Ali de trás – Ele aponta para uma esquina. – Quando vi você, vim correndo pra cá. Nada contra não é? Está em observação?

– Não pode ficar andando por aí durante o horário VIP, eu já não lhe ensinei isso?

– Ensinou, mas eu não quero voltar para meu quarto. Pensei em procurar um pouco por minha mãe enquanto o sono não vem.

– Ainda com isso? Eu já lhe disse...

– Eu sei – O garoto o interrompe adquirindo uma expressão madura. – Não vou mais reclamar daquela garota e nem chorar pela partida de minha progenitora. Só estou dando um tempo para me acostumar. Estou seguindo as ordens de Mik-nii-chan – O garoto diz batendo continência como um pequeno soldado.

Michael se abaixa até a altura do menino e bagunça os cabelos loiro acinzentados dele.

– Espero que um dia consiga sair daqui.

– Ahn? Eu não quero. Você está aqui e todos os amigos da mamãe também. Por que eu iria querer ir embora? Ah, por falar nisso posso ir com você?

– Ahn? Aonde?

– Lá fora. Quero ver como são as coisas lá fora, minha mãe disse que um dia me levaria, mas ela não está mais aqui, então... – Ele deixa o resto suspenso e se agarra na cintura do mais velho. – E não vou deixar você dizer "Não".

– Que seja, desde que não me atrapalhe.

– Prometo, dou minha palavra. Juro por meu sangue que não serei um fardo pra você – Ele diz com os olhos brilhantes.

~ ❖ ~

Paris. França.

Uma garota cavalgava com velocidade pelos campos, o sol já estava se pondo e a escuridão cobria vagarosamente o céu. O cavalo, de pelagem marrom escura, ofegava cansado pela velocidade e a adrenalina correndo por seu corpo. A garota sorria aprovando a velocidade do vento. Seu cabelo loiro estava preso em um fino rabo de cavalo e seus olhos âmbar olhavam para o imenso céu objetiva. Finalmente chegou o dia, o seu dia. Galopava de volta para a mansão, que mais parecia um castelo, antes de receber a bronca que sabia que viria pelo seu atraso, mas tudo isso não importava, aquela noite tudo ia dar certo.

Entra no estábulo e salta da cela de seu adorado animal. Retirando o aparelho das costas dele e pendurando na parede. Acaricia o pescoço do cavalo com ternura e dá alguns cubos de açúcar para parabenizá-lo, essa seria a última vez que o veria. Sentiria saudades.

Uma das empregadas a chama apressada, já estava escurecendo e o baile começaria em breve. A loira acompanha a empregada até seu quarto, passando pelo amplo hall e pelas majestosas escadarias de marfim. Cinco empregadas a esperavam e quando ela entrou as mulheres se apressaram em lhe dar um bom banho perfumado e ajudá-la a se vestir apropriadamente.

O vestido que seu pai escolheu era branco, longo até os pés e coberto por rendas. Um laço ajustava em sua cintura e tinha pequenos cristais pelo vestido para fazerem-no brilhar ao refletir a luz. Uma das empregadas cuidou da maquiagem e as outras do cabelo, tinha que estar esplêndida, como uma bela dama delicada e educada. Para finalizar o visual, as mulheres colocaram um colar de diamantes em seu pescoço. A loira não gostava daquilo, via-o como uma coleira etiquetada com seu preço para quem pagasse mais por ela. Mas tudo iria terminar hoje. Olhou de esguelha para a mala escondida atrás do guarda-roupa, tinha planejado esse momento a vida inteira, o minimo erro e tudo iria virar uma catástrofe.

Ouve leves batidas na porta e seu pai entra, trajando um terno importado. John Blackthorn, o magnata de uma das famílias mais ilustres da França, possuía cabelos negros e olhos castanhos, e olhava para a filha esperando ser atacado a qualquer momento.

– Você está linda – Ele diz se aproximando com cautela. – Quase igual a sua mãe no dia em que a conheci.

– Obrigada meu pai.

A garota circunda o braço do mais velho e o acompanha para fora do quarto, em direção ao baile que já tinha se iniciado. Várias damas de longos e bufantes vestidos dançavam com cavalheiros de ternos engomados. Uma valsa tocada por inúmeros violinos e violões celos enchia de música o ambiente. O candelabro de cristal pendurado em cima do hall brilhava como nunca aquele dia e a mesa do buffet estava repleta de iguarias feitas pelos melhores chefes culinários.

