Dead End
2 Dia 1
Notas iniciais
Dia 1
Você pode ter sido contaminada.
É a desculpa que eles dão para manter eu e mais outras cinco garotas numa sala de aula vazia durante o resto da tarde e toda a noite.
Não conheço nenhuma delas. Estamos todas separadas por uma distância segura que nenhuma de nós está disposta a quebrar. Usamos máscaras hospitalares azuladas com um pequeno filtro circular no centro, mas nenhuma luva, apesar de termos sido instruídas a higienizar as mãos com álcool a cada hora.
Acho que nenhuma de nós teve uma noite agradável de sono.
Há todo tipo de ruídos do lado de fora, e ainda assim não são nada se comparados aos barulhos da noite. A escola parecia uma zona de guerra, e mais de uma vez tive medo que a porta fosse bruscamente aberta e nós, executadas a sangue frio. Nas únicas vezes em que cochilei, tive pesadelos com Ben.
Chorei um bocado, também.
Finalmente, no fim da madrugada, a porta da sala é aberta por mais soldados de preto.
Somos todas inspecionadas por um médico pálido, magro e provavelmente mais escoltado do que o presidente. Eu e mais outras quatro passamos. A mais nova de nós, porém, tossiu quase a noite toda. É óbvio como tenta esconder os sinais da doença. Ela falha deploravelmente e eles a levam, mesmo aos gritos, para longe.
Não a vi novamente.
No meio da tarde, estou, junto com pelo menos mais outras cinquenta pessoas, num centro de evacuação do governo. O lugar é grande – um ginásio, se entendi direito –, mas esperam a chegada de muito mais gente em muito pouco tempo. O racionamento de suprimentos aqui dentro praticamente fede.
Dou uma olhada pelos arredores, mas não reconheço muita gente. Eu e as outras garotas fomos algumas das últimas a serem retiradas do colégio, então acabamos em um centro diferente de evacuação.
Sinto falta de Gisele.
Estou sentada em meu colchonete mole demais, analisando os poucos pertences que consegui trazer dentro da mochila – ninguém atende o telefone em casa, preciso ocupar minha mente – quando um homem alto se aproxima.
Preciso observá-lo por alguns instantes até identificá-lo. Taylor, se não me engano. Michael Taylor. É quem anda cuidando do pessoal. Depois do surto, muita gente entrou em pânico na cidade, e pelo menos vinte pessoas do abrigo estão feridas sem nunca sequer terem encontrado algum infectado frente a frente. Não é nada muito grave, mas ele andou ocupado.
– Você é a Harriet Smith? – ele pergunta.
– Sou, sim.
Ele faz uma pausa antes de continuar.
– As outras garotas que vieram da sua escola me disseram que você costumava morar em uma fazenda. – Ele soa sem graça.
– Hã, mais ou menos... Meu avô é cherokee, eu vou lá passar as férias.
– Bom, você mexe com os animais? Já tratou deles alguma vez?
Concordei com a cabeça.
– Disseram que vai chegar um carregamento de mais pelo menos vinte e cinco feridos – Taylor continua –, e não tenho condições de tratar de todos. Estou reunindo todo mundo com alguma experiência em medicina ou enfermagem para ajudar e veterinária entrou no meio quando não tinha tanta gente assim. Se você puder...
– Claro, claro – confirmo na mesma hora. Não aguento mais ficar sentada aqui o dia inteiro, esperando as horas passarem. – Só me diga o que fazer.
Taylor parece extremamente aliviado. Está na cara que ele não anda conseguindo convencer muita gente.
– Tem máscaras e luvas embaixo daquela cesta de basquete. Eles devem chegar a qualquer minuto. Vamos colocar todos em filas e tentar tratar todo mundo organizadamente. – Taylor lança um olhar rápido para minha testa. – Você tem algum desses elásticos de prender cabelo? Eu posso pedir emprestado...
– Não precisa, eu tenho.
– Certo. – Taylor dá um passo para trás, mas logo se interrompe, como se tivesse lembrado um fato importante. – Tente parecer calma – adiciona.
É, eu suponho que um colapso emocional no meio dos recém-chegados realmente não seria uma boa ideia.
Aceno novamente com a cabeça e o vejo se afastar antes de finalmente pôr-me de pé. Espreguiço-me demoradamente e dou uma rápida olhada em volta. O casal ao meu lado parece ocupado cochilando, então resolvo não incomodá-los. Abro a mochila, anoto um recadinho educado num caderno (“Favor não pegar nada – estou cuidando dos feridos”) e o deixo aberto em cima do colchonete. Agora é só rezar pelo senso de decência humano.