– Espero que você tenha esquecido o tapa que lhe dei quando você ficou revoltada.

– Sim, meu pai, eu esqueci – Ela diz docemente fechando os olhos.

– E você vai se comportar durante o casamento não é?

– Obviamente, meu pai.

– Você aceitou a situação como uma verdadeira dama, estou muito orgulhoso. Veja, aquele é seu noivo.

A loira abre seus olhos e os direciona para onde o pai apontava. Um homem com os cabelos ruivos com cor de ferrugem, espalhados pelo ombro em caracóis mal-feitos. O nariz era bem grande, semelhante ao bico de um corvo e sardas cobriam sua pele. De longe parecia possuir olhos castanhos e estava o tempo todo trazendo um lenço ao nariz e assoando. Era mais repugnante do que tinha imaginado, a loira ria por dentro.

– Aquele é Berjon de Bologne. É o filho que vai herdar toda a fortuna do pai, o marquês de Bologne. Ouvi dizer que é um amor de pessoa. Vá dançar com ele.

– Sim, meu pai.

A loira desce as escadarias e vai em direção a seu asqueroso noivo. Ele a convida para dançar e logo se coloca em posição para a dança. As mãos dele eram grudentas, pareciam estar bem suadas e o perfume que ele usava era muito forte.

– Pegarei leve com você em nossa lua-de-mel, não se preocupe, sou muito passional – Ele lhe diz no meio da dança. – As mulheres da sua família tem a fama de serem bem férteis, isso é verdade? Minha mãe me pediu muitos netos.

A loira sente vontade de vomitar ao ouvir isso, mas mantem sua expressão relaxada, tinha que aguentar apenas mais um pouco. Rebecca de Bologne, que futuro nome mais ridiculo pra alguém como ela.

Direciona seu olhar para as janelas da varanda e percebe algo que não estava previsto. Uma fileira de guardas circundava os muros da mansão, havia mais do que os doze que tinha previsto.

– Admirando a segurança? – Berjon pergunta quando vê que ela olhava para fora da janela. – Meu pai trouxe reforços para seus guardas. Também avisamos os policiais para patrulharem a cidade para o caso de alguma emergência. Ninguém vai conseguir entrar aqui, não se preocupe.

– E nem sair...

Seu pai olhava para ela com um sorriso no rosto. Ele era um homem esperto. Uma das empregadas encontrou a mala e informou imediatamente o senhor da mansão. Suspeitando de uma fuga, ele contratou mais guardas do que o habitual e os pais do noivo trouxeram ainda mais do que o esperado com eles. Seria impossível fugir.

A um movimento das cordas musicais os pares da dança são trocados, ninguém poderia saber o que aconteceria com essa troca, mas no momento que a loira tocou seu novo par, seu destino estava selado. Ela nem percebeu ao certo o movimento de trocas, quando viu já estava dançando com outra pessoa. O que a despertou foi a substituição daquele perfume forte e fedorento, por alguém com cheiro de hortelã.

– O baile a está entediando?

Levantando seus olhos âmbar encontrou dois olhos azul turquesa. Eram escuros e profundos como o céu noturno e ele tinha cabelos dourados que lembravam os raios de sol. Tinha um rosto divino e quando deu por si já estava dançando com aquele homem. Uma de suas mãos enluvadas estava entrelaçada com a dela e a outra segurava em sua cintura. O cheiro de hortelã dele a deixou mais relaxada.

– Quem é você? – Ela pergunta sorrindo calmamente.

– Você primeiro.

– Eu sou Rebecca Anne Blackthorn, sexta filha de John Blackthorn.

– Eu sou Michael. Sua ruína.

– Apresentação interessante – Ela ria por dentro. – Você não é um nobre é? Eu me lembraria de você.

– Não. Não passo nem perto de ser um nobre, mas já convivi com milhares deles – Ele olha de esguelha para John Blackthorn e para Berjon de Bologne. – É assim que você quer viver? Que futuro miserável.

Rebecca aperta mais sua mão na dele, abaixando o olhar.

– Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.

– Parece que sua fuga não deu muito certo. Estou pensando se devo te sequestrar desse lugar.

Um riso fraco escapa dos lábios de Rebecca.

– E como faria isso meu senhor? É impossível sair daqui.

– Por que poupar esforços? As vezes precisamos destruir alguma coisa para fugirmos dela, raramente conseguimos algo sem abrir mão de outra coisa – Ele se separa por um momento dela fazendo o corpo de Rebecca girar ao ritmo da música e então volta a se aproximar – Mas isso é claro, se você quisesse fugir comigo.

– O que é isso? Um conto romântico? – Ela ri.

– Milady... é uma tragédia – Ele diz num tom grave, porém muito suave e calmo.

Um grito ecoa pelas paredes da mansão anunciando o inicio da maldição, era um grito de terror, de desespero. A marquesa de Bologne segurava em seus braços o cadáver de seu filho, que entrava em detrimento bem em frente a seus olhos e dos presentes. No outro canto, mais um grito. Um casal que dançava de repente cai morto no chão como cadáveres mal-cheirosos de um cemitério qualquer. E seguindo esses dois primeiros, mais gritos os acompanham, as pessoas que dançavam uma a uma começam a morrer. A pele ficava mais escura e então os olhos davam lugar a buracos escuros, o corpo secava e então caiam inertes no chão. Os que já viam uma mancha escura em suas peles ou um cadáver próximo a si, já gritavam desesperados e corriam pelo lugar em busca de ajuda, morrendo alguns segundos depois. A calma e elegante dança transformou-se em confusão em segundos. Alguns caíram em cima da mesa do buffet, outros em cima de outros cadáveres, alguns pularam pela janela só para morrerem lá fora e teve até mesmo um que esbarrou em um candelabro e incendiou as cortinas, com o fogo se alastrando pela casa vagarosamente em seguida.

Rebecca olhava para tudo aquilo espantada, o que estava acontecendo? Mas ela não conseguia parar de dançar, seus pés não lhe obedeciam. Ainda segurava a mão enluvada do loiro e sua outra mão continuava pousada no ombro do mesmo. Estava dançando valsa no meio dos mortos com um belo homem misterioso, o fogo incendiando sua casa e seus convidados caindo um a um. Os vivos continuavam dançando, para então morrerem em seguida. Que dança macabra era aquela?

– Chega quase a ser belo. Quando tudo a sua volta ruir, não haverá mais nada pra lhe prender. Destruição visando a libertade – Ele diz calmamente, sem se alterar pelo que estava acontecendo, seu semblante calmo era o mesmo de quem fala sobre o tempo. – Assim as correntes vão sumir.

– O que é isso? – A loira murmura assustada.

– Aproveite antes que termine. Esse é o inicio de sua liberdade.

Ela olha para os olhos azuis de seu parceiro, ele permanecia calmo, como poderia permanecer calmo cercado por cadáveres a sua volta? Os olhos dele eram ternos, por um momento ela sentiu que já conhecia ele, como se fosse um velho amigo. Mas como? Era a primeira vez que o via.

– Me tire daqui – As palavras escaparam de seus lábios antes que ela pudesse sequer pensar no que dizia, como se estivesse lendo um roteiro. Isso faz o loiro sorrir e fechar os olhos, enquanto o olhar dela se enchia de aflição.

– REBECCA!

Seu pai estava cercado por guardas e gritava pelo seu nome. Raiva, medo e desespero estavam estampados em seu rosto. Michael não parava de dançar, mesmo com os guardas correndo armados em sua direção e as labaredas de fogo por toda parte, a valsa macabra deles continuava e seu rosto paciente permanecia.

Quando a ultima nota da música ressoa, Michael abre os olhos terminando sua dança e três coisas acontecem ao mesmo tempo: O lustre de cristal arrebenta sua corda e cai no chão em direção a eles; os guardas avançaram de tal modo que só faltava um polegar para a captura; e o casal que dançava desaparece repentinamente quando o estranho misterioso cola um adesivo de gaiola sem pássaros na testa da noiva. A tragédia fechava suas cortinas para o fim do ultimo ato.