Mordo uma gominha e começo a puxar o cabelo para o alto enquanto ando. Encaixo as mechas lisas demais num coque, enrolo o elástico nele e solto – nada caiu, acho que estou segura. Também me livro do casaco que, sinceramente, só andara me esquentando, e o amarro na cintura. Estou só de regata cinza, agora, espero que as alças do meu sutiã não fiquem aparecendo.
Examino os arredores até encontrar as máscaras e luvas que Taylor havia dito e as visto rapidamente. A máscara fede um pouco, mas não parece que vá ser um problema imediato. Algumas outras pessoas estão usando-as também; um exame rápido me revela que sou, com talvez uns bons cinco anos de diferença, a mais nova. Felizmente, pouca gente em volta presta alguma atenção em mim.
Estou um pouco incerta do que fazer a seguir quando as portas do ginásio se abrem. A luminosidade repentina torna quase impossível olhar por muito tempo, mas não é necessário; Taylor sinaliza em gestos bastante óbvios que devemos nos aproximar. Sou colocada na linha de ajudantes, à esquerda de um cara mais velho e à direita de uma loira com cabelo obviamente pintado, e todos aguardamos que os recém-chegados se organizem em uma fila.
Nisso Taylor tinha razão, ele jamais daria conta de todo o pessoal sozinho. Para nós, porém, parece que vai ser relativamente fácil. Recebo apenas os casos mais simples: cortes pequenos que só precisam de um pouco de álcool e uma garotinha cujo nariz não parava de sangrar. Felizmente, nenhum deles tosse perto de mim. O trabalho ajuda a manter minha mente distraída.
– Quantos anos você tem mesmo? – pergunta o garoto de quem estou tratando.
– Dezessete – respondo simplesmente. Ele andou comentando do clima e da quantidade de gente no ginásio desde que chegou na minha mão. Deve ser a terceira vez que tento cortar o papo; ele é um dos últimos, minha paciência já foi gasta.
– Sério? Eu também. Mas isso quer dizer que você não pode ter passado pela faculdade – ele diz sabiamente. – Onde foi que aprendeu a ser enfermeira assim?
– Meu avô tem uma fazenda.
– Uhm – ele me encoraja a continuar.
– Fazendas têm animais. Animais têm problemas. Veterinários são caros e só vale a pena chamar às vezes.
– Entendi. Então você nunca fez isso antes em ninguém além de mim e um boi?
– Por aí.
– Maneiro. – O garoto continua a me observar com curiosidade. Tento não me deixar distrair por seus olhos azuis cristalinos. Foco no corte da sobrancelha, Harriet. Foco. – Meu nome é Ian.
– Nome bonito.
Ele abre um sorriso com dentes claramente corrigidos por aparelho.
– Essa é a deixa pra você dizer o seu nome – explica, ainda parecendo achar alguma graça na situação em geral.
– Harriet, se saber disso é tão importante – digo devagar, porque estou concentrada em não deixar álcool entrar em seu olho. Seu maldito olho perfeito. Com malditos cílios perfeitos. Em cima de um maldito sorriso perfeito.
– Harriet é um nome bonito. Posso te chamar de Hattie?
– Não – corto imediatamente; meu tom sai mais grosso do que eu pretendia. Paro o que estou fazendo, subitamente arrependida. Acabo trocando um rápido olhar com ele, sem querer. – Eu preferia que não – reformulo. Volto a tratar do machucado. – Harriet está bom.
– Tudo bem. – Ian parece menos descontraído agora, mas ainda me observa com alguma curiosidade. Acaba acrescentando: – Desculpe.
– Não, sem problemas, você não sabia.
Termino com a sobrancelha e passo para seu braço. Ele me deixa trabalhar em paz por dez segundos no máximo.
– A ficha ainda não caiu pra mim, sabe – prossegue, mesmo eu não tendo perguntado. – Quando a coisa ficou feia, quem cuidou de tudo foi o meu irmão. Pegou o carro, comida, praticamente fez as malas sozinho. E aí, quando ficamos presos no engarrafamento na saída da cidade, enquanto eu esperaria por mais notícias, ele insistiu em irmos andando. – Ian balança a cabeça. – Não sei o que aconteceu com quem ficou por lá, mas sei que não teríamos chegado aqui se não fosse por ele.
– Ele parece ser um cara legal – comento, porque não sei mais o que dizer. Se isso é um compartilhamento de experiências, decididamente não vou contar sobre Ben.
– Mais ou menos. Ah, ele é aquele ali, com a mulher de cabelo curto – Ian diz, e aponta com o braço em que não estou mexendo. – O nome dele é Jonathan.
Acabo virando o rosto para ver. O irmão de Ian é mais velho e, aparentemente, mais baixo do que ele, o que certamente é engraçado. Ainda assim, mesmo daquela distância, posso identificar as semelhanças entre os dois – porte físico parecido, os mesmos cabelos escuros e, mesmo não conseguindo ver seus olhos direito, algo me diz que o azul cristalino é de família. Tento não olhar por tempo demais.