~ ❖ ~

O som do chuveiro era o único barulho em todo o apartamento. Rebecca estava tomando um banho tentando esquecer o cheiro de seu noivo, o cheiro dos cadáveres podres e queimados e principalmente esquecer que agora era uma refém de um assassino em massa. Não estava funcionando direito.

Michael, no quarto, cobria Oliver com um cobertor. O menino tinha ficado com sono no momento que chegou em Paris, devia ser culpa das horas em que passou acordado procurando sua mãe pelo circo. Ele dormia na cama com uma expressão serena, devia mesmo estar cansado. Quando Michael colocou o cobertor sobre ele Oliver nem mesmo se mexeu, já estava num sono profundo.

– Que fofo – Rebecca saiu do banheiro enrolada em uma toalha. – É seu fi-...

– Irmãozinho – Michael a interrompe antes mesmo de terminar a frase, não aguentaria ser chamado de pai pela terceira vez.

– Ok. Pode sair para eu me trocar? Sem se atrever a olhar?

– Como quiser – Ele diz se retirando apressadamente do quarto.

Dez minutos se passam e nesse tempo Michael foi a cozinha e fez um chá de hortelã para ele. Quando a porta se abre novamente uma nova Rebecca se apresenta.

– Não... – Ele fica desconsolado.

A garota estava vestindo sua blusa branca sem o blazer do terno, com alguns botões abertos na parte dos seios. A gravata negra estava larga em seu pescoço e usava um quepe de policial que encontrou no armário. A unica peça realmente feminina era a saia justa que ia de sua cintura até os joelhos.

– Que foi? Não gostou? – Ela se avalia no espelho.

– Não, não, ficou bom em você. É só que... você tem dois fortes concorrentes quando se trata de pegar minhas roupas.

– Mesmo? Então tomarei cuidado. Essas são só provisórias, não estava mais aguentando aquele vestido apertado.

– A moda francesa realmente é um mistério – Ele fala servindo seu chá em uma xícara.

– Você nem imagina – Ela senta-se no sofá e ele a acompanha se sentando em sua frente. Independente de tudo, tinha que manter a calma e pensar com clareza. – Que tal me explicar o que está acontecendo?

– Isso depende do que você quer que eu explique.

– Você vai me matar?

– Claro que não, por que eu passaria por todo aquele trabalho só para te matar depois? Se eu quisesse sua morte você já estaria apodrecendo com aqueles outros convidados.

– Então por que fez aquilo?

– Por sua liberdade... e um pouco por satisfação própria, nunca gostei muito da realeza – Ele bebe um gole do chá. – Pode-se dizer que eu te salvei ou que acabei com sua vida. Seja grata ou me odeie por isso, eu não ligo.

– Bem estranho um assassino em massa me dizer isso. O que pretende fazer comigo?

Michael franze uma sobrancelha.

– Aquela é a porta – Ele aponta para a entrada do apartamento – Você tem duas opções. Se quiser sair ela está destrancada, mas no momento que você pôr os pés para fora, vários policiais irão te capturar e você será interrogada e possivelmente presa. Você é a única pessoa viva que escapou do baile, naturalmente seria uma suspeita, já que ninguém me viu entrar ou sair.

– Ou...?

– Ou você pode me acompanhar e te dou um recomeço.

– Um recomeço?

– Para todos os casos Rebecca Blackthorn morreu com a queda de um lustre sobre sua cabeça. Todas as testemunhas estão mortas então ninguém poderá provar que você ainda vive, e mesmo que exista alguma testemunha, a história que irá contar soará tão absurda que ninguém vai acreditar. Você está livre para fazer o que quiser.

– Livre?

Aquela palavra era mais importante para a loira do que qualquer outra palavra do dicionário. Tinha planejado muito bem a sua fuga, mas no último momento tudo tinha dado errado, e mesmo que desse certo, ela correria o risco de ser encontrada mais tarde, seu pai com certeza não desistiria. Ela estaria casada com aquele noivo repugnante de manhã se não fosse por aquele homem que destruiu sua vida. Soaria muito estranho se o agradecesse por ter arruinado tudo?

– Te dou algumas horas para pensar. Enquanto isso vou atrás de uma pessoa – Michael anuncia.

– Onde você vai?

– Atrás de uma pessoa – Ele repete. – Oliver não vai acordar até de manhã, sugiro que você também descanse.

– Já está escuro, não é melhor ir amanhã?

– Essa é a melhor hora para encontrá-lo. Ele não consegue mais dormir, não 'bem' pelo menos, e está me esperando a tanto tempo que seria injusto não encontrá-lo hoje.

– Seu amigo?

– Eu não sei. Ainda vou conhecê-lo – Ele diz com um sorriso infantil no rosto.

– Se não o conhece como sabe que ele está te esperando?

Michael levanta levemente os cantos de seus lábios em um sorriso nebuloso e em seguida olha para Rebecca com um olhar confiante. Naquele momento a garota sentiu algo indescritível ao observar aquela expressão, ele estava escondendo alguma coisa, mas ao mesmo tempo que era algo sério, também era muito simples e óbvio. Michael sai pela porta sem responder sua pergunta, mas não precisava, de alguma forma ela já sabia a resposta.

~ ❖ ~

Plomeur. França.

Um campo vazio se estendia pelo horizonte. Não havia uma unica árvore ou construção, apenas o gramado verde que parecia não ter fim. O vento soprava formando ondas pelas folhas, que se inclinavam e balançavam como dançarinas. Um homem de pijama estava parado no meio daquele lugar, o vento batia em seu rosto e fazia seus cabelos serpentearem com movimentos parecidos ao da grama. Ele observava o vazio do espaço com olhos vagos, faltava alguma coisa ali. A grama crescia normalmente e sem interrupção, nenhuma folha estava quebrada ou amassada, mas ele sentia que havia algo errado. Alguma coisa faltava ali, algo muito grande. O que era? Onde estava?

Ele olha em volta procurando, mas não tinha nada. Então olha para o céu azul e vê milhares de flautas se formando na atmosfera. Elas se tocavam sozinhas e era sempre a mesma nota musical: Um fá sustenido que se repetia inúmeras vezes. Aquela única nota poderia dar uma boa música se estivesse acompanhada de outros sons. Por que havia uma orquestra de flautas voando pelo céu?

Quando volta seu olhar para o campo, um corpo gigante se encontra à sua frente, surgido de repente. Devia ter uns dez metros de altura se ficasse em pé, mas ele estava deitado na grama. Os membros do corpo estavam unidos por costuras junto ao tronco de maneira bizarra. Os braços e as pernas haviam sido decepados e então costurados e grampeados de volta como se o humano fosse uma boneca. Marcas de unhas e cortes eram bem nítidos na pele do cadáver. A camiseta que cobria os seios do corpo encontrava-se parcialmente rasgada, mostrando arranhões e marcas roxas naquela região. O pescoço estava com um grande rasgo fechado toscamente com grampos de metal e o rosto da mulher estava desfigurado. Metade da cabeça tinha sido arrancada, como se alguma coisa tivesse mordido seu crânio e a outra metade estava com a pele derretida, cheia de buracos negros e musgo.

O minúsculo homem via cada detalhe com exatidão e sentia o cheiro metálico do sangue impregnando o lugar. Não conseguia reconhecer aquela pessoa, era impossível identificar o rosto, mas no momento que viu a mão dela soube imediatamente quem era. Os dedos sujos de terra, como se tivessem sido fincados no barro e então arrastados por algo mais forte ainda conservavam um anel de rubi no dedo da morta. Aquela minúscula argola dourada com uma pedra vermelha cintilante brilhava quase tanto quanto uma estrela. Foi graças ao anel que soube quem era e a descoberta em vez de acalmá-lo só o deixou entrar em pânico logo em seguida. O homem abriu seus lábios para gritar o nome dela e nesse momento seus olhos se abriram.

Finalmente tinha acordado.

Um homem de cabelos negros e olhos dourados, encontrava-se ainda vestido dentro de uma banheira. Suas roupas estavam encharcadas pela água. Um banheiro sujo que parecia abandonado se mostrou aos seus olhos e sua cabeça estava doendo. Que horas são?

Olhando pela janela viu que já era de noite, novamente não tinha conseguido dormir. Acordou mais cansado do que já estava. Com um suspiro se levanta da banheira, indiferente as roupas molhadas ou ao sangue que escorria da manga delas. Não existia nenhum espelho pela casa, todos estavam quebrados e o lugar tinha uma aparência desleixada. Tinha que tirar um dia para organizar tudo.