– Vocês se parecem – digo de volta. Isso parece animá-lo um pouco, porque ele volta a sorrir.
– Eu sou mais bonito. E mais modesto. – Sou abençoada com cinco segundos de silêncio. – A mulher tratando dele acha que tem alguma chance – ele então comenta achando graça.
– E não tem?
– Não! Tá escrito na testa dele. Ah, meu bem, se ao menos você soubesse ler. – Ian balança a cabeça em negativa algumas vezes, ainda olhando para a mulher, então entendo sua última frase como dirigida a ela, não a mim, especialmente porque nem estou olhando. – Ele encarou infectados suficientes pra não querer nada com ninguém por um algum tempo, sabe. Foi nojeeento.
Estou quase terminando. Sei que estou. Mas paro do mesmo jeito.
– Infectados? – repito.
– É. Jonathan é da polícia. – Ele me observa por algum tempo, sem entender. – Você não esteve lá fora?
– É claro que estive – rebato. – Mas é... É só uma gripe.
Eu não acredito em minhas próprias palavras.
Imagens de Ben dançam em minha memória quase imediatamente. A febre, a tosse, o sangue, suas últimas palavras, o último chamado pelo meu nome. E, dentre todos, o mais importante – o que ele tanto tentou destacar.
Hattie, não é uma gripe.
Por que mentiriam para nós?
– É isso que andam dizendo por aqui? – Ian me pergunta surpreso. Ele então olha em volta. – Espera... Ninguém sabe como as coisas estão lá fora? Vocês não fazem nem ideia? – Permaneço calada. Ele solta um assovio longo e baixo. – Achei que o governo tivesse desistido da ideia idiota de evitar o pânico depois que tudo foi pelos ares. Você já viu um infectado?
Aceno vagamente com a cabeça em concordância.
– Antes ou depois da febre? – Ian pergunta.
– Antes. Depois. Ah... – Franzo a testa e paro de fingir que ainda estou interessada em seu braço machucado. – Ele estava com febre e respirando muito rápido quando veio falar comigo.
– Era alguém que você conhecia? – Sua expressão se transforma em pena. Isso me irrita um pouco.
– Não – minto brevemente. – O que tem a febre?
– Cozinha os miolos deles, é isso o que tem. Costuma levar algumas horas. Eu vi acontecer em seis, mas tem gente que diz que viu em duas. Dá pra atrasar a coisa com remédios, só que no final das contas todos eles acabam morrendo. – Ian faz uma pausa dramática que tenho certeza que é proposital. – Eles ficam lá, deitados, sem pulso, por mais ou menos um minuto. Aí, bam!, acordam de novo. E vêm direto pra cima de você, se foi idiota o suficiente pra ficar por lá, esperando eles voltarem do além. – Ele baixa a voz. – Tem gente falando de apocalipse zumbi.
– Você não comprou essa besteira de apocalipse, né?
– Eu não joguei a possibilidade fora. – Ele dá de ombros. – O fato é... Os militares estão atirando em qualquer infectado e colocando todos os civis dentro de abrigos isolados. Quantas doenças você já viu sobreviver depois dessa política de tolerância zero? Talvez demore alguns meses, mas vamos ficar bem.
Resolvo tomar alguns segundos para pensar no que responder, o que, no fim das contas, não é necessário. O irmão de Ian, Jonathan, se aproxima de nós e mantém o semblante fechado enquanto me observa.
– Quanto tempo até ele poder ser liberado? – pergunta.
Eu me enganei. Os olhos dele são castanhos. Hesito.
– Não muito. Deixa eu só... – Enrolo o braço de Ian com gaze e dou dois nós. – Pronto, bom como novo. – E, porque sinto que meu rosto começa a esquentar (graças a Deus, minha pele é escura o suficiente para esconder tal fato), acrescento: – A gente ficou conversando e eu me distraí, desculpe.
– Sem problemas, eu tenho esse efeito nas mulheres – Ian responde. Ele e Jonathan trocam um olhar cúmplice e Ian solta uma risada. – Ei, foi legal te conhecer, Harriet. A gente se vê por aí?
– Claro.
É quando os dois se afastam que percebo que todos os recém-chegados já foram tratados... E eu acabei como a lerda do grupo. Solto um suspiro cansado e estou quase esfregando os olhos quando vejo as luvas (a tempo). Livro-me delas e da máscara. Tudo bem, agora posso esfregar os olhos. Aproveito a deixa para também soltar o cabelo e colocar a gominha usada no pulso. Vou me arrastando para meu colchonete enquanto remoo mentalmente a conversa.
Apocalipse zumbi?
Cara, é melhor eu tentar ligar para casa de novo.
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