Ele se dirige ao seu quarto e retira as roupas encharcadas do corpo, vestindo novas roupas limpas e secas. Não confere sua aparência por não haver espelhos, apenas pega um livro em cima da escrivaninha e sai de sua casa.

Por onde passava as pessoas o cumprimentavam e ele respondia com um sorriso e um aceno, mas era só virar as costas que essas mesmas pessoas já cochichavam sobre ele. O rapaz tinha um olhar calmo e até um pouco ingênuo, parecia distraído mas estava prestando atenção no que diziam. Não que ele precisasse, já sabia o que estavam comentando, mas não ligava, continuaria sua busca.

Fazia dois anos que o acidente tinha acontecido, nos primeiros meses todos os jornais só falavam a mesma coisa, aquela cidade pacata e tediosa finalmente tinha noticias para apresentar. Oito assassinatos que aconteceram no mesmo dia e foram tão brutais que todos ficaram traumatizados com a crueldade do assassino desconhecido. Jovens, crianças e até idosos. Os corpos ficaram irreconhecíveis e os parentes das vitimas lamentavam sobre os túmulos até os dias atuais.

Mais tarde um homem foi preso pelos crimes, ele era um açougueiro que confessou, em um momento de insanidade, que tinha matado aquelas pessoas. Contava uma história absurda de que um monstro feito de fumaça e com milhares de cabeças lhe disse para fazer isso, que tinha de protegê-los matando cada um de modo que a besta não pudesse comê-los. Os próprios prisioneiros enforcaram ele na prisão, mas o homem de olhos dourados acreditava que o açougueiro era inocente e o assassino ainda estava a solta.

Mais um pouco e chegaria no campo da tragédia. Atrás do monte que estava olhando encontrava-se um vasto lugar que serviu de palco para as mortes de todos. E tão logo aquela bela e irresistível atração multicolorida surgiu ali, desapareceu sem deixar rastro. Dead Line Circus não tinha nada que parecesse suspeito, inclusive foi investigada pelos policiais mas nenhuma prova concreta foi achada. E tão logo o circo surgiu ele desapareceu como se nunca tivesse existido. Mais um pouco e conseguiu chegar ao alto do monte.

A grama continuava a crescer ininterruptamente, nenhuma folha estava quebrada. Era igual ao campo de seu sonho e o mesmo que viu quando o circo desapareceu dois anos atrás. Sempre ia até aquele lugar, como se o circo fosse aparecer novamente por ali a qualquer dia, mas ele nunca voltava.

Olhando o vasto lugar vazio, encontrou uma figura humana parada em meio a grama. Isso era raro, as pessoas tinham começado a acreditar que aquele lugar tinha se tornado amaldiçoado e estavam evitando passar por ali, quem era ele?

Desceu o monte até o campo e foi se aproximando do estranho, pelo visto teria companhia aquela noite. Conforme se aproximava foi percebendo alguns traços que os raios da lua conseguiam iluminar. Ele era um homem, era loiro, tinha uma postura altiva e usava roupas circenses. Esse ultimo detalhe deixou o recém-chegado ligeiramente interessado e quando finalmente conseguiu chegar até a figura foi que percebeu que conhecia aquele rosto. Não sabia de onde, nem de quando, mas tinha certeza absoluta que já o viu antes.

– É uma bela noite não? – O estranho pergunta.

– Você não é daqui é? – O homem pergunta indo direto ao ponto.

– Não. Meu nome é Michael, só estou de passagem.

– Michael... – Ele repete para memorizar – Meu nome é Callisto Nightray.

– É um prazer.

– O prazer é meu – Ele avalia melhor o loiro – Você é... de algum circo?

– Sim, Dead Line Circus já ouviu falar?

Sem exitar, Callisto segura com força o braço do loiro. Tanto para não deixá-lo fugir como para ter certeza que ele era real. Seus olhos queimavam com a descoberta, ferinos e perigosos. Fazia algum tempo que eles não ficavam assim.

– Não quer se sentar e comer alguma coisa? Eu posso te pagar uma bebida.

– Não precisa, vamos nos sentar debaixo daquela árvore e conversar um pouco. A lua está muito bonita hoje – O loiro diz andando.

Callisto não solta o braço dele, atitude que Michael achou desnecessária, já que não era ele que ia tentar fugir, mas se o homem estava tão interessado não iria reclamar. Os dois de sentam embaixo de um carvalho ali perto e a nova presa do loiro não desgrudava os olhos dele.

– Sentiu saudade de nós? Você parece muito feliz em me ver.

– Sabia que te conhecia! – O homem de cabelos negros exclama alegre. – O que está fazendo aqui?

– Uma visitinha.

– Onde o circo está? – Ele sabia que não devia ir muito longe mas precisava saber.

– Em Londres. Apenas esperando... – Ele sorri – Você não se lembra muito bem de mim não é?

– Na verdade não. – Ele se desculpa constrangido – Eu sinto que te conheço e agora sei de onde, mas não me lembro sobre como eu te conheci.

– Relaxa, isso não é importante. A questão aqui é outra.

– Qual?

– O que você faria se visse o circo novamente? – Os olhos azuis de Michael se lançam para o companheiro esperando a resposta.

Devagar, devagar. Com muita calma, responda com muito controle.

– É claro que nada – Ele ri divertido. – Iria aproveitar as atrações, talvez conseguir um emprego. Iria curtir mais um pouco, vocês foram embora rápido demais.

Michael observava Callisto com o canto dos olhos enquanto estava encostado no tronco da árvore. O homem de olhos dourados tinha um sorriso animado no rosto e um olhar ingênuo, parecia ansioso, como uma criança esperando pelo aniversário. Aquela expressão, por algum motivo, lembrou à Michael a pequena Alma. Ele era bom no que fazia. Naquele momento o loiro confirmou o que queria ver e segurou o máximo que pôde um sorriso de triunfo que soube que viria.

– Callisto, você é bem parecido comigo.

– Ahn? Eu? Por que?

– Um dia você vai descobrir. Apenas digo que gostei de você o bastante para te odiar depois.

– Honestamente, eu não estou entendendo nada – Ele diz com um sorriso constrangido.

– Deixa pra lá – Michael fala imitando o sorriso constrangido do companheiro. – A propósito, você gostaria de vir para o circo comigo?

– Assim de repente? É uma pergunta bem direta, mal te conheço.

– Eu já sei qual vai ser sua resposta. Mesmo se eu te apontasse todos os defeitos de lá você ainda viria comigo, então pra que perder tempo tentando convencer alguém que já quer ansiosamente aceitar?

– Isso não seria um incomodo?

– Imagina. Seria um prazer te levar até lá. Você quer ir para o circo não é?

– Eu quero. Adoraria. – Callisto diz com um sorriso radiante.

Michael retira do envelope um adesivo, extremamente contente por estar certo sobre sua nova vitima. Nos poucos minutos que o conheceu já tinha uma vaga ideia de como ele era e também do que queria, seria muito interessante ver ele lá dentro. Cola o adesivo na bochecha, próximo ao olho de Callisto. Era um machado.

~ ❖ ~

– Mik-nii-chan.

Oliver estava sentado à mesa próximo de Rebecca, os dois jogavam damas enquanto a TV passava comerciais de cosméticos. Um casal de idosos passeava infeliz e então quando compraram o creme de rejuvenescimento passaram a se sentirem mais jovens e alegres. Callisto notou uma aura assassina em volta de Michael quando este viu o comercial e Rebecca engoliu em seco ao ver a expressão que ele fazia. O loiro tinha a aura de quem ia matar alguém naquele instante.

Oliver foi o único que se adiantou e desligou a Tv, sem entender ao certo por que Michael estava zangado com aquele comercial.

– S-Sabe... – Callisto começa a falar – Hoje em dia existem jovens de até mesmo dezesseis anos já possuindo filhos por aí. Se bobear, talvez até menos. N-Não seria estranho se um adulto fosse confundido com alguém mais maduro, nem um pouquinho.

Michael permaneceu em silêncio, absorvendo as palavras. De alguma forma Callisto adivinhou o que o loiro tinha passado, isso já aconteceu com um amigo que tinha em sua cidade, que bom que Callisto percebeu isso antes de perguntar a ele se aqueles dois eram sua esposa e seu filho.

Michael se virou na direção de Callisto sem olhar para ele. Com a expressão de um menino que que acabou de ser mimado.

– Isso existe mesmo? – Ele pergunta constrangido.

O homem de cabelos negros teve vontade de apertar as bochechas do loiro igual via aquelas tias velhas fazerem com os netos. Que expressão fofa.

– Claro. Aos montes. – Callisto afirma se contendo.

– Milhares. – Rebecca apoia.

Oliver olhava de um para o outro, sem entender direito a situação, mas quando Michael ficou com a melhor expressão de contentamento, se lembrou de sua mãe quando ela dizia "Me sinto dez anos mais jovem". Ele ia passar por isso também?

– Mas Mik-nii-chan não tem filhos. – Observa.

Como se tivesse sido espetado, o loiro acorda e reflete no que o menor disse. Puxa um bloco de anotações do bolso e escreve um lembrete para si mesmo depois de refletir bastante:

"Casar e ter filhos logo."

Guardando de volta no bolso antes que alguém visse.

– Então, vamos? – Ele pergunta.

– Ahn... – Rebecca interrompe – Minha mala....

– Eu trouxe para você – Michael exibe a mala de Rebecca em suas mãos. – Não era um esconderijo muito criativo.

Rebecca se dirige até ele e pega sua mala de volta, ligeiramente constrangida.

~ ❖ ~

– Erich! Erich! Vamos, acorde Erich.

O homem de cabelos esverdeados estava dormindo na grama embaixo de uma árvore. Cervos, esquilos, coelhos e até pássaros dormiam à sua volta. Com um murmurio ele levanta seu dedo indicador e aponta para Michael.

– Ataca – Ele fala sonolento.

Dois coelhos se levantam depressa em alerta e partem para cima do loiro, mas tão logo eles chegam perto dele, caem mortos no chão como dois pequenos cadáveres.

– EI! NÃO MATE MEUS ANIMAIS! – Erich acorda irritado.

– Ora, enfim acordou. Trouxe uma pessoa para você – Ele fala apresentando a mulher.

– Meu nome é Rebecca Anne Andrews.

Ela havia mudado o seu sobrenome, estava usando o nome de solteira da sua mãe. Michael percebeu isso com uma pontada de orgulho por ela ter pensado nesse detalhe.

– Pra mim? Por que? O que eu fiz?

– Você vai cuidar dela, não é?

O domador olha para a garota avaliando-a com toda a atenção que dispõe-se a ter ao acordar.

– Tanto faz. Ao contrário do Arman eu gosto de gente nova. Se ela não gostar de animais farei ela gostar à força.

– Eu gosto de animais – Rebecca comenta.

– Isso é bom. E esse, quem é?

– Este é Callisto Nightray. Estou pensando em colocar ele para substituir o Miuhr.

– Qual sua flor favorita rapaz? – Erich pergunta a Callisto.

– Ahn? É... orquídeas, por que?

– Pra colocar no seu túmulo. Não dou nem uma semana Michael.

– Eu tenho confiança de que ele vai se sair bem.

– Esse cara vai ficar aos cuidados do Magnos – Erich segura uma risada. – E vai interagir com todo mundo.

– Não traumatize o coitado, ele acabou de chegar – Michael emite uma falsa nota de irritação de brincadeira. – Pode cuidar dele até de manhã?

– Como quiser. Mas não garanto sua sobrevivência – Erich adquire um tom monótono. – Quem me dera eu pudesse.

Notas finais
Ok, vamos as imagens! Erich, o domador: http://data1.whicdn.com/images/61037812/large.jpg Ênia 2-0-7: http://imagizer.imageshack.us/v2/800x600q90/823/i84t.jpg Rebecca Anne Andrews: http://static.zerochan.net/Riza.Hawkeye.full.570268.jpg Callisto Nightray: http://img706.imageshack.us/img706/1727/uxqs.jpg E agora, um especial! De presente, lhes dou uma imagem do Michael, ou ao menos a pessoa mais próxima do que eu visualizei para ele. Michael: http://aisatsunin.files.wordpress.com/2011/07/valshe-jester.jpg%3Fw%3D480%26h%3D476